quinta-feira, agosto 04, 2005

Eunice Muñoz

A paixão pelo público e pelas artes do espectáculo era já característica da família de Eunice, tendo os seus avós, mãe – Júlia Muñoz (MIMI) – e tios formado uma companhia teatral que representava na província e era conhecida como a "Troupe Carmo".
Mimi, viria a conhecer, em Alter do Chão, Hernâni Muñoz que, era uma das atracções do Circo Muñoz, executando, na perfeição, um tango com a sua irmã Alzira.
Casaram em 1927, tendo, no ano seguinte, nascido a primogénita Eunice Muñoz, seguida do irmão Hernâni em 1929.
Mais tarde, esta família forma a sua própria companhia onde, desde os 5 anos, Eunice se exibia com grande intuição musical em canções em voga como "Uma Porta e Uma Janela".
Quando as variedades nos cinemas se tornaram inviáveis, surgiu o Teatro Desmontável Mimi Muñoz, daí que os estudos de Eunice tivessem decorrido ao sabor das tournées familiares, tendo feito a admissão ao liceu em Fornos de Algodres, onde, após se retirarem da actividade até então exercida, os pais se dedicaram à formação de pequenos grupos de variedades como empresários.
Eunice Muñoz, subiu pela primeira vez ao palco para interpretar o papel de Isabel na peça "Vendaval", no Teatro Nacional D. Maria II, pela companhia Rey Colaço Robles Monteiro, no dia 28 de Novembro de 1941, na sequência do conselho dado por Sales Ribeiro a Amélia Rey Colaço, aquando da necessidade de quatro raparigas para rodear Maria Lalande nesta peça, que seria a última de Virgínia Vitorino. Nesta peça, Eunice chama a atenção de João Villaret e desperta interesse e admiração por parte de Amélia Rey Colaço.
Após uma paragem, Eunice voltou ao palco do Nacional em 1942, integrando a companhia Rey Colaço Robles Monteiro e representando ao lado dos actores mais importantes da época em Portugal.
Durante as férias da companhia nos meses de verão, foi chamada para representar ao lado de Estevão Amarante na opereta "João Ratão", no Teatro Avenida. No mesmo verão subiu à cena no Teatro Variedades para a comédia "Raparigas Modernas". A interpretação que faz da personagem "Maria" em "Frei Luís de Sousa" pela companhia Rey Colaço Robles Monteiro, engrandeceu o seu prestigio.
Deixou o Teatro Nacional no verão de 44 e, devido ao seu talento e grandes capacidades, passou da comédia sentimental à farsa e à opereta, percurso que a levou a figurar em lugares de destaque nos cartazes.
Dia 24 de Julho de 1945, Eunice prestou as provas finais no Conservatório com cenas do 2o acto da "Vivette", obtendo a classificação de 18 valores e para grande espanto na noite desse mesmo dia, o nome da actriz figurava com o mesmo tamanho e com a mesma força que Mirita Casimiro e Vasco Santana no cartaz de estreia da comédia musicada "Chuva de Filhos".
Este ciclo da vida de Eunice, foi encerrado dia 23 de Abril de 1946 na farsa "Cuidado com a Bernarda!", tendo-se estreado no cinema a 23 de Setembro do mesmo ano, no papel de "Má Fortuna", uma mulher da mais alta nobreza com uma paixão não correspondida por Camões, interpretação que lhe valeu o prémio de melhor actriz do SNI, com apenas 17 anos de idade.
Eunice casou em 1947 com o arquitecto Rui Couto e declarou, em várias revistas, querer trocar o teatro pelo cinema.
Participou ainda em mais uma filme mas reapareceu em palco em Novembro do mesmo ano como primeira figura na peça "A Noite de 16 de Janeiro".
Em 1949 voltou à companhia Rey Colaço Robles Monteiro para protagonizar a peça " Outono em Flor", a última de Júlio Dantas.
Ainda no mesmo ano, a actriz quase atingiu o ponto de ruptura com a profissão, tendo feito mais três filmes antes de 15 anos de paragem na sua carreira cinematográfica.
Nesta altura, Eunice foi desaproveitada na revista.
Viria, porém a fazer enorme furor na companhia formada em 1951 no Teatro do Ginásio sob a direcção de António Pedro, interpretando papeis e peças nacionais e internacionais.
Passando ainda pelo Trindade na peça "João da Lua" Eunice retirou-se da sua profissão que lhe teria sido quase imposta.
Foi então caixeira numa loja de cortiça.
O regresso ao palco teve lugar na noite de 9 de Novembro de 1955 no Teatro Avenida.
O nascimento de um filho levou a outro afastamento que terminou em 1957, desta vez no Teatro da Trindade, integrando a companhia Teatro Nacional Popular, formada por Francisco Ribeiro e interpretando um papel na "Noite de Reis" de Shakespeare.
Em 1965, aceitou o desafio de integrar a Companhia Portuguesa de Comediantes com duas sessões diárias e matinée ao Domingo.
No ano de 1969 a desilusão de Eunice perante o panorama teatral da época levou a que formasse uma companhia com José de Castro, a companhia "Somos Dois" que se destinava a levar a efeito uma longa tournée por Angola e Moçambique.
Passou ainda uma última vez pela companhia Rey Colaço Robles Monteiro em 1971.
O Teatro Experimental de Cascais envolveu mais uma vez Eunice Muñoz num grande sucesso em "As Criadas" de Jean Genet, ao qual se sucedeu uma longa tounée em África.
Voltando a Lisboa em Maio de 74, apenas voltou ao palco em 76.
Seguiram-se ainda mais ausências e regressos entre vários géneros dramáticos na vida de uma actriz " que é sem dúvida a actriz mais jovem e mais ousada de quantas actuam em palcos portugueses".

1 comentário:

Caixantes disse...

É sem duvida uma grande mulher e sobretudo uma grandissima actriz. Das melhores que temos em Portugal e há actuações suas que não se igualam a nenhuma outra. Quem nasce com talento e sabe trabalhá-lo, merece ver o seu esforço reconhecido e esta exposição foi uma boa maneira de reconhecer a "ajuda cultural" que Eunice Muñoz deu/dá ao nosso país e ao nosso Teatro.