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sábado, Junho 09, 2012

Thomas Mann - O Jovem José



“José tinha dezassete anos e era, na opinião de todos os que o viam, o mais belo dentre os filhos dos homens. Francamente, não discreteamos com prazer sobre a formosura. Tanto a palavra como a ideia são insípidas. A formosura não será um sofisma, um sonho exemplar? Supõe-se que há leis reguladoras da beleza. Mas uma lei dirige-se ao entendimento e não às sensações. As sensações escapam ao entendimento. Daí a insipidez da beleza perfeita que não deixa nada a desejar. As sensações precisam de ter algo que perdoar, senão viram-se para outro lado com um bocejo. Só o pedante, que ama o consagrado, o convencional, pode apreciar a estrita perfeição a ponto de se entusiasmar por ela. É difícil atribuir grande valor a essa espécie de entusiasmo. Uma lei obriga e impõe exteriormente. A compulsão interior não é obra de lei, mas de sedução. A beleza é uma magia exercida nas nossas sensações e, como tal, sempre um tanto ilusória, muito vacilante e efémera em seus efeitos. Coloque-se uma cabeça feia num corpo belo. Este só continuará a ser belo se for visto no escuro, havendo portanto engano. Na verdade, quanta ilusão, quanta artimanha, quanto engano andam envolvidos no assunto! O munda está cheio de anedotas de rapazes vestidos de mulher que fazem andar à roda a cabeça dos homens e de raparigas vestidas à homem que despertam paixões em pessoas do mesmo sexo. Basta que se descubra o embuste para que as paixões arrefeçam, porque a beleza perdeu o seu objectivo. Talvez até que a beleza humana em seus efeitos sobre os sentidos não passe de magia do sexo. De modo que, em vez de se dizer que um ente é formoso, falar-se-á com mais propriedade de um homem perfeito ou de uma mulher absolutamente feminina.

Só através de uma vitória alcançada sobre si próprio é que um homem, ou uma mulher, poderá referir-se à beleza do seu semelhante. Raros são os casos, embora existam, em que a beleza provoca sensações inteiramente destituídas de interesse prático. O que em geral entra em jogo é o elemento da juventude, isto é, uma magia que as sensações têm tendência a tomar por beleza. A juventude, quando não é prejudicada por senões demasiado graves, suscita no observador a impressão de beleza, e até a si própria causa a mesma impressão que o sorriso evidencia inequivocamente. O encanto da juventude é a manifestação de beleza que por sua própria natureza paira entre o masculino e o feminino. Um jovem de dezassete anos não é belo no sentido de masculinidade perfeita. Também não é belo no sentido de uma feminilidade destituída de alcance prático, o que atrairia bem poucas pessoas. Mas temos de convir que a beleza apoiada na graça juvenil se inclina sempre mais, tanto interiormente como exteriormente, para o lado feminino. Isto faz parte da sua essência, das suaves relações da juventude com o mundo e do mundo com ela, como o seu sorriso traduz. Aos dezassete anos, na verdade, pode ser-se mais formoso do que uma mulher ou um homem; ser formoso pelo lado feminino e pelo masculino; ser tão belo, tão gracioso que, diante de tanta beleza e tanta graça, os homens e as mulheres fiquem boquiabertos, encantados.”