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domingo, fevereiro 11, 2007

A NOITE E A ROSA - Vasco de Lima Couto

A NOITE E A ROSA
Vasco de Lima Couto

Fiz da noite a rosa
As mãos do pecado
No tempo da rosa
Sorrindo a teu lado
Falei-te por mim
Ouviste por ti
E os ramos surgiram
Depois que te vi
As mulheres da noite
Rasgaram as luas
E eu e tu fugimos
Por todas as ruas
Olhaste o meu rosto
Marcado pela fama
E abriste o teu peito
No fogo e na chama
Pedaços de rosa
Beijaram a cama
Que dói por que dói
Quando o amor nos chama
Pedaços de rosa
Beijaram a cama
Fiz do nosso dia
Depois da partida
Um lago desfeito
Onde deixei a vida
Que a vida eras tu
Os campos da história
Abrindo esta rosa
Chamada memória
Falei com amigos
De ontem como hoje
Chamando o teu corpo
Que em meu corpo foge
E a mãe que eu já tive
Abriu-se no mar
Para que o meu amor
Se fosse deitar
E a rosa era a noite
E a noite era a o dia
Rasgando as palavras
Que ninguém sabia
E a rosa era a noite
E a noite era o dia

segunda-feira, outubro 09, 2006

Vasco de Lima Couto


RETRATO

Fui só eu que estraguei as alvoradas
- presas suaves nos plúmbeos céus!,
e dei água aos ribeiros da minha alma
e fiz preces de amor e sangue, a Deus...

Fui só eu que, sabendo da tormenta
que o vento da nortada me dizia,
puz meus lábios no sonho incompleto
e rasguei o meu corpo na poesia.

Vieram dar-me abraços e contentes
viram que me afundava sem remédio
- nem um grito subia do horizonte
há mil anos deitado sobre o tédio!

Quando chamaram por mim do imenso rio
que a noite veste para se entreter
vi que os barcos andavam cheios de almas
buscando sonhos para não sofrer.

Cantavam doidas como a dor e a morte
parando, a espaços, para ver montanhas
e eram luzes mordidas pelas sombras,
corajosas, infelizes - mas tamanhas!

Eu fugi de as ouvir (que ardentes vozes...)
de navegar nas mesmas ansiedades
e fui sozinho semear as luas
e a natureza inculta das idades.

Parti, negando à vida o seu direito,
recalcando os meus sonhos e os meus medos...

sei agora que matei o meu destino
e quebrei o futuro nos meus dedos.

Vasco de Lima Couto, in Os Olhos e o Silêncio - 1952

segunda-feira, julho 24, 2006

Serra da Boa Viagem

Anda amor , ver esta serra
Onde o vento se oculta e se desfaz
A clara maravilha deste sol
Que atira um emigrante sonho para o mar
(e o mar enterra o sonho pelas vagas
que se deixam prender e naufragar)
daqui poderei ver a tua altura
dentro dos nossos voos à distância
e, de mãos dadas , pela serra adiante
- Como folhas que Deus fosse colher!
Nós poderíamos amar , ainda mais ,
Esta imensa alegria de viver.
E o teus cabelos caíam para os seios.
E em teu anseio longo, a minha imagem...
Oh meu amor
É o nosso despertar
Na fuga onde riscamos a saudade
Que vai da serra ao céu e deste ao mar.

Vasco de Lima Couto
AUTO - RETRATO

O que me atormenta
é não saber ver
o que está por dentro
de todas as coisas
de todos os seres
(só crio caixilhos
para os meus prazeres!);
é não ter palavras
para a natureza
que é sempre essa alma
lavrada em silêncio;
é estar sempre certo
de falar demais
cometendo crimes
de imaginação;
é não ter amigos
- por desatenção,
e não ter amor
- por pedir de mais!
É chegar à noite
com dia na alma
a fazer da lua
o sol que apetece...

e, principalmente,
o que me atormenta
é o que me esquece.


Vasco de Lima Couto
in: "O Silêncio Quebrado"

sexta-feira, junho 09, 2006


Desenho do Poeta Vasco de Lima Couto.
Imagem retirada do site de Júlio César.

quarta-feira, maio 31, 2006

Vasco de Lima Couto e Dalila Rocha

Dalila Rocha e Vasco de Lima Couto em Guerras do Alecrim e Manjerona, de António José da Silva (o Judeu), pelo Teatro Experimental do Porto, encenação de António Pedro, foto de Fernando Aroso

terça-feira, junho 21, 2005

Vasco de Lima Couto


Fotografia de Vasco de Lima Couto, declamando.
Esta fotografia foi tirada em Estremoz, por ocasião do descerramento da placa que homenageia o Poeta Sebastião da Gama, colocada na casa que lhe serviu de morada (Largo do Espírito Santo) quando foi para aquela vila exercer a profissão de Professor.
Vasco de Lima Couto foi amigo e colega de Faculdade de Sebastião da Gama.
Além de Vasco de Lima Couto (em primeiro plano), podemos ainda destacar a presença do pai do Poeta Sebastião da Gama, o sr. Sebastião Leal da Gama Júnior (segundo da direita) e do sr. Eurico Lisboa, Professor do Conservatório (segundo da esquerda, ao lado da Senhora).
A fotografia está numerada no reverso com o nº 2107, da "Foto-Carvalho" - Estremoz.
Agradeco a gentil cedência e permissão de publicação da fotografia à familia do Poeta Sebastião da Gama.

"Os Olhos e o Silêncio" e "O Silêncio Quebrado" - Vasco de Lima Couto

Casa-Museu Vasco de Lima Couto, em Constância

Mini-Biografia de Vasco de Lima Couto


Só esta semana é que tomei consciência que já lá vão 25 anos desde a morte de um grande e esquecido poeta português - Vasco de Lima Couto.

Nascido no Porto a 26 de Novembro de 1923, vem a falecer em Lisboa no dia 10 de Março de 1980. E ninguém se lembrou de lhe prestar uma homenagem.
Vasco de Lima Couto foi um homem de Cultura. Poeta, actor, encenador, declamador e homem da rádio. E, pelo que consta, todos estas facetas fê-las bem, com dignidade e profissionalismo.

"Eu sou um poeta. Maldito, mas poeta. Sou, também, actor. Incómodo, mas actor. Como actor, empresto. Como poeta, dou. Entre estas duas posições, vivo. Não represento nenhuma escola, porque não preciso de falar ao tempo do meu povo. Sou o tempo do meu povo! Se algum mérito possuo, é o de não ser intelectual partido, para intelectuais de partido. Canto como sei e sei como sinto. Não dou respostas convenientes, porque - felizmente, sou inconveniente. Entre o homem chateado e a criança maravilhada, rasgo o tempo que possuo. O mais que queiram ver, em mim, é estrume de animal que mastiga a comida que não merece e que o povo paga."

Vasco de Lima Couto reflectia sobre as coisas do seu tempo. Pensava sobre a vida cultural e social do seu país, principalmente quando se embrenhava nelas. Em 1972, fala deste modo sobre a sua vida de actor:
"O Teatro está cheio de espertos. Tanto lhes faz que seja assim como assado, e como isso a que chamam teatro lhes facilita os dias, eles vão de peça em peça, sem talento e sem religião. Depois, os que comandam esta anarquia da inteligência, que finge não querer actores porque lhes têm de pagar de acordo com a força do seu trabalho; preferem contratar amadores, com jeito ou não, que, ingénuos e incipientes, podem ser enganados.
E o resultado está à vista. Há peças que caem redondas porque não foram vestidas, só foram cobertas. (...) O actor, hoje não pode ser só o hábil senhor que se movimenta e inflexiona. Tem que ser, por dedução, a inteligência e a cultura de quem espera e a angústia colectiva de quem procura. A experiência só por si não chega. O actor tem que estar atento aos movimentos sociais da sua época mesmo quando pelas circunstâncias anormais da vida tem de transigir.
Mas não deverá nunca transigir servindo-se da benevolência idiota dos mecenas, porque esses - como dizia Afonso Lopes Vieira - entram na poesia como os camelos no jardim. Ninguém proíbe ninguém de ser inteligente!"

É extraordinária a actualidade destas palavras no nosso panorama teatral. Infelizmente, mudou apenas uma coisa. Os mediocres, incipientes e amadores, continuam a encher os palcos dos nossos teatros (e, já agora, das nossas televisões), mas a receberem tanto ou mais de cachet, quanto os actores de qualidades comprovadas.

Vasco de Lima Couto estreou-se nos palcos em 27 de Março de 1947 "empurrado" por Alves da Cunha. Percorreu todo o país em digressão falando de poetas e de teatro até que, em 13 de Março de 1951, ingressa na Companhia de Amélia Rey Colaço - Robles Monteiro, para o elenco da peça "La Niña Boba", de Lope de Vega, que seria posta em cena em 7 de Abril de 1953, com Gina Santos como "menina tonta", Helena Féliz, Álvaro Benamor e Maria Albergaria.
Lima Couto representou em mais de 40 peças ao longo de toda a sua carreira, nunca acusando qualquer atitude de concessão ao "status" ou amolecimento das linhas mestras da sua personalidade criativa e, por vezes, revolucionária.

Mas, como refere João Aguiar no Diário de Noticias de dia 14 de Março de 1980, "será exagerado dizer que Vasco de Lima Couto foi 'actor por acréscimo'. Algumas das suas interpretações não serão esquecidas tão cedo".

Por volta de 1952, Lima Couto volta ao Porto para se juntar ao Teatro Experimental, onde permanece cerca de oito anos. Aí, representou peças tão importantes como: "A Morte de um Caixeiro Viajante", de Miller; "As Guerras de Alecrim e Manjerona", de António José da Silva; "Volpone", de Ben Johnson; "Edda Gabler", de Ibsen; "Ratos e Homens", de Steinbeck; "Tio Vania", de Tchecov, entre outras.
Em 1960 volta para a capital portuguesa onde representará a figura de D. Afonso IV na peça "Castro", de António Ferreira. "Teve enorme êxito, o qual, segundo as próprias palavras, se deve à direcção de Paulo Renato".

Durante dois anos trabalhou para o Teatro da Câmara - Estufa Fria, sob a direcção de Pedro Bom, mas considerava o tipo repertório lá representado como "chato e despido de qualquer realidade".

O grande sucesso vem com o "Mercador de Veneza", de Shakespeare, onde Vasco de Lima Couto representava o papel de Lancelote Gobbo. "O êxito foi tal que, ao sair de cena, num dos melhores momentos da peça, o público interrompia a representação com uma salva de palmas".

Em 1966 vai para o Teatro da Trindade, para representar "Todos eram meus filhos", de Miller. A peça vai em tournée pelo pais inteiro.
Um ano depois vai para o TEL (Teatro Experimental de Lisboa) onde representa, basicamente, peças de Luzia Maria Martins.

Mas a situação do TEL era desastrosa. Vasco de Lima Couto viu-se sem dinheiro, sendo "obrigado" a ir trabalhar para a televisão, em peças que em nada lhe interessavam. Chega mesmo a aceitar o convite de Vasco Morgado para representar o "Vison Voador", no Villaret.

Em 1971 concorre ao "Festival da Canção" com o célebre e polémico "Zé Brasileiro Português de Braga".

Conhece finalmente África, por quem se apaixona. Em Angola, inicia uma série de programas na Emissora Oficial, como colaborador e assistente literário. Era o programa "Cantar de Amigo", dedicado à divulgação da poesia portuguesa. Aí, "muitos dos que sistematicamente o ignoravam na crítica, na presença e na divulgação, eram citados sem qualquer ressentimento".

Trava conhecimentos com o jornalista João Aguiar, sub-chefe de redacção do Diário Falado e produtor radiofónico. Este, leva Lima Couto a interpretar na rádio uma adaptação do romance "Um Cântico para Leibowitz", à altura com o nome, "A crónica de S. Leibowitz". "O original gravado, um dos raros documentos que se salvaram depois da independência, é a amostra mais que convincente do grande talento e capacidade de um actor".

Nos inicios de 1974, inexplicavelmente, Vasco de Lima Couto regressa a Portugal.
Com grande mágoa encontra António Pedro afastado do TEP. Vai para a Cornucópia, que depressa abandona para se fixar uns meses em Paris. Ao regressar, ingressa na Companhia Maria Matos para representar o "Encoberto", de Natália Correia.

No entanto surge uma vida nocturna intensa, cada vez mais ligado ao fado. No "Painel do Fado", na "Taberna de S. Jorge" (no Porto) ou na "Taberna do Embuçado", Vasco de Lima Couto escreve, lê e ouve cantar a sua poesia.
Grandes nomes da canção (ligeira e fado) cantam as suas palavras: Amália Rodrigues, Carlos do Carmo e Simone de Oliveira, entre outras.

No principio e no fim de tudo, estava a poesia. E à medida que o tempo foi passando, o "resto" foi ficando pelo caminho, como veste que se usa bem, mas que depois se larga - nem sempre por vontade própria, mas sempre com intima tranquilidade. Lima Couto sabia que, através do tumulto emocional, ideológico e politico, ele haveria de desentender-se com o "establishment", pois isso acontecera antes, acontecera sempre; e, como antes, como sempre, o "establishment" não lhe perdoaria e fechar-lhe-ia as portas. Mas sabia também que havia duas coisas que nunca ninguém lhe poderia tirar: Uma, a liberdade que lhe advinha de não ter nada para perder; a outra, a sua condição e essência de poeta
."
João Aguiar, Diário de Noticias, 14 de Março de 1980
LIVROS PUBLICADOS
- Arrebol - 1943
- Romance - 1947
- Recado Invisivel - 1950
- Os olhos e o silêncio - 1952
- O Silêncio Quebrado - 1959
- Esta continua saudade... - 1974
- Deixando discorrer os rios - 1980 (?)
- Canto de Vida e de Morte - 1981

segunda-feira, maio 16, 2005

Assembleia - Poema de Vasco de Lima Couto - Lisboa, 11 de Junho de 1979

ASSEMBLEIA

A esquerda gritou:
é um vendido.

O centro disse:
não nos interessa.

E a direita exclamou:
é um comprado.

E no entanto,
não sou mais
que um homem sentado
a ver a festa
que resta.