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sexta-feira, março 30, 2007

MARIA CALLAS EM LISBOA E O ESCÂNDALO NA ÓPERA DE ROMA

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A passagem de uma grande cantora por Lisboa

Maria callas foi, talvez, a artista de quem recentemente pior se falou em todo o mundo, em repercussão da sua atitude no Teatro da Opéra de Roma.

Esperava-se com natural ansiedade a vinda da genial cantora ao nossa País, para se constatar se, de facto, Maria Callas mereceria tudo aquilo que lhe foi chamado: incorrecta, agressiva, mal educada. A crítica foi, porém, unânime em declarar que a artista é pura e simplesmente extraordinária, e não fez sequer alusão aos terríveis defeitos que lhe foram atribuídos.

Efectivamente, Maria Callas revelou-se interessante, elegantíssima, de lindos olhos e perfeitíssimos dentes, e... amável.

O seu sucesso no teatro S. Carlos foi tão estrondoso, como o foi o escandâlo que estalou em Roma, quando a cantora se recusou a cantar o final da ópera "Norma" de Bellini. E se bem que o assunto fosse delicadíssimo, Maria Callas não hesitou abordá-lo e a dar gentilmente as explicações que o público necessitava para poder continuar a acreditar nela.

Assim, a insigne artista declarou que não guarda rancor, nem aos jornalistas nem mesmo àqueles que a insultaram, sob a janela do quarto de hotel onde se encontrava hospedada. Apenas lamenta profundamente que Sampaoli, o director artístico do teatro de Roma, não a tivesse querido substituir, como Maria Callas desejava, em virtude de se não encontrar bem de saúde.

Coagida pelos seus deveres e animada por umas momentâneas melhoras, a artista acabou por cantar, tendo notado imediatamente a péssima forma em que se achava. Os aplausos que recebeu irritaram-na, porque sentiu que não eram merecidos, e a segunda ária que cantou veio confirmar a sua apreensão: a sua voz diminuira consideràvelmente e estava incapacitada de prosseguir.

As palmas que ouviu, enquanto se dirigia ao seu camarim, soaram dolorosamente aos seus ouvidos, e a sua indignação começou quando todos aqueles que a rodeavam pretenderam exigir que cantasse... de qualquer forma.

Então, deu-se qualquer coisa de difícil de explicar embora muito fácil de comprrender. Maria Callas que não preza ùnicamente a sua reputação, lembrou-se do respeito que a sua arte e até o nome do autor da "Norma" lhe mereciam e recusou-se terminantemente continuar o espectáculo.

Parece-nos que àquilo que se chamou o escândalo da Callas, se deveria chamar, com mais razão, o drama da Callas.

Por Lisboa, passou Maria Callas, deixando um rasto da sua arte, que só muito tempo poderá fazer esquecer. O resto é lamentável, mas lamentável principalmente pelo muito que a feriu.

Crónica Feminina, nº 73, 14-04-1958"

sexta-feira, abril 21, 2006

MARIA CALLAS NA CINEMATECA

Ontem, quinta-feira, dia 20, pelas 19 horas, a Cinemateca de Bérnard da Costa passou o filme MEDEA, de Pier Paolo Pasolini. A principal protagonista é MARIA CALLAS, único filme de toda a carreira da grande voz lírica.
Embora grande admirador de Pasolini - especialmente Saló e Decameron - nunca tinha visto o Medea. Talvez porque não se encontre no mercado nacional em DVD ou porque as televisões nunca o passaram... isto que eu saiba.
A surpresa foi grande e muito muito agradável.
Pasolini genial como sempre, com uma fotografia fora de série e figurinos deslumbrantes. E Maria Callas... bela, filmada de todos os ângulos, dando um estatuto intocável à sua personagem.
Se ainda não viu, não perca. Repete hoje, sexta-feira, às 19h e 30m, na Cinemateca, em Lisboa.
Pasolini e Callas... juntos.
"O encontro de Pasolini com Maria Callas (ficariam grandes amigos), deu-se à volta da MEDEIA de Eurípides, que também fora o ponto de partida de uma ópera de Cherubini, um dos grandes papéis da cantora. Mas em MEDEIA, Callas não canta e quase não fala. Filmado essencialmente em cenários naturais na Turquia, MEDEIA retoma o método de trabalho de ÉDIPO REI, porém com uma diferença fundamental: a tragédia não tem referentes modernos. Pasolini referiu-se ao filme nestes termos: “MEDEIA é uma mistura um pouco monstruosa de conto filosófico e intriga amorosa. Medeia vem de um mundo religioso e arcaico e chega a um mundo onde tudo é laico, moderno, refinado, culto. O drama nasce deste conflito.”
MEDEA Medeia de Pier Paolo Pasolinicom Maria Callas, Giuseppe Gentile, Massimo Girotti, Laurent Terzieff - França/Itália, 1969 - 118 min