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sexta-feira, agosto 09, 2013

Vera Lagoa sobre Urbano Tavares Rodrigues



Urbano – As Duas Caras

Já esperavas. Já esperavas, Urbano. Já esperavas, Urbano Tavares Rodrigues. Pediu-me um amigo íntimo (dos dois) que te poupasse. Sempre tinhas sido o “nosso” Urbano. Mas tu, o “nosso”, esqueceste-te de quem te estimou e rodeou de carinho a vida inteira. Tu esqueceste-te dos teus amigos para endeusares os teus colegas do MUTI, do “PC” e indústrias correlativas. Tu provocaste-me, chamando fascista ao jornal onde trabalho, conhecendo-me há mais de vinte anos, tendo acompanhado a minha luta. Sabias, pois, que eu não me calaria. E, afinal, não tenho muito para dizer. Ou melhor. Tenho, mas não digo. Contendo-me, para te revelar como “revolucionário”, em contar a tua mania das dedicatórias, a tua colaboração íntima e ternurenta (és um poço de ternura) com altas figuras do regime deposto e com os escritores, teus colegas, da direita. Ser da direita não envergonha ninguém. Mas é preciso e necessário ter coragem para sê-lo. Navegar entre duas águas é que não. Sabes a que me refiro.

HOMENAGEM A SALAZAR

Tu, Urbano, um homem “sempre, sempre ao lado da esquerda”, não colaboraste na Távola Redonda e no Graal dirigidos por António Manuel Couto Viana, esse, sim, um homem de direita? Até fazia parte do Conselho de Redacção o Goulart Nogueira, que também não enjeita a cor política que prefere. Ora ninguém, ao que me parece, te obrigou a colaborar. Foste voluntário.
Mais. Gabavas-te a esses teus amigos (és capaz de agora não lhes falar) de Salazar ter prestado homenagem à tua prosa. E fala-se muito (infelizmente não tenho o livro em meu poder) duma dedicatória tua feita ao prof. Marcelo Caetano. Acho que esse livro anda por Coimbra. Mas tu deves saber.
A respeito de dedicatórias, lembro-me das tuas “Jornadas na Europa”, dedicadas a Marcelo Matias! A Marcelo Matias, Urbano, que não era, precisamente, o expoente máximo da esquerda portuguesa…
Pois, falemos de dedicatórias. Tenho na minha frente (eu ia lá perder essa preciosidade!), as Jornadas no Oriente, editadas pela Bertrand em 1956. Com uma dedicatória linda como todas as que me fizeste nos livros que me ofereceste, mas “dedicada” a obra ao “comandante Sarmento Rodrigues” (também será da esquerda?) e à guarnição do ‘Bartolomeu Dias’ na Volta da Índia”.

AO LADO DOS SOLDADOS… RAPAGÕES VIRIS…

Falemos, Urbano, violeta deliquescente, no capítulo VI do mesmo livro. Aqui vai:
“… A presença portuguesa em Goa, no passado e no presente, fez-me vibrar, irresistível, emocional, instintivamente. Ao lado dos nossos soldados, que aqui velam pela continuidade de Portugal em Goa, eu sentir-me-ia honrado, feliz, por dar a este solo ardente, se preciso fosse, o sangue que me corria nas veias. Aqui redescobri, não com a mente, que de há muito o sabia, mas com os nervos, que Portugal não é na verdade europeu, senão verdadeiramente universal.”
E mais adiante:
“… Rapagões azambrados de Trás-os-Montes, toscos e viris como a rocha e a torga das suas serras, grossos e entroncados pegureiros beirões, lépidos estremenhos maliciosos, esbeltos e aquilinos alentejanos meditativos, todos eles, soldados de Portugal, aqui estão, na brecha, dispostos a lutar ao sol pela Pátria e a morrer, se lhes couber a sorte, no caminho da honra. E não levam na boca nem o ódio, nem o insulto, incompatíveis com o verdadeiro valor.”
Não posso deixar de comentar. Quando Salazar enviou o célebre telegrama mandando que morressem para salvar Goa, não me lembro, Urbano, de teres concordado com ele. Todos nós (recordas-te?) achámos que Goa devia ser livre. E tu não vieste a público brandindo o teu livro e oferecendo-te para “ali derramares o sangue que te corre nas veias”. E aplaudiste os “rapagões azambrados de Trás-os-Montes, os aquilinos alentejanos, os lépidos estremenhos maliciosos”, etc., por lá não terem morrido. Quantas palavras tens, Urbano Tavares Rodrigues.

EM QUE FRONTEIRA ESTÁS?

Estou magoada, Fui muito amiga do teu pai, que hoje choraria por te ver nesta coluna de falsos revolucionários. Mas não te posso poupar. Aliás, aqueles que aqui descrevo são quase todos amigos. Ou antes. Eram-no até ao 25 de Abril, que os revelou, que nos revelou a todos. Aos nossos olhos e aos olhos de todo o mundo. Quem era cobarde, mostrou-o com demasiada evidência. Quem era valente também não o escondeu. Diz-me, Urbano, em que fronteira estás?
Voltemos às Jornadas no Oriente.
Continuamos a ler o teu livro que eu não vendia por uma fortuna e chegamos à página 92, quando tu falas da “Homenagem à memória dos heróis de Dadrá”:
“… Foi colocada mais uma lápide alusiva à morte heroica de Aniceto do Rosário e de António Fernandes. Aqui ouvi da boca do povo, repetida com emoção, a frase que Aniceto do Rosário disse ao governador de Damão, quando, pela última vez, este, apreensivo, o visitou no seu posto: ‘Parta V. Excelência descansado que, haja o que houver, não deixarei mal a bandeira de Portugal’. Palavras belas! Mais belo ainda foi o gesto que as confirmou. Aniceto do Rosário escolheu a morte, com plena consciência do seu acto. Natureza simples, etc., etc.”
E ainda:
“A expressão dos seus rostos não enganava. São homens prontos a dar a vida por uma realidade abstracta que os embriga e os transcende: Portugal.
“Diante do monumento aos heróis, perante a heterogénea população de Damão, ali reunida, sob os coqueiros e as mangueiras da praça, com o sol a pino, ardendo, rútilo, no céu lavado da Índia, houve uma cerimónia breve, mas impressionante.
Dois pelotões de Caçadores, marciais, de capacetes fúlgidos, um pelotão da Polícia, não menos aprumado, de farda de caqui, e um castelo da Mocidade formaram o largo. Em frente do monumento postaram-se os guarda-marinhas, de espada nua. Um deles, quando cessaram os últimos acordes do hino nacional, depôs um ramo de flores do pedestal e dirigiu uma rápida alocução ao povo de Damão, exaltando a sua lealdade e a sua coragem, traduzidas e simbolizadas no holocausto de Aniceto do Rosário e de António Fernandes.”

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Pois, Urbano, tu cantaste a homenagem aos heróis de Dadrá (sendo um deles da PIDE) com um nacionalismo, um entusiasmo, um amor a Portugal Colonial por nenhum outro igualado. Consultando os jornais da época, não se encontra amor mais extremado, mais vontade de ali morrer, mais desejo de ali “deixar correr, em defesa de Portugal, o sangue das veias.”
Para um vulto hoje lutador pela independência dos povos colonizados, um homem tão perseguido pela PIDE, um homem que tanto sofreu com os rigores do antigo regime, deves confessar que o teu entusiasmo pela colonização da Índia te deixa ficar um pouco mal.

TINHAS MUITO MAU HÁLITO

Foste um homem de esquerda. Mas não muito. Eu vi. Eu assisti à tua chegada a Portugal, vindo de Poitiers ou Montpellier ou coisa parecida, magro, moreno, olho quebrado, oferecendo o sangue das tuas veias a Portugal e a todas nós, mulheres do teu país. Tinhas uma fragilidade que aproximava, uma fragilidade que provocava da nossa parte a tal necessidade de te proteger. Usavas e abusavas disso. Embora eu não estivesse imune a esse género de homem (elas, bem pelo contrário…), a ti, Urbano, nunca me foi difícil resistir. Eras um homem sem espinha dorsal e… tinhas muito mau hálito.

O TRISTE CASO DA SOCIEDADE PORTUGUESA DE ESCRITORES
O que, verdadeiramente, começou a afastar-me de ti foi a atitude que tomaste quando do célebre e triste caso da Sociedade Portuguesa de Escritores.
Nessa altura, eu tomei decididamente uma atitude, decididamente deixei de falar a quem devia deixar de falar (não nomeio, porque hoje está vencido e eu não ataco vencidos) e tu continuavas terníssimo para com essa criatura. Um dia, na praia, no Algarve, na areia, muito ao fim da tarde, com a tua mulher, grande escritora e digníssima mulher, comentámos o facto. Eu apontava-te o romance que esse escritor (dum escritor se tratava) acabara de escrever pondo de rastos, enlameando, duas presas políticas portuguesas, que tu conhecias, que eu conhecia, que a Maria Judite conhecia. E eu explicava-te que não podia haver duas atitudes. Tua Mulher concordava comigo. Mas tu, mexendo na areia, sorrindo tristemente, explicavas que não te era possível tomar atitudes, cortar com essas pessoas. Muito longa seria esta história, mas como disse, não quero tocar mais no assunto. Só quero mostrar que foste sempre assim. Bem com uns e com outros. Indignado nas reuniões de escritores e afável e ternurento quando encontravas na rua as pessoas a quem os escritores não falavam.

VIOLETA ROXA… E BRANCA

Duas caras, Urbano. Violeta roxa… e branca, no mesmo pé. Foste sempre um homem protegido. Tiveste sempre muito trabalho. Colaboraste assiduamente no SNI e, não quero jurar, mas julgo que recebeste mesmo um prémio da dita organização.
Eras o nosso Urbano nacional. As esquerdas louvavam-te e as direitas… sorriam-te.
Agora, passado o 25 de Abril, não me consta que tivesses ido visitar à prisão o almirante Sarmento Rodrigues que cantaste tão ardentemente nas Jornadas.
Não. Não ouvi dizer que lá tivesses ido. E essas coisas sabem-se sempre…
Quando frequentavas a casa do Augusto de Castro, como te derretias com o dono da casa e seus convidados. Que não eram, note-se, figuras de esquerda. Oh, não!
A tua indignação contra os jornais independentes não tem limites. “Fascista e fascizante” foi o menos que chamaste a este jornal que também dirijo. Tu, Urbano, em consciência, sem ser para agradar aos teus novos senhores, podias chamar-me fascista ou fascizante? Podias?
Já depois do 25 de Abril, já depois da revolução que mostrou as nossas verdadeiras caras (como, por exemplo, a tua e a minha) na Galeria de S. Mamede, em noite de exposição, pedias a um canto, com a tua voz mais macia, mais aveludada, à Manuela de Azevedo que servisse de empenho para o teu irmão Miguel (que tinha chegado ou estava a chegar) entrar para o Diário de Notícias. A Manuela de Azevedo não é pêcê, mas servia-te. Influenciaria o Ribeiro dos Santos e arranjava-se um trabalhinho para lá infiltrar o Miguel, arcanjo de que também me ocuparei nestas colunas. Não é preciso ir muito longe para saber a história do mano. Senti-a na pele. Fui vítima da “generosidade e camaradagem” do mano Miguel. Mas, adiante. Não é dele que se trata.

“COMUNISTAS, ESSA POPULAÇA HEDIONDA”…

Não posso acabar sem me referir à tua primeira edição, de A Porta dos Limites, feita pela empresa do Diário de Notícias, em 1952. A 2ª edição, feita pela Arcádia, é de 1960. Nesta suprimiste a novela “Se Nós não Sabemos!...” É ambientada em Espanha e trata da guerra civil de 1936-39, numa perspectiva pró-franquista. Eis dois trechos significativos:
“… eu visionava os campos de Aragão, escorrendo sangue; as estradas desertas, onde se erguiam os letreiros do medo e do espanto, por onde passavam camiões carregados de espingardas e onde soava a risada suja e cruel da “milícia roja”: via as “milicianas”, apeando-se dos carros da morte para desfeitearem os feridos; e relembrava as notícias que então lera num grande assombro: o julgamento desse jovem inspirado, figura de lenda, José António Primo de Rivera; o “bluff” de Sevilha, as batalhas, Talavera, a gesta épica de Toledo, os bombardeamentos atrozes de Barcelona” (páginas 149-150).
“… Não eram os idealistas que se batiam pela legalidade democrática (como também havia) que violavam e fuzilavam a todas as horas do dia luminoso: eram os voluntários comunistas, a populaça hedionda, escumante, cega, vingativa, que exigia a desforra da longa sujeição e crucificava os pálidos senhoritos, culpados de haverem nascido do outro lado. E vira mais: vira crianças empaladas nas grades dos jardins senhoriais, à porta das cidades sarracenas que eram a graça e o sorriso de Espanha: vira-lhes os corpos pequeninos roxos e descompostos; e vira o sangue que tinha pingado, que se apagaria amanhã daquela terra, mas dos seus olhos nunca mais” (páginas 150-151).
A respeito desta novela, Urbano, o Carlos de Oliveira disse-te: “Aquilo até tem piada, mas não se compreende.” E tu, sempre conciliador, respondeste; “Sabe, aquilo é uma história que me contaram em Espanha, e ao contrário, mas se a publicasse, a censura cortava-ma.”
Para quem escrevias, Urbano?
Afinal razão tem um amigo meu que me disse ultimamente que andavas com a cara de “lâmpada fundida”.
Quanto ao Romanceiro Português, de 1956, um antologia editada pela Campanha Nacional de Educação de Adultos, o volume XXX da Colecção Educativa traz, à entrada, antes do prefácio, esta epígrafe:
“É certo que a humanidade acaba sempre por encontrar o seu caminho. Não está aí o problema. O problema está em que o encontre limpo de ruínas e isento de sofrimentos sem conta e sem par que são o preço por demais elevado de algumas viragens na história – SALAZAR”
Foste tu quem o citou, Urbano. Esta é a tua obra.

“TENS O LINFÁTICO ASPECTO DUMA CAMÉLIA MELADA”

Tu agora és PC convicto. Que assim continues é o que desejo, porque ao menos sempre tinhas tomado uma atitude definitiva. Mas se o PC se apaga?
Adeus, suave Urbano, nosso antigo Urbano nacional.
Conhecendo-te como me conheces, deves ter visto como te poupei. Hoje estou muito generosa.
Se tens memória, Urbano, que julgo não tens, já te esqueceste, certamente, dos serões em minha casa, quando procuravas intensamente agradar ao Eugénio Montes, meu amigo antigo. Não só procuravas a sua influência para ti, como a procuravas para os outros. Lembro-me, como se fosse hoje: eu morava naquela casita da Rua da Artilharia Um, que tinha um pé de glicínia no quintal, e tu lá levaste um poeta chatíssimo para que o Eugénio o ouvisse e apadrinhasse. O poeta lia os seus poemas e o Eugénio, maçado, dizia: “Adelante, adelante”. Foi um horror. Claro que o poeta que levaras pela mão ficou sem prefácio, a grande amizade do Eugénio perdoou o serão frustrado, mas tu ficaste muito triste.
O Eugénio Montes continua, já lá vão vinte e cinco anos, a ser um dos teus maiores amigos e continua da direita. E tu?
“Tens o linfático aspecto duma camélia melada”.
Vera Lagoa, Revolucionários que eu conheci, edição Intervenção, 1977

domingo, julho 24, 2011

As Alsácias da Revolução, por Vera Lagoa


Os tempos mudam. As Alsácias são as mesmas. Os regimes mudam. As Alsácias são as mesmas. Os Amadeus não. Esses mudam com os regimes. Já não são os mesmos.
Para quem tenha a memória fraca, lembro que Alsácia e Amadeu foi o casal com que, durante o fascismo, tentei retratar a pequena burguesia portuguesa, aquela que dizia: "Política? Deus me livre". Aquela que hoje diz: "Política? Evidentemente que sim. Eu até fui militante durante (suponhamos) vinte e três anos!".
Pois o casal seria militante. Mas disfarçava muito bem.
O casal, que passou a vida a sonhar em ir a um "cocktail" do "Ritz", realizou agora o seu sonho. Não faltam "cocktails" no "Ritz" - ou coisa parecida - oferecidos pelas embaixadas do Leste. E a esses, sim, a esses as Alsácias têm acesso.
Mas... agora é que chegámos ao momento crítico. Como se deve vestir a D. Alsácia? Quem a poderá aconselhar?
E a Alsácia vê-se reduzida à sua imaginação. Pois bem. Para que tem ela lá em casa a arca de cânfora?
Deve ser de vestido comprimido. Elas adoram o vestido comprido.
Vamos a isso. O chailinho - ou "écharpe" - em "lamé" (tecido que sempre foi muito apreciado pelas Alsácias de todos os tempos) e a carteirinha de missanga que o marido comprou nos chinas quando esteve na guerra colonial.

Ah! A guerra colonial! Que saudades!
Saudades do Mussa. Saudades do Zacarias.
Sim. Porque o marido da Alsácia esteve na
guerra colonial mas sempre sem fazer mal
a ninguém. Que ideia! Até o Mussa e o Za-
carias "adoravam" o senhor comandante.
Imaginem que uma vez o senhor coman-
dante chegou a pôr tintura de iodo na perna
do Mussa! Não acreditam? Pois é verdade.
Embora as vizinhas dissessem que aquilo
tinha sido duma canelada da D. Alsácia,
numa daquelas sessões de dinamização
cultural da época em que esses métodos
indutivos eram largamente aplicados. Bons
tempos, meu patrão.

Voltemos ao assunto. Claro que depois do regresso, depois do 25, depois da paz, o aspirador comprado a prestações substitui o Mussa. E com vantagem. Não usa tintura de iodo.
Onde ia? Pois. No "cocktail". Põe a Alsácia o chailinho (ou a "écharpe") de "lamé", a carteirinha de missanga e pedem-se uns anéis emprestados. Porque aquele colar feito com as pérolas que vêm na lata, já toda a gente tem. E as outras Alsácias que lá estão conhecem a coisa.
Chegadas que são à reunião, é um bocado difícil adaptarem-se. Falta de hábito de "cocktails" ou desconhecimento da etiqueta do Leste. Mas logo que se encontra a Alsácia com outra (abundam por lá), quero dizer, por cá, começam logo a falar de caril (de cabrito). E discutem as várias maneiras de o servir (ao cabrito). Saudosamente recordam o marisco (colonial).
E conversam muito. Contam como passam as noites quando os maridos têm aquelas longas reuniões. Umas vão para casa das vizinhas ver televisão, outras para casa da mamã. Têm medo dos ladrões.

Tem graça! Julguei que depois de terem
o Valadão preso onze meses sem julga-
mento, tinham acabado os ladrões em Por-
tugal!

Ora. Mas daquela conversa no "cocktail" do Leste sempre resulta alguma coisa. Lembram-se subitamente (e muito bem) de contratarem como treinadora para aqueles efeitos a mulher dalgum saneado que procura desesperadamente um emprego. Paga-se-lhe qualquer coisa e ela - por pouco que saiba - daquilo sabe concerteza. E, assim, da próxima vez não estarão todas com o chailinho (ou "écharpe") de "lamé" e a carteirinha de missanga. Vai ser um êxito! Sim, porque aqueles tipos do Leste (criaturas esquisitas!) já tinham perguntado ao senhor comandante se aquela roupa era obrigatória nas festas como a ganga na rua. O senhor comandante viu-se aflito para explicar, mas isso é uma situação em que se contra muitas vezes. Ouvi para aí murmurar...
Quem falou aí no Mussa? Pois fiquem sabendo que ele, lá em casa, era tratado como pessoa de família!

P. S. Esqueci-me de dizer - e era um lapso imperdoável - que estas Alsácias post 25 de Abril, se esforçam por serem fotografadas para a revista "Gente". E conseguem.

Vera Lagoa, Crónicas do Tempo - 5/6/75 - 2/10/75, Livraria Internacional, 1975

segunda-feira, abril 25, 2011

Vera Lagoa - Uma das "Crónicas do Tempo" - "Fizeste bem, Rogério Paulo"



Fizeste bem, Rogério Paulo

Confesso, Rogério, que ao ter conhecimento de que tinhas recusado a ser entrevistado para este jornal, fiquei surpreendida. Recusado, porquê? Pensei maduramente e, por fim, compreendi. Não podias fazer outra coisa.


Sim, porque um homem justo, honesto, recto, sincero como tu, ao ser entrevistado, teria de dizer a verdade. Toda a verdade. Não podia ser de outra maneira. E a verdade, Rogério, como a poderias tu dizer? Foi melhor assim. Praticamente passaste-me a palavra. Porque há coisas, que, como sabes, como imaginas, eu tenho há longos anos para dizer.


Tenho também a mania dos apartes. E por isso julgo vir a propósito contar que tenciono, nas minhas horas vagas, escrever um livro a que darei o título: “Revolucionários que conheci”. Dizem-me os que também conheceram esses revolucionários, que será um “best-seller”. Oxalá. Mas ainda não lá cheguei.


Pois, como ia dizendo, na altura em que estávamos todos contra o fascismo, em que todos éramos vítimas, não podíamos andar para aqui a dizer o que sabíamos uns dos outros. Seriam armas a fornecer ao inimigo. Mas agora, não. Agora o fascismo está dum lado, tu doutro, e eu, ainda, doutro. Estou do lado que não recebe protecções, ordenados acumulados, gasolina a 8$00 e as palmas por ter sido uma lutadora antifascista. Assim, achei de minha obrigação, visto que por ti, dada a tua honestidade e isenção, não te sentirias à vontade para contar a tua vida, fazê-lo eu. Por isso digo que “fizeste bem, Rogério”.


E aqui vai. Não. Não seria eu a entrevistar-te. Mas ia ensinar o entrevistador a perguntar-te, por exemplo, à custa de quantas mulheres subiste tu na vida. Sim. Ora deixa-me pensar, para eu responder ao entrevistador. Terias começado pela Magê, com quem foste ao baile de Cascais? Talvez. Foi nessa altura que começou a dar nas vistas o amparo, o apoio, que procuravas junto das mulheres. E a dar nas vistas a necessidade urgente que tinhas em te casar. Porque se murmurava que as pessoas que estavam no baile de Cascais tinham certos hábitos. O que contigo, não era verdade. Não era, mas para evitar rumores, casaste com a Suzana Prado. Ela foi leal. Ela foi a mulher que dá a cara e salva um amigo. Ela advertiu-te. Que sim, que te ajudava, mas que continuava a sua ligação como Oliveira Martinho. Aceitaste. Sempre eram umas coroas que vinham para ti.


A seguir à Suzana? Ora deixa-me pensar. Teria sido a Márcia Condessa? Ou a Márcia foi depois da patinadora? Não tem importância. O que interessa é que a Márcia não ficou arruinada (embora ficasse com uma terrível vontade de vomitar). Quem ficou nas lonas (a expressão não é bonita, mas o teu gesto, Rogério, também não) foi a patinadora. Não lhe digo o nome. É minha amiga. Disseste-lhe que a Pide te perseguia e que tinhas de fugir para Paris. A rapariga era pobre. Mas queria salvar-te. Procurou um agiota e arranjou-te trinta contos. Fugiste? Claro. Dela. Parece que os trinta contos (muito dinheiro na época, foi há muito tempo. Foi na altura em que morreu Sara Vale) foram para ajuda dum carro ou coisa parecida. Porque tu tinhas ordenado. Trabalhavas no “Nacional” com a D. Amélia [Rey Colaço].


Até me lembro do mal que ias naquela peça: ‘As Bruxas de Salém”. Era um horror. Também nunca entendi por que motivo elas gostavam de ti. Sempre pareceste um manequim da Rua dos Fanqueiros.


Como o agiota exigia o pagamento das letras e a patinadora não tinha dinheiro, foi para Paris cantar o fado para a Clara de Ovar. Pagou o que devia, voltou, mudou de profissão, ainda ajudou a viver dois valentíssimos democratas e hoje está em Angola. Gosto muito dela.


A seguir? Deixa-me pensar. A seguir (já disse que não me lembro em que altura se situa a Márcia) veio a locutora. Também não lhe digo o nome. É uma amiga muito querida. Tanto, que a acompanhava a pagar as letras do teu carro e a tua renda da casa todos os meses. Ajudou-te muito. Pensava ela (como tantos outros) que eras perseguido politicamente.


Foi na altura em que te candidataste a deputado. Que diabo! Tinhas de acabar com a locutora. Não tinha fama de ser suficientemente das esquerdas. E eis que te lembras dum golpe de mestre. Atracas-te à Maria Alçada Padez (dum esquerdismo indiscutível) e nada de melhor para um candidato a deputado. Tudo duma queijadada. Estava eu a jantar com a minha amiga locutora na ‘Viela’ para a consolar de ter esperado durante horas por ti à porta do emprego e entras tu, de braço dado com a Maria. Padez, claro. E assim ficou o assunto locutora arrumado. Lá se ia a renda da casa. Lá se iam as letras do carro. Mas havia o prestígio da Maria. Padez, claro.


O pior ainda estava para vir. Nunca tinhas segurança, pobre rapaz. A candidatura foi-se ao ar, como todas as daquele tempo, e tiveste mais uma vez de te apoiar. Até porque já estavas cansado. E precisavas de respeitabilidade… e apoio no governo.


Surge a Teresa. Simpática, solteira, admirando-te muito e… filha do lugar.tenente do Henrique Tenreiro. Agora, sim. Agora podias ser democrata à vontade, que não te prendiam.


Como me lembro daquele casamento que deu brado em Lisboa! Até veio na Eva. Sim, senhores. Na Eva. Foste de casaca (o que é incomportável num casamento, mas não te tinham ensinado que era de fraque). Foste de casaca e tiraste as fotografias oficiais na relva ao pé da Teresa. Não tenho o exemplar, mas na Eva devem ter.


Convites para o casamento? Tudo gente grada. Lembro-me (tenho, como deves pensar, uma memória lixada) de teres convidado o Silva Passos e o Tenreiro. Não sei se o primeiro foi, mas do Tenreiro sei eu que, para não desgostar o pai da Teresa (havia por ali um negócio de armas para os lados da António Augusto de Aguiar) foi para Madrid. Não gostava de ti, o Tenreiro. Mas depois, ajudou-te. Sim, foi ele, certamente. Como seria possível um perseguido político como tu sair de Portugal, entrar em Cuba, voltar a Portugal, etc., todas as vezes que querias? Se eles nem deixavam sair o Santareno, autor da peça que lá ias montar!


Não sei bem em que altura o teu sogro te ofereceu uma vivenda no Restelo que, na época (recuada) custou 2 mil contos. Uma bagatela. Os camaradas, esses, vivem para aí em barracas. E tu tens-te preocupado imenso com eles. Principalmente, com os teus camaradas actores.


Adiante. Pois chegou o 25 de Abril. E tu, homem impoluto, o grande lutador anti-fascista, eis-te a declarar na televisão que nunca lá tinhas ido. À Televisão. Pois não. Mas todas as peças em que entravas (no Teatro Maria Matos, da R.T.P.) eram passadas na televisão. E lá estavas tu. Muito mau actor, porque melhorar não melhoraste. Mas lá estavas tu. O perseguido. Sempre protegido pelo Ramiro Valadão, que dizia que eras muito bom rapaz e precisavas de apoio.


Curioso. Tenho ido visitar o Valadão à Judiciária, a Alcoentre e ultimamente ao Aljube, e nunca te encontrei. É porque vais noutros dias, certamente.


Esta já vai longa. Teria sido mais curta se fosses tu a responder ao entrevistador. Mas ainda tenho umas coisitas a dizer. E, se quero fazer o teu retrato de homem impoluto, digno, justo e, acima de tudo bom camarada, devo contar que o 25 de Abril te deu o lugar (os lugares) que merecias. Sempre no Teatro Maria Matos, claro, presidente da INATEL (ex-FNAT), programas de rádio, etc. Os teus colegas, aqui há tempos, contavam os teus tachos.


O que é chato é teres passado à frente da bicha da gasolina. Sim. Da bicha dos empregados da INATEL para terem gasolina a oito escudos. Foste o último a chegar e já tens a gasolina.


Pronto. O resto fica para o tal livro “Revolucionários que conheci”. O pior é se os tipógrafos se recusam a compô-lo. Mas não. Eles gostam de saber a vida de certos camaradas.


E boa viagem para Cuba. Lá, contigo, é uma loucura. Não fazem nada sem te consultar. O pior é se o Fidel lê uma tradução desta crónica. Mas não lê. Podes estar descansado e continuar a ser herói.


Já agora, que estás bem instalado na vida (aliás como se vê, sempre estiveste) aproveita para deixares de representar. Poupa-nos isso. E despeço-me, insistindo, a propósito de não teres dado a entrevista:


“Fizeste bem, Rogério Paulo.”

P. S. – E aquela tua ida à Casa dos Estudantes do Império, aí por volta dos anos 60, para falar de teatro revolucionário? Foi por seres angolano (de Silva Porto), certamente, que te convidaram. Até lá estava a Lília da Fonseca. Deves lembrar-te.


E aquela participação do nascimento da tua filha, que correu Lisboa e o maroto do Ramos da Costa me levou para Paris, para pensar que era brincadeira minha? Um nunca acabar. Fica para o livro.


Vera Lagoa, Crónicas do Tempo - 5.6.1975 - 2.10.1975, Porto, Livraria Internacional, 1975