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quarta-feira, junho 28, 2006

AH GRANDE GUSTAVO...

Gustavo Rubim, "Quando Ibsen se dissolve no ar", in Mil Folhas (Público), 2006-06-24


Quando Ibsen se dissolve no ar
Tinha toda a razão Henrik Ibsen, quando disse algures que quem escreve lavra uma sentença sobre si próprio.No insólito arrazoado que fez publicar no Mil Folhas da semana passada – “Ibsen em Portugal” – Jorge Silva Melo julgou, pelo contrário (não é ibseniano quem quer), ter sentenciado definitivamente algumas afirmações que fiz à jornalista Joana Gorjão Henriques e que se podem ler, por sua vez, no Mil Folhas de 10 de Junho, sob o título “Ausência de Ibsen em Portugal é um escândalo artístico e cultural”.
Que Silva Melo quis e tentou sentenciar-me, até pessoalmente, é uma evidência, visto que me chamou, contando por alto, cinco nomes feios: mentiroso, bruxo, simplista, tradutor duvidoso e, no plano geral, ignorante.
Os insultos trazem escancarada a intenção, não só de instalar quezília, mas de a instalar num plano para o qual espera que eu me deixe arrastar. Quanto a isso, nada feito. Não desço. Fica para ele o esforço de subir, se quiser. Mas só se quiser, porque eu não costumo impor a ninguém o nível a que estou habituado.
Como se aplica a frase de Ibsen a este episódio? Simples. Por muito que eu procurasse, jamais encontraria melhor demonstração para a minha tese – a da fraca presença de Ibsen no teatro português actual – do que o próprio escrito de Silva Melo. É que nada sai dali tão nítido como o desaparecimento de Ibsen a que eu, precisamente, me referira. Um caso clássico do peixe a morrer pela boca.
De facto, é o próprio Silva Melo quem diz, e diz bem, que a síntese das minhas ideias, publicada por Joana G. Henriques, é um “texto longo”: três páginas de jornal. O que lhe faltou dizer (“et pour cause...”) é que, dessa extensão toda, nove partes em dez são ocupadas a falar do teatro de Ibsen, a propósito das quatro últimas peças do dramaturgo, agora editadas num volume da Cotovia.
Ora, o que tem Silva Melo a dizer acerca de Ibsen? Que eu desse por isso, absolutamente nada, nem uma palavra. Fosse por incapacidade ou desinteresse (venha o diabo e escolha!), preferiu agarrar-se àquele único décimo do texto em que eu falo criticamente do destino de Ibsen em Portugal, no período pós-25 de Abril de 1974. Como qualquer pessoa que saiba juntar letras compreende, é com base no conhecimento e na interpretação de Ibsen que eu lamento que as peças de Ibsen não sejam no mínimo dez vezes mais conhecidas entre nós do que realmente são. Quanto a isto, Silva Melo teve de se fazer desentendido – truque fácil para um actor - , porque não tem à mão nada que se pareça com uma interpretação de Ibsen.
O resultado está à vista. Eu falei a Joana G. Henriques da reinvenção da personagem feminina no teatro de Ibsen. Silva Melo, em troca, manda-me ler uma resma de preciosos autores masculinos, desde D. João da Câmara a Joaquim Paço d’Arcos. Eu disse que Beckett é um dramaturgo da linhagem ibseniana, o que está longe de ser coisa que se diga todos os dias. Silva Melo, atrapalhado, responde-me que se a Maria do Céu Guerra quisesse podia fazer a Hedda Gabler, já Mário Viegas não podia fazer o seu marido (ai não?...). Eu até disse que nas últimas peças de Ibsen se pode ver uma antecipação do cinema. Silva Melo, que por acaso também faz filmes, preferiu lembrar-me que Paulo Renato não ia nessa de colaborar em companhias de teatro independente.
Em resumo: sou eu a falar para um lado, e Silva Melo a desconversar para o outro. Uma página inteira do Mil Folhas gasta por Silva Melo a falar de tudo menos de Ibsen! Um desperdício. Se me queria dizer que não foi a preferência por Brecht a razão pela qual, nos últimos 32 anos, Ibsen foi muito menos representado do que Brecht (e cheira a paradoxo), macacos me mordam se era preciso despejar-me em cima uma lista de 49 nomes, ilustres e nem tanto, do teatro português dos ultimo... 90 anos! Se a ideia era inverter os papéis, pondo-me no lugar de aluno, falhou redondamente. Um mínimo de pedagogia histórica aconselhava, pelo menos, que tivesse lembrado a actriz italiana Eleonora Duse, que foi quem tornou Ibsen famoso pelas nossas bandas, quando veio representar a “Hedda Gabler” ao Teatro D. Amélia (ao S. Luiz, portanto), corria o ano de 1898. Nem isso.
Não me venha, pois, Silva Melo dar conselhos sobre a melhor tradução de Ibsen em Inglês, nem fazer insinuações rasteiras sobre a solidez do meu currículo. Eu não aceito uma coisa nem outra vinda de quem nunca representou, encenou ou traduziu, sequer do galego, quanto mais do inglês, qualquer texto de Ibsen. Não me admira que ache “fabulosa” a tradução “britânica” de Una Ellis-Fermor, pois bruxo como sou, aposto uma carcaça contra um pão de quilo que dos Estados Unidos da América (onde também se fala inglês, “hélas”!) nunca lhe chegou notícia de um senhor chamado Rolf Fjelde. Não é grave, ainda vai a tempo. É só uma questão de se convencer que em matéria de Ibsen, há mais mundo para além da Penguin e da Europa-América.
Decididamente, temos de seguir outra via, se queremos algum debate sério sobre Ibsen e Ibsen em Portugal. A essa outra via chamo eu (olha, lá vem o simplista!) a via da verdade. Aprende-se, para dar bons exemplos, com João Mora, que disse a Joana G. Henriques no dia 23 de Maio (Público p.29): “É preciso não esquecer que temos tido um teatro nacional. Têm medo de fazer o que não está na moda.” Incontestável. E, na mesma ocasião, corroborou com igual sentido da verdade Luís Miguel Cintra: “Não tem havido uma política de repertório com alguma linha de orientação.” Irrefutável. E sobre o Teatro Nacional pouco mais haverá a dizer, ficando explicadíssimo porque lá não se faz Ibsen já 34 anos.
Sobre Ibsen propriamente dito do mesmo artigo voltaria a citar Cintra, que se lhe refere como “autor fundamental”; notaria que Carlos Avilez sabe do que fala quando diz que “um dos problemas de Ibsen é o grau de complexidade de interpretação das peças”; mas termino, sublinhando esta lição do encenador João Lourenço: “A liberdade e a verdade são condições supremas na vida, e em todas as peças [de Ibsen] isto aparece. É um autor que continua actual, um escritor do nosso tempo.”
Ou nos decidimos a tirar daqui alguma consequência, ou receio que alguém acabe a falar sozinho – e desconfio que não vou ser eu.
Gustavo Rubim
Professor universitário, ensaísta, tradutor de teatro
Elenco do espectáculo Hedda Gabler de Henrik Ibsen, uma produção da Companhia Teatral do Chiado, junto da lapide comemorativa da passagem de Eleonora Duse pelo Theatro D. Amélia (actualmente São Luiz Teatro Municipal).



excerto de um texto de Sousa Bastos


"No dia 22, em recita extraordinaria, encheu-se novamente o theatro. A Duse representava pela primeira vez a peça de Ibsen Hedda Gabler. Lisboa recebeu essa preferencia da grande actriz, que quiz crear esse difficillimo papel ante o nosso publico. Sobre o desempenho da Duse foram todos unanimes em achal-o maravilhoso e demonstraram-no na mais significativa manifestação de enthusiasmo. [...]
N'este memso dia [27], às 3 horas da tarde, descerrou-se uma lapide, mandada collocar pela empreza no foyer do theatro em memoria da passagem da grande actriz por aquella scena. Assistindo grande numero de senhoras, artistas escriptores, ao som do hymno italiano, executado por uma orquestra, entrou Eleonora Duse, [...]. A lapide é de marmore rosa com a seguinde inscripção gravada em letras de ouro: ELEONORA DUSE, 12 de abril 1898. [...]

segunda-feira, janeiro 23, 2006

Do extraordinário blog http://blogcasmurro.blogspot.com/ - Gustavo Rubim escreveu:

"Os saudosos de Carrilho
Eu poderia, claro, subscrever esta posição do Eduardo Pitta no Da Literatura (como, de facto, subscrevo) e não me chatear mais. Infelizmente, abri a caixa de correio electrónico e estava lá uma mensagem a sugerir, pasme-se, que eu assinasse a petição contra o Ministério da Cultura a que o Eduardo Pitta se refere. Ora, isso já pede que uma pessoa se chateie. E como o Groucho meteu férias há que tempos, aproveito para me chatear aqui.
Começo pela evidência: se há um projecto para privilegiar, no Teatro Nacional, o teatro nacional e se a nação calha a ser a portuguesa, só resta discordar. Para ser claro: discordar com veemência. Talvez só restasse também discordar se a nação fosse outra qualquer, mas já não seria, digo eu, com a mesma evidência (e muito menos com a mesma veemência) se a nação calhasse a ser, por exemplo, a inglesa. Há diferenças. Estamos a falar de teatro.
Agora, se continuarmos por aí, a propósito do Teatro D. Maria II e da tal petição, vamos de certeza desconversar. A petição não tem nada a ver com isto. A petição apareceu porque o director até aqui do Teatro D. Maria II ― António Lagarto ― foi trocado por outro director. O agora ex-director António Lagarto não é um qualquer: é uma pessoa com ligações conhecidas, mais amigo de umas pessoas «da cultura» do que de outras pessoas «da cultura», e essas ligações e esses amigos é que foram aos arames com a substituição e é que tiveram a ideia da petição. O ex-director António Lagarto não estava no Teatro Nacional só pela sua pessoa: representava com muita competência os amigos e as ligações, como só não vê quem anda cá a ver passar os eléctricos.
Portanto, não vale a pena sequer discutir a programação que o ex-director inventou para o Teatro D. Maria II, porque salta aos olhos que não era nada que se parecesse com o que deve ser a programação de um Teatro Nacional. Há muitos anos que em Portugal (não é só em Lisboa) deixou de haver qualquer coisa de parecido com um Teatro Nacional, com a programação artística de um Teatro Nacional e o público de um Teatro Nacional. Com o ex-director António Lagarto apenas continuou a deixar de haver.
Os autores da famigerada petição não têm saudades de haver um verdadeiro Teatro Nacional em Portugal, têm só saudades de outro ministro e por isso é que a petição deles é contra a ministra actual e não tem nada a ver com teatro. Os autores da petição têm (e por excelentes razões) saudades do ministro Manuel Maria Carrilho e querem-no de volta, a ele ou a alguém do género dele ou com as, vamos lá, ideias dele.
Isto é que chateia: as pessoas não dizerem mesmo ao que vêm!"

domingo, junho 19, 2005

UM OÁSIS NO CHIADO - GUSTAVO RUBIM

O texto que a seguir vos transcrevo encontra-se presente no Programa da peça "Paris é uma miragem" (de que vos falo no post seguinte), em cena no Teatro Estúdio Mário Viegas, "casa" da Companhia Teatral do Chiado.
Transcrevo-o porque é verdadeiro. Transcrevo-o porque admiro a memória de Mário Viegas, a persistência, a coragem e a cultura de Juvenal Garcês (curvo-me respeitosamente perante os teus 25 anos de carreira, comemorados este ano), o trabalho, o talento e a amizade de Simão Rubim... e de todos vocês. Parabéns pelos vossos 15 anos como Companhia de Teatro, que navega por vezes em mar revolto... mas o vosso barco é forte e a tripulação, exímia e valente.
Continuem a amar o Teatro, os Actores, os Dramaturgos e o Público. Eu?! Continuarei a amar-vos.
UM OÁSIS NO CHIADO
"Parece que há gente incomodada com a insistência da Companhia Teatral do Chiado na montagem de espectáculos cómicos. A peça de John Godber - Paris É uma Miragem - é uma comédia que a CTC apresenta no ano do 15º aniversário da sua fundação por Mário Viegas e Juvenal Garcês. A título pessoal, quero, antes de mais, felicitar a CTC pelos seus 15 anos de existência: parabéns e obrigado pela oportunidade que me deram de colaborar convosco e, sobretudo, de ver na vossa Companhia o melhor teatro, o teatro como eu gosto dele, ao longo destes 15 anos. Quero também tentar explicar, em poucas palavras, o péssimo sinal que constitui aquele incómodo português com as comédias da CTC.
Não tenho visto nada mais cínico, em anos recentes, do que a invocação da memória de Mário Viegas para condenar o trabalho e a estética da CTC após a morte do grande actor e encenador, em 1996. Sem excepção, quem invoca a memória de Mário Viegas para atacar a CTC dirigida por Juvenal Garcês são as pessoas que não conheceram o Mário, que nunca aderiram ao seu estilo e, muitas vezes, que fazem ou apreciam em teatro coisas que ao Mário eram profundamente repugnantes. Trato-o assim pelo nome de baptismo, porque o conheci pessoalmente e não raras vezes o ouvi lamentar o destino do teatro português, que muito tempo depois do 25 de Abril continuava a ser (como ainda continua em grande parte, na minha opinião) um teatro submisso à ideologia, com ridículas pretensões didácticas ou, o que não é melhor, falsamente vanguardista e esteticista até ao enjoo e ao vazio total. Nada disso lhe agradava, nem de longe.
Como essas, uma convicção que o Mário deixou escrita (e todos podem ler) foi a de que a comédia não é um género menor. Parece ridículo ter de lembrar isto, quando foi na CTC que o Mário fez esse prodígio de comédio política chamado Europa Não! Portugal Nunca!!; quando foi com O Regresso de Bucha e Estica que lançou as raízes da CTC; quando alguns dos maiores êxitos da CTC, no tempo em que o Mário a dirigia, foram as suas encenações do teatro de Eduardo de Filippo, uma das quais - A Grande Magia - veio a ser a penúltima que assinou (a última, como é sabido, foi Uma Comédia às Escuras de Peter Shaffer). Por tudo isto e, mais ainda, porque o Mário era um incondicional admirador de Beckett, é que a única explicação razoável para o ataque ao gosto da CTC pela comédia só pode ser esta: através da actual CTC, os velhos inimigos de Mário Viegas continuam a depreciá-lo e a desdenhá-lo, amesquinhando a herança daquela que é, para mim, a maior figura do teatro português contemporâneo.
Há documentos oficiais desse desprezo nada inocente. Uma pessoa com responsabilidades na crítica e no ensino teatrais escreveu, há poucos anos, um balanço do teatro pós-25 de Abril: o nome de Mário Viegas mal aparecia nesse triste atestado de má-fé que destilava veneno em cada linha. Também há explicação para isto: o Mário nunca escondeu o seu apego a uma tradição de teatro popular que, paradoxal e estupidamente, os ideólogos da estética pós-revolucionária tudo fizeram para aniquilar. Com inteira justiça e toda a lucidez, Beckett e Shakespeare eram, aos olhos do Mário, teatro popular (recentemente, em Londres, os Happy Days esgotaram lotações com meses de antecedência). Tal como o recordo, o Mário nunca cometeu o grosseiro equívoco artístico destes 30 anos de teatro em liberdade: colocar Brecht acima de Shakespeare.
O Mário não tinha medo do sucesso nem do público. E nem uma coisa nem outra lhe bloqueavam a criatividade e o sentido poético. O Juvenal, o Simão, o João Nuno, o Vasco Letria e todos quantos têm mantido a CTC, desde 1990 até hoje, conservaram, intensificaram e transmitiram essa lição: a lição do teatro que só responde por si mesmo, do teatro sem limites, do teatro que ama todas as suas possibilidades sem exclusão de nenhuma. Quando tanta gente, sobretudo em lugares de poder político ou cultural, anseia e actua, de modo mais descarado e mais sinistro, pelo fim da CTC, alegra-me especialmente que a CTC responda com uma gargalhada.
Para o Zé e para a Guida, París é uma miragem. Mas para a Sofia Duarte Silva e para o Manuel Mendes, a pequena sala do Teatro-Estúdio Mário Viegas oferece-se a todos como um oásis no Chiado. Para os dois, muita merda!
À nossa CTC, ergo a taça e brindo a uma longa vida!
Gustavo Rubim