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segunda-feira, maio 11, 2015

Aldina Duarte - Romance(s) ou o audiobook de Maria do Rosário Pedreira interpretado por Aldina Duarte


O novo álbum de Aldina Duarte – ou será o primeiro audiobook de Aldina Duarte? – é uma daquelas criações de génio. Perfeito na escrita, perfeito na interpretação, perfeito na produção musical e estética.

Da primeira à décima quarta canção conta-se uma história escrita pela mão inconfundível de Maria do Rosário Pedreira. Tem todos os ingredientes que se espera numa narrativa fadista: um triângulo amoroso, com episódios de amor e desamor, a amizade, a inimizade, a tristeza, a alegria, quadros pitorescos de uma Lisboa (ou de um Portugal) que ainda existe e até uma doença que serve de (re)união entre uma loira e uma morena. A tensão e o interesse da história vão em crescendo. É impossível saltarmos uma faixa, porque ninguém salta um capítulo de um livro.

A interpretação de Aldina é fascinante… certeira. Tem um peso extraordinário quando a narrativa assim o exige, tem amor e carinho, tem rasgos de desespero e ironia sem fim (tão boa a faixa 5 – Fada (e podia ser Fado) do Lar ou a faixa 7 – O Recado).

Eu que andava já meio desgostoso com a falta de surpresas e da capacidade de me espantar com um disco fado, eis que chega estes Romance(s).
 
E como se não bastasse um espanto em forma de CD de Fado, eis que temos um segundo presente, um segundo CD, em forma… nem sei como caracterizar… “pop”, será? (eu sou muito mau em caracterizar géneros musicais). Mas eu explico.

O CD2 tem exactamente o mesmo alinhamento. É a mesma história mas contada de forma diferente. Não só por Aldina como por alguns convidados. Tem outra sonoridade, tem outra intensidade, tem o mesmo rasgo de genialidade musical.

Se o CD1 é intimista, para uma leitura auditiva solitária, o CD2 convida a uma jantarada, uns bons amigos e copos de vinho e play na aparelhagem para todos seguirem a história e vibrarem com ela.

Enfim, não digo mais. O entusiasmo é grande e as palavras faltam. Oiçam… leiam… dancem…

Poesia da melhor e interpretação superior num só disco. Já vai rareando.

Obrigado Aldina Duarte e Maria do Rosário Pedreira.

sexta-feira, maio 08, 2015

Amália no Mundo: Sinais de uma vida nos sulcos do vinil, de Ramiro Guiñazú




Podemos afirmar que um dos acontecimentos culturais que irão marcar o ano de 2015 em Portugal é, sem dúvida, o lançamento ao grande público da obra de Ramiro Guiñazú: Amália no Mundo – Sinais de uma vida nos sulcos do vinil, pela editora Tradisom.

Ramiro Guiñazú, argentino de nacionalidade, lisboeta por amor, empreendeu uma investigação longa e exaustiva sobre o suporte material que nos permite, e nos permitirá sempre, ouvir Amália Rodrigues: os discos.

O que Ramiro realizou foi uma impressionante recolha, nacional e internacional, de toda a obra discográfica de Amália Rodrigues, desde o seu primeiro disco de 1945 até ao álbum Obsessão, o último de Amália, de 1990, passando ainda por compilações, álbuns ao vivo, edições comemorativas, etc.

São centenas e centenas de edições e reedições lançadas em Portugal, França, Itália, Chile, Argentina, Espanha, Inglaterra, África do Sul, Japão e muitos outros países. São, acima de tudo, centenas e centenas de discos que fizeram de Amália Rodrigues a mais internacional, intuitiva, inteligente e aplaudida das nossas artistas. São centenas e centenas de razões para agradecermos aos céus o termos tido a sorte de ter estado entre nós uma Amália Rodrigues.

Todo o livro, que é, no fundo, um imenso catálogo, é acompanhado pela impressão dos discos transformando-o, também, num livro de história de arte (ou de estética) e imprescindível para percebermos, de forma intuitiva e bem explicada através dos textos de Ramiro, as opções discográficas e as tendências musicais que pautaram a longa carreira de Amália Rodrigues.

Os textos que acompanham cada um dos 14 capítulos são breves e certeiros para percebermos o contexto em que determinado disco – ou série de discos – foi editado. Não é, sublinho, um livro biográfico. É um livro sobre os discos editados de Amália Rodrigues. E é essa informação que nos é dada: o estúdio de gravação, o ano de gravação, o ano de edição (muitas vezes distante do ano de gravação), guitarristas que a acompanham, compositores, poetas, o fotógrafo da capa, etc. Por vezes, um ou outro apontamento curioso e algumas citações de imprensa.

Numa leitura seguida do livro podemos, por vezes, achá-lo repetitivo e até confuso. Mas esta impressão tem razão de ser pela forma como os capítulos foram desenhados e pela forma como foi estabelecida a sequência das edição dos discos. A ajudar, por vezes, à confusão, está o facto de muitas gravações serem realizados anos e anos antes da edição do disco. Mas, repito, estas são impressões que rapidamente percebemos que não têm fundamento e mostra-nos a maneira inteligente como todo o livro foi concebido.

Na minha opinião, este livro/catálogo não é para ser lido de uma assentada ou, se o fizermos – como eu fiz – rapidamente percebemos que cada capítulo é um capítulo, solto do anterior e do posterior, não se perdendo, contudo, a ideia de unidade e de fio condutor.

Uma coisa resulta clara: a enorme paixão, dedicação e investigação de Ramiro Guiñazú na recolha de toda esta informação. Estou certo que poucos artistas no mundo – passados ou presentes - se podem gabar de ter uma obra com estas características.

Depois da biografia de Vitor Pavão dos Santos e da sua recente compilação dos poemas cantados por Amália Rodrigues, do extraordinário documentário de Bruno de Almeida, do catálogo da exposição Amália: Coração Independente que esteve presente no CCB e Museu da Electricidade, esta obra Amália no Mundo: Sinais de uma vida nos sulcos do vinil era a contribuição que faltava, o valiosíssimo acrescento para a nossa consciencialização da verdadeira dimensão universal e única de Amália Rodrigues.

Uma nota final para dar os parabéns pela concepção gráfica do livro. Excelentes reproduções das capas dos discos, belíssimas cores, boa arrumação dos assuntos e nada confusa visualmente (que numa obra deste género seria fácil acontecer). A minha palavra de apreço aos designers gráficos.

Folhear este catálogo é, também, passar em revista mais de 50 anos da História da Música Portuguesa e Universal e é, sem sombra de dúvidas, virar de páginas aos mistérios de uma mulher que se fez imortal e que se ama incondicionalmente.

Ah... e podem folhear as 317 páginas do livro enquanto ouvem um dos dois cd's que o acompanham... só vantagens.











 

sábado, junho 02, 2012

Lavagem ao Ego - Portugal na Imprensa Estrangeira




Jornal I, edição de fim-de-seman - 02 de Junho de 2012

Guarde as imagens para conseguir ler.

terça-feira, julho 12, 2011

O dia em que eu... ofereci rosas a Amália Rodrigues [crónica de Rui Miguel Abreu]


Nesta crónica semanal, Rui Miguel Abreu recorda hoje o encontro com Amália Rodrigues. "Como poderia eu ser um mito se fui criada em Alcântara?", disse-lhe a lenda.

Na reta final de 1990, chegou à redação a notícia de que estaria para sair um novo álbum de Amália. À época, os meus gostos musicais oscilavam ao sabor de uma curiosidade que parecia ter o tamanho do mundo e que me permitia equilibrar De La Soul e Lou Reed, alguns primeiros e tímidos passos nos domínios do jazz, as vanguardas que passavam pela Gulbenkian e os GNR ou Mão Morta e Carlos Paredes... Na minha cabeça, havia mais pontos em comum entre todas essas coordenadas dispersas do que os compêndios revelavam. O meu radar, no entanto, não captava sinal algum vindo dos terrenos do fado que entendia ser a música dos meus pais e por isso mesmo algo a evitar a todo o custo.

Não consigo, por isso mesmo, recordar o que me levou a dar seguimento ao impulso de requerer uma entrevista com Amália Rodrigues, logo que a edição de Obsessão foi anunciada. Quando se abre uma revista como a BLITZ e se leem entrevistas com os Arctic Monkeys ou Bill Callahan ou José Mário Branco é importante perceber que nem sempre estas peças nascem de disponibilidades anunciadas pelas editoras. Muitas vezes, é do lado da redacão que nasce o desafio de ir ao encontro de alguns artistas e nem sempre esse desafio é coincidente com a agenda promocional.
 
 

A capa do jornal A Capital, de 19 de novembro de 1990

Lembro-me, no caso de Amália, que a EMI-Valentim de Carvalho não tinha na altura grandes acções de promoção planeadas e que a minha solicitação teve que ser submetida à aprovação da própria artista. Amália era no entanto uma pessoa extremamente aberta e generosa que só recusava entrevistas em caso de manifesta indisponibilidade - física ou emocional. Na entrevista de duas páginas, com direito a chamada de capa, que se publicou a 19 de Novembro de 1990, uma segunda-feira, e que agora fui reler, menciona-se como Amália ainda recebeu duas meninas de uma escola vizinha antes de se sentar na sala para responder às minhas perguntas. A maior estrela do nosso país vivia na Rua de São Bento e parecia manter as portas abertas por puro respeito a quem dela gostava. Muita coisa mudou desde então.

Escrevia eu que o fado não era declaradamente a minha praia. Continua a não ser. Mas uns anos antes desta entrevista, a devoção profunda de uma incrível figura pop nacional tinha-me despertado a curiosidade com uma leitura de "Povo que Lavas no Rio" que ainda hoje soa totalmente reverente e apaixonada. E talvez tenha sido essa a semente da vontade de entrevistar Amália. Lembro-me aliás da breve sintonia doméstica com os meus pais a propósito de António Variações que só se terá voltado a repetir musicalmente quando os Los Lobos vestiram a pele de Ritchie Valens e levaram "La Bamba" aos tops de todo o mundo. E se me é permitido o parêntesis, menos sucesso tiveram as tentativas de conversão dos meus pais com a valsa "Golden Brown" dos Stranglers (e tivesse eu entendido a letra na altura e nunca lhes teria mostrado a canção) ou as guitarras luminosas de "Cemetery Gates" dos Smiths... Amália, no entanto, ficaria a partir daqui um fascínio comum.

Fiz alguma cerimónia com esta entrevista. Antes de me dirigir com o fotógrafo António José à casa de Amália Rodrigues em São Bento, passei numa pequena florista do Chiado e comprei rosas para oferecer à cantora. Um gesto que não voltei a repetir com qualquer outro artista que tenha entrevistado, mas que me pareceu perfeitamente natural naquele momento. O fado podia não ser a minha praia, mas isso não me impedia de ter uma noção clara da grandiosidade da artista que me preparava para entrevistar. Na peça que agora reli, não poupei nas palavras e comecei logo por comparar Amália a um "mito vivo". A resposta da mulher de Com Que Voz foi extraordinária: "Como poderia eu ser um mito se fui criada em Alcântara?" De facto...

A entrevista está cheia de frases extraordinárias, cada uma delas um título em potência, provas de uma sabedoria profunda e de um discurso de autenticidade que só muito raramente encontrei noutros artistas portugueses. JP Simões ou Rui Reininho conseguem também ter essa profusão de ideias impressas em frases que por vezes têm a espessura de tratados, mas que são só meia dúzia de palavras atiradas ao vento. Outros artistas, igualmente inteligentes, precisam por vezes de uma entrevista inteira para fazer valer um ponto. Mas Amália tinha essa relação de profundo respeito pelas palavras que nasciam dentro dela como a água numa fonte: puras e inalteradas por qualquer pose, programa ou estratégia.

Pouco tempo depois desta entrevista, Amália cantou na Adega Machado, vizinha no Bairro Alto da redacção d'A Capital, e imagino que terá sido uma das últimas vezes que se apresentou numa casa de fados. Ao longo dos anos, esse é um dos três ou quatro concertos que tenho usado para desarmar amigos mais novos quando começamos com aqueles "duelos" amigáveis do "eu já vi x ao vivo e tu?". Normalmente, Tom Waits, Velvet Underground e Nirvana são golpes duros para os meus opositores nesses duelos, mas "Amália numa casa de fados do Bairro Alto" costuma ser uma estocada a que muito dificilmente se responde...

Houve uma frase que Amália proferiu nesta entrevista e que eu gravei na minha memória. Mais de duas décadas passadas, tinha dúvidas sobre se o tempo me teria levado a arredondar a frase, a alterá-la de alguma maneira, porque o tempo faz dessas coisas: tanto encaixa as memórias na nossa vida como o contrário e às vezes recordamos coisas não como elas aconteceram, mas como gostaríamos que tivessem acontecido. Recordava que Amália, apontando para um retrato que tinha na sua sala, me tinha dito que os olhos daquela pintura não eram os seus, mas os do fado. Vinte anos passados, o arquivo digital d'A Capital revela-me que a minha memória preservou a verdade dessa frase: "Como vê, aqueles olhos são os da cara, mas o olhar, esse é o da alma. Tenho olhos de fado". E por isso é que tenho tantas dificuldades em gostar de outra fadista como gosto de Amália.

Crónica de Rui Miguel Abreu

quarta-feira, julho 21, 2010

Nós, Leitores, e o Encerramento da Biblioteca Nacional


O meu querido amigo Paulo Silveira e Sousa, juntamente com duas das maiores figuras da intelligenza nacional - Maria de Fátima Bonifácio e Maria Filomena Mónica -, redigiram uma carta onde contestam o encerramento por nove meses da Biblioteca Nacional e a inexpilcável falta de alternativas. Publicado no Diário de Notícias no sábado, 17 de Julho de 2010, o texto contesta algumas notícias e artigos que atribuíam a parte da comunidade científica portuguesa uma teimosa oposição às obras de construção e renovação dos depósitos da Biblioteca Nacional. Todavia, não é o caso.

"Nós, Leitores, e o Encerramento da Biblioteca Nacional

Após várias notícias e artigos publicados na imprensa relativos ao encerramento dos serviços de leitura da Biblioteca Nacional (BN), gostaríamos de destruir algumas ideias atribuídas aos investigadores que questionaram o processo de encerramento da BN. É, entre nós, consensual que as obras de ampliação e remodelação da BN são necessárias. Sabemos que, ao reabrir, a 1 de Setembro de 2011, a instituição reunirá melhores condições para responder às solicitações. O problema diz respeito à forma como foi planeado o seu encerramento. Quem abaixo assina está contra o fecho, por cerca de dez meses, da totalidade do fundo da Sala de Leitura Geral e não, naturalmente, contra as obras de requalificação.
Dizer o contrário é faltar à verdade. A apresentação dogmática de uma, e apenas uma, forma de proceder à transferência dos fundos, como se não houvesse alternativa, merece objecção. A nosso ver, a condução do processo negligenciou os leitores e o facto, importante, de a BN prestar um serviço público. Por exemplo, hospitais e aeroportos são, igualmente, remodelados, todavia não encerram. Por outro lado, há, no estrangeiro, exemplos de outras bibliotecas que migram para edifícios novos, fechando por partes ou durante períodos curtíssimos. Veja-se o caso da British Library, em Londres, ou da Bibliothèque Nationale de France, em Paris.
As notícias e os artigos de opinião publicados tendem a descrever os signatários do abaixo-assinado, recentemente organizado contra o encerramento da BN, como uma casta de privilegiados, ainda por cima birrentos, que não querem ver alterados os seus hábitos de trabalho. Ora, muitos de nós trabalham em várias bibliotecas e arquivos, em Portugal e no estrangeiro, e não apenas na BN. Sabemos do que falamos.
Ao contrário do que afirma a sub-directora da BN, a investigação científica em Portugal vai ser prejudicada, sobretudo nas áreas da História e das Ciências Sociais. Para além de periódicos, o fundo da Sala de Leitura Geral inclui títulos do século XVI ao século XXI. Todos os investigadores serão afectados, e não apenas os que trabalham sobre períodos mais recentes. A doutora Maria Inês Cordeiro pode não conhecer a Hemeroteca Municipal ou a Biblioteca do Palácio Galveias, mas nós sabemos onde ficam e as deficiências que apresentam. Do mesmo modo, pode desconhecer as formas misteriosas como funciona o Depósito Legal (uma obrigação criminosamente esquecida por empresas tipográficas, editoras e autores), mas os investigadores constatam diariamente a ausência de livros, antigos e recentes, que deveriam constar nos fundos das Bibliotecas. Por isso, quando a sub-directora da BN afirma que «há excelentes bibliotecas públicas e universitárias», só podemos interrogar há quanto tempo a doutora Maria Inês Cordeiro não vai - como leitora, naturalmente - a uma dessas “excelentes bibliotecas”, que infelizmente não chegam a contar-se pelos dedos de uma mão.
Se a sub-directora da BN é perita nos labirintos bibliotecários e nós uns ignorantes leitores, diga-nos, por favor, qual a percentagem de obras que apenas existem na BN e às quais o acesso irá portanto ficar vedado e, já agora, qual a percentagem do fundo que existe igualmente em Coimbra ou no Porto (locais para onde os funcionários da BN nos irão, presume-se, reencaminhar). E quem fala de livros, fala de periódicos, uma área onde a incúria nacional é escandalosa. Seriam estas as interrogações que deveriam ter sido atendidas pela direcção da BN, antes de ter decidido o fecho.
Desde há décadas que os decisores políticos têm tratado o sector das bibliotecas e arquivos com negligência. As chamadas «ciências documentais» apenas vieram reforçar a gestão burocrática que substituiu uma direcção assegurada por quem tem formação humanista. Pessoas há, como a doutora Isabel Pires de Lima, ex-ministra da Cultura, que consideram que tudo se resolve com mais cimento e que, provavelmente com sinceridade, julgam que os críticos são velhos que resistem ao maravilhoso mundo do investimento público (DN de 14.07.2010).
Não é esse o caso: queremos, desejamos, obras na BN, incluindo naturalmente locais adequados à preservação dos livros e manuscritos. Mas o processo de reestruturação seguido não é aceitável. Não tendo experiência directa de trabalho nestes locais, a doutora Isabel Pires de Lima deveria ter-se informado do que a BN contém. Em vez disso, limitou-se a fazer um frete político, afirmando que o movimento de crítica - aliás reduzido a um abaixo-assinado – mais não era de uma conspiração de «bloquistas», para mais, alfacinhas.
Este ódio ao Bloco de Esquerda – de que nenhum dos signatários é membro - é um assunto que os apoiantes do Partido Socialista têm de resolver com os respectivos psicanalistas.
Para nós, trata-se apenas de não impedir que a investigação em Portugal prossiga durante um tempo insuportavelmente longo. Ao contrário do que parece supor a Doutora Isabel Pires de Lima, frequentamos as bibliotecas e os arquivos de Lisboa, Porto, Coimbra, Évora e Ponta Delgada. Congratulamo-nos até com o facto de os interesses intelectuais da doutora Isabel Pires de Lima (a hermenêutica da poesia de Fradique Mendes e os versos «fosforescentes» de Eugénio de Andrade) estarem disponíveis em edições correntes, eximindo-a de frequentar as salas de leitura da BN.
Outro argumento falacioso, repetido nos jornais, prende-se com a Biblioteca Vaticana, fechada há vários anos. Este facto foi referido pela sub-directora, doutora Maria Inês Cordeiro, numa notícia que saiu no Público (25.06.2010). Não vale a pena entrar na discussão sobre as especificidades do Estado do Vaticano, mas gostaríamos de lembrar que em Roma, onde fica o dito Estado, existe aberta, e em funcionamento, a Biblioteca Nazionale Centrale di Roma. Ou seja, quem vive em Roma ou em Itália tem alternativa.
Nota-se, na forma como foi anunciado o encerramento, o desprezo pelos leitores. A BN nem sequer projectou a criação de uma sala provisória que pudesse acolher os pedidos de quem tem prazos académicos, financiamentos de projectos aprovados ou livros a entregar a editoras. Curiosamente, esse espaço existe: a antiga sala dos periódicos e o espaço da antiga livraria, ambos desactivados, poderiam servir para tal. Se a BN sabe que os pisos com mais pedidos são o 3.º, 4.º e 5.º, porque não foi previsto, para estes, um fecho por um período curto? Mais, se sabia, pelos vistos há anos, que iria ocorrer um longo período de encerramento (a obra foi adjudicada em 2008), porque não intensificou a digitalização das obras fundamentais?
Na década de 1990, quando o Arquivo Nacional da Torre do Tombo mudou do Parlamento para o Campo Grande, ouviu os seus leitores, pelo que tudo correu de forma aceitável. Quando a BN mudou de São Francisco para o Campo Grande, em 1969, a transferência demorou seis meses. Agora, a BN não estudou uma alternativa, porque não tem peso político, porque ninguém quer saber do que se passa nas bibliotecas e porque o Ministério da Cultura não previu a verba que permitiria acelerar o processo. Sem dinheiro, a BN teve de planear tudo da forma mais barata possível, imaginando que os leitores – que, pela sua natureza, são pouco dados a revoltas – não seriam capazes de contestar. Enganaram-se.

Lisboa, 15 de Julho de 2010

Maria Filomena Mónica
Maria de Fátima Bonifácio
Paulo Silveira e Sousa"

segunda-feira, maio 24, 2010

Amor com Amor se Paga (Um Acto Teatral Para Mário Viegas)



Na passada sexta-feira estreou na Companhia Teatral do Chiado mais uma produção teatral levada a cena no Teatro Estúdio Mário Viegas. Mas esta não é uma estreia como as outras. É, acima de tudo, a homenagem de um amigo a outro amigo através da palavra, do corpo, da voz e do vinho: audição, tacto, visão, paladar e olfacto. Tudo está presente… mais o Amor.

Amor com Amor se Paga (Um acto teatral para Mário Viegas) é, antes de mais, a forma como Juvenal Garçês (co-fundador com Mário Viegas da Companhia Teatral do Chiado e encenador deste espectáculo) se lembra de Mário Viegas e do modo como este via e queria o Teatro. E só um grande amigo (o melhor amigo) nos poderia mostrar a sensibilidade, o humanismo, a loucura sã da comédia e da tragédia do outro.

Ver este espectáculo é abrir um Diário pessoal de emoções e recordações… ver este espectáculo é participar num acto de generosidade e de partilha.

Amor com Amor se Paga (Um acto teatral para Mário Viegas) compõe-se de um conjunto de actos teatrais de Anton Tchékhov (O Pedido de Casamento, A gaivota e A Corista), August Strindberg (O Sonho), Henrik Ibsen (uma frase) e Karl Valentin (O Chapeleiro, O Aquário e Vende-se Casa) e de um poema de Mário Cesariny (You are welcome to Elsinor). Os contos são traduzidos e adaptados pelo próprio Mário Viegas e Manuela de Freitas.

Do elenco fazem parte Alexandra Sargento (belissimas representações no Pedido de Casamento, Corista e Chapeleiro, detentora de uma mimica facial poderosa), Emanuel Arada (“transformista” na Corista, cómico no Chapeleiro e emocionante na cena final), João Carracedo (um noivo inesperado em Pedido de Casamento, um extraordinário explicado em Aquário e um imobiliário notável em Vende-se a Casa) e Manuela Cassola (a quem cabe a mais surpreendente cena de todo o espectáculo, de uma inspiradora - ou inspirada? - beleza estética visual e auditiva e de uma sensiblidade comovente, apanágio, aliás, de Juvenal Garcês).

Amor com Amor se Paga (Um acto teatral para Mário Viegas) é irresistível. Obrigatório. Absurdo. Riso. Absoluto. Canto. Choro. Completo. Aplauso. Respiração. Cortante. Emocionante. Juvial. Juvenal. Maior. Mário.

Interpretação: Alexandra Sargento, Emanuel Arada, João Carracedo, Manuela Cassola
Encenação: Juvenal Garcês
Escolha de Figurinos: Luciano Cavaco
Assistência de Encenação: Aritz Bengoa
Contra-Regra: Aritz Bengoa
Produção: Companhia Teatral do Chiado
Direcção de Produção: Luís Macedo
Marketing e Comunicação: Nuno Santos
Responsável de Bilheteira: Duarte Nuno Vasconcellos
Bilheteira: Ana Filipa Neves, Joana Barreto
Gestão de conteúdos da página na internet: Duarte Nuno Vasconcellos

Local: Teatro-Estúdio Mário Viegas
Em cena de 2010-05-20 a 2010-06-25
Horário: Sextas às 22h

terça-feira, janeiro 26, 2010

Wake up and sleep...



Todos os dias são iguais a outros dias. Tirando o fim-de-semana que é sempre igual a outros fins-de-semana.

Acorda pelas 8.30 horas. Mas não se levanta. Fica no quente dos lençóis meia hora, pedindo que o dia de hoje seja diferente aos outros dias sempre iguais.

Levanta-se finalmente às 9 horas. Veste o roupão. Passa pela casa de banho. Entra. Sai. Vai à sala, liga o computador, olha pela janela. O mesmo prédio em frente, com as mesmas persianas fechadas, excepção das que estão já levantadas. O mesmo jardim com a mesma igreja. Tudo igual, como num filme em pause.

Dirige-se à cozinha. O mesmo ritual de sempre. Água na chaleira para um chá preto. Um pão trazido pelo padeiro logo de manhãzinha com Becel Pro-Active, um iogurte de soja de morango porque a lactose, como outras coisas na sua vida, não tolera. A água ferve. Num copo alto de plástico amarelo mete o saco do chá, entorna a água e espera… espera que água cristalina se transforme em líquido acastanhado cafeínizado. Duas colheres e meia de açúcar. E pensa sempre: “não vou beber este copázio todo de chá”…

Pega em tudo e vai, como sempre, até ao computador que está na sala de jantar… ou será antes sala de computar? Jantares na sala são poucos… computação é bastante… sala de jantar computadora… assim é mais verdadeiro.

Dá a primeira mordidela no pão. Vê o e-mail. Nada de novo. Uma fotografia sem interesse, uns quantos anúncios de emprego que não o empregam, dois spams e, na lixeira, uns cinco e-mails de enlarge your penis ou get free V.I.A.G.R.A. Quanta preocupação fálica neste mundo. Chega a ficar comovido… mas não traumatizado. Primeiro gole no chá, primeira queimadela na língua. “Não vou beber este chá todo”, pensou.

Entra nas redes sociais. O moribundo HI5… o enérgico Facebook… viu as mensagens que tinha, jogou os jogos que o entretêm fastidiosamente. Abre o iogurte. Come o iogurte. Vai à janela e fuma um cigarro. “Como são boas as tonturas do primeiro cigarro do dia”, e ri-se.

Volta ao quarto e escolhe a roupa que cuidadosamente estende em cima da cama. E mais um cigarro, desta vez noutra janela, com outra vista. Prédios de lado e em frente e o Tejo a reflectir o Sol. Volta para dentro, vai à casa de banho, liga o aquecedor, põe a toalha sobre o banco, abre a água quente da banheira. Seguidamente despe-se, entra na banheira e injecta-se de água escaldante. “Fosse a vida sempre líquida e quente e seria tudo tão bom, tão fácil”, reflecte.

Após secar-se freneticamente com a toalha, veste os boxers ainda na casa de banho e sai maldizendo o frio até ao seu quarto. Atira a toalha para as cordas da roupa e… PAUSA… tudo se suspende porque nesse instante podem existir dois momentos instantes distintos: ou cai a toalha no chão, obrigando-o a ir até à varanda, dobrar-se, apanhar a toalha e estendê-la como deveria ser ou, se tiver sorte (“as coisas estúpidas para onde a sorte é chamada”, filosofa), a toalha fica nas cordas e tudo segue o seu ritmo normal.

Findo qualquer um destes instantes, o momento seguinte nunca é distinto. Volta para junto da cama, veste primeiro as meias, depois as calças, depois a t-shirt, ao mesmo tempo os sapatos e por fim a malha. Frente ao espelho ajeita o mal jeito do cabelo.

De novo na sala de jantar computadora pressiona F5, tudo faz refresh… tudo menos ele… uma ou outra coisa nova no ecrã, ou talvez não. Seja como for é indiferente. Volta ele para a janela, novo cigarro acesso e pensa: “Pronto, está tudo. E agora?”

quarta-feira, novembro 18, 2009

Dias Cinzentos



Os dias cinzentos são menos dias porque mais escuros. Os dias cinzentos são noites longas, nostálgicas e melancólicas.
Tudo é feito num ritmo lento, arrastado. Até os pensamentos nos surgem em leves brisas ou como vagas de maré baixa que trazem consigo saudades de tempos passados, barcos afundados de antigas memórias, pescadores mortos de outras férias de Verão.
Nos dias cinzentos as casas decoram-se de sombras esbatidas, imperceptíveis. As pratas cinzentas como o dia, não brilham. Os quadros envergonham-se das cores, os sorrisos de outros em fotografias parece que se fecham.
Nos dias cinzentos ficamos mais sós, ainda mais sós do que em dias de Sol a sós.
Nos dias cinzentos visto-me de cor alegre, prolongo as horas de luz em mim e espero a noite, tranquilamente.

sábado, novembro 14, 2009

Teatro - A Dama de Copas e o Rei de Cuba - Companhia Teatral do Chiado



A Companhia Teatral do Chiado, residente no Teatro Estúdio Mário Viegas - Lisboa, estreou na passada Quinta-Feira, 12 de Novembro, a sua mais recente produção: A Dama de Copas e o Rei de Cuba, do sociólogo brasileiro Timochenco Whebi.

Juvenal Garcês - Director da CTC e encenador deste espectáculo - no seu breve discurso de estreia desta peça, referiu que a mesma é o pontapé de saída para a comemoração dos 20 anos da Companhia Teatral do Chiado e que a escolha deste texto não foi inocente. Timochenco Whebi, falecido há uns anos, foi grande amigo de Mário Viegas que nunca teve a oportunidade de encenar uma peça do amigo do "país irmão". Esta era a altura ideal. E a oportunidade de levar à cena um texto em lingua portuguesa.

Juvenal Garcês teve ainda a oportunidade de referir que esta peça foi levada à cena em Portugal, pela mão de Raul Solnado, no dia 22 de Abril de 1974. Três dias depois deu-se a Revolução dos Cravos e a oportunidade do êxito esfumou-se.

E o que dizer desta peça? Tiro certeiro, escolha acertada. Trata-se de um grande texto, escrito para uma realidade das favelas brasileiras mas aqui com uma excelente adaptação à realidade popular portuguesa, realidade popular citadina.

Três personagens muito bem construidas e conseguidas, quer na consistência quer na interpretação - Alexandra Sargento (Zinha), Cristina Basílio (Tita) e Pedro Saavedra (Avelino).
A acção desenrola-se num qualquer quarto de uma qualquer pensão da cidade de Lisboa, onde habitam duas personagens muito diversas mas com um ponto em comum - a solidão e a tentativa de fuga da mesma. Carlos Porto, critico de teatro, quando da estreia em 1974, referiu que esta peça era uma "comédia amarga". Nada mais certo. O segundo acto é, em certas cenas, altamente triste e comovedor.

São duas personagens femininas antagónicas, onde o cordeiro em pele de lobo (e vice-versa) assenta que nem uma luva.

O cenário é irrepreensível, onde as diferenças entre as personagens se notam até no mobiliário.

A escolha musical, apanágio aliás de qualquer encenação de Juvenal Garcês é comovedora e acertada. Amália Rodrigues, com "Formiguinha Bossa Nova" dá o arranque.

A encenação de Juvenal Garcês não apresenta uma única falha e, aqui, a sua imaginação e "sexto sentido" revela-se ao mais alto grau do bom-gosto e da inteligência, nunca caindo no óbvio e no brejeiro, caminho que seria de todo errado mas o mais fácil para o texto em questão.

As referências ao imaginário religioso português - como, não tenho dúvidas, no brasileiro - são uma constante na peça. Quer na referência à Procissão da Senhora da Saúde, quer no sonho de Zinha (onde uma Nossa Senhora aparece - cena de teatro brilhante), ou ainda, no final da peça, na Pieta de Zinha com Avelino (momento de celebração do Kitsch e de um certo imaginário Pierre Et Gilles).

O momento que elejo dos mais comoventes ao longo da peça, foi quando Tita abre uma caixinha de música e põe-se a danças ao som da música. Essa caixinha havia sido já usada por Lia Gama na peça que inaugurou a nova e bonita sala do Teatro Estúdio Mário Viegas - Oh Que Ricos Dias. Inocente ou não, esta caixinha de música marca uma nova etapa da Companhia Teatral do Chiado e do próprio Teatro em Portugal.

Só posso reforçar a escolha acertada de Juvenal Garcês, a sua encenação, os cenário e figurinos, a interpretação das actrizes. O extraordinário texto.

Parabéns Juvenal Garcês e a toda a Companhia Teatral do Chiado por este trabalho e pelos extraordinários 20 anos a encantar Portugal com o que de melhor se faz em Teatro.

Não percam esta peça: Quintas, Sextas e Sábados, às 21 horas, no Largo do Picadeiro, Chiado, Lisboa - Companhia Teatral do Chiado - Teatro Estúdio Mário Viegas

Interpretação: Alexandra Sargento, Cristina Basílio, Pedro Saavedra
Encenação: Juvenal Garcês
Adaptação: Juvenal Garcês, Luciano Cavaco
Cenografia: Luciano Cavaco
Figurinos: Luciano Cavaco
Desenho de Luz: Vasco Letria
Sonoplastia: Sérgio Silva
Assistência de Encenação: Aritz Bengoa
Contra-Regra: Aritz Bengoa
Produção: Companhia Teatral do Chiado
Direcção de Produção: Luís Macedo
Marketing e Comunicação: Nuno Santos
Responsável de Bilheteira: Duarte Nuno Vasconcelos
Bilheteira: Ana Filipa Neves, Joana Barreto
Gestão de conteúdos da página na internet: Duarte Nuno Vasconcelos

sábado, fevereiro 21, 2009

Intérpretes de Shakespeare e de Dias Gomes


Teatro. Em Fevereiro de 1965 eram entregues os Prémios da Crítica aos actores Mariana Rey-Monteiro, Rui de Carvalho e João Lourenço. Em contrapartida, os críticos não distinguiam nenhum autor nem nenhum encenador

Sentavam-se na mesma mesa do restaurante os críticos dos jornais salazaristas e dos oposicionistas

Os salazaristas convictos liam o Diário da Manhã, o Novidades e A Voz; os oposicionistas ao regime compravam o República e o Diário de Lisboa; os indiferentes dividiam-se entre o Diário de Notícias e O Século, o Diário Popular e o Jornal do Comércio. Mas os críticos teatrais de Lisboa, como se pode ler no DN de 9 de Fevereiro de 1965, entendiam-se entre si ao ponto de pensarem formar um Clube dos Críticos, "com o fim de se constituírem em entidade juridicamente responsável, fortalecendo ainda a sua posição de autoridade e criando meios de enriquecimento intelectual entre os novos valores que surjam".

A proposta era referida pelo representante do Diário de Lisboa no almoço em que eram entregues os prémios a Mariana Rey-Monteiro ("que, deste modo, reúne pela terceira vez a maioria de votos da Crítica, agora pelo seu desempenho na peça de Valle -Inclan, as Divinas Palavras"), a Rui de Carvalho ("que reuniu, também pela segunda vez, a maioria de votos e que, este ano, foi distinguido pelo seu trabalho na comédia de Shakespeare Dente por Dente"); e a João Lourenço ("o primeiro a receber o Prémio Revelação, pela sua interpretação em O Bem Amado", de Dias Gomes). "Os críticos resolveram, por maioria, não atribuir este ano prémios a autores e a encenadores, tendo em conta a relatividade dos valores revelados." Em contrapartida, "este ano, alargando o âmbito das suas atribuições, foi decidido criar também o Prémio Revelação, que pode não ser destinado a um estreante, mas àquele dos novos que tenha revelado o seu primeiro trabalho promissor".

"Há dez anos que, por iniciativa do falecido dr. Jorge Faria [1888-1960, que iria ser homenageado nesse mês pela Universidade de Coimbra, a quem cedeu o seu espólio e onde há agora o Instituto de Estudos Teatrais Dr. Jorge de Faria], os críticos teatrais de Lisboa se reúnem para conceder o Prémio da Crítica àqueles que, a seu ver, mais se distinguiram na época anterior, como autores, actores e encenadores."

A lista dos distinguidos nos anos anteriores: Amélia Rey Colaço, Eunice Muñoz (duas vezes), Laura Alves, Teresa Mota e Lurdes Norberto (interpretação feminina); Rogério Paulo, Pedro Lemos, Assis Pacheco, Erico Braga e José de Castro (interpretação masculina); Luís Francisco Rebelo, Bernardo Santareno e Romeu Correia (autores); Eugénio Salvador, Manuel Couto Viana, João Guedes e Paulo Renato (encenação).

"No decorrer do almoço [no restaurante Tavares Rico], o eng. Armando Ferreira, na sua qualidade de decano dos críticos, fez a entrega dos prémios, recordou pormenores da actividade dos críticos e dos criticados na época passada, lembrando ainda que se trabalha para dar aos prémios simbólicos - em pergaminho encadernado, com o nome do premiado e da peça em que se distinguiram e, ainda, as assinaturas dos que subscreveram a decisão de atribuição - significado mais amplo."

Obviamente que aos contemplados não restava outra saída que não fosse terem "palavras de cumprimentos para aqueles que os haviam elegido os melhores do ano".


FERNANDO MADAÍL, Diário de Notícias, 22 de Fevereiro de 2009

quinta-feira, fevereiro 12, 2009

quarta-feira, fevereiro 11, 2009

TRAGÉDIA ENTRE MUITAS PALAVRAS

Eluana Englaro morreu. Ela estava em coma profundo há 17 anos, depois de um acidente de automóvel. O pai de Eluana pediu ao tribunal autorização para que a filha pudesse morrer em paz. Em Novembro passado, a autorização foi dada. O pai levou Eluana para uma clínica, onde se lhe garantia uma morte sem dor. A Itália dividiu-se. O Governo e a Igreja opuseram-se à morte, e o Presidente Giorgio Napolitano apoiou a decisão do tribunal. Ontem, o jornal Repubblica publicava o testemunho de uma jornalista que entrou no quarto de Eluana, no domingo: "É devastador vê-la." Um corpo em estado vegetativo desde 1992. Na impossibilidade, por lei, de lhe propiciarem activamente a morte, cortaram a água e a alimentação e Eluana morreu na segunda-feira. Uma tragédia entre muitas palavras. A Itália comoveu-se muito mas não vai mudar nada. Eluana morreu no limite do respeito do Estado. E este só se transforma quando alguém, com justiça, lhe faz ver que aquilo que não pode ser, não pode mesmo ser. Eluana devia ter tido direito a morrer mais rapidamente e não na indignidade de lhe tirarem pão e água.

Ferreira Fernandes - Diário de Notícias, 11 de Fevereiro de 2009

terça-feira, janeiro 20, 2009

As multidões e eu...

Há qualquer coisa no fenómeno de massas que me emociona. Muita gente por um mesmo propósito, seja ele qual for.
Um jogo de futebol apinhado de gente, o rio de luzes trémulas da Procissão das Velas de Fátima, um concerto com público em delírio ou uma nação presente para receber um novo presidente ou homenagear alguém querido (lembremo-nos, por exemplo, do funeral de Amália Rodrigues), são imagens mais do que suficientes para me emocionarem.
Até o desfile do 1º Maio último – o único a que fui – serviu para que a voz me faltasse em soluços e me tivesse de controlar para que as lágrimas não me escorressem pela cara.
Estranho fenómeno este em mim. Eu que odeio, temo e não me meto em multidões.