quinta-feira, Março 07, 2013

A "C. G. D. R. P.", por André Brun

A "C. G. D. R. P."
 
Há dois ou três anos, após uns acontecimentos de agitação operária, estava eu sentado a uma das mesas do Café Suiço, com o meu amigo Banana, quanto este me expôs uma destas ideias que não hesito em classificar de geniais. O meu amigo Banana terá muitos defeitos, podem mesmo chamar-lhe tolo; mas o que ninguém lhe deve contestar é a lógica, que distingue os seus actos e os seus princípios. Esse "amigo estimável, que vestia as ceroulas por dentro das calças e as meias por dentro das botas", discutia comigo a questão do direito à greve, o qual impõe aos proletários grevistas o dever de não deixar trabalhar os que se comprazem nesse salutar exercício que é a riqueza, é virtude, é vigor, consoante diz um hino muito cantado neste país de mandriões. Com aquela serenidade impertubável, que o caracteriza, Banana disse-me:
- "Meu velho! Acho justíssimo que os operários e trabalhadores se agremiem, se sindicatem e se federem; mas nós, o respeitável público, também temos direito a sindicar-nos. Não acha?
Mirei-o em silêncio e ele continuou:
- "Sim. Porque nós, o respeitável público, que somos, a miúdo, tratados de burgueses, de exploradores, de inúteis e de outras gentilezas parecidas, somos afinal quem, sempre que há greves, acaba por pagar as favas. Temos de nos defender, meu amigo. O que é o respeitável público neste conflito de governos e proletários? Nada. E, no entanto, tem que ser tudo.
- "Muito bem - disse eu sem perceber coisa alguma daquele arrazoado.
- "Claro. E tanto assim que penso em fundar a "C. G. D. R. P."
- "A quê?
- "A Confederação Geral do Respeitável Público, o sindicato mais racional que existe. A primeira proclamação tenho-a aqui.
E, tirando um papel do bolso, deu-me a ler o seguinte:
 
 
C G. D. R. P.
 
Cidadãos:
 
Basta! Basta! Basta! Os sindicalistas, os grevicultores, os trabalhadores conscientes, os proletários explorados, abusam de nós indecentemente. Perseguem-nos. Tiranizam-nos. Arruinam-nos. Perturbam-nos a vida. Nós é que andamos a pé, quando eles fazem greve de eléctricos, carroças, automóveis e tipóias. Nós é que comemos pão duro, quando os padeiros estão com a mão na massa das suas reivindicações. Nós é que temos de recolher cedo, quando há distúrbios. Nós é que levamos quase sempre as espadeiradas, que a Guarda Republicana lhes destina. Basta! Basta! Basta! Chegou o momento de reagir. Mas como?
Proclamemos desde já A GREVE GERAL DO PÚBLICO.
Burgueses, alerta! Nada de violências! Às exigências dos trabalhadores respondamos com a nossa inércia. Os ferroviários fazem greve de vez em quando? Pois de hoje em diante passaremos todos a andar a pé, excepto os entrevados, que andarão ao colo, bem como as crianças e militares sem graduação. Quando os gasomistas pretenderem esvaziar os gasómetros, cuidaremos de fazer pavios em casa, molhando pauzinhos numa solução de fósforo e enxôfre. E assim sucessivamente.
Regressemos à vida primitiva. Cada qual trate de si. Acabaremos por tramar os tecelões, que suspendem a trama, os curtidores, que nos querem fazer curtir cólicas e outros proletários de iguais intuitos. Nós, o público estúpido, burguês, burro e comodista, é que com a nossa fraqueza e a nossa indolência auxiliadas pelo progresso idiota, criámos as indústrias e profissões, que hoje querem abusar da dependência em que nós própios nos colocámos.
BURGUESES, ATENÇÃO! Adão e Eva no Paraíso não se preocuparam nunca com a greve dos boletineiros e outros cavalheiros. A idade de pedra e outras eras felizes provaram que se pode viver sem eléctricos, sem telefones, sem correios, sem gás, sem água encanada, etc.
SEM O PÚBLICO É QUE ELES NÃO VIVEM! BURGUESES! À GREVE DO PÚBLICO!
 
Pela comissão directora dos camarada
da C. G. D. R. P
 
Amigo Banana
 
Quando acabei de ler o manifesto, tive que curvar a cabeça. O amigo Banana continuava a ser lógico, duma lógica só comparável em solidez às pirâmides do Egito, muito bem construídas, ao que se diz, pelos mestres de obras Ramsés, que Deus tenha. Deus, não: o boi Ápis.
- "Mas isso, - exclamei eu após reflexão - é o fim do mundo!
- "Qual história, meu caro amigo! Se todos nós que podemos e devemos zelar pela nossa tranquilidade, que não fizemos o mundo e não temos, portanto, a obrigação de o endireitar, nos uníssemos a valer e suprimíssemos as profissões, que a nossa indolência e o nosso egoísmo criaram, se quiséssemos renunciar aos benefícios do progresso, - que, em geral, são como os benefícios do Ginásio: não dão resultado que se veja - se cada qual tratasse de si e ninguém se pudesse supor indispensável, se recusássemos pagar impostos ao Estado que nos sobrecarrega e nunca nos defende completamente, você veria, meu amigo, como a Sociedade entrava nos eixos. No fim de certo tempo duma balbúrdia infernal, todos compreenderiam que, dependendo uns dos outros, não é justo ser o Público, colocado entre o Estado e a Revolta, quem se incomode sempre, quem seja terrorizado quando a Revolta vence e violentado quando o Estado reprime.
- "Mas - quis eu intervir em favor dos proletários - um operário ganha tão pouco que...
- "Mas se ganhar mais, o patrão, que fabrica chinelos de ourelo aos milhões - por exemplo - terá que levar mais um pataco ao tendeiro, o qual meterá o pataco dos chinelos nas batatas, que vende ao operário...
- "Mas a gente ociosa, que anda de automóvel e faz quarenta vestidos por ano?...
"É quem dá de comer aos cerralheiros fazedores de automóveis e às modistas cosedeiras de vestidos. O mundo, meu amigo, é mais que uma esfera; é uma bola viciosa... Pois se até os vícios são precisos para manter a gente honesta! Um cavalheiro fuma um charuto caro? O manipulador de tabacos - como se chama aos de Xabregas, - não se lembra que foi com o fazer esse charuto irritante que alimentou os filhos e que, se não fizer o tal charuto, o burguês não o fumará, é certo; mas os filhos terão que se comer uns aos outros ou comer o pai que é mais velho...
 
Calei-me. Como meu amigo Banana não se pode discutir. Tem muita lógica, o marato.


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