Quarta-feira irei tatuar esta imagem nas minhas costas. Depois de muito reflectir, acabava sempre com esta imagem na ideia.A razão aparentemente mais óbvia para tatuar este perfil de Amália Rodrigues é, claro está, a minha profunda admiração e estima pela pessoa que, e durante décadas ao longo do século XX, levou Portugal ao Mundo. E este ano passam dez anos da sua morte.
Mas há razões menos óbvias.
Eu queria algo com que me identificasse, mas que também me reportasse a outras coisas.
Em primeiro lugar a Portugal. País que amo profundamente e que continuo a acreditar ser capaz de grandes conquistas. No perfil de Amália podemos "ver" o perfil de Portugal.
Depois há os poetas, os escritores. Portugal é, desde as medievais Cantigas Trovadorescas, um dos paises com maiores e melhores tradições literárias do Mundo: D. Afonso V, D. Dinis, D. Duarte, Fernando Esguio, João Garcia de Guilhade, Paio Gomes Charinho, Luis de Camões - entre outros - até aos bem mais conhecidos poetas do séc. XIX e XX. Ora, a todos estes deu Amália a voz, reavivando-os.
Depois, claro está, temos o Fado. Género musical que muito me agrada onde, nos momentos melhores ou menos bons da vida, encontro sempre um reflexo, uma ajuda, um conselho, uma similitude. E é no Fado, e estou bem convicto disso, que se encontra reunida e unificada quase nove séculos (se não mais... ainda mesmo da ocupação árabe da Pensinsula Ibérica) do ser e sentir português. Seja o sentir alegre, de festa, de optimismo e grandeza, seja o sentir melancólico, por vezes triste, de um povo "entalado" entre uma Espanha forte e um mar assustador, sem que nos restasse outra grande alternativa que não fosse a Aventura.
Assim, ao escolher esta imagem, homenageio o Fado e os seus interpretes, músicos e poetas. Ao escolher esta imagem, compilo em mim a História de Portugal.
Esta imagem é também a forma de marcar, para sempre, as recordações de férias passadas em casa dos avós maternos, a quem "roubei" as primeiras cassettes da Amália que ouvi, onde me contaram as primeiras histórias sobre ela e onde li os primeiros livros sobre esta mulher e este género musical que nunca mais abandonei. Porque abandoná-lo era, de certa forma, abandonar-me. Descobrir o Fado foi, sem dúvida, descobrir-me a mim.
Tatuar esta imagem é não esquecer-me.
Outras razões existem... mas que não cabem aqui...
Toda a poesia – e a canção é uma poesia ajudada – reflecte o que a alma não tem. Por isso a canção dos povos tristes é alegre e a canção dos povos alegres é triste.
O fado, porém, não é alegre nem triste. É um episódio de intervalo. Formou-o a alma portuguesa quando não existia e desejava tudo sem ter força para o desejar.
As almas fortes atribuem tudo ao Destino; só os fracos confiam na vontade própria, porque ela não existe.
O fado é o cansaço da alma forte, o olhar de desprezo de Portugal ao Deus em que creu e também o abandonou.
No fado os Deuses regressam legítimos e longínquos. É esse o segundo sentido da figura de El-Rei D. Sebastião.
Fernando Pessoa
3 comentários:
lá estarei ;-)
Depois tens que mostrar como ficou :)
e já te vai acompanhando :)
beijo,
helena nilo
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