sábado, julho 21, 2007

Alegria dos 30 anos

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(Meio)


Cá estou eu. Faltam 20 dias para festejar os meus 30 anos de existência. Discreta presença. Frustrada sobrevivência.

Nada do que idealizei para a minha terceira dezena de vida se concretizou.

Continuo a viver em casa dos pais. Cómodo... mas triste, quase humilhante. A minha mãe sempre disse que nunca quereria um filho a viver em casa parental depois de os mesmos completarem 30 anos. Era malinha à porta de casa e OUT. Ora, eu sou o 4º filho de 6 (daí este discurso supostamente cruel de uma mãe). Já sairam os 3 mais velhos antes da trintena e a 5ª filha sairá também antes de a completar. Quanto a mim, sempre pensei que abandonaria o conforto uterino (metaforicamente falando) a tempo. Imaginei-me a viver em muitos sítios bonitos, de aspecto saudável, integro... E agora?! Agora, até pensões no Martim Moniz me passam pela cabeça.

Chego aos 30 sem uma relação amorosa. Costuma-se dizer que "mais vale só que mal acompanhado". Não é pelo meu ódio aos ditos populares, sempre cheios de uma sabedoria saloia (tão útil quanto os escritos da Paula Bobone, as amarguradas recordações de infância de uma Filomena Mónica ou as experiências - de qualquer ordem - de Margarida Villa Nova com os aborígenes australianos), que refuto a veracidade de tal ensinamento "à la" Zé Povinho. Afinal o que me resta? Abraçar a minha almofada que tão achatada está dos 30 anos que já leva a apoiar a minha cabeça, noite após noite, dia após dia (isto ao Domingo, claro!)? E por falar nisso, ver se peço à minha mãe que a torne a encher de penas ou esponja... quem sabe se assim não dura mais uns 30 anos.

E porque amar é viver, e viver sem amar é coisa que não consigo, lá tenho que vasculhar na minha parte cardiaca uma réstia de um amor não realizado ou passado, para assim me puder lamentar da minha pouca sorte e arranjar um álibi para andar tísico pelas ruas até que apareça uma nova paixão que me distraia e me faça andar tontinho por aí, de sorriso nos lábios e triunfo no olhar.

Ponto da situação: Vive ainda em casa dos pais e não tem relação.

Relativamente ao trabalho gosto do que faço, o que já não é mau. De qualquer forma não me importava de mudar para algo diferente. O problema é chegar aos 10+10+10 anos a passar recibos verdes - que dão uma trabalheira imensa -, a descontar 150 euros de segurança social que, convenhamos, de seguro tem pouco e de social quase nada, dar ao Estado 200 euros mensais e ainda por cima não ter férias para aí há uns 3 anos (no mínimo)... já não tenho idade.

Bem feitas as contas, estou a meio caminho da minha morte, se ela não me vier ceifar mais cedo. Reconheco que estou a meio do meu trajecto para a "final curtain" por culpa minha... fumo muito, desporto nem vê-lo, vivam os doces com muito açucar e a almoçar muitas vezes no refeitório da Biblioteca Nacional, saúde é que coisa que não posso ter por muito mais tempo. Provavelmente trata-se de um suicidio lento e inconsciente (ou talvez não) que estou a cometer na ânsia de abreviar tudo isto. De qualquer forma, suicida ou kamikaze, é muito deprimente que se chegue a meio da vida (segundo os meus cálculos) a dormir em casa dos pais, sem um namoro ou perspectivas de o ter e a passar recibos verdes.

Do ponto de vista estético não tenho nada a apontar. As rugas para já não me incomodam, os cabelos brancos já são mais que muitos e até muito bem-vindos. Não é pelo charme que supostamente trazem os cabelos brancos que o digo. É sim pelo desespero que tenho de ser levado a sério por alguém, seja na rua ou lojas, seja no emprego, em casa ou na Mexicana.

Pergunta: De tudo isto, o que me valem os 15 anos a multiplicar por 2 que vou fazer?

Resposta: Valem muito.

Valem a família que tenho e as amizades que fiz; valem os livros que li, as músicas que ouvi, os espectáculos que já vi; valem por tudo aquilo que vivi e aquilo que ficou por viver; valem pelos medos, as alegrias, as desilusões e as conquistas por que passei; valem as gargalhadas, as lágrimas, os soluços e as palmas que dei; valem pelos que vi nascer, crescer ou morrer; valem cada abraço, beijo, murro ou estalo que espetei; valem cada abraço, beijo, murro ou estalo que me espetaram; valem por cada memória ou por cada esquecimento; valem muito de mim mas, mais ainda, valem tudo dos outros.

4 comentários:

Luís disse...

Olá

Sou um leitor relativamente regular do seu blog.

A sua escrita tem qualidade, as suas ideias, são muito interessantes, estão em consonância com as minhas e as suas apostas estéticas vão muito de encontro ao meu gosto.

Por isso sempre que viajo até este espaço leio-o com muito interesse.

Como tenho quase 52 anos já passei por muitas fases de "balanço" de vida e recordo-me que a minha chegada aos "trinta" foi marcada também por um conjunto de reflexões parecidas com as suas.

Obviamente que cada vida tem as suas particularidades e portanto relativamente a certos aspectos concretos há diferenças, contudo no essencial das grandes expectativas e das grandes frustrações os nossos percursos são muito identicos.

Quem pode dizer que cumpriu integralmente um plano de vida desenhado a regua e compasso?

Quem pode dizer que tem exactamente o que sonhou?

Quem pode dizer com antecipação como irão ser os seus trinta, os quarenta, os cinquenta?

Penso que ninguém!

Por isso bem vindo ao reino da maioria que já percebeu o que é a vida... Um caminho de realidades para as quais o sonho é importante, mas que não se confundem com ele!!!!

No trabalho, no amor, nos vários tijolos que vão construindo aquela casa chamada felicidade, as coisas vão simplesmente acontecendo...

Se chegar aos 70 ainda na casa dos pais... significa que você e os seus pais ainda por cá andam... Que maravilha!

Significa muitas e boas peças de teatro, muitos e bons livros, muitas e boas cavaqueiras com os amigos, muitas e boas coisas que só quem vive pode ter...

Significará também alguns percalços, algumas coisas desagradáveis, a que eu procuro chamar "lições de vida".

Quanto aos amores... também virão com o tempo... às vezes quando menos espera aparecem... para depois também desaparecerem e serem substiuídos por outros...

A sensação que tive ao passar a barreira dos 30 foi algo de muito nostálgico... como se deixasse para trás algo de incompleto, de irremediavelmente incompleto... Algo que por minha exclusiva culpa não realizei...

Hoje já não penso assim.. Penso que aos trinta ainda teria muito tempo... muito muito tempo...

Ainda hoje aos 52 tenho tanto para conseguir... E a esperança ainda resiste e persiste...

Não lhe dou os parabéns antecipados... Espero dar-lhos daqui a vinte dias... entretanto só desejo que viva muito...e que se desfaça bem dos vintes e acolha feliz os trinta, pois neles decerto será muito feliz...

Um abraço.

Luís

Luís Galego disse...

fiquei sem palavras quando li este post. É cruel e terno, autêntico e sarcático, é inteligente e sensivel. Gostei muito...

Rita disse...

Meu amor, leio-te com assiduidade mesmo antes de ter tido o prazer de te conhecer pessoalmente. Li este post em particular por indicação de "anjos" da tua guarda e também porque, eventualmente, acabaria por lê-lo mais cedo ou mais tarde. E assim sendo (eu, que só faço 30 daqui a 6 meses - depois contas-me como foi!) resta-me dizer-te que até há bem pouco tempo este teu texto foi em tempos o reflexo da minha vida e por isso tudo (e mais um bocadinho) te compreendo até à 5ª geração (que quer dizer que te compreendo "bué").
Sinto cada palavra tua como minha porque... i've been there. E como tantas outras coisas que se aprendem na vida, amanhã será sempre um dia melhor, quanto mais não seja pelas milhares de oportunidades que esse amanhã tem para nos oferecer.
E mais, eu sei que há quem não saiba sequer andar de comboio sozinho, mas eu sou capaz de apanhar o barco sozinha e ir ter contigo a qualquer hora do dia ou da noite. Estou à distância de 15 minutos de viagem. Um telefonema basta. Seja para uma grande mariscada, seja para o que tu quiseres!
TE AMO!*

Anónimo disse...

Amigo, há muito q não falamos, mas continuo a aguardar o tal jantarito para pormos a conversa em dia (um dia destes...). Li este teu post e achei bonito e senti alegria por rever nestas palavras o Daniel que eu conheci ainda a meio caminho dos 30. Continuas espirituoso e sincero, sem medo de dizer o que te vai por dentro. Também eu vou a caminho dos 30 e faltam exactamente hoje 20 dias (já dizia a Margarida, e com razão, que não há coincidências). Terminou agora o 1º Acto da tua Vida e muitos outros se seguirão ainda, com finais bem mais surpreendentes e o público a aplaudir-te de pé. E já lá vai o dia 10, mas bons desejos vêem sempre a tempo, por isso: Parabéns!