sexta-feira, outubro 24, 2008

Natália Correia


Natália Correia é uma das mulheres que mais admiro desde há muitos anos. Sempre me fascinou a postura, a imagem altiva, bela e quase desumana porque divina, a maneira de falar e, mais tarde, quando descobri a sua escrita, a sua poesia, a sua prosa, os seus discursos parlamentares, os seus discos.
Lembro-me em miúdo ficar parado frente ao televisor quando a via. Não percebia por completo as coisas que dizia e falava mas algo de quimíco, mágico, acontecia porque me paralisava.
Quando descobri o prazer de andar em lojas de vinil a vasculhar, reencontrei-a. Reencontrei-a no disco "Cantigas de Amigos", com Amália Rodrigues e Ary dos Santos, no disco "Cantigas de Amôr e de Amigo dos Trovadores Galego-Portugueses", com adaptação e declamação da própria Natália e no disco "Improvisos", com o Maestro António Victorino de Almeida onde, além dos seus dotes declamatórios, Natália Correia expõe a sua extraordinária voz de quase cantora lírica.
Veio depois o aprofundamento da literatura.
Primeiro a sua poesia:
"ODE À PAZ

Pela verdade, pelo riso, pela luz, pela beleza,
Pelas aves que voam no olhar de uma criança,
Pela limpeza do vento, pelos actos de pureza,
Pela alegria, pelo vinho, pela música, pela dança,
pela branda melodia do rumor dos regatos,
Pelo fulgor do estio, pelo azul do claro dia,
Pelas flores que esmaltam os campos, pelo sossego, dos pastos,
Pela exactidão das rosas, pela Sabedoria,
Pelas pérolas que gotejam dos olhos dos amantes,
Pelos prodígios que são verdadeiros nos sonhos,
Pelo amor, pela liberdade, pelas coisas radiantes,
Pelos aromas maduros de suaves outonos,
Pela futura manhã dos grandes transparentes,
Pelas entranhas maternas e fecundas da terra,
Pelas lágrimas das mães a quem nuvens sangrentas
Arrebatam os filhos para a torpeza da guerra,
Eu te conjuro ó paz, eu te invoco ó benigna,
Ó Santa, ó talismã contra a indústria feroz,
Com tuas mãos que abatem as bandeiras da ira,
Com o teu esconjuro da bomba e do algoz,
Abre as portas da História,

deixa passar a Vida!"
(outras poesia em:
Depois a sua prosa:

Do livro Descobri que era europeia

"Trouxe curiosidades para a América. E não as levo no regresso. Também não levo certezas. Nenhuma das minhas curiosidades foi satisfeita. Deixo-as aqui, como um tributo à alta montanha que o pequeno esquilo não logra trepar. Não foi medo nem desesperança que me tolheram os passos na escalada. Foi a simples verificação dum facto: a América é um problema de que só ela tem a chave. A solução desse problema só interessa aos americanos. Se tentarmos compreendê-la, partindo de nós próprios, da nossa concepção do que ela "possa ser", escolhemos o caminho mais longo, porque nós somos estruturalmente diferentes.
Apontar as diferenças que nos extremam seria a recapitulação da História.
Ponhamos, pois, a questão nestes termos: gostei ou não gostei da América?
Ainda aqui a minha posição é ambígua. É tão impossível gostar da América como não gostar. Isto traduz-se num sentimento abstracto: o da fascinação. E qual é a fonte donde brota essa fascinação? O enorme tablado onde se desenrola a esotérica urdidura da tragédia americana. O seu esoterismo não é o inviolável segredo dos deuses. É a crise do desenvolvimento. Uma puberdade física e mental que convive, no seu âmago, com os fantasmos das coisas irreveladas. Nas suas células em formação ferve o sangue coagulado de várias taras sem poros para se evaporarem, a neurastenia da solidão acompanhada, um romantismo turbulento e um puritanismo mórbido. Objectiva e utópica, intransigente e tolerante, aventureira e calculista, arrebatada e grave, magnânima e egoísta, franca e enigmática, tudo de bom e de mau, de elevado e de mesquinho, nela existe em potencial, como num barro tosco a que o cinzel dos séculos ainda não deu forma.
É a antítese da tragédia europeia filtrada no cristal do tempo: a serenidade clássica da experiência e da razão.
Os americanos transmitem-nos a angústia do inacabado. Eles não são completamente generosos, nem completamente egoístas; não são completamente cordiais, nem completamente hostis. São seres por revelar.
Agosto de 1950"
E as suas sessões parlamentares, principalmente com o famoso episódio do deputado Truca Truca.
Durante uma discussão na Assembleia sobre o aborto, 1982, o deputado do CDS, João Morgado, que só tinha um filho, opunha-se à legalização do aborto, argumentando que o coito era apenas para procriar [assim na escola da Manuela Ferreira Leite]. A deputada e poetisa do PRD que era a favor do aborto, alcunhou-o ali mesmo de deputado Truca-Truca e, na hora, fez estes versos dirigidos ao mesmo. Nunca mais tal deputado pôs os pés na Assembleia da República.

«Ficou capado o Morgado»
1982

Já que o coito, diz o Morgado,
tem como fim cristalino,
preciso e imaculado
fazer menina ou menino
e cada vez que o varão
sexual petisco manduca,
temos na procriação
prova de que houve truca-truca,
sendo só pai de um rebento,
lógica é a conclusão
de que o viril instrumento
só usou - parca ração - uma vez.
E se a função faz o órgão - diz o ditado -
consumada essa excepção,
ficou capado o Morgado»
(Para ler um dos mais brilhantes discursos parlamentares de Natália Correia: http://conversamuitaconversa.blogspot.com/2005/12/notvel-discurso-da-deputada-natlia.html)
E agora, do disco Improvisos, Natália Correia canta e declama:

A Donzela de Biscaia


Queixa das Almas Jovens Censuradas


Quarto


Árvore Geniológica


Cabelos os Meus Cabelos


Depois disto, tudo o que diga é mau Latim. Fica a Homenagem.

4 comentários:

Ana Sofia disse...

Uma grande senhora, não há dúvidas!
Não conhecia muito para além de alguns dos seus poemas, mas este post deixo-me com vontade de saber mais...
Fiquei maravilhada com algumas canções e declamações, especialmente com a "Queixa das Almas Jovens Censuradas".

Toupeirinha@Faial disse...

Gosto muito da Natália Correia, foi com grande satisfação que encontrei por acaso o teu blog e este post. Agrada-me saber que há mais gente a interessar-se pela vasta obra e vida de Natália.
Foi de facto uma grande senhora. Nunca deixou de dizer o que pensava.
Era única...

"Se as ilhas fossem gente, eu era o Pico,
De coração só feito de mistérios
E os longes das paisagens onde fico."

Cumprimentos

Luis Enrique disse...

Uma mulher maravilhosa sem dúvida. Sua poesia tinha a força dos ventos mais fortes e a ternura do bater das assas de uma borboleta. Era (é) pq seu trabalho poético continua vivo e com muita atualidade, uma grande referencia.

Abç

Anónimo disse...

Olá. Olhe fiquei comovido com o seu blog. Conheci a Natália na minha juventude e estive com ela nas suas últimas horas. Foi minha amiga até ao fim, ela era assim, romântica.
Nos ultimos dias ela pedia-me muitas vezes que lhe tocasse ao piano o tema do filme "Jonhy Guitar". A Natália dizia que esta Música lhe lembrava dois amantes a dizerem adeus. Acho interessante que realçe a paixão que ela realmente tinha pela Música.
Um abraço e obrigado.