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sexta-feira, maio 08, 2015

Amália no Mundo: Sinais de uma vida nos sulcos do vinil, de Ramiro Guiñazú




Podemos afirmar que um dos acontecimentos culturais que irão marcar o ano de 2015 em Portugal é, sem dúvida, o lançamento ao grande público da obra de Ramiro Guiñazú: Amália no Mundo – Sinais de uma vida nos sulcos do vinil, pela editora Tradisom.

Ramiro Guiñazú, argentino de nacionalidade, lisboeta por amor, empreendeu uma investigação longa e exaustiva sobre o suporte material que nos permite, e nos permitirá sempre, ouvir Amália Rodrigues: os discos.

O que Ramiro realizou foi uma impressionante recolha, nacional e internacional, de toda a obra discográfica de Amália Rodrigues, desde o seu primeiro disco de 1945 até ao álbum Obsessão, o último de Amália, de 1990, passando ainda por compilações, álbuns ao vivo, edições comemorativas, etc.

São centenas e centenas de edições e reedições lançadas em Portugal, França, Itália, Chile, Argentina, Espanha, Inglaterra, África do Sul, Japão e muitos outros países. São, acima de tudo, centenas e centenas de discos que fizeram de Amália Rodrigues a mais internacional, intuitiva, inteligente e aplaudida das nossas artistas. São centenas e centenas de razões para agradecermos aos céus o termos tido a sorte de ter estado entre nós uma Amália Rodrigues.

Todo o livro, que é, no fundo, um imenso catálogo, é acompanhado pela impressão dos discos transformando-o, também, num livro de história de arte (ou de estética) e imprescindível para percebermos, de forma intuitiva e bem explicada através dos textos de Ramiro, as opções discográficas e as tendências musicais que pautaram a longa carreira de Amália Rodrigues.

Os textos que acompanham cada um dos 14 capítulos são breves e certeiros para percebermos o contexto em que determinado disco – ou série de discos – foi editado. Não é, sublinho, um livro biográfico. É um livro sobre os discos editados de Amália Rodrigues. E é essa informação que nos é dada: o estúdio de gravação, o ano de gravação, o ano de edição (muitas vezes distante do ano de gravação), guitarristas que a acompanham, compositores, poetas, o fotógrafo da capa, etc. Por vezes, um ou outro apontamento curioso e algumas citações de imprensa.

Numa leitura seguida do livro podemos, por vezes, achá-lo repetitivo e até confuso. Mas esta impressão tem razão de ser pela forma como os capítulos foram desenhados e pela forma como foi estabelecida a sequência das edição dos discos. A ajudar, por vezes, à confusão, está o facto de muitas gravações serem realizados anos e anos antes da edição do disco. Mas, repito, estas são impressões que rapidamente percebemos que não têm fundamento e mostra-nos a maneira inteligente como todo o livro foi concebido.

Na minha opinião, este livro/catálogo não é para ser lido de uma assentada ou, se o fizermos – como eu fiz – rapidamente percebemos que cada capítulo é um capítulo, solto do anterior e do posterior, não se perdendo, contudo, a ideia de unidade e de fio condutor.

Uma coisa resulta clara: a enorme paixão, dedicação e investigação de Ramiro Guiñazú na recolha de toda esta informação. Estou certo que poucos artistas no mundo – passados ou presentes - se podem gabar de ter uma obra com estas características.

Depois da biografia de Vitor Pavão dos Santos e da sua recente compilação dos poemas cantados por Amália Rodrigues, do extraordinário documentário de Bruno de Almeida, do catálogo da exposição Amália: Coração Independente que esteve presente no CCB e Museu da Electricidade, esta obra Amália no Mundo: Sinais de uma vida nos sulcos do vinil era a contribuição que faltava, o valiosíssimo acrescento para a nossa consciencialização da verdadeira dimensão universal e única de Amália Rodrigues.

Uma nota final para dar os parabéns pela concepção gráfica do livro. Excelentes reproduções das capas dos discos, belíssimas cores, boa arrumação dos assuntos e nada confusa visualmente (que numa obra deste género seria fácil acontecer). A minha palavra de apreço aos designers gráficos.

Folhear este catálogo é, também, passar em revista mais de 50 anos da História da Música Portuguesa e Universal e é, sem sombra de dúvidas, virar de páginas aos mistérios de uma mulher que se fez imortal e que se ama incondicionalmente.

Ah... e podem folhear as 317 páginas do livro enquanto ouvem um dos dois cd's que o acompanham... só vantagens.