Em 1982, discutia-se acaloradamente na Assembleia da República questões relacionadas com a maternidade e a interrupção voluntária da gravidez. Em mais um momento de genialidade, Natália Correia intervem:
Poesia, musica, celebridades, teatro, cinema, selecção de textos, poetas e escritores, banalidades, fotografias, arte, literatura, pintura e muita conversa.
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sexta-feira, dezembro 06, 2013
sábado, setembro 14, 2013
O Botequim da Liberdade, de Fernando Dacosta
E terminei, num ápice, o novissimo livro de Fernando Dacosta: O Botequim da Liberdade.
Fernando Dacosta transporta-nos,
É um livro comovente. Percebe-se que, para Fernando Dacosta, não foi fácil escrevê-lo porque, acima de tudo, este livro foi o cumprir de uma promessa feita a Natália Correia e, com isso, aceitar (definitivament
Fernando Dacosta, ao escrever sobre o Botequim e a Natália está também a escrever sobre si. As pessoas de quem escolhe escrever para nos dar uma imagem da Natália são aquelas que, também ele, acarinha e quer homenagear.
Nunca, num só livro, Fernando Dacosta se expõe tanto. O Bar é apenas o pretexto para se voltar a reunir com antigos amigos, praticamente todos desaparecidos.
"Volto ao bar. Nas suas cadeiras e mesas, já não há, porém, sombras de amigos meus - nem de Natália." - Termina assim Fernando Dacosta o seu livro.
Ler este Botequim da Liberdade é aceitar o convite (privilégio) de nos sentarmos à mesa com Fernando Dacosta e Natália Correia... infelizmente, sem o famoso rosbife acompanhado pela taça de tinto Lavrador.
P.S. - Há uma gralha no livro, de impressão, que faz com que todo um capítulo se torne praticamente incompreensivel. Falo do capítulo "Marabunta Vaginal", pág. 274.
Onde se lê, no final do primeiro parágrafo, "Por isso, é que deixei de ser feminista para ser feminista!" deve ler-se, "Por isso, é que deixei de ser feminista para ser femininista!".
Um conceito fundamental e muito caro a Natália Correia. A mesma correcção deverá ser feita no parágrafo seguinte.
Daniel Ferreira
sexta-feira, agosto 17, 2012
Não Percas a Rosa - Natália Correia
Não Percas a Rosa - Diário e algo mais (25 de Abril de 1974 - 20 de Dezembro de 1975), Lisboa, 1978, Dom Quixote: Cota Biblioteca Nacional L. 60455 V
"08 de Outubro de 1974
No raciocínio arranjadinho de um alcoviteiro nórdico da revolução, coloco uma inquietante varejeira. Mais um espécime da cretinice itinerante que vasculha nas revoluções ideais de preço único para os vender no "pronto a vestir" do seu jornal.
Sou frequentemente incomodada por estes libidinosos da catástrofe. A coluna que mantenho em A Capital recomenda-me, mercê de umas poucas análises certeiras (como se mérito houvesse em ver através da transparência!), à bisbilhotice destas comadres das maleitas internacionais. Tento explicar-lhes que não sou especialista em matéria tão desimaginativa e que se nela meto as mãos, maiormente me move a recusa de sucumbir à intimidação que no silêncio ou no pacto aviltante encarneira o grosso da nossa intelectualidade.
É precisamente sobre esta alarmante omissão dos nossos escritores que o tal repórter vem procurar quem ao seu sono não quer levar o pesadelo de não se exceptuar a tão degradante regra.
Ouço-o:
- Dantes não havia liberdade de expressão. O silência era compreensível. Mas agora que podem livremente exprimir as suas opiniões, porque se retraem os intelectuais num mutismo tumular?
Lanço-lhe a varejeira que põe em barafunda os esquemas simplistas do meu interlocutor:
- O caso é que não saíram e jamais serão capazes de sair do túmulo da autocensura. E sabe porquê? Porque, ao contrário do que se pode pensar, dantes havia liberdade de expressão.
É a altura de o insecto lhe picar as ideias ao ponto delas lhe abrirem desmesuradamente a boca para fugirem a tão insidiosa mordedura.
- Liberdade de expressão?! Nunca ouvi tal coisa.
Prossigo:
- Mas é preciso dizê-la e acrescentar que a censura fascista foi o paraíso terrestre dos que não tinham liberdade interior. Mantenho que havia liberdade de expressão para quem quisesse correr os riscos de exprimir a sua liberdade interior. Riscos, sublinho. Fugir a eles pelo corredor sombrio da autocensura é tornar a coerção suportável. Auto-exaltação repugnante do vitimismo. Entendamo-nos. Não minimizo os malefícios da tirania censória. mas também não absolvo a sua cúmplice maior: a autocensura. A automutilação da liberdade íntima da maioria dos nossos escritores alimentou o monstro que continua a cravar as garras nas suas mentes. No fundo, a sua consciência continua a obedecer ao diktat fascista reincarnado na marxocracia do novo campo autoritário.
Colhido pelo desaforo da minha concepção de uma liberdade de expressão comportando riscos, o nórdico quedou-se abanando as ideias coladas por esse academismo democrático que chega a fazer da democracia uma chantagem sentimental sobre a liberdade de se chamar zarolho ao zarolho. A democracia exige que se lhe chame estrábico.
- A liberdade de expressão - insistiu a escandinava beatitude democrática do repórter - não pode conhecer riscos. E, matematicamente contente com a evidência da conclução: - Logo, não houve liberdade de expressão durante o fascismo.
A partir daqui condeno-me ao isolamento das minhas reflexões. Como convencer um democrático de que a liberdade de expressão é um truque burguês com que a democracia, para satisfazer o seu economismo insaciável, assalaria as piores submissões? A adaptação democratizada do homem à liberdade, eis a oferta alienante da hipocrisia humanista do poder democrático. Ora eu não sou livre enquanto uso uma liberdade que me é estipulada. Sou-o, sim, se fruir uma liberdade adaptada a mim, aos imperativos da minha subjectividade. Nenhuma máquina do poder o consente. Exprimir a minha vida individual é então um risco permanente. A repressão fascista procura a sua lógica no interior dos seres que, sob qualquer signo, se submetem à tirania. E convenhamos que tacitamente abriu as suas malhas ferozmente fechadas aos escrevinhadores das bagatelas marxizantes do realismo socialista que mercê desta aliança invisível com o fascismo pôde instaurar a ditadura do seu estilo nas letras. Nada de espantar este pacto inaparente se pensarmos que o neo-realismo se colocava numa perspectiva de coacções e neste sentido agradava ao poder fascista. Como não havia o fascismo de permitir a exteriorização desta esterilidade do valor individual sacrificado à aceitação absoluta do poder?
Quanto à coerção da norma democrática tira esta a sua força da "liberdade permitida" que sujeita o homem à tirania da mediocridade colectiva. O exercício interior da necessidade vital criadora de não nos submetermos à liberdade tolerada, eis a mola que, incontrolável pelo Estado, levanta o dedo para protestar. A tesoura da censura fascista corta-o? Perdi alguns dedos, é certo. Mas não a minha liberdade. Fugi ao maior risco: o de apodrecer no campo de concentração interiorizado da autocensura. Os que se suicidaram no escarrador da autocoacção aliada do Estado repressivo salvaram os dedos. Cinco pontas inertes da sua interioridade gangrenada. Que poderão escrever se não o pus da submissão a um novo dono?
Não, meu caro produto escandinavo do beatério das liberdades democráticas. Por mais que o assuste, mantenho: a liberdade de expressão negada pelo fascismo mas tomada por uns raros extravagantes que se recusaram a introverter a inexistência foi o risco menor que correram aqueles que hoje escapam às garras da nova opressão. Considero-me entre estes extravagantes. O que me dá o direito de o chamar imbecil.
quarta-feira, maio 16, 2012
IMPROVISO - Natália Correia e António Vitorino de Almeida
A1
A Donzela De Biscaia
A2
Queixa Das Almas Jovens Censuradas
A3
Quarto
A4
Telex
A5
Árvore Geneológica
A6
A Rapariga Do Sweater Vermelho
A7
Fado De Diogo Ary Dos Santos Jovem Lusíada Tocador De Guitarra Que Morreu De Amor
B1
Núpcias Químicas
B2
Caosmonáutica
B3
Rebis
B4
O Encontro
B5
Uma Laranja Para Alberto Caeiro
B6
A Política Do Dia
B7
Cabelos Os Meus Cabelos
B8
Amanhecer
A Donzela De Biscaia
A2
Queixa Das Almas Jovens Censuradas
A3
Quarto
A4
Telex
A5
Árvore Geneológica
A6
A Rapariga Do Sweater Vermelho
A7
Fado De Diogo Ary Dos Santos Jovem Lusíada Tocador De Guitarra Que Morreu De Amor
B1
Núpcias Químicas
B2
Caosmonáutica
B3
Rebis
B4
O Encontro
B5
Uma Laranja Para Alberto Caeiro
B6
A Política Do Dia
B7
Cabelos Os Meus Cabelos
B8
Amanhecer
terça-feira, janeiro 26, 2010
quarta-feira, agosto 12, 2009
A Natalidade de Natália, de Fernando Dacosta
sexta-feira, outubro 24, 2008
Natália Correia

Natália Correia é uma das mulheres que mais admiro desde há muitos anos. Sempre me fascinou a postura, a imagem altiva, bela e quase desumana porque divina, a maneira de falar e, mais tarde, quando descobri a sua escrita, a sua poesia, a sua prosa, os seus discursos parlamentares, os seus discos.
Lembro-me em miúdo ficar parado frente ao televisor quando a via. Não percebia por completo as coisas que dizia e falava mas algo de quimíco, mágico, acontecia porque me paralisava.
Quando descobri o prazer de andar em lojas de vinil a vasculhar, reencontrei-a. Reencontrei-a no disco "Cantigas de Amigos", com Amália Rodrigues e Ary dos Santos, no disco "Cantigas de Amôr e de Amigo dos Trovadores Galego-Portugueses", com adaptação e declamação da própria Natália e no disco "Improvisos", com o Maestro António Victorino de Almeida onde, além dos seus dotes declamatórios, Natália Correia expõe a sua extraordinária voz de quase cantora lírica.
Veio depois o aprofundamento da literatura.
Primeiro a sua poesia:
"ODE À PAZ
Pela verdade, pelo riso, pela luz, pela beleza,
Pelas aves que voam no olhar de uma criança,
Pela limpeza do vento, pelos actos de pureza,
Pela alegria, pelo vinho, pela música, pela dança,
pela branda melodia do rumor dos regatos,
Pelo fulgor do estio, pelo azul do claro dia,
Pelas flores que esmaltam os campos, pelo sossego, dos pastos,
Pela exactidão das rosas, pela Sabedoria,
Pelas pérolas que gotejam dos olhos dos amantes,
Pelos prodígios que são verdadeiros nos sonhos,
Pelo amor, pela liberdade, pelas coisas radiantes,
Pelos aromas maduros de suaves outonos,
Pela futura manhã dos grandes transparentes,
Pelas entranhas maternas e fecundas da terra,
Pelas lágrimas das mães a quem nuvens sangrentas
Arrebatam os filhos para a torpeza da guerra,
Eu te conjuro ó paz, eu te invoco ó benigna,
Ó Santa, ó talismã contra a indústria feroz,
Com tuas mãos que abatem as bandeiras da ira,
Com o teu esconjuro da bomba e do algoz,
Abre as portas da História,
deixa passar a Vida!"
Pela verdade, pelo riso, pela luz, pela beleza,
Pelas aves que voam no olhar de uma criança,
Pela limpeza do vento, pelos actos de pureza,
Pela alegria, pelo vinho, pela música, pela dança,
pela branda melodia do rumor dos regatos,
Pelo fulgor do estio, pelo azul do claro dia,
Pelas flores que esmaltam os campos, pelo sossego, dos pastos,
Pela exactidão das rosas, pela Sabedoria,
Pelas pérolas que gotejam dos olhos dos amantes,
Pelos prodígios que são verdadeiros nos sonhos,
Pelo amor, pela liberdade, pelas coisas radiantes,
Pelos aromas maduros de suaves outonos,
Pela futura manhã dos grandes transparentes,
Pelas entranhas maternas e fecundas da terra,
Pelas lágrimas das mães a quem nuvens sangrentas
Arrebatam os filhos para a torpeza da guerra,
Eu te conjuro ó paz, eu te invoco ó benigna,
Ó Santa, ó talismã contra a indústria feroz,
Com tuas mãos que abatem as bandeiras da ira,
Com o teu esconjuro da bomba e do algoz,
Abre as portas da História,
deixa passar a Vida!"
(outras poesia em:
Depois a sua prosa:
Do livro Descobri que era europeia
"Trouxe curiosidades para a América. E não as levo no regresso. Também não levo certezas. Nenhuma das minhas curiosidades foi satisfeita. Deixo-as aqui, como um tributo à alta montanha que o pequeno esquilo não logra trepar. Não foi medo nem desesperança que me tolheram os passos na escalada. Foi a simples verificação dum facto: a América é um problema de que só ela tem a chave. A solução desse problema só interessa aos americanos. Se tentarmos compreendê-la, partindo de nós próprios, da nossa concepção do que ela "possa ser", escolhemos o caminho mais longo, porque nós somos estruturalmente diferentes.
Apontar as diferenças que nos extremam seria a recapitulação da História.
Ponhamos, pois, a questão nestes termos: gostei ou não gostei da América?
Ainda aqui a minha posição é ambígua. É tão impossível gostar da América como não gostar. Isto traduz-se num sentimento abstracto: o da fascinação. E qual é a fonte donde brota essa fascinação? O enorme tablado onde se desenrola a esotérica urdidura da tragédia americana. O seu esoterismo não é o inviolável segredo dos deuses. É a crise do desenvolvimento. Uma puberdade física e mental que convive, no seu âmago, com os fantasmos das coisas irreveladas. Nas suas células em formação ferve o sangue coagulado de várias taras sem poros para se evaporarem, a neurastenia da solidão acompanhada, um romantismo turbulento e um puritanismo mórbido. Objectiva e utópica, intransigente e tolerante, aventureira e calculista, arrebatada e grave, magnânima e egoísta, franca e enigmática, tudo de bom e de mau, de elevado e de mesquinho, nela existe em potencial, como num barro tosco a que o cinzel dos séculos ainda não deu forma.
É a antítese da tragédia europeia filtrada no cristal do tempo: a serenidade clássica da experiência e da razão.
Os americanos transmitem-nos a angústia do inacabado. Eles não são completamente generosos, nem completamente egoístas; não são completamente cordiais, nem completamente hostis. São seres por revelar.
Agosto de 1950"
E as suas sessões parlamentares, principalmente com o famoso episódio do deputado Truca Truca.
Durante uma discussão na Assembleia sobre o aborto, 1982, o deputado do CDS, João Morgado, que só tinha um filho, opunha-se à legalização do aborto, argumentando que o coito era apenas para procriar [assim na escola da Manuela Ferreira Leite]. A deputada e poetisa do PRD que era a favor do aborto, alcunhou-o ali mesmo de deputado Truca-Truca e, na hora, fez estes versos dirigidos ao mesmo. Nunca mais tal deputado pôs os pés na Assembleia da República.«Ficou capado o Morgado»
1982
Já que o coito, diz o Morgado,
tem como fim cristalino,
preciso e imaculado
fazer menina ou menino
e cada vez que o varão
sexual petisco manduca,
temos na procriação
prova de que houve truca-truca,
sendo só pai de um rebento,
lógica é a conclusão
de que o viril instrumento
só usou - parca ração - uma vez.
E se a função faz o órgão - diz o ditado -
consumada essa excepção,
ficou capado o Morgado»
(Para ler um dos mais brilhantes discursos parlamentares de Natália Correia: http://conversamuitaconversa.blogspot.com/2005/12/notvel-discurso-da-deputada-natlia.html)
E agora, do disco Improvisos, Natália Correia canta e declama:
A Donzela de Biscaia
Queixa das Almas Jovens Censuradas
Quarto
Árvore Geniológica
Cabelos os Meus Cabelos
Depois disto, tudo o que diga é mau Latim. Fica a Homenagem.
segunda-feira, fevereiro 19, 2007
Ode à Paz - Natália Correia

ODE À PAZ
Pela verdade, pelo riso, pela luz, pela beleza,
Pelas aves que voam no olhar de uma criança,
Pela limpeza do vento, pelos actos de pureza,
Pela alegria, pelo vinho, pela música, pela dança,
pela branda melodia do rumor dos regatos,
Pelo fulgor do estio, pelo azul do claro dia,
Pelas flores que esmaltam os campos, pelo sossego, dos pastos,
Pela exactidão das rosas, pela Sabedoria,
Pelas pérolas que gotejam dos olhos dos amantes,
Pelos prodígios que são verdadeiros nos sonhos,
Pelo amor, pela liberdade, pelas coisas radiantes,
Pelos aromas maduros de suaves outonos,
Pela futura manhã dos grandes transparentes,
Pelas entranhas maternas e fecundas da terra,
Pelas lágrimas das mães a quem nuvens sangrentas
Arrebatam os filhos para a torpeza da guerra,
Eu te conjuro ó paz, eu te invoco ó benigna,
Ó Santa, ó talismã contra a indústria feroz,
Com tuas mãos que abatem as bandeiras da ira,
Com o teu esconjuro da bomba e do algoz,
Abre as portas da História,
deixa passar a Vida!
terça-feira, dezembro 19, 2006
Natália Correia

UMA HISTÓRIA VERDADEIRA DE NATAL
Orquestra de anjos o Natal
tem um som de cristal e prata
mas é uma valsa de cacos que toca
nos bidões do bairro de lata.
Versáteis músicos os anjos
com caracóis de fios de ovo
também um tango de metralha
tocam É a música dos novos
magos que esmagam cidades
num cinzeiro de bombardeamentos
mas é Natal porque no mundo
estar presente é dar presentes.
Que dar ao filho a mãe que a vida
remenda com sucata pública?
Daria a lua se ela não fora
do presidente da república.
No magro corpo rebuscando
de mãe a dádiva precisa
levanta as saias e mostra ao filho
uma flor de pêlo Natal da vida.
Natália Correia
terça-feira, julho 11, 2006
Descobri que era europeia
Natália Correia
"Trouxe curiosidades para a América. E não as levo no regresso. Também não levo certezas. Nenhuma das minhas curiosidades foi satisfeita. Deixo-as aqui, como um tributo à alta montanha que o pequeno esquilo não logra trepar. Não foi medo nem desesperança que me tolheram os passos na escalada. Foi a simples verificação dum facto: a América é um problema de que só ela tem a chave. A solução desse problema só interessa aos americanos. Se tentarmos compreendê-la, partindo de nós próprios, da nossa concepção do que ela "possa ser", escolhemos o caminho mais longo, porque nós somos estruturalmente diferentes.
Apontar as diferenças que nos extremam seria a recapitulação da História.
Ponhamos, pois, a questão nestes termos: gostei ou não gostei da América?
Ainda aqui a minha posição é ambígua. É tão impossível gostar da América como não gostar. Isto traduz-se num sentimento abstracto: o da fascinação. E qual é a fonte donde brota essa fascinação? O enorme tablado onde se desenrola a esotérica urdidura da tragédia americana. O seu esoterismo não é o inviolável segredo dos deuses. É a crise do desenvolvimento. Uma puberdade física e mental que convive, no seu âmago, com os fantasmos das coisas irreveladas. Nas suas células em formação ferve o sangue coagulado de várias taras sem poros para se evaporarem, a neurastenia da solidão acompanhada, um romantismo turbulento e um puritanismo mórbido. Objectiva e utópica, intransigente e tolerante, aventureira e calculista, arrebatada e grave, magnânima e egoísta, franca e enigmática, tudo de bom e de mau, de elevado e de mesquinho, nela existe em potencial, como num barro tosco a que o cinzel dos séculos ainda não deu forma.
É a antítese da tragédia europeia filtrada no cristal do tempo: a serenidade clássica da experiência e da razão.
Os americanos transmitem-nos a angústia do inacabado. Eles não são completamente generosos, nem completamente egoístas; não são completamente cordiais, nem completamente hostis. São seres por revelar.
Agosto de 1950"
domingo, maio 07, 2006

Natália Correia
Língua Mater Dolorosa
Tu que foste do Lácio a flor do pinho
dos trovadores a leda a bem-talhada
de oito séculos a cal o pão e o vinho
de Luís Vaz a chama joalhada
tu o casulo o vaso o ventre o ninho
e que sôbolos rios pendurada
foste a harpa lunar do peregrino
tu que depois de ti não há mais nada,
eis-te bobo da corja coribântica:
a canalha apedreja-te a semântica
e os teus verbos feridos vão de maca.
Já na glote és cascalho és malho és míngua,
de brisa barco e bronze foste a língua;
língua serás ainda... mas de vaca.
terça-feira, dezembro 06, 2005
Notável discurso da deputada Natália Correia, na sessão parlamentar de 22 de Março de 1990 e publicada no Diário da Assembleia da República a 23 de Março de 1990, número 55
Notável discurso da deputada Natália Correia, na sessão parlamentar de 22 de Março de 1990 e publicada no Diário da Assembleia da República a 23 de Março de 1990, número 55
"A Sr.ª Natália Correia (PRD): — Sr. Presidente, Srs. Deputados: Neste debate não me ocorre melhor argumento para fundamentar, histórica e culturalmente, os direitos da mulher em Portugal do que vexar a decrépita misoginia oriunda da mentalidade burguesa que os desrespeita e, nesta Assembleia, ainda cobra hospedagem — e a extinção da Comissão da Condição Feminina é um exemplo —, recordando-vos, Srs. Deputados, o que esqueceis. E é todo um passado português que aqui torno presente em ilustres vozes masculinas que, ao génio das mulheres, renderam a mais rasgada das admirações.
Logo no século XVI, Rui Gonçalves, lente de Direito Civil, oriundo da ilha de São Miguel, o que me é, obviamente, motivo de orgulho, defende os «privilégios e prerrogativas que o género feminino tem por direito comum e ordenaçooens do reino, mais que o género masculino», num livro assim intitulado, em que reconhece levar a mulher decidida vantagem de ânimo e psique nas qualidades requeridas para a governação do reino.
Ainda no século XVI, dentro do ideário do humanismo cívico, Duarte Nunes de Leão, na sua Descrição do Reino de Portugal, enaltece os prodígios das mulheres que nessa época tinham grande eminência nas letras, e João de Barros, no seu Espelho de Casados, afirmando que as mulheres são tão hábeis e sabedoras quanto os homens, acrescenta: «e se me disserem que muitas o não são, digo eu que também há muitos néscios e desarrazoados».
Certamente que tão fervoroso feminismo tinha o seu fundamento numa plêiada de mulheres notáveis. Dispensando-me de evocar aquelas cuja fama logrou romper as sombras com que a crónica as envolveu — Joana Vaz, Públia, Hortênsia de Castro e outras —, recordo, das latinisias que precederam de 50 anos o círculo letrado da infama D. Maria, essa extraordinária Leonor de Noronha, discípula dilecta de Cataldo Parísio Sículo, animador na corte portuguesa de um movimento cultural de cariz renascentista, que nela diz ter encontrado uma coisa do céu, a sibila de cumas.
Pois terá sido, na opinião autorizada do camonista José Maria Rodrigues, na tradução, e acrescento por D. Leonor, da Crónica Geral, de Marcanlonio Cocei Sabellicus, e da Crónica Geral da Eneida, do mesmo autor, que Camões encontrou uma das fontes de Os Lusíadas.
Considere-se ainda que não só nas letras, mas também nas armas (o que não me entusiasma muito, mas é um facto!), se distinguiram as mulheres que, oriundas da linhagem de Brites de Almeida e de Deuladeu Martins, e prosseguida nas guerras da Restauração com Mariana Lencasire, e no século XIX, com a Maria da Fonte, protagonizaram, no século XVI, em Cafim, no Norte de África, c sobretudo nos cercos de Diu, um ardor na peleja que legendariamente se acendeu na bravura de Ana Fernandes, a celebrada «velha de Diu».
Mas, já entrando no século XVII, continuam a fazer-se ouvir as vozes masculinas que rendem louvores aos méritos intelectuais e artísticos e mesmo proféticos do sexo feminino. É D. Francisco de Portugal na sua Arte de Galantería, dizendo ser coisa assaz lúcida o estimar o que as mulheres dizem como profecias e oráculos.
É D. Francisco Manuel de Melo e outros escritores a nomearem «fénix dos engenhos lusitanos» essa genial poetisa Soror Violante do Céu, que, antes de professar, já aos 17 anos era assaz admirada para que fosse escolhida uma comédia da sua autoria para ser representada nas festas oferecidas a Filipe III, na sua visita a Portugal.
São os corifeus da literatura a consagrarem outra notável poetisa, Soror Maria do Céu, «assombro do sexo feminino, inveja do masculino e admiração de ambos», assim a glorificaram os do seu tempo, preito que lhe é rendido pelo próprio qualifïcador do Santo Ofício, Padre Manuel Boaventura de São Gião, que, no seu parecer sobre um livro da poetisa, não escasso em timbres profanos como a poesia de Soror Violante do Céu, diz que ela é prodígio da natureza que excede a apreensão humana.
Em cobrar encómios semelhantes não lhes fica atrás Madalena da Glória, que, com as outras duas, forma a cintilante triologia de poetisas do século xvii, pois, como as outras, teve panegirístas fanáticos, que a designaram por «fénix dos engenhos».
Soror Madalena da Glória era também pintora, o que me leva a acentuar que a pintura, bastante cultivada neste período por mulheres artistas, hoje ignoradas, teve o seu expoente feminino em Josefa de Óbidos, que continua a encantar-nos com a voluptuosidade da doçaria das suas naturezas-mortas e com o lirismo encantador dos seus Meninos Jesus.
E chegamos ao século xviii. O Iluminismo contém uma componente feminista de que é arauto Luís António Vemey, que, no seu Verdadeiro Método de Estudar, essa extraordinária figura da nossa história da pedagogia, prescreve o que se deve ensinar às mulheres, que considera tão dotadas intelectualmente quanto os homens, indo mesmo ao ponto de afirmar que se elas se dedicassem ao estudo como os homens, então veríamos quem reinava.
Também desta época, mas não compartilhando a confiança iluminística na razão, é uma obra, Reflexões sobre a Vaidade dos Homens, em que o autor, Matias Aires, se insurge contra a situação da mulher sujeita a uma condenável subalternização. Em bom entendimento estaria ele nestas ideias com a irmã, Teresa Margarida da Silva Orta, nascida no Brasil, autora da novela Aventuras de Diofenes, em que se inscreve a marca feminista, que teve a honra de ser a percursora do romance brasileiro.
É nesta época, em que proliferam poetizas de grande mérito, que, de entre elas, esplende Leonor de Almeida, a grande Aloma. Já muito jovem, reclusa no convento de Cheias em virtude do seu parentesco com os Távoras, Leonor de Almeida faz afluir ao convento os melhores poetas do tempo, que vão admirar esse prodígio feminino. E dela que erradia, em Portugal, uma nova cultura que faz voltar a atenção da juventude para uma literatura que, vinda da Alemanha, vai revolucionar as letras nacionais: o Romantismo.
Alexandre Herculano era um desses jovens, que, no elogio que tece à poetisa por ocasião da sua morte, se confessa discípulo dessa mulher, sua mestra em conhecimentos nos quais nenhum português a igualava. São palavras de Alexandre Herculano.
Pois é este Alexandre Herculano, cavaleiro romântico da Ordem da Sabedoria Feminina, que na sua História de Portugal acentua ter sido durante a regência de D. Teresa que a nacionalidade portuguesa começou a caractcrizar--se, tornando-se ela própria — ela, D. Teresa — vítima do excesso com que fez radicar-se e definir-se esse sentimento.
Nesta mesma doutrina se situa Fernando Pessoa quando exalta em D. Teresa o seio augusto que amamentou a Nação. E previne:
Dê lua prece outro desuno A quem fadou o instinto teu! O homem que foi o teu menino Envelheceu
Envelheceu, sim, pois fatalmente terá de enfermar o homem de cansaço do poder, segundo a lei natural de que tudo se esgota, atingindo o seu termo.
Exorto-vos, por isso, Srs. Deputados, como representantes da Nação que no seu longo passado tanto enalteceu a mulher, através das vozes dos seus mais ilustres varões, o que desmente a tradição machista portuguesa, a tomar o alerta do poeta como bom conselheiro. Expulsai do vosso ânimo e das vossa práticas uma agónica miso-ginia, que ofende a memória dos ascendentes que ilustraram o vosso sexo.
O feminismo histórico, que forte incidência teve na implantação e desenvolvimento da I República, é assaz conhecido para que lhe dê realce nesta minha resenha dos olvidados vultos masculinos que tanto enalteceram os engenhos femininos. Mas, na aurora desse feminismo, cumpre recordar D. António da Costa e o conde de Sabugosa, que se distinguiram como cronistas do relevo que a mulher teve na sociedade portuguesa. E recordarei que o conde de Sabugosa dedicou páginas de grande admiração a essa notável duquesa de Palmeia, escultora e fundadora das cozinhas económicas, conhecida no seu tempo como a duquesa socialista, trisavô do deputado Pedro Campilho e meu grande amigo, ascendência que muito o honra.
Assinale-se que estes dois autores eram representantes do «velho» Portugal, que aos méritos intelectuais da mulher deu o pedestal que o patrismo burguês tudo faria por derrubar.
Sr. Presidente, Srs. Deputados: Propus-me trazer à luz vozes ignoradas ou esquecidas do passado que, provando ser o tão falado machismo português uma gabarolice frívola sem consistência nem tradição cultural no nosso país, se juntam à prece com que o poeta da Mensagem termina o poema que dedica à mãe da nacionalidade:
Mas iodo o vivo é eterno infante Onde estás e não há o dia. No antigo seio, vigilante De novo o cria
Atente nisto o sexo masculino c saiba renascer das cinzas de um poder que milenariamente lhe pesa. Porque já neste mundo de vertiginosas mudanças, sociólogos do futuro avançam vaticínios baseados na leitura de sinais que indicam que no ano 2000 o poder transitará para a liderança feminina. Salvo seja! Que esfalfadela!
Risos.
Por mim, podem os homens ficar nos governos a gerir coisas cada vez menos interessantes, mas de que eles gostam muito, como a economia e a política que a serve,...
Risos.
... contanto que tirem da sua natureza aquilo que também há de feminino neles, a fim de que não haja fricção
com a política de desenvolvimento cultural, que, essa sim, deve ser o pelouro das mulheres que, pela sua sensibilidade e paixão pelas artes, estão naturalmente vocacionadas para a exercer, não esquecendo, claro, que a cultura é o «motor» da mudança exigida pela crise de valores que está a abalar os alicerces desta nossa civilização que o homem fundou.
Aplausos gerais."
E em resposta a alguns deputados, refere:
"A Sr.ª Natália Correia (PRD): — Querido amigo Pedro Campilho, agradeço-lhe as palavras que teve.
Minha querida amiga, falemos assim, Manuela de Aguiar, há coisas em que efectivamente não nos entendemos. Realmente, a minha querida amiga segue uma linha feminista que eu não sigo...
Risos.
... e que às vezes colide com determinadas atitudes que eu estranho em si, mas enfim...
Risos.
De qualquer maneira, devo dizer que não falo em divisão de trabalho e que fundamentei histórica e culturalmente o que disse.
No entanto, quero lembrar-lhe que foi sempre nos salões das mulheres que se desenvolveu a cultura europeia.
Não sei, mas talvez se interesse pela economia. Não repudiu a política. O que repudiu é a política tal como ela se exerce. Por isso, penso que tem de nascer uma nova cultura para que dela brote uma nova política. Enfio, sim, aí estamos de acordo.
Apesar de pensar que a mulher tem uma palavra muito importante a dizer no Poder, sou pelo androginato social, não estou interessada na inversão de valores. Não podemos derrubar os simpáticos homens, que são tão agradáveis...
Risos.
... para as mulheres realmente tomarem conta do Poder. Não!... Sou pela bissexualidade!... Bem, não propriamente no aspecto erótico...
Risos.
Mas também pode ser, que não me importo.
Risos.
Também pode ser, porque não sou puritana.
Risos.
E se unirmos o que há de feminino no homem... foi por isso que lancei uma exortação para que o homem assuma o que tem de feminino, porque isso é necessário. E quando falo de uma cultura nunca digo uma cultura feminina, mas digo a cultura do feminino, que é também a cultura do homem que, subjugado, enfim, por uma cultura nacionalista, teve de esmagar esses impulsos.
Porém, esses impulsos são muito necessários para a mudança da nossa sociedade. Agora, naturalmente, a mulher, por uma ociosidade a que foi forçada, foi acumulando energias que talvez a predisponham para ser mais activa no mundo da política cultural, que eu penso ser o seu domínio natural, porque é a cultura que vai transformar tudo. Sempre foi assim e assim há-de ser. Não estou a substimar o papel da mulher, bem pelo contrário! Quanto àquele senhor...
O Sr. Amândio Gomes (PSD): — Amândio Gomes!
A Oradora: — Desculpe, Sr. Deputado, mas faço-lhe notar que a «bomba» demográfica é um perigo que ameaça a nossa civilização.
Risos
Realmente a reprodução da espécie tem de continuar, nós não podemos desaparecer da face da Terra. Todavia, a «mulher parideira» não é propriamente o modelo que me encanta.
Aplausos do PRD. do PS. do PCP e de Os Verdes e risos do PSD e do CDS."
"A Sr.ª Natália Correia (PRD): — Sr. Presidente, Srs. Deputados: Neste debate não me ocorre melhor argumento para fundamentar, histórica e culturalmente, os direitos da mulher em Portugal do que vexar a decrépita misoginia oriunda da mentalidade burguesa que os desrespeita e, nesta Assembleia, ainda cobra hospedagem — e a extinção da Comissão da Condição Feminina é um exemplo —, recordando-vos, Srs. Deputados, o que esqueceis. E é todo um passado português que aqui torno presente em ilustres vozes masculinas que, ao génio das mulheres, renderam a mais rasgada das admirações.
Logo no século XVI, Rui Gonçalves, lente de Direito Civil, oriundo da ilha de São Miguel, o que me é, obviamente, motivo de orgulho, defende os «privilégios e prerrogativas que o género feminino tem por direito comum e ordenaçooens do reino, mais que o género masculino», num livro assim intitulado, em que reconhece levar a mulher decidida vantagem de ânimo e psique nas qualidades requeridas para a governação do reino.
Ainda no século XVI, dentro do ideário do humanismo cívico, Duarte Nunes de Leão, na sua Descrição do Reino de Portugal, enaltece os prodígios das mulheres que nessa época tinham grande eminência nas letras, e João de Barros, no seu Espelho de Casados, afirmando que as mulheres são tão hábeis e sabedoras quanto os homens, acrescenta: «e se me disserem que muitas o não são, digo eu que também há muitos néscios e desarrazoados».
Certamente que tão fervoroso feminismo tinha o seu fundamento numa plêiada de mulheres notáveis. Dispensando-me de evocar aquelas cuja fama logrou romper as sombras com que a crónica as envolveu — Joana Vaz, Públia, Hortênsia de Castro e outras —, recordo, das latinisias que precederam de 50 anos o círculo letrado da infama D. Maria, essa extraordinária Leonor de Noronha, discípula dilecta de Cataldo Parísio Sículo, animador na corte portuguesa de um movimento cultural de cariz renascentista, que nela diz ter encontrado uma coisa do céu, a sibila de cumas.
Pois terá sido, na opinião autorizada do camonista José Maria Rodrigues, na tradução, e acrescento por D. Leonor, da Crónica Geral, de Marcanlonio Cocei Sabellicus, e da Crónica Geral da Eneida, do mesmo autor, que Camões encontrou uma das fontes de Os Lusíadas.
Considere-se ainda que não só nas letras, mas também nas armas (o que não me entusiasma muito, mas é um facto!), se distinguiram as mulheres que, oriundas da linhagem de Brites de Almeida e de Deuladeu Martins, e prosseguida nas guerras da Restauração com Mariana Lencasire, e no século XIX, com a Maria da Fonte, protagonizaram, no século XVI, em Cafim, no Norte de África, c sobretudo nos cercos de Diu, um ardor na peleja que legendariamente se acendeu na bravura de Ana Fernandes, a celebrada «velha de Diu».
Mas, já entrando no século XVII, continuam a fazer-se ouvir as vozes masculinas que rendem louvores aos méritos intelectuais e artísticos e mesmo proféticos do sexo feminino. É D. Francisco de Portugal na sua Arte de Galantería, dizendo ser coisa assaz lúcida o estimar o que as mulheres dizem como profecias e oráculos.
É D. Francisco Manuel de Melo e outros escritores a nomearem «fénix dos engenhos lusitanos» essa genial poetisa Soror Violante do Céu, que, antes de professar, já aos 17 anos era assaz admirada para que fosse escolhida uma comédia da sua autoria para ser representada nas festas oferecidas a Filipe III, na sua visita a Portugal.
São os corifeus da literatura a consagrarem outra notável poetisa, Soror Maria do Céu, «assombro do sexo feminino, inveja do masculino e admiração de ambos», assim a glorificaram os do seu tempo, preito que lhe é rendido pelo próprio qualifïcador do Santo Ofício, Padre Manuel Boaventura de São Gião, que, no seu parecer sobre um livro da poetisa, não escasso em timbres profanos como a poesia de Soror Violante do Céu, diz que ela é prodígio da natureza que excede a apreensão humana.
Em cobrar encómios semelhantes não lhes fica atrás Madalena da Glória, que, com as outras duas, forma a cintilante triologia de poetisas do século xvii, pois, como as outras, teve panegirístas fanáticos, que a designaram por «fénix dos engenhos».
Soror Madalena da Glória era também pintora, o que me leva a acentuar que a pintura, bastante cultivada neste período por mulheres artistas, hoje ignoradas, teve o seu expoente feminino em Josefa de Óbidos, que continua a encantar-nos com a voluptuosidade da doçaria das suas naturezas-mortas e com o lirismo encantador dos seus Meninos Jesus.
E chegamos ao século xviii. O Iluminismo contém uma componente feminista de que é arauto Luís António Vemey, que, no seu Verdadeiro Método de Estudar, essa extraordinária figura da nossa história da pedagogia, prescreve o que se deve ensinar às mulheres, que considera tão dotadas intelectualmente quanto os homens, indo mesmo ao ponto de afirmar que se elas se dedicassem ao estudo como os homens, então veríamos quem reinava.
Também desta época, mas não compartilhando a confiança iluminística na razão, é uma obra, Reflexões sobre a Vaidade dos Homens, em que o autor, Matias Aires, se insurge contra a situação da mulher sujeita a uma condenável subalternização. Em bom entendimento estaria ele nestas ideias com a irmã, Teresa Margarida da Silva Orta, nascida no Brasil, autora da novela Aventuras de Diofenes, em que se inscreve a marca feminista, que teve a honra de ser a percursora do romance brasileiro.
É nesta época, em que proliferam poetizas de grande mérito, que, de entre elas, esplende Leonor de Almeida, a grande Aloma. Já muito jovem, reclusa no convento de Cheias em virtude do seu parentesco com os Távoras, Leonor de Almeida faz afluir ao convento os melhores poetas do tempo, que vão admirar esse prodígio feminino. E dela que erradia, em Portugal, uma nova cultura que faz voltar a atenção da juventude para uma literatura que, vinda da Alemanha, vai revolucionar as letras nacionais: o Romantismo.
Alexandre Herculano era um desses jovens, que, no elogio que tece à poetisa por ocasião da sua morte, se confessa discípulo dessa mulher, sua mestra em conhecimentos nos quais nenhum português a igualava. São palavras de Alexandre Herculano.
Pois é este Alexandre Herculano, cavaleiro romântico da Ordem da Sabedoria Feminina, que na sua História de Portugal acentua ter sido durante a regência de D. Teresa que a nacionalidade portuguesa começou a caractcrizar--se, tornando-se ela própria — ela, D. Teresa — vítima do excesso com que fez radicar-se e definir-se esse sentimento.
Nesta mesma doutrina se situa Fernando Pessoa quando exalta em D. Teresa o seio augusto que amamentou a Nação. E previne:
Dê lua prece outro desuno A quem fadou o instinto teu! O homem que foi o teu menino Envelheceu
Envelheceu, sim, pois fatalmente terá de enfermar o homem de cansaço do poder, segundo a lei natural de que tudo se esgota, atingindo o seu termo.
Exorto-vos, por isso, Srs. Deputados, como representantes da Nação que no seu longo passado tanto enalteceu a mulher, através das vozes dos seus mais ilustres varões, o que desmente a tradição machista portuguesa, a tomar o alerta do poeta como bom conselheiro. Expulsai do vosso ânimo e das vossa práticas uma agónica miso-ginia, que ofende a memória dos ascendentes que ilustraram o vosso sexo.
O feminismo histórico, que forte incidência teve na implantação e desenvolvimento da I República, é assaz conhecido para que lhe dê realce nesta minha resenha dos olvidados vultos masculinos que tanto enalteceram os engenhos femininos. Mas, na aurora desse feminismo, cumpre recordar D. António da Costa e o conde de Sabugosa, que se distinguiram como cronistas do relevo que a mulher teve na sociedade portuguesa. E recordarei que o conde de Sabugosa dedicou páginas de grande admiração a essa notável duquesa de Palmeia, escultora e fundadora das cozinhas económicas, conhecida no seu tempo como a duquesa socialista, trisavô do deputado Pedro Campilho e meu grande amigo, ascendência que muito o honra.
Assinale-se que estes dois autores eram representantes do «velho» Portugal, que aos méritos intelectuais da mulher deu o pedestal que o patrismo burguês tudo faria por derrubar.
Sr. Presidente, Srs. Deputados: Propus-me trazer à luz vozes ignoradas ou esquecidas do passado que, provando ser o tão falado machismo português uma gabarolice frívola sem consistência nem tradição cultural no nosso país, se juntam à prece com que o poeta da Mensagem termina o poema que dedica à mãe da nacionalidade:
Mas iodo o vivo é eterno infante Onde estás e não há o dia. No antigo seio, vigilante De novo o cria
Atente nisto o sexo masculino c saiba renascer das cinzas de um poder que milenariamente lhe pesa. Porque já neste mundo de vertiginosas mudanças, sociólogos do futuro avançam vaticínios baseados na leitura de sinais que indicam que no ano 2000 o poder transitará para a liderança feminina. Salvo seja! Que esfalfadela!
Risos.
Por mim, podem os homens ficar nos governos a gerir coisas cada vez menos interessantes, mas de que eles gostam muito, como a economia e a política que a serve,...
Risos.
... contanto que tirem da sua natureza aquilo que também há de feminino neles, a fim de que não haja fricção
com a política de desenvolvimento cultural, que, essa sim, deve ser o pelouro das mulheres que, pela sua sensibilidade e paixão pelas artes, estão naturalmente vocacionadas para a exercer, não esquecendo, claro, que a cultura é o «motor» da mudança exigida pela crise de valores que está a abalar os alicerces desta nossa civilização que o homem fundou.
Aplausos gerais."
E em resposta a alguns deputados, refere:
"A Sr.ª Natália Correia (PRD): — Querido amigo Pedro Campilho, agradeço-lhe as palavras que teve.
Minha querida amiga, falemos assim, Manuela de Aguiar, há coisas em que efectivamente não nos entendemos. Realmente, a minha querida amiga segue uma linha feminista que eu não sigo...
Risos.
... e que às vezes colide com determinadas atitudes que eu estranho em si, mas enfim...
Risos.
De qualquer maneira, devo dizer que não falo em divisão de trabalho e que fundamentei histórica e culturalmente o que disse.
No entanto, quero lembrar-lhe que foi sempre nos salões das mulheres que se desenvolveu a cultura europeia.
Não sei, mas talvez se interesse pela economia. Não repudiu a política. O que repudiu é a política tal como ela se exerce. Por isso, penso que tem de nascer uma nova cultura para que dela brote uma nova política. Enfio, sim, aí estamos de acordo.
Apesar de pensar que a mulher tem uma palavra muito importante a dizer no Poder, sou pelo androginato social, não estou interessada na inversão de valores. Não podemos derrubar os simpáticos homens, que são tão agradáveis...
Risos.
... para as mulheres realmente tomarem conta do Poder. Não!... Sou pela bissexualidade!... Bem, não propriamente no aspecto erótico...
Risos.
Mas também pode ser, que não me importo.
Risos.
Também pode ser, porque não sou puritana.
Risos.
E se unirmos o que há de feminino no homem... foi por isso que lancei uma exortação para que o homem assuma o que tem de feminino, porque isso é necessário. E quando falo de uma cultura nunca digo uma cultura feminina, mas digo a cultura do feminino, que é também a cultura do homem que, subjugado, enfim, por uma cultura nacionalista, teve de esmagar esses impulsos.
Porém, esses impulsos são muito necessários para a mudança da nossa sociedade. Agora, naturalmente, a mulher, por uma ociosidade a que foi forçada, foi acumulando energias que talvez a predisponham para ser mais activa no mundo da política cultural, que eu penso ser o seu domínio natural, porque é a cultura que vai transformar tudo. Sempre foi assim e assim há-de ser. Não estou a substimar o papel da mulher, bem pelo contrário! Quanto àquele senhor...
O Sr. Amândio Gomes (PSD): — Amândio Gomes!
A Oradora: — Desculpe, Sr. Deputado, mas faço-lhe notar que a «bomba» demográfica é um perigo que ameaça a nossa civilização.
Risos
Realmente a reprodução da espécie tem de continuar, nós não podemos desaparecer da face da Terra. Todavia, a «mulher parideira» não é propriamente o modelo que me encanta.
Aplausos do PRD. do PS. do PCP e de Os Verdes e risos do PSD e do CDS."
Entre parêntesis de fogo
a indolência do nenúfar
soletramos como o cão dançando
uma valsa de torrão de açúcar.
a indolência do nenúfar
soletramos como o cão dançando
uma valsa de torrão de açúcar.
Carícias vagarosas de fumo,
lenta lente de aumentar
a ampulheta onde escorre
a areia de um amor sem rumo.
lenta lente de aumentar
a ampulheta onde escorre
a areia de um amor sem rumo.
Cobertos pelo pedaço
de um céu de coisa nenhuma
que deus nos livra do embaraço
de sermos feitos de barro e bruma?
de um céu de coisa nenhuma
que deus nos livra do embaraço
de sermos feitos de barro e bruma?
Acaso de um planeta alcoólico
somos inocentes nativos
e existimos pela bebedeira
de pensar que estamos vivos?
somos inocentes nativos
e existimos pela bebedeira
de pensar que estamos vivos?
Natália Correira
quarta-feira, março 16, 2005
Queixas das Almas Jovens Censuradas - Natália Correia
Queixa das almas jovens censuradas
Dão-nos um lírio e um canivete
e uma alma para ir à escola
mais um letreiro que promete
raízes, hastes e corola
Dão-nos um mapa imaginário
que tem a forma de uma cidade
mais um relógio e um calendário
onde não vem a nossa idade
Dão-nos a honra de manequim
para dar corda à nossa ausência.
Dão-nos um prémio de ser assim
sem pecado e sem inocência
Dão-nos um barco e um chapéu
para tirarmos o retrato
Dão-nos bilhetes para o céu
levado à cena num teatro
Penteiam-nos os crânios ermos
com as cabeleiras dos avós
para jamais nos parecermos
connosco quando estamos sós
Dão-nos um bolo que é a história
da nossa historia sem enredo
e não nos soa na memória
outra palavra que o medo
Temos fantasmas tão educados
que adormecemos no seu ombro
somos vazios despovoados
de personagens de assombro
Dão-nos a capa do evangelho
e um pacote de tabaco
dão-nos um pente e um espelho
pra pentearmos um macaco
Dão-nos um cravo preso à cabeça
e uma cabeça presa à cintura
para que o corpo não pareça
a forma da alma que o procura
Dão-nos um esquife feito de ferro
com embutidos de diamante
para organizar já o enterro
do nosso corpo mais adiante
Dão-nos um nome e um jornal
um avião e um violino
mas não nos dão o animal
que espeta os cornos no destino
Dão-nos marujos de papelão
com carimbo no passaporte
por isso a nossa dimensão
não é a vida, nem é a morte.
Natália Correia
terça-feira, março 08, 2005
OS MEUS DISCOS - CANTIGAS DE AMIGOS
Vou aproveitar este blog para falar dos meus discos favoritos, sejam eles de música ou de poesia.
E começo por um que é uma pérola. Quer pelos seus autores, quer pela selecção efectuada dos textos.
Chama-se "CANTIGAS DE AMIGOS" e junta Amália Rodrigues, Natália Correia e José Carlos Ary dos Santos. A capa deste disco é da autoria de Maluda. Já viram que mistura explosiva...
Mas o que resulta dele é absolutamente genial. A capacidade vocal de Amália, com a sua extraordinária dicção, a megalomania de Natália Correia e a brutalidade de Ary dos Santos resultam que nem ginjas... são minutos de puro deleite e prazer.... cada palavra dita faz-nos vibrar que nem cordas de guitarra.
Infelizmente este disco não conhece edição em CD, o que me parece incompreensível e, acima de tudo, um crime.
Do lado A deste disco constam:
- Vim esperar o meu amigo, Cantiga de Amigo (Tenção) de Bernaldo de Bonaval, com Amália e Ary
- Vem comigo irmã, Cantiga de Amigo de Fernando Esguio, com Natália
- Perigosas elas são, Cantigo de Escárnio de D. Afonso X de Castela e de Leão, o Sábio, com Ary
- Ah quisesse Deus, Cantiga de Amigo de D. Dinis, com Amália
- Senhora que bem pareceis, Cantiga de Amor de Mestria de D. Dinis, com Ary
- ... E pedem-me agora o que não devia, Cantiga de Amigo de João Garcia de Guilhade, com Amália
- O rapinante, Cantiga de Escárnio de João Airas, de Santiago, com Natália
- Uma pastora delgada, Cantiga de Amigo (Pastorela) de D. Dinis, com Ary e Natália
Do lado B constam:
- Lá vão as flores, Cantiga de Amigo de Paio Gomes Charinho, com Amália
- Nem por rei ou infante, eu me trocaria, Cantiga de Amor de Refrão de D. Dinis, com Ary
- Sejamos como toda a gente, Cantiga de Amigo de Mestria de João Garcia de Guilhade, com Natália
- Ermida de São Simeão, Cantiga de Amigo de Mendinho, com Amália
- Ai Dona Feia foste-vos queixar, Cantiga de Maldizer de João Garcia de Guilhade, com Ary
- Amores eu tenho, Cantiga de Amigo (Tenção) de Pero Meogo, com Amália e Natália
- Alegre eu ando, Cantiga de Amigo (Alba) de Nuno Fernandes Torneol, com Natália
Transparece, em cada uma das Cantigas, o cuidado e a paixão que cada trovador deste disco tem pelas palavras.
Claro está que a adaptação das cantigas ficou a cargo de Natália Correia, algo aliás que vem já ameaçado no albúm "Amália e Vinicius", recentemente editado em CD, onde Natália também participa e nos diz que está a fazer uma adaptação do Cancioneiro Medieval para português "recente".
Engraçadissimo também é o texto que nos aparece na contra-capa do albúm, escrito por Ary dos Santos, e que a seguir vos transcrevo:
" Era uma vez um livro muito bonito, que cheirava muito bem. Umas vezes a flores, outras vezes a urtigas. Mas a urtigas sadias. Tinha sido feito pela Natália Correia que o desenterrara de alfarrábios muito, muito velhos, com mãos de chama e de poeta. Escusado será, pois, dizer que o livro era de poemas.
Eis senão quando, uma bela noite em casa da Amália, os tais poemas sairam das páginas e ganharam voz. Pareciam ervas dançando no meio da sala. O Fontes Rocha foi-os apanhando um a um e fez com eles um feixe de música. O Carlos, o Pedro e o Joel, ajudavam muito. E a Amália deu-lhes um nome como só ela sabe: Cantigas de Amigos.
O resto? O resto foi apenas convivio e entendimento perfeitos. Às vezes, pela meia-noite, os poemas tinham fome e comiam sopa de coentros e arroz de bacalhau. O Rui e o João também apareceram e ficaram calados que nem ratos ao pé do Ribeiro, que é um mágico que sabe fazer música com luzes, enquanto este regia a orquestra.
Depois, chegou a bruxa Maluda (que por sinal é bem bonita) a cavalo numa vassoura, com um pincel e uma tesoura. E zás, pôs-nos a todos na Idade Média.
Parece uma história para meninos, é certo. Mas não é verdade que, no Natal, todos gostamos de nos sentirmos um pouco mais crianças? Ou anjos com caracóis de fios de ovos, como diz a Natália...
José Carlos Ary dos Santos"
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