segunda-feira, outubro 09, 2006

Vasco de Lima Couto


RETRATO

Fui só eu que estraguei as alvoradas
- presas suaves nos plúmbeos céus!,
e dei água aos ribeiros da minha alma
e fiz preces de amor e sangue, a Deus...

Fui só eu que, sabendo da tormenta
que o vento da nortada me dizia,
puz meus lábios no sonho incompleto
e rasguei o meu corpo na poesia.

Vieram dar-me abraços e contentes
viram que me afundava sem remédio
- nem um grito subia do horizonte
há mil anos deitado sobre o tédio!

Quando chamaram por mim do imenso rio
que a noite veste para se entreter
vi que os barcos andavam cheios de almas
buscando sonhos para não sofrer.

Cantavam doidas como a dor e a morte
parando, a espaços, para ver montanhas
e eram luzes mordidas pelas sombras,
corajosas, infelizes - mas tamanhas!

Eu fugi de as ouvir (que ardentes vozes...)
de navegar nas mesmas ansiedades
e fui sozinho semear as luas
e a natureza inculta das idades.

Parti, negando à vida o seu direito,
recalcando os meus sonhos e os meus medos...

sei agora que matei o meu destino
e quebrei o futuro nos meus dedos.

Vasco de Lima Couto, in Os Olhos e o Silêncio - 1952

3 comentários:

aldina disse...

Para mim, a fadista que melhor tem cantado Vasco de Lima Couto é Beatriz da Conceição, para além deste facto, gosto muito dos poucos poemas editados no único livro que lhe conheço uma edição muito antiga, "Bom Dia Meu Amor".

Até smepre

Danies disse...

Eu consegui comprar três livros dele em Alfarrabistas e os restantes fotocopiei na Biblioteca Nacional. Infelizmente é um autor que está para ser (re)descoberto. Como muitos outros.

Luís disse...

Todos os poemas que conheço de Vasco de Lima Couto são magnificos.
Pouco dele se fala, infelizmente parece que a qualidade anda fora das memórias...

"Quando à hora de ver a vida não sabe a nada..."
".... E hoje o que vou fazer deste amor tão rouco, deste amor que tem mesa sem ninguém, cama com tão pouco"

È demasiado belo para poder ser ignorado.

Obrigado Danies pela lembrança de VLC e também pela parede repleta de nomes que nos enchem o coração.

Um abraço

Luís