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domingo, dezembro 11, 2011

sexta-feira, abril 06, 2007

A Extraordinária Arte de (Saber) Representar


Não se tem "Dúvida" alguma que este se trata de um enorme texto. Fala de tabús, da moralidade e do dever versus a realidade (normalmente dura, cruel, onde há subjugadores e subjugados, fortes e fracos, os que têm e podem e os que não têm e não podem.
Texto profundo, limpo do acessório, irónico e central.
A encenação de Ana Luísa Guimarães é muito bem conseguida, linear, contida, nada pretensiosa.
O cenário é muito bom, claustrófico q.b., fechado e em cunha, mas sempre iluminado com um feixe de luz... Deus?
Como referiu o Fernando D., para o Teatro só são necessárias duas coisas: as palavras do autor e o corpo do actor. Concordo.
Quanto às palavras não há a menor "Dúvida" de que se está perante um grande texto - vencedor do prémio Pulitzer 2005". E quanto aos actores?
A Eunice Muñoz dá uma grande lição da arte de representar naquele palco do Maria Matos. De uma força impressionante, irónia e com imenso sentido de humor, Eunice Muñoz é uma lição viva do que deve ser o ofício da representação e interpretação, de como se está num palco, a forma de dizer as palavras, de mexer corpo. Uma vivacidade comovente que nos convençe, a cada segundo, de que ainda muito tem para oferecer aos palcos portugueses. Chegou mesmo a ser presenteada com uma ovação no final de umas das cenas, tal foi o seu brilhantismo.
O mesmo, infelizmente, não se pode dizer relativamente ao Diogo Infante. A sua representação foi muito mediocre, sem a força e a subtileza que a personagem exigia. Sempre no mesmo tom, com uma voz colocada que não lembra a ninguém, não conseguiu transmitir qualquer tipo de sentimento ou reacção, chegando mesmo ao ponto de ser aborrecido nas "homilias" pregadas.
Isabel Abreu interpretou uma noviça altamente convincente e segura.
Lucília Raimundo, com um papel curto e extremamente interessante, protagoniza uma das cenas fulcrais e perturbantes da história. Contudo, o que tinha tudo para ser um dos momentos altos - devido ao tema em conversa e ao ponto de vista e de realidade da personagem por ela interpretada - não o foi. Lucília Raimundo aparece frouxa e desmaiada, sem dar a pujança que a defesa dos seus argumentos exigia.
Resumindo, estamos perante um excelente texto e duas representações - uma soberba, outra bem feita - que merecem a visita ao Teatro Maria Matos.
O último senão da noite veio com os agradecimentos. Por uma questão de respeito e consideração, quando se tem uma grande actriz - com uma longa e reconhecida carreira - o mínimo que se deve fazer é deixá-la chegar sozinha ao palco para agradecer. Tal não aconteceu com a Eunice Muñoz. Na primeira entrada para os agradecimentos a Eunice deveria, no início ou no fim da entrada do restanto elenco, comparecer no palco sozinha. Tive a perfeita consciência que a grande maioria das palmas destinavam-se, de facto, a homenagear a Eunice. Foram altamente merecidas, embora divididas pelos restantes três elementos.
Vá ao Teatro...
E uma última pergunta: Por que é que já não se usam as pancadas de Molière?

terça-feira, março 27, 2007

DIA MUNDIAL DO TEATRO

(clique na foto)
E porque é hoje o Dia Mundial do Teatro, faço uma pequena homenagem a uma das maiores actrizes de sempre do Teatro em Portugal - Eunice Muñoz - que estreia hoje, no Teatro Municipal Maria Matos - a peça "Dúvida".
Desta vez foi buscar um artigo saído em 11 de Fevereiro de 1965, na revista Colecção Cinema. Assim, homenageia-se a actriz pelo seu trabalho nos palcos e nos ecrãns.
Espero que gostem.
"Galeria do Cinema Nacional - Eunice Muñoz
- Nome completo: Eunice do Carmo Muñoz Borges
- Nasceu em Lisboa, a 30 de Julho de 1930
A considerada pela crítica como a maior actriz da sua geração, Eunice Muñoz possui uma excepcional galeria de interpretações teatrais, das quais se destacam "Joana d'Arc", "O Milafre de Ana Sullivan" e "O Adorável Mentiroso". Não é só no drama que se distingue, pois no desempenho noutro género notabiliza-se da mesma forma. Recordemos a sua presença na farsa ("Os Direitos da Mulher" e "Três em Lua de Mel") e mais recentemente na comédia ("Mary Mary").
Ao longo dos seus 23 anos de actividade, intercalados com um período de desânimo no qual tentou ser uma empregada comercial, Eunice tem dado o seu concurso, sempre com nota de relevo, à Rádio e Televisão, interpretando folhetins e diversos apontamentos de tele-teatro, destacando-se neste último sector "As Cenas da Vida de uma Actriz".
FILMOGRAFIA
1946 - "Camões", de Leitão de Barros
- "Um Homem do Ribatejo", de Henrique Campos
1947 - "Os Vizinhos do Rés-do-chão", de Alexandre Perla
1948 - "Não há Rapazes Maus", de Eduardo Maroto, (Onde a sua voz se ouvia, narrando a biografia do Padre Américo)
1949 - "A Morgadinha dos Canaviais", de Caetano Bonucci
- "Ribatejo", de Henrique Campos
- "Cantiga da Rua", de Henrique Campos
1964 - "O Trigo e o Joio", de Manuel Guimarães."

sexta-feira, julho 07, 2006

TEATRO
Por Mário Viegas


Um beijinho no actor Simão Rubim

Na última crónica que escrevi, fui de uma violência verbal enorme contra uns pseudo-intelectuais. Aquilo é que foi dizer mal e destilar veneno!!
Hoje (só para variar) apetece-me só dizer bem. E, para dizer bem de «pessoas de Teatro», passo a citar:
CARLOS AVILEZ – Encenador e actual Director do Teatro Nacional Dona Maria Dois e fundador, há 30 anos (com outros amigos Actores), do Teatro Experimental de Cascais, onde eu me estreei em 16 de Janeiro de 1968, como Actor profissional. Perdoem-me a efeméride!...
Este homem ama, de facto, o Teatro como poucos! Há muitos anos que vou ver os espectáculos do T.E.C. e lá está sempre o Carlos, à porta, a ver entrar e sair o público. A ver se gostaram ou não... A controlar os espectáculos... Agora no Dona Maria Dois, sucede o mesmo!! Ele lá está, diariamente no átrio ou no restaurante, a viver os espectáculos. Só assim se pode ser um grande homem de Teatro!!
Fazendo do Teatro a sua casa e dos seus amigos. Que bonito!
EUNICE MUÑOZ – Vão vê-la na peça «O Caminho para Meca». Que humildade, aparente simplicidade, que bonita!! Obrigado pelo seu comovedor Trabalho, que acompanho há anos, Eunice!!!
«A Humildade deve ser a 1ª qualidade de um Actor»
Ora aqui estão dois belos exemplos, num meio teatral em que qualquer «menina ou menino», fazem um reclame na TV, dizem 6 frases numa telenovela e numa peça que ninguém vê e se permitem logo «cagar sentenças» sobre o Teatro entrevistas... Ou, pior do que isso, identificarem-se como Actores. São logo Actores...
Mas dentro do reino da Humildade e da Simplicidade, gostaria de dizer bem do:
SIMÃO RUBIM – Está na Companhia Teatral do Chiado há cinco anos. Fez, muitíssimo bem, 4 papéis lindíssimos em peças do Eduardo De Fillippo que eu encenei: «Nápoles Milionária», «A Arte da Comédia» e «A Grande Magia». Foi o protagonista de «A Birra do Morto» de Vicente Sanches e prepara-se agora para ser um dos protagonistas de «O Homem-Elefante», o nosso próximo espectáculo. Tem-me ajudado em tudo: bilheteira, programas, traduções (fala perfeitamente o inglês), produções, luzes, sei lá...
E sabem como eu o reconheci?!
Fui passar uma semana a Londres com o Actor Juvenal Garcês, para ver Teatro. E não é que Dustin Hoffman, o famoso super-star do Cinema, estava a fazer «O Mercador de Veneza» no Teatro Phoenix, em pleno centro de Londres. Esgotadíssimo há semanas, claro!!! Lembrei-me de ir espreitar o final do espectáculo, para lhe pedir um autógrafo, à porta dos artistas. Podem pensar que é piroso, mas foi mesmo assim!! Bem, estavam lá mais de 100 pessoas com a mesma ideia: japoneses, meninas histéricas com máquinas fotográficas, e até uma senhora de bengala, sentada numa cadeira de lona, mesmo em frente da porta...
Esperamos aí uns 45 minutos. Saiam outros actores, técnicos, etc. Fecharam a luz das traseiras do Teatro e ficou tudo frustradíssimo. Eis que aparece o director do Teatro, acompanhado por 2 guarda-costas do Dustin Hoffman, de aspecto sinistro. Um era forte, rabo de cavalo, óculos escuros. Outro alto, magro, cara com borbulhas, óculos escuros. Dois verdadeiros «gangsters»... E diz:
«-Desculpem, mas o senhor Dustin Hoffman já saiu por outra porta, pois está muito cansado esta noite».
Desilusão e fúria total. Houve uns assobios e eu, como bom português e no meu péssimo inglês, avanço e digo-lhes provocatóriamente:
«-E nós também estamos muito cansados de estar, aqui ao frio, à espera do Sr. Hoffman!»
Logo os dois «guarda-costas» avançaram para mim e o magrinho tira os óculos e põe-me a mão no braço:
«-Olha!! Tu não és o Mário Viegas?! Eu sou português. De Cascais. Comecei a fazer Teatro no TEC, com o Avillez. E agora estou aqui a trabalhar neste Teatro».
Logo nessa noite eu, o Juvenal Garcês e o Simão, ficamos amigos para sempre. E este homem apareceu-nos, um ano depois, em Lisboa, para inaugurar connosco a Companhia Teatral do Chiado em 1990. Já tinha conseguido fazer uma peça em Londres, figurações em Óperas, pequenos papéis numa óptima série da BBC, trabalhando em hotéis, como porteiro e como «pseudo-guarda-costas» de Hoffman. E mais grave ainda, ter sido aceite numa das melhores escolas de Teatro inglesas, o que é dificílimo!!
É com estas pessoas AMIGAS, HUMILDES, TALENTOSAS; que se constrói uma Companhia... Um Espectáculo. E não com pretensiosos e medíocres, que proliferam cada vez mais no nosso Teatro, Televisão e Cinema. Que até apresentam falsas biografias e cursos tirados «lá fora»...
Bem... Hoje é só para dizer bem!
Obrigado Simãozinho! (Pela tua Humildade e Talento)
Obrigado Eunice! (Pela sua Luz para Meca)
Obrigado Carlos! (Pelo seu Amor aos Actores)

P.S. – Atenção! Esta croniqueta não tem nada a ver com o nosso Joaquim d’Almeida, mais conhecido pelo «Quim d’Hollywood», ou com o nosso Filipe La Féria, que escreveu um «curriculum» num programa do Dona Maria, a dizer que tinha um Curso de Encenação tirado em Londres, quando só lá esteve uns tempos a servir à mesa num restaurante... o que, aliás não é vergonha.

quinta-feira, agosto 04, 2005

Eunice Muñoz

A paixão pelo público e pelas artes do espectáculo era já característica da família de Eunice, tendo os seus avós, mãe – Júlia Muñoz (MIMI) – e tios formado uma companhia teatral que representava na província e era conhecida como a "Troupe Carmo".
Mimi, viria a conhecer, em Alter do Chão, Hernâni Muñoz que, era uma das atracções do Circo Muñoz, executando, na perfeição, um tango com a sua irmã Alzira.
Casaram em 1927, tendo, no ano seguinte, nascido a primogénita Eunice Muñoz, seguida do irmão Hernâni em 1929.
Mais tarde, esta família forma a sua própria companhia onde, desde os 5 anos, Eunice se exibia com grande intuição musical em canções em voga como "Uma Porta e Uma Janela".
Quando as variedades nos cinemas se tornaram inviáveis, surgiu o Teatro Desmontável Mimi Muñoz, daí que os estudos de Eunice tivessem decorrido ao sabor das tournées familiares, tendo feito a admissão ao liceu em Fornos de Algodres, onde, após se retirarem da actividade até então exercida, os pais se dedicaram à formação de pequenos grupos de variedades como empresários.
Eunice Muñoz, subiu pela primeira vez ao palco para interpretar o papel de Isabel na peça "Vendaval", no Teatro Nacional D. Maria II, pela companhia Rey Colaço Robles Monteiro, no dia 28 de Novembro de 1941, na sequência do conselho dado por Sales Ribeiro a Amélia Rey Colaço, aquando da necessidade de quatro raparigas para rodear Maria Lalande nesta peça, que seria a última de Virgínia Vitorino. Nesta peça, Eunice chama a atenção de João Villaret e desperta interesse e admiração por parte de Amélia Rey Colaço.
Após uma paragem, Eunice voltou ao palco do Nacional em 1942, integrando a companhia Rey Colaço Robles Monteiro e representando ao lado dos actores mais importantes da época em Portugal.
Durante as férias da companhia nos meses de verão, foi chamada para representar ao lado de Estevão Amarante na opereta "João Ratão", no Teatro Avenida. No mesmo verão subiu à cena no Teatro Variedades para a comédia "Raparigas Modernas". A interpretação que faz da personagem "Maria" em "Frei Luís de Sousa" pela companhia Rey Colaço Robles Monteiro, engrandeceu o seu prestigio.
Deixou o Teatro Nacional no verão de 44 e, devido ao seu talento e grandes capacidades, passou da comédia sentimental à farsa e à opereta, percurso que a levou a figurar em lugares de destaque nos cartazes.
Dia 24 de Julho de 1945, Eunice prestou as provas finais no Conservatório com cenas do 2o acto da "Vivette", obtendo a classificação de 18 valores e para grande espanto na noite desse mesmo dia, o nome da actriz figurava com o mesmo tamanho e com a mesma força que Mirita Casimiro e Vasco Santana no cartaz de estreia da comédia musicada "Chuva de Filhos".
Este ciclo da vida de Eunice, foi encerrado dia 23 de Abril de 1946 na farsa "Cuidado com a Bernarda!", tendo-se estreado no cinema a 23 de Setembro do mesmo ano, no papel de "Má Fortuna", uma mulher da mais alta nobreza com uma paixão não correspondida por Camões, interpretação que lhe valeu o prémio de melhor actriz do SNI, com apenas 17 anos de idade.
Eunice casou em 1947 com o arquitecto Rui Couto e declarou, em várias revistas, querer trocar o teatro pelo cinema.
Participou ainda em mais uma filme mas reapareceu em palco em Novembro do mesmo ano como primeira figura na peça "A Noite de 16 de Janeiro".
Em 1949 voltou à companhia Rey Colaço Robles Monteiro para protagonizar a peça " Outono em Flor", a última de Júlio Dantas.
Ainda no mesmo ano, a actriz quase atingiu o ponto de ruptura com a profissão, tendo feito mais três filmes antes de 15 anos de paragem na sua carreira cinematográfica.
Nesta altura, Eunice foi desaproveitada na revista.
Viria, porém a fazer enorme furor na companhia formada em 1951 no Teatro do Ginásio sob a direcção de António Pedro, interpretando papeis e peças nacionais e internacionais.
Passando ainda pelo Trindade na peça "João da Lua" Eunice retirou-se da sua profissão que lhe teria sido quase imposta.
Foi então caixeira numa loja de cortiça.
O regresso ao palco teve lugar na noite de 9 de Novembro de 1955 no Teatro Avenida.
O nascimento de um filho levou a outro afastamento que terminou em 1957, desta vez no Teatro da Trindade, integrando a companhia Teatro Nacional Popular, formada por Francisco Ribeiro e interpretando um papel na "Noite de Reis" de Shakespeare.
Em 1965, aceitou o desafio de integrar a Companhia Portuguesa de Comediantes com duas sessões diárias e matinée ao Domingo.
No ano de 1969 a desilusão de Eunice perante o panorama teatral da época levou a que formasse uma companhia com José de Castro, a companhia "Somos Dois" que se destinava a levar a efeito uma longa tournée por Angola e Moçambique.
Passou ainda uma última vez pela companhia Rey Colaço Robles Monteiro em 1971.
O Teatro Experimental de Cascais envolveu mais uma vez Eunice Muñoz num grande sucesso em "As Criadas" de Jean Genet, ao qual se sucedeu uma longa tounée em África.
Voltando a Lisboa em Maio de 74, apenas voltou ao palco em 76.
Seguiram-se ainda mais ausências e regressos entre vários géneros dramáticos na vida de uma actriz " que é sem dúvida a actriz mais jovem e mais ousada de quantas actuam em palcos portugueses".