sexta-feira, junho 24, 2005

38 760 caracteres - João Miguel Tavares - Diário de Noticias

"Manuel Maria Carrilho anda desconsolado, e foi-se queixar para as páginas do Público e do último Expresso. Então não é que ele tinha 18 páginas e "38 760 caracteres de ideias" no seu luminoso programa eleitoral e a comunicação social "embasbacou com uns segundos de vida familiar", limitando-se a discutir o vídeo da Bárbara e do Dinis? Coitadinho do Manuel. Passou tanto tempo a estudar o Sein und Zeit que desleixou o cultivo da sabedoria popular. De outro modo saberia que uma imagem vale mais do que mil palavras, e que a Bárbara e o Dinis valem muito mais do que 38 760 caracteres.
Carrilho tramou-se, e está a ver o tapete fugir-lhe debaixo dos pés. Quando no Público apenas Eduardo Prado Coelho permanece seu fiel escudeiro, enquanto nomes como Miguel Sousa Tavares, Augusto M. Seabra ou Ana Sá Lopes se demarcam da sua candidatura, algo de errado se passa. E esse algo é a incompatibilidade entre o político inteligente, sério e com iniciativa - que Carrilho talvez seja - e o político calculista, agressivo e capaz de empenhar a família como muleta eleitoral - que Carrilho definitivamente é.
No Público e no Expresso, Carrilho foi buscar uma série de exemplos para demonstrar como é costumeira a participação da família numa campanha eleitoral. Os exemplos incluíam Snu Abecassis e Sá Carneiro. Evidentemente, fez-se de sonso Snu e Sá Carneiro são exactamente o contrário de Bárbara e Manuel Maria, pois apareciam juntos em público apesar de poderem perder votos e não para ganhar votos. É claro que Carrilho tem toda a legitimidade para enfeitar a campanha com mulher e filho. Infelizmente para ele, nota-se demasiado que a decoração é artificial. O sorriso é de plástico. O penteado é de plástico. A roupa desportiva, a cadeirinha do bebé, o vídeo - tudo é de plástico. Carrilho pode ter imensas ideias, mas elas contam pouco se o eleitorado duvidar dos escrúpulos de quem as vai pôr em prática. Em política o que conta é o carácter - não os caracteres."
João Miguel Tavares - Diário de Noticias de 24 de Junho de 2005

3 comentários:

Paulo (o agora residente do 14) disse...

Olá Daniel,
Parabéns pelo Blog. Mas, sinceramente não entendo esses ódios de estimação que o M. M. Carrilho alimenta junto da Imprensa e das televisões. Eu nunca lhe pedi nenhum subsídio, mas acho-o infinitamente mais inteligente e preparado que a generalidade dos jornalistas portugueses. Nesse estranho mundo dos media a indigencia mental é atroz. Basta ler um tipo chamado Pedro Mexia que é uma espécie de Julio Dantas da actualidade; ler uma bicha ressabiada como Eduardo Pitta a propósito do Eugénio de andrade; rir com os comentários de Luís Delgado, Helena Matos, ou, talvez o pior de todos, António José Saraiva. Depois de ter lido a entrevista dele fiquei sem perceber se ele se julgava a irmãzinha Lucia da politica portuguesa ou o Forrest Gump dos últimos 30 anos da História nacional. Sem querer parecer o Doutor Prado Coelho, ao pé deles o "manel" é um génio.

Anónimo disse...

Plástico ou plasticina?
Para quem conheça Manuel Maria dos tempos da cultura, percebe-se que o homem agarra-se a tudo para atingir os fins. Ou seja, os meios justificam sempre desde que os objectivos a que se propõe atingir sejam sempre conseguidos. A criatura é amoral: o que importa é a sua imagem, mesmo que para tal se sirva da família, das revistas cor de rosa, qual narciso enamorado pela sua imagem e afogando-se na fonte, cuja água cristalina lhe proporcionava a possibilidade de enamoramento de si próprio!
Carrilho não tem amigos pois, para ele, as pessoas são apenas trampolins. Não vale a pena referir o que disse dos mais próximos, desde Guterres, Vieira Nery, Francisco Betencourt, Manuel Alegre, Sócrates, de todos aqueles que o ajudaram a ser a figura mediática de hoje. Muito menos ainda, daqueles que "ousaram" criticá-lo.
A melhor definição da criatura veio de António Barreto que o apelidou de "pavão de província".
Carrilho não é plástico´, é plasticina: agarra-se a tudo o que lhe dê protagonismo e apenas isso.

zemaria

Gustavo Almeida disse...

É o que dá dar demasiada atenção à imagem (aos meios) em detrimento dos fins.

Os verdadeiros políticos devem existir para desenvolver os fins do interesse público, do interesse de todos nós, e não utilizarem a miragem do alcançe do poder público para se fazerem salientar e sobressair no meio da sociedade.