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quarta-feira, dezembro 21, 2005


Maria Rattazzi sobre o Teatro de São Carlos
(1876 - 1879)
"(...) Eis-nos, pois, no teatro. É realmente um teatro ou um botequim? O que é certo é que, desde as portas que dão ingresso para a sala, em qualquer parte do edifício, do fundo dos mais obscuros recantos até ao telhado, S. Carlos é uma vasta loja de bebidas: corredores, salas, gabinetes, bastidores, escadas, estão pejados de fumantes e de fumo. Há uma ordem que proíbe fumar no interior do teatro; mas o que é uma ordem em face do costume? Visto que toda a gente transgride, porque toda a gente tem razão. As proibições, em Portugal, são escritas ora em pergaminho, ora na película de uma cebola. Umas ficam, outras leva-as o vento. A que proíbe fumar, é das últimas. E contudo, nada mais acertado e justo, não é verdade? Pois tende o bom senso de não o dizer. Desfechar-vos-iam uma gargalhada no nariz.
Um dia, por ocasião de ir ver o palco, notando que toda a gente andava de cigarro ou charuto na boca, um dos meus compatriotas, o sr. X..., teve a audácia de manifestar algumas apreensões a propósito da possibilidade de um incêndio; eventualidade muito possivel, dado o estado do material e dos aparelhos que, pela sua vetustez, equivalem a um vasto montão de matérias inflamáveis. Pois estas reflexões foram repelidas da maneira mais original.
- A sua Ópera de Paris - respondeu-se-lhe -, a sua Ópera onde era proibido fumar, e onde se não fuma, ardeu; o nosso S. Carlos é incombustível; a sua glória preserva-o do incêndio!
Que responder a semelhante argumento?
Há ainda outras razões que se poderiam invocar com sobejos motivos.
Sabido é que o fumo do tabaco incomoda os estrangeiros e mesmo os nacionais, e que há muitas pessoas que se privam do prazer da música para não correrem o risco de ser asfixiadas. É frequente ouvir queixaram-se cantores e cantoras, de não somenos reputação, de que são fumados, como presuntos da Vestfália, antes de entrar em cena. Eis o que se lhe responde:
- É costume! O Tejo pode secar ou desviar-se da corrente, mas o costume é inflexível.
Conversava, uma vez, a respeito destes inconvenientes, num camarote, com uma encantadora portuguesa, esposa de um diplomata espanhol, senhora de bastante espírito.
- É abominável, mas verdadeiro, dizia ela; odeio o cheiro acre e nauseabundo que os nossos fumantes largam nos corredores e que se respira por todos os lados. É preciso contudo resignar-me, e só começarei a queixar-me no dia... - naturalmente prestes a raiar - em que se mascar tabaco e se salivar sobre a cabeça do próximo, como na América.
Não resta mais nenhum traço a dar neste quadro de usos e costumes.
Pode ler-se, nos bastidores de S. Carlos, escritos em letras de quinze centímetros de alto, cinco ou seis avisos, do seguinte teor literal: É EXPRESSAMENTE PROIBIDO FUMAR NO PALCO."

terça-feira, agosto 02, 2005

Maria Rattazzi - Portugal de Relance - Carta Décima Quinta - Continuação

"Além dos inconvenientes que resultam deste estado de coisas para a higiene particular, outros existem atentatórios da salubridade pública. As nascentes exaustas não dão aos chafarizes água bastante para refrescar a atmosfera e expurgá-la dos miasmas perigosos; as sarjetas, não recebendo gota de água, deixam acumular nos canos toda a imundície da cidade, o que torna alguns bairros inabitáveis. Outra ocorrência gravíssima: sempre que no estio se manifesta um incêndio, os bombeiros (corporação admiravelmente organizada, diga-se a verdade) não encontram um metro cúbico de água nos canos da companhia para extinguir o fogo; sendo necessário abater e demolir para cortar comunicações.
De todas estas anomalias resultam consequências deploráveis e que se poderiam evitar empregando medidas energéticas. Mas os que deviam falar calam-se, e o povo português deixa-se esfolar sem protesto. A companhia não se apressa na execução dos trabalhos e a população, as ruas, os canos e as bombas continuam a morrer à mingua de água. Parece, à primeira vista, que o governo e a câmara municipal deviam patrocinar a causa dos contribuintes. Mas nada disto sucede. Corre em Lisboa, a tal respeito, um boato que não referirei para não me tomarem por maldizente...
Se o país passa, às vezes, cinco, seis e mesmo sete meses sem absorver um pingo de chuva, em compensação chove torrencialmente duranto o Inverno, segundo me afirmaram. Não é a chuva como a conhecemos em França; mas sim jorros de água que se despenham em torrentes caudalosas, inundando a cidade e prolongando-se por espaço de muitos dias consecutivos. Não sabem então os habitantes onde hão-de ir abrigar-se, em consequência da humidade das casas onde nem sequer existe um fogão para combater as intempéries da temperatura; podendo considerar-se felizes quando o Inverno lhes deixa apenas uma grande constipação ou algumas dores reumáticas. A maior parte das casas em Lisboa não têm goteiras; a água que cai nos telhados escorre daí para a rua e sabe Deus de que maneira! Às vezes assemelham-se a catadupas enormes jorrando nos passeios, não bastando o guarda-chuva para nos abrigar. Quem tiver de sair em semelhante ocasião deverá resignar-se a caminhar pelo meio da rua.
Acabemos de vez com esta resenha, um pouco humorística talvez, mas que tem um grande fundo de verdade.
Montesquieu admirou os canos de Roma, construídos no tempo de Tarquínio, e foi a seu propósito que escreveu a magnífica antítese: "Já se começava a edificar a cidade eterna." Lisboa está muito longe daqueles tempos primitivos. Os canos da capital portuguesa só se podem comparar aos de Tarquínio... em não serem modernos. A sua construção pertence efectivamente a uma época bastante remota. Poder-se-ia julgar que foram construídos por um povo bárbaro, tão deficiente é a sua execução e o plano a que estão subordinados. Toda a cidade baixa, edificada sobre o Tejo, acha-se ao nível do rio; os alicerces das casas chegam a estar abaixo desse nível. Os canos da cidade alta ramificam-se com os da cidade baixa e estes últimos desaguam no Tejo, se acaso o Tejo se digna recebê-los. De facto, quando a maré sobre não só tapa a abertura dos canos como os enche, impelindo muito mais para dentro as imundíces e putrefacções; quando desce a maré o plano dos canos na cidade baixa não chega a ser tão inclinado como é necessário para arrastar o que já têm e o que lhes traz a cidade alta; o que podem conduzir deposita-se nas margens do rio, onde, facilmente se imagina, exalam emanações desagradabilíssimas." - Continua.

domingo, junho 26, 2005

Maria Rattazzi - Portugal de Relance - Carta Décima Quinta - Continuação

"Começaram em eras remotas a aproveitar os trabalhos executados pelos mouros, que foram os primeiros canalizadores do mundo e os mais hábeis hidrófilos. Depois, no século passado, fizeram novos trabalhos e por último o governo concedeu, há alguns anos, a uma companhia a concessão do fornecimento de águas da cidade. Ignoro em que condições se realizou este contrato. Mas suponho que não se estabeleceram regras bastante severas, ou antes, segundo ouvi dizer, não se executaram com a devida seriedade. O que é verdade é que os trabalhos caminham lentamente e que só estarão acabados quando metade da população tiver morrido de gosma. Queixaram-se alguns jornais das irregularidades da companhia e chamaram a atenção do governo para que tomasse na devida conta o interesse das gargantas secas; mas o governo parece ter razões particulares para não atender essas reclamações, porque não ouviu ou fingiu não ouvir.
Poucos países existem onde se consuma tanta água e onde se encontre tão pouca. Julgo que não há em toda a cidade de Lisboa três estabelecimentos de banhos quentes e os que existem pertencem a hotéis mais frequentados por estrangeiros. Em Lisboa tomam-se banhos unicamente por conselho dos médicos ou por motivo de doença. No Outono é que os portugueses se desforram, banhando-se no mar durante os meses de Setembro, Outubro e Novembro; dizem que os banhos, nesse tempo, são mais proveitosos. Qual a razão? Hipócrates e Galeno que respondam.
No Inverno Portugal é excessivamente regado pelas águas do céu: por vezes, é mesmo demasiadamente; mas logo nos primeiros dias de Maio desaparecem as nuvens e o firmamento adquire uma cor serena e igual, não tornando a chover habitualmente até Outubro. É nessa época que a cidade carece de maior fornecimento de água; ora é justamente nesta época que falta a água para satisfazer as necessidades públicas. E efectivamente, os portugueses, ou porque bebem por natureza ou porque sejam excitados pela grande quantidade de peixe de que se alimentam, absorvem água como esponjas. Em todas as esquinas das ruas, em todas as praças públicas, em todos os passeios, em toda a parte enfim, deparam-se-nos vendedores de água cujo estabelecimento consta de uma bilha e dois copos. Todos eles têm numerosa freguesia, que bebe com a avidez de quem sente dentro de si um incêndio enorme.
Sempre que um português visita alguém a primeira coisa que faz é pedir-lhe um copo de água; quando sai de casa, quando entra, quando se deita, quando se levanta, sempre um copo de água! Costume altamente prejudicial, porque sendo as águas excessivamente calcárias arruinam o estômago e predispõem aos cálculos na bexiga, muito vulgares em Lisboa. Que importa, porém, se a troco de cinco ou dez réis por copo se satisfazem a sua paixão?" - Continua

quinta-feira, junho 16, 2005

Maria Rattazzi - Portugal de Relance - Carta Décima Quinta - Cont.

"Eça de Queirós, afirma, no Primo Basílio, que em Lisboa não existem só baratas, que há também percevejos.
Não o quero acreditar; mas visto que oferecem prémios aos que descobrirem um meio de destruir o oídio e a filoxera, porque é que não propõem um prémio ao homem de génio, ao filantropo ilustrado que inventar o modo de aniquilar a raça das baratas e dos percevejos e de limpar a terra destes parasitas?
O gato é o traste inseparável de todas as casas portuguesas. Não há no mundo país que tenha tantos gatos como Portugal.
Em alguns bairros de Lisboa vêem-se as ruas cheias de gatos. Diga-se em verdade que são muito úteis, visto que a cidade está inçada de ratos, às vezes tão grandes que, não raro, vingam-se majestosamente devorando os gatos inexperientes... Parte destes gatos são nómadas e livres pensadores.
Há-os magníficos! Vivem de cabeças de peixe que se atiram para as ruas. O que é singular, explicando-se unicamente pelos combates desesperados que sustentam com os ratos, é que, logo que nascem, cortam-lhes as orelhas e a cauda como aos buldogues.
Em Portugal desconhece-se completamente a arte culinária. A cozinha é tão má como a de Espanha e já não é dizer pouco. Desde a sopa até à sobremesa nada se faz sem azeite. Não é só isto que a torna abominável, são os cozinheiros (?) do país que podem alcunhar-se de estraga molhos.
Os elementos principais da alimentação das famílias constam de peixe, arroz e chá. Às nove horas da manhã, chá com leite e pão torrado coberto de uma camada de manteiga salgada, impossível! Às três horas, sopa, em que se deita um pedaço de carne acompanhado de couves e nabos; sardinhas ou bacalhau salgado e arroz. Às nove horas da noite, chá e uma segunda edição de pão torrado com unto rançoso.
O povo, esse alimenta-se exclusivamente de sardinhas e bacalhau; de resto, as sardinhas são, como todo o peixe de Lisboa, deliciosas e muito baratas. Come-se em Lisboa uma quantidade prodigiosa de sardinhas e expedem-se todos os dias milheiros para o resto do país. Quanto a vinhos, o de Colares é excelente. Já não falo dos outros vinhos de luxo que correspondem à sua merecida reputação.
A água em Lisboa é uma das mais importantes questões, ainda não resolvida. Como todos os países quentes, Portugal carece de enorme quantidade de água; de Verão, principalmente, é uma necessidade de primeira ordem, de que dependem a saúde dos habitantes e a higiene da cidade." - Continua

sexta-feira, maio 27, 2005

Maria Rattazzi - Portugal de Relance - Carta Décima Quinta - Continuação

"Na casa de jantar, uma mesa de madeira ordinária, algumas cadeiras de palhinha e um guarda-louça envidraçado.

Na cozinha, alguns fogareiros de barro, tachos, também de barro, como em Espanha; poucos utensílios, mas uma pia (espécie de bacia de esgoto) onde se despejam as águas das lavagens. E se ela só servisse para isso!!!

O meu dever de historiadora, exacta e verídica, obrigar-me-ia a entrar em certos detalhes, capazes de fazer recuar o próprio Zola, se, francamente, eu me atrevesse a tanto. Prefiro enviar os meus leitores para o Balzac e Zola português, o sr. Eça de Queirós.

Exceptuando algumas casas particulares, não há fogões nos quartos. Não senti a falta deles porque não gosto de lume; mas muitos estrangeiros ouvi eu queixarem-se de não terem um simples braseiro para se aquecerem.

É verdade que se existissem fogões grande dificuldade haveria em alimentá-los, a menos que não servisse a mobília para combustível. Desconhece-se inteiramente em Portugal o uso da lenha e custa 300 réis cada quilo, o que torna o seu uso quase impossível para as bolsas menos abastadas.

Se muitas casas, mesmo os grandes hotéis, estão mobiladas de maneira que falta quase o indispensável, poucas há que não tenham capela. Entendamo-nos. Nos palácios a capela é quase uma igreja, como em Sintra no palácio de D. Fernando. Os proprietários assistem às cerimónias religiosas numa tribuna e o povo tem entrada por uma porta que dá para a rua.

Nas grandes casas destina-se a esse emprego um aposento qualquer, que se adorna com um altar, lampadários, imagens e grande profusão de ornatos dourados. Nas casas modestas a capela resume-se em uma espécie de armário envidraçado, colocado em cima de uma cómoda e que se abre sempre que se quer orar.

Entre o povo a capela resume-se a meia dúzia de registos emoldurados em caixilhos de madeira.

Sempre que o português muda de residência leva consigo os seus santinhos, no mesmo carro que o conduz a ele, à mulher, aos filhos, aos colchões e à modesta bagagem que possui.

As casas em Lisboa, como em todo o resto de Portugal, são habitadas, principalmente de Verão, por um enxame de baratas que à noite saem pelas fendas do sobrado, do tecto, das paredes, por todos os lados, enegrecendo as casas; verdadeira invasão que dura desde o anoitecer até de madrugada, mexendo, andando, formigando... Disseram-me que todos acabavam por habituar-se.

Eu não o pude conseguir!

Uma noite, fugi horrorizada do Hotel Gibraltar, convencida de que era inútil lutar, pois que quantas mais se matam mais aparecem.

Uma Saint Barthélemy de baratas traz no dia seguinte uma recrudescência de hereges, tanto que não duvidamos que as que sobrevivem à hecatombe vão chamar os vizinhos e conhecidos para as auxiliar. As baratas são uns animaizinhos muito feios, que atingem o tamanho de um besouro adulto; o que vale é que são quase inofensivas."
Continua

quarta-feira, maio 18, 2005

Maria Rattazzi - Portugal de Relance - Carta Décima Quinta

Nos próximos dias irei transcrever-vos a carta 15ª do livro "Portugal de Relance", de Maria Rattazzi, na edição recente da editora Antigona.
Chamo a atenção para o humor extraordinário destes textos que não devem deixar de serem lidos.
"Lisboa por dentro - As casas - Os quartos - As pias - Os parasitas - A alimentação - A cozinha - A questão da água - Sistema de esgoto - Primeiro os vivos, depois os mortos - Os enterros
Como quase todas as grandes capitais da Europa, Lisboa divide-se em duas cidades: Lisboa antiga e Lisboa moderna. Em toda a parte diferem; em Lisboa, porém, assemelham-se como a irmã mais velha à irmã mais nova de uma família em que todos os congéneres se confundem. A parte moderna de Lisboa só tem de moderno a colocação das pedras, muito juntas umas das outras. O resto pertence ao passado: o sistema de construção, a disposição interna, portas, janelas, escadas, sem falar da mobília e na colecção de parasitas: insectos, ratos, gatos, que são como que parte integrante da casa e do seu pessoal.
A feição comum mais característica das construções, tanto modernas como antigas, é a falta de um pátio interior, o que dá em resultado não receberem as casas luz senão pela frente e pela retaguarda, de forma que os compartimentos do centro ficam transformados em câmaras escuras sem ar nem claridade. As divisões da frente que dão para a rua utilizam-se para salas; as que recebem luz pela parte posterior servem para cozinha e casa de jantar; os compartimentos escuros do centro reservam-se para quartos de dormir.
Os portugueses desprezam quase totalmente a mobília. Na sala, um canapé, dois fauteuils e cadeiras de palhinha. É notável a indiferença que mantêm com respeito a comodidades. Na maioria dos palácios reais, ou clubes, nas assembleias, no elegante Club Portuense e mesmo no casino das Caldas da Rainha, frequentado aliás por príncipes, não se vê senão a tradicional cadeira de palhinha! Por vezes, em casa de alguns portugueses pertencentes à burguesia, amantes das belas-artes, deparam-se-nos vários animais de vidro, porcelanas modernas, abat-jours de papel recortado, relógios da Floresta Negra, conhecidos vulgarmente pelo nome de cucos, etc.
Nos quartos de dormir, um leito de ferro com dois colchões de palha batida, pisada e tão dura que quem nela se deita pela primeira vez fica durante muitos dias inteiriçado como uma tábua e privado de servir-se das articulações.
Do uso desses leitos conservo ainda dolorosas reminiscências. Uma cadeira e uma mesa de cabeceira completam a mobília."
Continua

segunda-feira, maio 16, 2005

Textos de Maria Rattazzi - 1879

Conclusão da Carta Oitava do livro "Portugal de Relance" de Maria Rattazzi, da Editora Antígona.

"Antes de pôr de parte os teatros e os espectáculos, mencionarei algumas circunstâncias características.
Em primeiro lugar, as pateadas. Em Portugal há três meios de mostrar aprovação aos artistas. Primeiro, aplaudir com as mãos, como em toda a parte; segundo, que traduz vivíssimo contentamento, gritar: bravo! bravo! muito bem! Como em Itália; terceiro, que representa a quinta-essência do entusiasmo, levantar-se e agitar com o lenço.
Para manifestar desaprovação ou descontentamento, o assobio é desconhecido. Bate-se no soalho da sala com os pés ou com a bengala, com moderação, com força ou ruidosamente, segundo o grau de desprazer que se experimenta. A acção chama-se patear, o efeito pateadas. Em França, quando não se quer rasgar as luvas - refiro-me aos que as usam -, bate-se com a bengala, o que equivale ao aplauso. Em Portugal, essa manifestação corresponde ao fim inteiramente oposto; portanto, quando a plateia pateia, é um barulho, uma confusão com que ninguém se entende e, um momento depois, uma poeirada cega.
Aproveito esta ocasião para emitir a minha opinião pessoal com referência às pessoas que assobiam no teatro. Acho-as estúpidas e injustas. Estúpidas, porque não remedeiam coisa alguma: imjustas, porque às vezes despedaça, a carreira de um pobre diabo que ganha o pão quotidiano à custa de um trabalho duro e doloroso. Quando ides a um estabelecimento e vos vendem gato por lebre, não tornais lá outra vez, não é assim? Fazei o mesmo com relação ao teatro onde sois mal servido, mas não assobieis!
Os usos e costumes teatrais em Portugal estão ainda em estado primitivo. São mais burgueses do que desregrados, Há nos pequenos teatros mulheres que se determinam a aparecer no palco com o fim único de produzir às luzes da ribalta o efeito que decerto não fariam na rua, mas é por excepção, pela boa e excelente razão de que há poucos amadores ricos. Na maior parte das cenas, as actrizes são casadas ou vivem maridadas com pessoas da sua eleição, dando tanto que falar do seu comportamento como da sua inteligência nos domínios da arte, com algumas excepções. Se quisesse citar uma que se distinguisse das demais, pelo seu luxo ou galantearias, ficaria deveras embaraçada, embora tivesse interrogado a este respeito todo o mundo. Sob este ponto de vista, Lisboa não tem afinidade alguma com Paris.
No teatro de S. Carlos, que é mais italiano que português, pois que não se representam senão obras italianas interpretadas por artistas italianos, as cantoras são na máxima parte mulheres honestíssimas, escoltadas pelos pais quando estão em estado de núpcias, vigiadas pelos maridos e muitas vezes pela prole quando são mães de família.
Não há, no meu conceito, situação mais grotesca no mundo do que a de marido de mulher de teatro, principalmente quando o sobredito não tem outra ocupação senão acompanhar a esposa e meter na algibeira o dinheiro que ela ganha. Parece, porém, que o ofício é bom, porque nunca falta gente para o exercer; essas damas casam quase sempre.
As dançarinas do teatro de S. Carlos não dão ensejo a que o mundo fale delas. E duas razões há para isso: a primeira é que, salvo duas ou três escepções, são feias de meter medo ao mais animoso; a segunda é que na maior parte, ao que parece, atingiram essa idade feliz em que há todos os direitos ao respeito da multidão."
A próxima Carta que será retirada deste livro "Portugal de Relance" será a Décima Quinta. Para mim a mais cómica e hilariante das descrições de Rattazzi. Nesta serão focados os seguintes temas: Lisboa por dentro - As casas - Os quartos - As pias - Os parasitas - A alimentação - A cozinha - A questão da água - Sistema do esgoto - Primeiro os vivos, depois os mortos - Os enterros.
Mas isto ficará para depois.

quinta-feira, abril 14, 2005

Textos de Maria Rattazzi - 1879

- Continuação
"Assim passa a glória neste mundo! Sic transit gloria mundi!
Da derrocada financeira da empresa, restou porém uma coisa: uma palmeira magnífica, objecto de todos o mais notável do estabelecimento, o único que realmente não é de papel, papelão ou cartão pintado. Os outros cartões subsistem ainda, verdade é; mas quão distantes das primeiras esperanças e como as suas frescuras estão baças e amortecidas! O teatro que aberto a todos os ventos se assemelha a uma estufa em que as vidraças estivessem quebradas, é exploradas por acrobatas, velocipedistas, bezerros de três cabeças e outros fenómenos e uma companhia de zarzuela espanhola (opereta). Merece esta menção honrosa; representam por vezes peças originais que não carecem de brio e de bom sainete.
A clientela habitual dos Recreios não é absolutamente de primeira plana; aos domingos de Verão uma excelente banda de música regimental atrai algumas pessoas de todas as classes ao jardim convertido em centro comercial de cocottes de toda a proveniência e natureza, convertendo-se assim em uma espécie de Bolsa galante; as vendedoras de água trajam à moda de vivandeiras, no género do vestuário da Isabel do Jockey-Club, e constituem uma das curiosidades daquele recinto e das duas pseudodivisões.
Numa palavra, a invenção do clown inglês é pouco bafejada pela aura da fortuna; o jardim é um verdadeiro calvário. Há ali Madalenas e capelinhas onde se podem fazer estações. A propósito devo mencionar uma curiosidade: dou ao leitor mil, cem mil coisas, para de entre elas adivinhar o que se colocou numa dessas capelinhas-grutas como ornamento. É inútil fatigarem a inteligência procurando acertar. Colocou-se uma dianteira de fogão em mármore!... Há portugueses que estacam assombrados diante desse fogão e perguntam qual a razão que determina a sua existência, e não deixam de confessar que a ideia é altamente engenhosa. Um fogão de mármore num jardim de Verão! Que singularíssima concepção!
O teatro da Rua dos Condes é uma ruína arqueológica. Tomou o nome da rua em que foi construído. É bastante concorrido, em primeiro lugar pela modicidade dos preços, em segundo porque se representam ali dramalhões de grandes lances assombrosos, como o Correio de Lião, Os homens do mar e outras máquinas de lágrimas e desesperos. Em toda a parte há gente que é preciso assustar e fazer chorar para a divertir. Confesso, porém, a minha parcialidade pelo drama... O teatro é dirigido pelo grande actor Santos, actualmente quase cego, uma das mais interessantes figuras artísticas de Portugal.
O teatro das Variedades, onde se representam mágicas e revistas, deixou de existir, em holocausto à futura Avenida da Liberdade.
O Circo Price, condenado à mesma sorte, assim designado pelo seu fundador, o sr. Price, antigo acrobata, é de madeira e suficientemente feio. Ultimamente, um industrioso vienense, o sr. Ebo Amann, deu-lhe o nome de Coliseu, atraindo ali grande concorrência por ocasião de exibir uma série de concertos notáveis, onde figuraram Sarrasate, a cantora Donadio e o maestro espanhol Breton. Perdoar-se-ia todo aquele rude desconforto e mau arranjo, se aí se pudesse estar, mas é impossível; só funciona durante o Inverno, e o vento e o frio, que se filtram por todas as junturas dos emadeiramentos, salteiam o espectador sob a forma de uma temperatura de mares glaciares. Ao cabo de um instante tirita-se; um quarto de hora depois está-se gelado, e muito feliz se será se no dia seguinte apenas nos sentirmos com uma defluxão ou um ligeiro ataque de reumático. Vê-se neste círculo o que se vê em todos os circos: cavalos que volteiam, levando Messieurs e Madames que saltam arcos de papel dourado ou rompem inumerável quantidade de círculos da mesma espécie, passando através deles. Sinal particular: é raro haver casa cheia no Circo Price, e as receitas apenas dão para o sustento dos cavalos, pelo menos foi o que se me afigurou nas duas vezes que me aventurei a ir lá.
Continua

sexta-feira, março 25, 2005

Textos de Maria Rattazzi - 1879

- Continuação
"O Ginásio, é um teatro pequeno assaz elegante, género do Théâtre-Déjazet, de Paris. Representam-se aí vaudevilles e comédias francesas traduzidas em português. Uma vez por outra, peças de ocasião. Não está permanentemente aberto pela simples razão de que as receitas são mais do que medíocres. Os artistas e os directores encontram-se frequentemente uns para com os outros na mesma situação em que o sr. Talleyrand se achava para com um credor importuno:
- Desejava saber, disse este, quando V.ª Ex.ª me pagava.
- O sr. é muito curioso! Respondeu o príncipe.
Não obstante, o actor António Pedro, uma notabilidade da cena, um artista verdadeiramente distinto, representa nessa teatro, de maneira inexcedível, a obra-prima de António Enes, O Saltimbanco, secundado por duas jovens e formosas actrizes: Beatriz Rente e Emília dos Anjos. Pode dizer-se que os artistas gozam de uma graça da profissão: representam por amor da arte.
O teatro da Trindade toma o nome do bairro em que está situado. A sala, muito elegante, é construída pouco mais ou menos pelo modelo das salas francesas, com balcão e galerias. A companhia dedica-se especialmente às operetas de Offenbach, de Lecoq e outras, traduzidas em português. As peças são bem postas em cena, mas cantadas de maneira deplorável. Contudo, há neste teatro um artista, o sr. Ribeiro, actor de verdadeiro talento, e de mérito que merece ser registado. O teatro é bastante frequentado, se bem que os preços sejam relativamente elevados. Mas o ouro é uma quimera, tanto neste como nos outros templos de Talia. Os accionistas, que subscreveram com os seus dinheiros para a empresa num acesso de entusiasmo, apenas conhecem regularmente a época em que deveriam receber os dividendos das suas acções.
O teatro do Príncipe Real é um pequeno teatro que, como o do Ginásio, vive apenas durante alguns meses do ano. Estiveram ali duas troupes de opereta francesa com artistas franceses que não foram mais felizes do que as indígenas.
Os Recreios Whittoyne merecem atenção. É uma curiosidade sob muitos pontos de vista.
O sr. Whittoyne era um clown inglês que encantava o público dos circos pelas suas deslocações, arlequinadas e pantomimas. Dotado do instinto mercantil da sua pátria, teve a habilidade de farejar capitalistas e de conseguir interessá-los na ideia de criar um jardim de Verão, com diversões, jogos e teatro; o que prova a sua inteligência e constitui o seu melhor elogio, porque não é negócio de pouca monta, segundo me informam, resolver um português que tem dinheiro a empregar os seus fundos de maneira diversa que não seja a do empréstimo com hipoteca privilegiada, a juro de 25 por cento! Mas como descobrir, como obter um jardim no centro de Lisboa? Não era fácil empresa. Procurou-se, investigou-se por muito tempo; cansados de explorar, foram por fim assentar vistas numa propriedade do marquês de Castelo Melhor, numa colina cortada a pique, para a qual se sobe por quinze ou vinte lances de escada, habilmente dissimulados, mas cujos declives era preciso suavizar.

Encontrado o local, tratou-se de recrutar accionistas; constituiu-se uma empresa e emitiram-se acções de 100 francos, que tiveram fácil colocação, porque representavam uma multidão de direitos, qual deles mais próprio para engodar: a entrada livre, o passeio, o concerto, etc,; enfim, a colónia viu aparecer sucessivamente sobre as suas cristas, um pouco espantadas, um teatro de madeira e de cartão pintado, uma galeria de lona pintada, quiosques de papelão pintado, um circo liliputiano de papel pintado, e tudo isto subordinado a uma dministração igualmente de papelão pintado, porque, pouco tempo depois da abertura desse maravilhoso Eldorado que prometia todos os prazeres e que se inaugurara ao som dos hinos de risonhas esperanças, vendiam-se as acções, nas ruas de Lisboa, a 25 sous cada uma. Ora, aí está o que são as coisas!"
- Continua

domingo, março 20, 2005

Textos de Maria Rattazzi - ano de 1879

CARTA OITAVA
Os espectáculos - Teatros: de D. Maria II, Ginásio, Príncipe Real, Recreios Whittoyne, Rua dos Condes, Variedades - O circo Price - As pateadas - Usos e costumes teatrais - O actor Santos - Emília das Neves
«Diz-me o que comes, dir-te-ei quem és», observava um homem de espírito. Toca-me a vez de dizer, modificando o velho prolóquio popular, como Brillat-Savarin: «Diz-me que teatros frequentas, dir-te-ei quem és.»
O teatro D. Maria II, situado numa das extremidades da Praça de D. Pedro, forma como construção um monumento isolado. A sala é elegante, fabricada no gosto italiano; os camarotes grandes e cómodos; o foyer encantador.
Este teatro foi criado e veio à luz do mundo com um fim especial, com uma missão puramente nacional: deviam-se representar nele, segundo o pensamento gerador, peças exclusivamente portuguesas - tragédias, dramas, comédias -, salvo raras excepções; ora, ao presente, não se representam senão peças francesas, especialmente as que têm mais voga no momento em Paris. Tratava-se, primeiro, de favorecer a arte nacional, estimulando e alentando a coragem dos talentos mais prometedores, mas actores e autores estão ainda reduzidos às próprias forças; o governo transportou a sua protecção oficial para as regiões do paltonismo. Dadas estas circunstâncias, o infeliz teatro morre de inanição. E contudo conta no seu grémio bastantes actores distintos, alguns mesmo hors ligne; mas, que fazer com a indeferença do Estado e sobretudo com a minguada solecitude do público? Trabalha-se por ofício, e que ofício! Traduções absurdas de obras ineptas a maior parte das vezes. Quanto à arte nacional, salva-se o negócio. Deus sabe como, e debate-se no vácuo.
Como artistas dramáticos, salvo algumas excepções aliás raras, os actores são geralmente mais notáveis so que as actrizes. Emília das Neves, uma artista que em todos os países seria reputada uma sumidade, merece ser apontada como a excepção que confirma que a regra.
Os dois irmãos Rosa, são artistas de mérito; o seu talento chega por vezes a ter radiações que comunicam o fogo sagrado aos seus colegas. Vi-os representar nos Fourchambaults de maneira distintíssima, e se Augier os visse ficaria impressionado, seguramnte. Quanto ao pai desses actores, de tal modo se encarnou em o Marquês de la Seiglière, que faz esquecer Samson. Infelizmente, os esforços destes artistas conscienciosos são de todo o ponto estéreis. Em geral representam unicamente para as aranhas e, ainda mesmo nos lances do drama mais patético ou mais turbulento, não conseguem interrompê-las no trabalho melancólico e solitário da teia. Algumas vezes o domingo faz milagre de levar espectadores ao abandonado teatro. Nesses dias, os burgueses pacatos e atarefados vão ali descansar das canseiras da semana, nas cadeiras pouco cómodas da plateia. Recostam-se, docemente divididos entre as situações comoventes da peça e as doçuras seráficas do sono." - Continua
Maria Rattazzi - "Portugal de Relance" - Antigona, 2004. Titulo original de 1879 "Le Portugal à vol d'oiseau".