sábado, fevereiro 21, 2009

Intérpretes de Shakespeare e de Dias Gomes


Teatro. Em Fevereiro de 1965 eram entregues os Prémios da Crítica aos actores Mariana Rey-Monteiro, Rui de Carvalho e João Lourenço. Em contrapartida, os críticos não distinguiam nenhum autor nem nenhum encenador

Sentavam-se na mesma mesa do restaurante os críticos dos jornais salazaristas e dos oposicionistas

Os salazaristas convictos liam o Diário da Manhã, o Novidades e A Voz; os oposicionistas ao regime compravam o República e o Diário de Lisboa; os indiferentes dividiam-se entre o Diário de Notícias e O Século, o Diário Popular e o Jornal do Comércio. Mas os críticos teatrais de Lisboa, como se pode ler no DN de 9 de Fevereiro de 1965, entendiam-se entre si ao ponto de pensarem formar um Clube dos Críticos, "com o fim de se constituírem em entidade juridicamente responsável, fortalecendo ainda a sua posição de autoridade e criando meios de enriquecimento intelectual entre os novos valores que surjam".

A proposta era referida pelo representante do Diário de Lisboa no almoço em que eram entregues os prémios a Mariana Rey-Monteiro ("que, deste modo, reúne pela terceira vez a maioria de votos da Crítica, agora pelo seu desempenho na peça de Valle -Inclan, as Divinas Palavras"), a Rui de Carvalho ("que reuniu, também pela segunda vez, a maioria de votos e que, este ano, foi distinguido pelo seu trabalho na comédia de Shakespeare Dente por Dente"); e a João Lourenço ("o primeiro a receber o Prémio Revelação, pela sua interpretação em O Bem Amado", de Dias Gomes). "Os críticos resolveram, por maioria, não atribuir este ano prémios a autores e a encenadores, tendo em conta a relatividade dos valores revelados." Em contrapartida, "este ano, alargando o âmbito das suas atribuições, foi decidido criar também o Prémio Revelação, que pode não ser destinado a um estreante, mas àquele dos novos que tenha revelado o seu primeiro trabalho promissor".

"Há dez anos que, por iniciativa do falecido dr. Jorge Faria [1888-1960, que iria ser homenageado nesse mês pela Universidade de Coimbra, a quem cedeu o seu espólio e onde há agora o Instituto de Estudos Teatrais Dr. Jorge de Faria], os críticos teatrais de Lisboa se reúnem para conceder o Prémio da Crítica àqueles que, a seu ver, mais se distinguiram na época anterior, como autores, actores e encenadores."

A lista dos distinguidos nos anos anteriores: Amélia Rey Colaço, Eunice Muñoz (duas vezes), Laura Alves, Teresa Mota e Lurdes Norberto (interpretação feminina); Rogério Paulo, Pedro Lemos, Assis Pacheco, Erico Braga e José de Castro (interpretação masculina); Luís Francisco Rebelo, Bernardo Santareno e Romeu Correia (autores); Eugénio Salvador, Manuel Couto Viana, João Guedes e Paulo Renato (encenação).

"No decorrer do almoço [no restaurante Tavares Rico], o eng. Armando Ferreira, na sua qualidade de decano dos críticos, fez a entrega dos prémios, recordou pormenores da actividade dos críticos e dos criticados na época passada, lembrando ainda que se trabalha para dar aos prémios simbólicos - em pergaminho encadernado, com o nome do premiado e da peça em que se distinguiram e, ainda, as assinaturas dos que subscreveram a decisão de atribuição - significado mais amplo."

Obviamente que aos contemplados não restava outra saída que não fosse terem "palavras de cumprimentos para aqueles que os haviam elegido os melhores do ano".


FERNANDO MADAÍL, Diário de Notícias, 22 de Fevereiro de 2009

1 comentário:

pedro disse...

Esta capa é extraordinária