quarta-feira, agosto 10, 2005

Lucília Simões e Luz Veloso


Artigo da revista "Plateia", nº 118, Ano XII, de 1 de Julho de 1962, pág. 28.
Escrito pela ocasião da morte de duas actrizes de teatro de grande prestigio, a "Plateia" dá-nos um pouco das suas biografias, que a seguir transcrevo.
"Lucília Simões contracenou com os irmãos Rosa, Brazão, Ângela, Rosa Damasceno, irmã gémea, no talento, de Adelina Abranches. Fez a sua estreia oficial em 1895 em Maria de "Frei Luiz de Sousa", de Almeida Garrett. Durante Quinze anos esteve ausente do teatro, voltando a reaparecer no Politeama na peça de Wilde, "Uma mulher sem importância", um dos seus grandes trabalhos. É numerosa a lista de obras a que Lucília ligou o seu nome, mas recordamos mais recentemente "Baton", de Alfredo Cortês, escrita para ela e para João Villaret, "Perdoai-nos, Senhor", de Mendonça Alves, "Fogueiras de S. João", onde o seu trabalho mereceu justamente os louveres da Crítica. Nessa altura, formou a companhia Lucília Simões-Erico Braga, com quem se casara. Foi magnífica interprete da "Raça", de Linhares Rivas e da "Garçonne", depois de uma temporada brilhante em que levou à cena todo o género de teatro, apresentou também "Mar Alto", de António Ferro, com o autor como intérprete, uma noite ruidosa mas que mesmo assim serviu para mostrar que a empresa desejava lançar rajadas de ar novo no seu teatro.
Dissolvida a companhia, trabalhou no Nacional onde substituiu sua mãe na "Conspiradora", também de Mendonça Alves. Últimamente, integrada nos Comediantes de Lisboa, deu a esse óptimo agrupamento o melhor do seu valor e, após ter sido ensaiadora no Brasil da companhia Eva Todor, durante dois anos, voltou para deixar finalmente o teatro. (...)
No mesmo dia e quase à mesma hora que Lucília, faleceu Luz Veloso, com 83 anos.
Desde criança que Luz Veloso se dedicou ao teatro, fez a sua estreia no Porto, em 1892 na mágica "Lâmpada Maravilhosa". Fez parte da companhia do D. Maria de 1903 a 1904, seguindo depois sempre a sua carreira em várias empresas particulares. Trabalhou ao lado de Rosas e Brasões, fez algumas das figuras eternas das grandes peças, entre elas, Ofélia, do "Hamlet". Nós recordamo-la mais recentemente no Teatro Nacional, nas suas magníficas interpretações em "Casa de Bernarda Alba", de Garcia Lorca, "As meninas da fonte da bica", de Ramada Curto, e em algumas curiosas figuras vicentinas. Ao lado de Ilda Stichini, trabalhou anos seguidos acompanhando-a nas suas digressões às nossas ilhas e províncias ultramarinas, obtendo sempre o melhor agrado.
Injustamente, um pouco também mercê da crise do teatro que se vem sofrendo há tempo, Luz Veloso esteve sem trabalho perto de dez anos, com leves interrupções em que intervinha numa sociedade de artistas sem futuro, e voltava à inactividade forçada que a levou quase ao desespero, chegando a tentar empregar-se, o que lhe seria difícil pois apenas o teatro era o seu mundo. Aí podia triunfar porque para ser actriz, acima de tudo, é preciso instinto e talento natural, o que não faltava a Luz Veloso.
Um dia, quando já desanimava da sorte, escreveu a Robles Monteiro e pouco depois era contratada para o Nacional onde ficou até morrer. Felizmente acabou como tinha começado: no teatro e ocupando o lugar que merecia.
Ultimamente a Televisão utilizou Luz Veloso, mas já a memória atraiçoava. Quem melhor a não conhecesse, não poderia por aí ajuizar o seu valor de artista, sempre disciplinada e cumpridora, tão diferente destes que já nascem "fenómenos" e crêem que em trabalho, a disciplina é uma inferioridade."
Quem assina o texto é Alice Ogando.

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