sábado, junho 17, 2006

ENCERRAMENTO DO PROCESSO DE CANONIZAÇÃO DE
FREI NUNO DE SANTA MARIA



DISCURSO DO CARDEAL PATRIARCA

Este momento de encerramento da fase diocesana do Processo de Canonização de Frei Nuno de Santa Maria, é carregado de significado e de esperança. Desde a sua morte que ele é, para os portugueses, o Santo Condestável. De facto, as manifestações públicas de culto e veneração por parte do Povo, e da própria Corte, seguiram-se logo à sua morte, o que mostra como este homem cristão, que exerceu altas e decisivas funções na consolidação da independência e definição da nacionalidade, e acabou a sua vida na simplicidade contemplativa de um mosteiro de carmelitas, se tornou símbolo e modelo da santidade cristã, o que o colocou espontaneamente na situação de intercessor e protector, junto de Deus que adorou e da Santíssima Virgem, de quem era filho querido e devotado.
Quando o Papa Urbano VIII decreta que a declaração de santidade fica dependente de processo formal, faz uma excepção para aqueles cristãos a quem, há cem anos ou mais, era prestado culto e reconhecida, pelo Povo, a santidade. Era o caso de Frei Nuno de Santa Maria, que desde o início foi alvo da devoção popular e teve memória litúrgica, pelo menos no calendário da Ordem Carmelita. Só hesitações históricas, agravadas por acontecimentos como a perda da independência, em 1580, e o terramoto que destruiu o Convento do Carmo, principal centro dessa devoção, porque aí se encontrava o seu túmulo, fizeram com que se sujeitasse, várias vezes, a declaração de Santidade de Frei Nuno de Santa Maria, às exigências formais de um processo de canonização, que, em rigor, não era exigido. Espero vivamente que estes dados históricos sejam tidos em conta na análise deste processo.
Neste momento, no início do século XXI, no contexto de uma sociedade secularizada que é preciso reevangelizar, a canonização de um cristão como o Condestável do Reino, que trocou as honras e as benesses da sua situação pela humildade da vida monástica, porque a isso o impeliu a Glória de Deus e o serviço humilde dos pobres, tem a força de um sinal: a importância e a missão dos justos na Cidade. O testemunho de vida crente dos cristãos na Cidade, imprimindo ao seu serviço da sociedade a marca da novidade cristã, é hoje um caminho importante para a evangelização da Cidade. A proclamação do Evangelho é um testemunho de vida, e é quando a fé marca a qualidade de uma forma de estar e de servir, que ela se torna testemunho que interpela os corações. Desde o Antigo Testamento está dito que um justo pode salvar a Cidade.
Em D. Nuno Álvares Pereira foi impressionante esta síntese harmónica da vivência da sua fé e o desempenho das altas funções que a Nação lhe atribuiu. Ele torna-se, assim, desafio para quantos, hoje, exercendo os seus cargos ao serviço da Nação, têm tendência em separar a sua fé das funções que exercem. A nossa Cidade precisa do testemunho dos justos.
D. Nuno deu-nos, também, o testemunho da primazia de Deus e da Sua Glória, acima de todas as coisas. O seu apagamento na vida monástica, em que só se tornaram notórias, a sua humildade e o seu amor aos pobres, são afirmação dessa primazia de Deus, a Quem se ama acima de todas as coisas.
Portugal não espera pelo resultado deste processo para o venerar como Santo e Intercessor. Mas a proclamação dessa santidade, pela Igreja, confirmará a universalidade da sua caridade e do seu culto. Porque desejamos a sua canonização, tudo fizemos para a viabilizar. Porque o veneramos como Santo, pedimos-lhe que, por intercessão de Maria, nos conceda essa graça e nos ajude a obtê-la de Deus, pela mediação da Virgem, através da qual obteve sempre todos os favores divinos.

Igreja do Santo Condestável, 3 de Abril de 2004


† JOSÉ, Cardeal-Patriarca

1 comentário:

pedro disse...

E a parte onde o senhor terá morto uns quantos castelhanos, fica por contar?