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quinta-feira, janeiro 22, 2009

Simone de Oliveira e Ary dos Santos - Apenas o Meu Povo





Apenas o Meu Povo

Quem disse que morreu a madrugada?
Quem disse que esta noite foi perdida?
Quem pôs na minha alma magoada
As palavras mais tristes que há na vida?
Quem me disse saudade em vez de amor?
Quem me disse tristeza em vez de esperança?
Quem me lançou a pedra do terror
Matando o cantador e a criança?
Quem fez da minha espera desespero?
Quem fez da minha sede temperança?
Quem me dando tudo quanto eu quero
Da minha tempestade fez bonança?
Quem amainou os ventos do meu corpo
E saciou o mar da minha fome?
Quem foi que me venceu depois de morta
E soletrou as letras do meu nome?
Quem foi foi quem fez serva sem servir?
Quem foi que me fez escrava sem querer?
Quem foi que disse que eu podia ir
Tão longe quanto nós podemos ser?
Apenas quem me viu calada e triste
E despertou em mim um mundo novo
Apenas a esperança que resiste
Apenas o meu sangue, apenas o meu povo
Apenas a esperança que resiste
Apenas o meu sangue, apenas o meu povo

Porque Ary dos Santos morreu a 18 de Janeiro de 1984, aqui fica a homenagem. A voz de uma das artistas e amigas de Ary dos Santos e um dos poemas favoritos da mesma artista e amiga de José Carlos Ary dos Santos.

quarta-feira, dezembro 28, 2005

Quando um Homem Quiser




Tu que dormes a noite na calçada de relento

Numa cama de chuva com lençóis feitos de vento

Tu que tens o Natal da solidão, do sofrimento

És meu irmão amigo

És meu irmão


E tu que dormes só no pesadelo do ciúme

Numa cama de raiva com lençóis feitros de lume

E sofres o Natal da solidão sem um queixume

És meu irmão amigo

És meu irmão


Natal é em Dezembro

Mas em Maio pode ser

Natal é em Setembro

É quando um homem quiser

Natal é quando nasce uma vida a amanhecer

Natal é sempre o fruto que há no ventre da Mulher


Tu que inventas ternura e brinquedos para dar

Tu que inventas bonecas e combóios de luar

E mentes ao teu filho por não os poderes comprar

És meu irmão amigo

És meu irmão


E tu que vês na montra a tua fome que eu não sei

Fatias de tristeza em cada alegre bolo-rei

Pões um sabor amargo em cada doce que eu comprei

És meu irmão amigo

És meu irmão


Natal é em Dezembro

Mas em Maio pode ser

Natal é em Setembro

É quando um homem quiser

Natal é quando nasce uma vida a amanhecer

Natal é sempre o fruto que há no ventre da Mulher




Intérprete: Paulo de Carvalho

Música: Fernando Tordo

Letra: Ary dos Santos

terça-feira, abril 12, 2005

Ary dos Santos e a Publicidade


Publicidade de outros tempos - 1973

Publicidade de 1973 para o Secretariado Nacional da Lã cujo slogan foi idealizado por José Carlos Ary dos Santos. O filme publicitário da "pura lã virgem" foi a estreia de António Pedro de Vasconcelos como Realizador.

terça-feira, março 08, 2005

OS MEUS DISCOS - CANTIGAS DE AMIGOS


Natália, Amália e Ary dos Santos

Vou aproveitar este blog para falar dos meus discos favoritos, sejam eles de música ou de poesia.
E começo por um que é uma pérola. Quer pelos seus autores, quer pela selecção efectuada dos textos.
Chama-se "CANTIGAS DE AMIGOS" e junta Amália Rodrigues, Natália Correia e José Carlos Ary dos Santos. A capa deste disco é da autoria de Maluda. Já viram que mistura explosiva...
Mas o que resulta dele é absolutamente genial. A capacidade vocal de Amália, com a sua extraordinária dicção, a megalomania de Natália Correia e a brutalidade de Ary dos Santos resultam que nem ginjas... são minutos de puro deleite e prazer.... cada palavra dita faz-nos vibrar que nem cordas de guitarra.
Infelizmente este disco não conhece edição em CD, o que me parece incompreensível e, acima de tudo, um crime.
Do lado A deste disco constam:
- Vim esperar o meu amigo, Cantiga de Amigo (Tenção) de Bernaldo de Bonaval, com Amália e Ary
- Vem comigo irmã, Cantiga de Amigo de Fernando Esguio, com Natália
- Perigosas elas são, Cantigo de Escárnio de D. Afonso X de Castela e de Leão, o Sábio, com Ary
- Ah quisesse Deus, Cantiga de Amigo de D. Dinis, com Amália
- Senhora que bem pareceis, Cantiga de Amor de Mestria de D. Dinis, com Ary
- ... E pedem-me agora o que não devia, Cantiga de Amigo de João Garcia de Guilhade, com Amália
- O rapinante, Cantiga de Escárnio de João Airas, de Santiago, com Natália
- Uma pastora delgada, Cantiga de Amigo (Pastorela) de D. Dinis, com Ary e Natália
Do lado B constam:
- Lá vão as flores, Cantiga de Amigo de Paio Gomes Charinho, com Amália
- Nem por rei ou infante, eu me trocaria, Cantiga de Amor de Refrão de D. Dinis, com Ary
- Sejamos como toda a gente, Cantiga de Amigo de Mestria de João Garcia de Guilhade, com Natália
- Ermida de São Simeão, Cantiga de Amigo de Mendinho, com Amália
- Ai Dona Feia foste-vos queixar, Cantiga de Maldizer de João Garcia de Guilhade, com Ary
- Amores eu tenho, Cantiga de Amigo (Tenção) de Pero Meogo, com Amália e Natália
- Alegre eu ando, Cantiga de Amigo (Alba) de Nuno Fernandes Torneol, com Natália
Transparece, em cada uma das Cantigas, o cuidado e a paixão que cada trovador deste disco tem pelas palavras.
Claro está que a adaptação das cantigas ficou a cargo de Natália Correia, algo aliás que vem já ameaçado no albúm "Amália e Vinicius", recentemente editado em CD, onde Natália também participa e nos diz que está a fazer uma adaptação do Cancioneiro Medieval para português "recente".
Engraçadissimo também é o texto que nos aparece na contra-capa do albúm, escrito por Ary dos Santos, e que a seguir vos transcrevo:


" Era uma vez um livro muito bonito, que cheirava muito bem. Umas vezes a flores, outras vezes a urtigas. Mas a urtigas sadias. Tinha sido feito pela Natália Correia que o desenterrara de alfarrábios muito, muito velhos, com mãos de chama e de poeta. Escusado será, pois, dizer que o livro era de poemas.
Eis senão quando, uma bela noite em casa da Amália, os tais poemas sairam das páginas e ganharam voz. Pareciam ervas dançando no meio da sala. O Fontes Rocha foi-os apanhando um a um e fez com eles um feixe de música. O Carlos, o Pedro e o Joel, ajudavam muito. E a Amália deu-lhes um nome como só ela sabe: Cantigas de Amigos.
O resto? O resto foi apenas convivio e entendimento perfeitos. Às vezes, pela meia-noite, os poemas tinham fome e comiam sopa de coentros e arroz de bacalhau. O Rui e o João também apareceram e ficaram calados que nem ratos ao pé do Ribeiro, que é um mágico que sabe fazer música com luzes, enquanto este regia a orquestra.
Depois, chegou a bruxa Maluda (que por sinal é bem bonita) a cavalo numa vassoura, com um pincel e uma tesoura. E zás, pôs-nos a todos na Idade Média.
Parece uma história para meninos, é certo. Mas não é verdade que, no Natal, todos gostamos de nos sentirmos um pouco mais crianças? Ou anjos com caracóis de fios de ovos, como diz a Natália...


José Carlos Ary dos Santos"