Em 1982, discutia-se acaloradamente na Assembleia da República questões relacionadas com a maternidade e a interrupção voluntária da gravidez. Em mais um momento de genialidade, Natália Correia intervem:
Poesia, musica, celebridades, teatro, cinema, selecção de textos, poetas e escritores, banalidades, fotografias, arte, literatura, pintura e muita conversa.
sexta-feira, dezembro 06, 2013
A RTP, em 1982, e Isabel II de Inglaterra, em 1983 previam uma III Grande Guerra Mundial
Em 1982, a RTP previa o inicio da III Grande Guerra Mundial - A Guerra Nuclear. O pânico gerado foi de tal ordem em alguns circulos que foi matéria de debate na Assembleia da República:
Neste ano de 2013 foi revelado o esboço de um discurso que a Rainha Isabel II de Inglaterra tinha já preparado, em 1983, caso se desse o inicio da III Grande Guerra Mundial. Era um receio transversal a toda a Europa.
Esse discurso versava assim:
When I spoke to you less than three months ago we were all enjoying the warmth and fellowship of a family Christmas. Our thoughts were concentrated on the strong links that bind each generation to the ones that came before and those that will follow. The horrors of war could not have seemed more remote as my family and I shared our Christmas joy with the growing family of the Commonwealth.Now this madness of war is once more spreading through the world and our brave country must again prepare itself to survive against great odds.I have never forgotten the sorrow and the pride I felt as my sister and I huddled around the nursery wireless set listening to my father's inspiring words on that fateful day in 1939. Not for a single moment did I imagine that this solemn and awful duty would one day fall to me.We all know that the dangers facing us today are greater by far than at any time in our long history. The enemy is not the soldier with his rifle nor even the airman prowling the skies above our cities and towns but the deadly power of abused technology.But whatever terrors lie in wait for us all the qualities that have helped to keep our freedom intact twice already during this sad century will once more be our strength.My husband and I share with families up and down the land the fear we feel for sons and daughters, husbands and brothers who have left our side to serve their country. My beloved son Andrew is at this moment in action with his unit and we pray continually for his safety and for the safety of all servicemen and women at home and overseas.It is this close bond of family life that must be our greatest defence against the unknown. If families remain united and resolute, giving shelter to those living alone and unprotected, our country's will to survive cannot be broken.My message to you therefore is simple. Help those who cannot help themselves, give comfort to the lonely and the homeless and let your family become the focus of hope and life to those who need it.As we strive together to fight off the new evil let us pray for our country and men of goodwill wherever they may be.God bless you all.
Felizmente nada se deu. A Paz prevaleceu.
quinta-feira, novembro 14, 2013
Sobre a Morte e o Morrer - Walter Osswald
Sobre a Morte e o Morrer - Walter Osswald - €3.15
Numa escrita simples e bem fundamentada, Walter Osswald traça um panorama reflexivo e histórico sobre "o processo de morrer", a forma como é (devia ser) encarado, com o enfoque nos doentes terminais e salientando (elogiando), por diversas vezes, a necessidade de uma maior expansão dos cuidados paliativos e preparação/formação das equipas de saúde.
Saliento os notáveis capítulos:
- Um manto de cuidados
- Quem cuida do cuidador?
- A morte anunciada
- Dor e sofrimento
- A morte e os outros
Retiro da conclusão da obra:
"Na sua longuíssima convivência com a morte, o Homem sempre foi confrontado com o mistério e a inevitabilidade. Em diferentes fases do seu percurso civilizacional, personificou-a (como Cavaleiro do Apocalipse, como Thanatos, como Irmã Morte, como esqueleto armado de roçadoura, etc) ou endeusou-a (Egipto). Tornada presença habitual pelas pestes que grassaram na Europa, pelas guerras que a dilaceraram, pelas deficientes condições higiénicas, pela elevada taxa de perda perinatal e infantil, acabou por ser domada, na medida em que se tornou acontecimento quase banal, temido mas não estranho.
A esta fase seguiu-se a do escamoteamento, senão negação, da morte: já que não a podemos evitar, ignoremo-la. Logo, nada de a lembrar nem celebrar: esconde-se das crianças, não se dá relevo público, remete-se para o hospital, de modo que as nossas casas não sejam por ela assinaladas nem detectado o seu odor.
Este esforço pueril e votada ao fracasso tem sido, felizmente, denunciado e combatido. Reconhecer a morte, atribuir significado e exigência ao processo de morrer são hoje as linhas mestras do pensamento antropológico e filosófico. Se há um inegociável e universalmente válido direito à vida, também há um direito à boa morte, ou seja, uma morte em condições de dignidade e de compostura, sem sofrimento, aureolada de afecto.
Mas a realidade mostra-nos que ainda muitas vezes se morre em distanásia, ou seja, uma má morte. Morre mal o paciente que morre sozinho, ocultado dos campanheiros de enfermaria por biombos ou retirado para uma sala de pensos; morreu mal aquele a quem retiram o suporte respiratório horas depois de ter ocorrido a morte; morre mal a pessoa que não teve a companhia de familiares, amigos ou companheiros de trabalho ou o conforto dos ritos da sua religião. Se estas situações são sobretudo hospitalares, o facto de o óbito se dar no domicilio não é garante de uma boa morte - condições materiais deficientes, falta de carinho e de humanidade, solidão, podem também ocorrer nestas condições. [...]
Na realidade, a questão da boa ou má morte, tal como delineamos, diz sobretudo respeito às mortes anunciadas, ou seja, aquelas que surgem em doentes terminais e se encontram, pois, previstas. Ora, a implantação e rápida expansão dos cuidados paliativos vieram demonstrar que nestas circunstâncias é possível unir os esforços dos profissionais, da familia e do próprio doente para que a morte ocorra em aceitação, serenidade e paz. O principio básico de não acelerar nem retardar a morte natural é observado nos cuidados paliativos. Daí que não se pratique o erro trágico de recorrer a medidas e técnicas desproporcionadas, tentando desesperadamente e a elevado custo atrasar uma morte inevitável, nem se recorra à eutanásia, paradoxalmente matando quem vai morrer.
O que urge é não apenas o reforço e a criação de cuidados paliativos (unidades autónomas ou sedeadas no hospital, cuidados domiciliários em articulação com unidades ou centros de saúde), mas a conversão de mentalidades de profissionais e de pacientes ou familiares para que se abram a este conceito da boa morte e a adoptem na sua acção, sem esquecerem que, mais cedo ou mais tarde, todos estaremos em condições de a experienciarmos."
Numa escrita simples e bem fundamentada, Walter Osswald traça um panorama reflexivo e histórico sobre "o processo de morrer", a forma como é (devia ser) encarado, com o enfoque nos doentes terminais e salientando (elogiando), por diversas vezes, a necessidade de uma maior expansão dos cuidados paliativos e preparação/formação das equipas de saúde.
Saliento os notáveis capítulos:
- Um manto de cuidados
- Quem cuida do cuidador?
- A morte anunciada
- Dor e sofrimento
- A morte e os outros
Retiro da conclusão da obra:
"Na sua longuíssima convivência com a morte, o Homem sempre foi confrontado com o mistério e a inevitabilidade. Em diferentes fases do seu percurso civilizacional, personificou-a (como Cavaleiro do Apocalipse, como Thanatos, como Irmã Morte, como esqueleto armado de roçadoura, etc) ou endeusou-a (Egipto). Tornada presença habitual pelas pestes que grassaram na Europa, pelas guerras que a dilaceraram, pelas deficientes condições higiénicas, pela elevada taxa de perda perinatal e infantil, acabou por ser domada, na medida em que se tornou acontecimento quase banal, temido mas não estranho.
A esta fase seguiu-se a do escamoteamento, senão negação, da morte: já que não a podemos evitar, ignoremo-la. Logo, nada de a lembrar nem celebrar: esconde-se das crianças, não se dá relevo público, remete-se para o hospital, de modo que as nossas casas não sejam por ela assinaladas nem detectado o seu odor.
Este esforço pueril e votada ao fracasso tem sido, felizmente, denunciado e combatido. Reconhecer a morte, atribuir significado e exigência ao processo de morrer são hoje as linhas mestras do pensamento antropológico e filosófico. Se há um inegociável e universalmente válido direito à vida, também há um direito à boa morte, ou seja, uma morte em condições de dignidade e de compostura, sem sofrimento, aureolada de afecto.
Mas a realidade mostra-nos que ainda muitas vezes se morre em distanásia, ou seja, uma má morte. Morre mal o paciente que morre sozinho, ocultado dos campanheiros de enfermaria por biombos ou retirado para uma sala de pensos; morreu mal aquele a quem retiram o suporte respiratório horas depois de ter ocorrido a morte; morre mal a pessoa que não teve a companhia de familiares, amigos ou companheiros de trabalho ou o conforto dos ritos da sua religião. Se estas situações são sobretudo hospitalares, o facto de o óbito se dar no domicilio não é garante de uma boa morte - condições materiais deficientes, falta de carinho e de humanidade, solidão, podem também ocorrer nestas condições. [...]
Na realidade, a questão da boa ou má morte, tal como delineamos, diz sobretudo respeito às mortes anunciadas, ou seja, aquelas que surgem em doentes terminais e se encontram, pois, previstas. Ora, a implantação e rápida expansão dos cuidados paliativos vieram demonstrar que nestas circunstâncias é possível unir os esforços dos profissionais, da familia e do próprio doente para que a morte ocorra em aceitação, serenidade e paz. O principio básico de não acelerar nem retardar a morte natural é observado nos cuidados paliativos. Daí que não se pratique o erro trágico de recorrer a medidas e técnicas desproporcionadas, tentando desesperadamente e a elevado custo atrasar uma morte inevitável, nem se recorra à eutanásia, paradoxalmente matando quem vai morrer.
O que urge é não apenas o reforço e a criação de cuidados paliativos (unidades autónomas ou sedeadas no hospital, cuidados domiciliários em articulação com unidades ou centros de saúde), mas a conversão de mentalidades de profissionais e de pacientes ou familiares para que se abram a este conceito da boa morte e a adoptem na sua acção, sem esquecerem que, mais cedo ou mais tarde, todos estaremos em condições de a experienciarmos."
terça-feira, novembro 12, 2013
É Urgente Salvar os Arquivos dos Governos Civis
quinta-feira, outubro 24, 2013
A Biblioteca Nacional e os Aviões
Esta é uma imagem de satélite da Biblioteca Nacional de Portugal - Lisboa - retirada dos mapas do portal Bing. E é impressionante porque capta aquilo que é o dia a dia desta biblioteca, a maior de Portugal. A passagem constante, em vôo raso, de aviões. Há horas em que passam praticamente de 5 em 5 minutos.
Quem conhece ou é utente da Biblioteca Nacional sabe do que falo e quase que aposto que já por algumas vezes susteve a respiração a pensar: "é agora que me entra aqui pela sala dentro o avião", tal é o barulho assustador que eles fazem. E em dias de temporal, especialmente vento, é vê-los a abanar mesmo por cima das nossas cabeças.
Quer a Biblioteca Nacional quer a Torre do Tombo estão na linha de aterragem dos aviões no Aeroporto de Lisboa. Aliás, estão a 5 minutos de carro do mesmo. Quando sobrevooam estes dois edíficos já vão muito, assustadoramente muito, baixos. Veja-se a imagem. Veja-se a sombra do avião no terreno.
Há espaços áreos que não podem ser sobrevoados sem autorização prévia. O caso do Palácio de Belém, instituições militares e, salvo erro, a Assembleia da República, vulgo Palácio de S. Bento. Mas na Biblioteca Nacional eles continuam, dia após dia, a passar razias.
Temos tido sorte... até ao dia em que ela terminará. E vai terminar...
Sou uma pessoa prevista. Antes do ladrão chegar já tenho trancas na porta. Uma coisa são desastres naturais que não podemos evitar. Outra é brincar com a sorte e ser-se estúpido. E é este o caso relativamente à Biblioteca Nacional (e estendo à Torre do Tombo que também tem a sua dose de aviões a passar-lhe ao lado). E é para mim maior tesouro a Biblioteca Nacional que o Palácio de Belém ou São Bento.
Na Biblioteca Nacional e na Torre do Tombo guardam-se milhares de kilometros de documentos e livros de mais de 800 anos. Espólios importantissimos de personalidades impares de várias áreas do saber e da cultura em Portugal. Toda uma memória que urge preservar por mais 800 anos.
Não há, em Portugal, edificios mais importantes que a Biblioteca Nacional e a Torre do Tombo. Edificios que merecem, por todos os meios e mais alguns, segurança e vigilância. E antes que seja tarde.
Por favor, acabem com a passagem de aviões por cima destes edificios. Façamos, uma vez pelo menos, as coisas bem antes que o mal aconteça.
A borrada feita na Cidade Universitária em Lisboa
Ambulância em socorro sem meio de "fuga"
Filas intermináveis numa artéria essencial à cidade de Lisboa
Continuo
a achar esta obra na Cidade Universitária - a redução de duas faixas para uma junto da Faculdade de Letras e da Faculdade de Direito - uma estupidez e de quem não
percebe nada de nada do trânsito em Lisboa. Uma via essencial e fundamental para a passagem - lenta ou em socorro - de
ambulâncias para Santa Maria foi reduzida a uma faixa.
Formam-se filas intermináveis onde as ambulâncias ficam paradas ou são obrigadas (metendo pela rua lateral à Torre do Tombo) a
irem por um caminho mais longo. Um caos que era dispensado com dois
dedos de testa e algum civismo.
segunda-feira, setembro 30, 2013
Maria de Fátima Bonifácio e a Esquerda
sábado, setembro 14, 2013
O Botequim da Liberdade, de Fernando Dacosta
E terminei, num ápice, o novissimo livro de Fernando Dacosta: O Botequim da Liberdade.
Fernando Dacosta transporta-nos,
É um livro comovente. Percebe-se que, para Fernando Dacosta, não foi fácil escrevê-lo porque, acima de tudo, este livro foi o cumprir de uma promessa feita a Natália Correia e, com isso, aceitar (definitivament
Fernando Dacosta, ao escrever sobre o Botequim e a Natália está também a escrever sobre si. As pessoas de quem escolhe escrever para nos dar uma imagem da Natália são aquelas que, também ele, acarinha e quer homenagear.
Nunca, num só livro, Fernando Dacosta se expõe tanto. O Bar é apenas o pretexto para se voltar a reunir com antigos amigos, praticamente todos desaparecidos.
"Volto ao bar. Nas suas cadeiras e mesas, já não há, porém, sombras de amigos meus - nem de Natália." - Termina assim Fernando Dacosta o seu livro.
Ler este Botequim da Liberdade é aceitar o convite (privilégio) de nos sentarmos à mesa com Fernando Dacosta e Natália Correia... infelizmente, sem o famoso rosbife acompanhado pela taça de tinto Lavrador.
P.S. - Há uma gralha no livro, de impressão, que faz com que todo um capítulo se torne praticamente incompreensivel. Falo do capítulo "Marabunta Vaginal", pág. 274.
Onde se lê, no final do primeiro parágrafo, "Por isso, é que deixei de ser feminista para ser feminista!" deve ler-se, "Por isso, é que deixei de ser feminista para ser femininista!".
Um conceito fundamental e muito caro a Natália Correia. A mesma correcção deverá ser feita no parágrafo seguinte.
Daniel Ferreira
sexta-feira, agosto 09, 2013
Vera Lagoa sobre Urbano Tavares Rodrigues
Urbano – As Duas Caras
Já esperavas. Já
esperavas, Urbano. Já esperavas, Urbano Tavares Rodrigues. Pediu-me um amigo
íntimo (dos dois) que te poupasse. Sempre tinhas sido o “nosso” Urbano. Mas tu,
o “nosso”, esqueceste-te de quem te estimou e rodeou de carinho a vida inteira.
Tu esqueceste-te dos teus amigos para endeusares os teus colegas do MUTI, do “PC”
e indústrias correlativas. Tu provocaste-me, chamando fascista ao jornal onde
trabalho, conhecendo-me há mais de vinte anos, tendo acompanhado a minha luta.
Sabias, pois, que eu não me calaria. E, afinal, não tenho muito para dizer. Ou
melhor. Tenho, mas não digo. Contendo-me, para te revelar como “revolucionário”,
em contar a tua mania das dedicatórias, a tua colaboração íntima e ternurenta
(és um poço de ternura) com altas figuras do regime deposto e com os
escritores, teus colegas, da direita. Ser da direita não envergonha ninguém.
Mas é preciso e necessário ter coragem para sê-lo. Navegar entre duas águas é
que não. Sabes a que me refiro.
HOMENAGEM A SALAZAR
Tu, Urbano, um homem “sempre,
sempre ao lado da esquerda”, não colaboraste na Távola Redonda e no Graal dirigidos
por António Manuel Couto Viana, esse, sim, um homem de direita? Até fazia parte
do Conselho de Redacção o Goulart Nogueira, que também não enjeita a cor política
que prefere. Ora ninguém, ao que me parece, te obrigou a colaborar. Foste
voluntário.
Mais. Gabavas-te a esses
teus amigos (és capaz de agora não lhes falar) de Salazar ter prestado
homenagem à tua prosa. E fala-se muito (infelizmente não tenho o livro em meu
poder) duma dedicatória tua feita ao prof. Marcelo Caetano. Acho que esse livro
anda por Coimbra. Mas tu deves saber.
A respeito de
dedicatórias, lembro-me das tuas “Jornadas na Europa”, dedicadas a Marcelo
Matias! A Marcelo Matias, Urbano, que não era, precisamente, o expoente máximo
da esquerda portuguesa…
Pois, falemos de
dedicatórias. Tenho na minha frente (eu ia lá perder essa preciosidade!), as Jornadas no Oriente, editadas pela
Bertrand em 1956. Com uma dedicatória linda como todas as que me fizeste nos
livros que me ofereceste, mas “dedicada” a obra ao “comandante Sarmento
Rodrigues” (também será da esquerda?) e à guarnição do ‘Bartolomeu Dias’ na Volta
da Índia”.
AO LADO DOS SOLDADOS…
RAPAGÕES VIRIS…
Falemos, Urbano, violeta
deliquescente, no capítulo VI do mesmo livro. Aqui vai:
“… A presença portuguesa
em Goa, no passado e no presente, fez-me vibrar, irresistível, emocional,
instintivamente. Ao lado dos nossos soldados, que aqui velam pela continuidade
de Portugal em Goa, eu sentir-me-ia honrado, feliz, por dar a este solo
ardente, se preciso fosse, o sangue que me corria nas veias. Aqui redescobri,
não com a mente, que de há muito o sabia, mas com os nervos, que Portugal não é
na verdade europeu, senão verdadeiramente universal.”
E mais adiante:
“… Rapagões azambrados de
Trás-os-Montes, toscos e viris como a rocha e a torga das suas serras, grossos
e entroncados pegureiros beirões, lépidos estremenhos maliciosos, esbeltos e
aquilinos alentejanos meditativos, todos eles, soldados de Portugal, aqui
estão, na brecha, dispostos a lutar ao sol pela Pátria e a morrer, se lhes
couber a sorte, no caminho da honra. E não levam na boca nem o ódio, nem o
insulto, incompatíveis com o verdadeiro valor.”
Não posso deixar de
comentar. Quando Salazar enviou o célebre telegrama mandando que morressem para
salvar Goa, não me lembro, Urbano, de teres concordado com ele. Todos nós
(recordas-te?) achámos que Goa devia ser livre. E tu não vieste a público
brandindo o teu livro e oferecendo-te para “ali derramares o sangue que te
corre nas veias”. E aplaudiste os “rapagões azambrados de Trás-os-Montes, os aquilinos
alentejanos, os lépidos estremenhos maliciosos”, etc., por lá não terem
morrido. Quantas palavras tens, Urbano Tavares Rodrigues.
EM QUE FRONTEIRA ESTÁS?
Estou magoada, Fui muito
amiga do teu pai, que hoje choraria por te ver nesta coluna de falsos
revolucionários. Mas não te posso poupar. Aliás, aqueles que aqui descrevo são
quase todos amigos. Ou antes. Eram-no até ao 25 de Abril, que os revelou, que
nos revelou a todos. Aos nossos olhos e aos olhos de todo o mundo. Quem era
cobarde, mostrou-o com demasiada evidência. Quem era valente também não o
escondeu. Diz-me, Urbano, em que fronteira estás?
Voltemos às Jornadas no Oriente.
Continuamos a ler o teu
livro que eu não vendia por uma fortuna e chegamos à página 92, quando tu falas
da “Homenagem à memória dos heróis de Dadrá”:
“… Foi colocada mais uma
lápide alusiva à morte heroica de Aniceto do Rosário e de António Fernandes.
Aqui ouvi da boca do povo, repetida com emoção, a frase que Aniceto do Rosário
disse ao governador de Damão, quando, pela última vez, este, apreensivo, o
visitou no seu posto: ‘Parta V. Excelência descansado que, haja o que houver,
não deixarei mal a bandeira de Portugal’. Palavras belas! Mais belo ainda foi o
gesto que as confirmou. Aniceto do Rosário escolheu a morte, com plena
consciência do seu acto. Natureza simples, etc., etc.”
E ainda:
“A expressão dos seus
rostos não enganava. São homens prontos a dar a vida por uma realidade
abstracta que os embriga e os transcende: Portugal.
“Diante do monumento aos
heróis, perante a heterogénea população de Damão, ali reunida, sob os coqueiros
e as mangueiras da praça, com o sol a pino, ardendo, rútilo, no céu lavado da
Índia, houve uma cerimónia breve, mas impressionante.
Dois pelotões de
Caçadores, marciais, de capacetes fúlgidos, um pelotão da Polícia, não menos
aprumado, de farda de caqui, e um castelo da Mocidade formaram o largo. Em
frente do monumento postaram-se os guarda-marinhas, de espada nua. Um deles,
quando cessaram os últimos acordes do hino nacional, depôs um ramo de flores do
pedestal e dirigiu uma rápida alocução ao povo de Damão, exaltando a sua
lealdade e a sua coragem, traduzidas e simbolizadas no holocausto de Aniceto do
Rosário e de António Fernandes.”
---
Pois, Urbano, tu cantaste
a homenagem aos heróis de Dadrá (sendo um deles da PIDE) com um nacionalismo,
um entusiasmo, um amor a Portugal Colonial por nenhum outro igualado. Consultando
os jornais da época, não se encontra amor mais extremado, mais vontade de ali
morrer, mais desejo de ali “deixar correr, em defesa de Portugal, o sangue das
veias.”
Para um vulto hoje
lutador pela independência dos povos colonizados, um homem tão perseguido pela
PIDE, um homem que tanto sofreu com os rigores do antigo regime, deves
confessar que o teu entusiasmo pela colonização da Índia te deixa ficar um
pouco mal.
TINHAS MUITO MAU HÁLITO
Foste um homem de
esquerda. Mas não muito. Eu vi. Eu assisti à tua chegada a Portugal, vindo de Poitiers
ou Montpellier ou coisa parecida, magro, moreno, olho quebrado, oferecendo o
sangue das tuas veias a Portugal e a todas nós, mulheres do teu país. Tinhas uma
fragilidade que aproximava, uma fragilidade que provocava da nossa parte a tal
necessidade de te proteger. Usavas e abusavas disso. Embora eu não estivesse
imune a esse género de homem (elas, bem pelo contrário…), a ti, Urbano, nunca
me foi difícil resistir. Eras um homem sem espinha dorsal e… tinhas muito mau
hálito.
O TRISTE CASO DA
SOCIEDADE PORTUGUESA DE ESCRITORES
O que, verdadeiramente,
começou a afastar-me de ti foi a atitude que tomaste quando do célebre e triste
caso da Sociedade Portuguesa de Escritores.
Nessa altura, eu tomei
decididamente uma atitude, decididamente deixei de falar a quem devia deixar de
falar (não nomeio, porque hoje está vencido e eu não ataco vencidos) e tu
continuavas terníssimo para com essa criatura. Um dia, na praia, no Algarve, na
areia, muito ao fim da tarde, com a tua mulher, grande escritora e digníssima
mulher, comentámos o facto. Eu apontava-te o romance que esse escritor (dum
escritor se tratava) acabara de escrever pondo de rastos, enlameando, duas
presas políticas portuguesas, que tu conhecias, que eu conhecia, que a Maria
Judite conhecia. E eu explicava-te que não podia haver duas atitudes. Tua
Mulher concordava comigo. Mas tu, mexendo na areia, sorrindo tristemente,
explicavas que não te era possível tomar atitudes, cortar com essas pessoas.
Muito longa seria esta história, mas como disse, não quero tocar mais no
assunto. Só quero mostrar que foste sempre assim. Bem com uns e com outros.
Indignado nas reuniões de escritores e afável e ternurento quando encontravas
na rua as pessoas a quem os escritores não falavam.
VIOLETA ROXA… E BRANCA
Duas caras, Urbano.
Violeta roxa… e branca, no mesmo pé. Foste sempre um homem protegido. Tiveste
sempre muito trabalho. Colaboraste assiduamente no SNI e, não quero jurar, mas
julgo que recebeste mesmo um prémio da dita organização.
Eras o nosso Urbano
nacional. As esquerdas louvavam-te e as direitas… sorriam-te.
Agora, passado o 25 de
Abril, não me consta que tivesses ido visitar à prisão o almirante Sarmento
Rodrigues que cantaste tão ardentemente nas Jornadas.
Não. Não ouvi dizer que
lá tivesses ido. E essas coisas sabem-se sempre…
Quando frequentavas a
casa do Augusto de Castro, como te derretias com o dono da casa e seus
convidados. Que não eram, note-se, figuras de esquerda. Oh, não!
A tua indignação contra
os jornais independentes não tem limites. “Fascista e fascizante” foi o menos
que chamaste a este jornal que também dirijo. Tu, Urbano, em consciência, sem
ser para agradar aos teus novos senhores, podias chamar-me fascista ou
fascizante? Podias?
Já depois do 25 de Abril,
já depois da revolução que mostrou as nossas verdadeiras caras (como, por
exemplo, a tua e a minha) na Galeria de S. Mamede, em noite de exposição, pedias
a um canto, com a tua voz mais macia, mais aveludada, à Manuela de Azevedo que
servisse de empenho para o teu irmão Miguel (que tinha chegado ou estava a
chegar) entrar para o Diário de Notícias.
A Manuela de Azevedo não é pêcê, mas servia-te. Influenciaria o Ribeiro dos
Santos e arranjava-se um trabalhinho para lá infiltrar o Miguel, arcanjo de que
também me ocuparei nestas colunas. Não é preciso ir muito longe para saber a
história do mano. Senti-a na pele. Fui vítima da “generosidade e camaradagem” do
mano Miguel. Mas, adiante. Não é dele que se trata.
“COMUNISTAS, ESSA
POPULAÇA HEDIONDA”…
Não posso acabar sem me
referir à tua primeira edição, de A Porta
dos Limites, feita pela empresa do Diário
de Notícias, em 1952. A 2ª edição, feita pela Arcádia, é de 1960. Nesta suprimiste
a novela “Se Nós não Sabemos!...” É ambientada em Espanha e trata da guerra
civil de 1936-39, numa perspectiva pró-franquista. Eis dois trechos
significativos:
“… eu visionava os campos
de Aragão, escorrendo sangue; as estradas desertas, onde se erguiam os
letreiros do medo e do espanto, por onde passavam camiões carregados de
espingardas e onde soava a risada suja e cruel da “milícia roja”: via as “milicianas”,
apeando-se dos carros da morte para desfeitearem os feridos; e relembrava as
notícias que então lera num grande assombro: o julgamento desse jovem
inspirado, figura de lenda, José António Primo de Rivera; o “bluff” de Sevilha,
as batalhas, Talavera, a gesta épica de Toledo, os bombardeamentos atrozes de
Barcelona” (páginas 149-150).
“… Não eram os idealistas
que se batiam pela legalidade democrática (como também havia) que violavam e fuzilavam
a todas as horas do dia luminoso: eram os voluntários
comunistas, a populaça hedionda, escumante, cega, vingativa, que exigia a
desforra da longa sujeição e crucificava os pálidos senhoritos, culpados de haverem nascido do outro lado. E vira mais:
vira crianças empaladas nas grades dos jardins senhoriais, à porta das cidades
sarracenas que eram a graça e o sorriso de Espanha: vira-lhes os corpos
pequeninos roxos e descompostos; e vira o sangue que tinha pingado, que se
apagaria amanhã daquela terra, mas dos seus olhos nunca mais” (páginas
150-151).
A respeito desta novela,
Urbano, o Carlos de Oliveira disse-te: “Aquilo até tem piada, mas não se
compreende.” E tu, sempre conciliador, respondeste; “Sabe, aquilo é uma
história que me contaram em Espanha, e ao contrário, mas se a publicasse, a
censura cortava-ma.”
Para quem escrevias,
Urbano?
Afinal razão tem um amigo
meu que me disse ultimamente que andavas com a cara de “lâmpada fundida”.
Quanto ao Romanceiro Português, de 1956, um
antologia editada pela Campanha Nacional de Educação de Adultos, o volume XXX
da Colecção Educativa traz, à entrada, antes do prefácio, esta epígrafe:
“É certo que a humanidade
acaba sempre por encontrar o seu caminho. Não está aí o problema. O problema está
em que o encontre limpo de ruínas e isento de sofrimentos sem conta e sem par
que são o preço por demais elevado de algumas viragens na história – SALAZAR”
Foste tu quem o citou,
Urbano. Esta é a tua obra.
“TENS O LINFÁTICO ASPECTO
DUMA CAMÉLIA MELADA”
Tu agora és PC convicto.
Que assim continues é o que desejo, porque ao menos sempre tinhas tomado uma
atitude definitiva. Mas se o PC se apaga?
Adeus, suave Urbano,
nosso antigo Urbano nacional.
Conhecendo-te como me
conheces, deves ter visto como te poupei. Hoje estou muito generosa.
Se tens memória, Urbano,
que julgo não tens, já te esqueceste,
certamente, dos serões em minha casa, quando procuravas intensamente agradar ao
Eugénio Montes, meu amigo antigo. Não só procuravas a sua influência para ti,
como a procuravas para os outros. Lembro-me, como se fosse hoje: eu morava
naquela casita da Rua da Artilharia Um, que tinha um pé de glicínia no quintal,
e tu lá levaste um poeta chatíssimo para que o Eugénio o ouvisse e
apadrinhasse. O poeta lia os seus poemas e o Eugénio, maçado, dizia: “Adelante,
adelante”. Foi um horror. Claro que o poeta que levaras pela mão ficou sem
prefácio, a grande amizade do Eugénio perdoou o serão frustrado, mas tu ficaste
muito triste.
O Eugénio Montes
continua, já lá vão vinte e cinco anos, a ser um dos teus maiores amigos e
continua da direita. E tu?
“Tens o linfático aspecto
duma camélia melada”.
Vera Lagoa, Revolucionários que eu conheci, edição
Intervenção, 1977
segunda-feira, julho 01, 2013
Sobre a Avó Eduarda (Dadinha para os amigos)
A minha Avó nasceu em 1925. Morreu em 2013, pouco
menos de um mês antes de completar 88 anos.
Viveu uma vida feliz, apesar dos dissabores que
numa existência em pleno são inevitáveis.
Nasceu no seio de uma família grande, privilegiada
(a pulso, pelo Bisavô João), de refinada inteligência e humor. E partiu rodeada
de uma família igualmente grande (dois filhos, um genro, seis netos, seis
bisnetos e um número que já não sei contar de sobrinhos).
Escrever sobre a Avó não é tarefa fácil. É, garanto,
sempre uma tarefa inacabada. As valências da sua pessoa são inúmeras, tanto há
a salientar.
A par da inteligência, a “liberdade” foi aquilo
que sempre me fascinou na Avó. A liberdade de escolher, de se adaptar, de se
actualizar sempre, aceitando sempre, com uma enorme dignidade, cada novo
desafio da vida: a viuvez, o desaparecimento precoce de todos os irmãos, um
filho que, como tantos outros, foi à guerra e voltou, para depois de novo se
ausentar para o outro lado do mundo, a mudança política e social em Portugal
(que eu sei que a Avó abraçou e gostou - nos seus últimos meses de vida, e por
diversas vezes, “deixou escapar” alguns comentários críticos à situação pré-25
de Abril).
Mais do que tudo, a Avó acompanhou, reflexiva e
inteligentemente, a modernidade dos tempos. E sempre com uma elegância e uma
postura como, desculpem-me a exclusão definitiva, nunca vi em mais ninguém. E
foi assim na vida como na morte.
A Avó nunca viveu refugiada nos apelidos de
nascença (que eram muitos), nem de vidas que já passaram e que não foram a sua.
Construiu solidamente a sua biografia pelas acções que praticou. Nunca parou. O
futuro, e nunca o passado, foi a sua vida. Olhou o primeiro de frente e do
passado queria apenas as histórias, lembranças e recordações do que viveu mas nunca
a ele ficou presa.
Ela própria o diz numa carta enviada a uma
sobrinha em 2003, referindo-se à família, para ela tão importante e da qual ela
própria foi um importante pilar:
“Enquanto nós existirmos,
as pessoas que amamos não morreram, porque vivem sempre na nossa lembrança e no
nosso coração. Vamos recordá-las sempre com muita saudade, mas sem tristeza.
Temos tantas coisas, tantos momentos, tantas lembranças tão boas nas nossas
memórias, que é isso que devemos sempre conservar como um bem precioso. Temos
de nos sentir felizes com a Família que Deus nos deu. Com os que já partiram e
com todos os que temos junto de nós.”
E isto tanto servia para a
família como para os amigos. A Avó sempre cultivou grandemente as amizades. E
tinha-as de longuíssima data. Não dispensava, fizesse Sol ou chuva, o chá
semanal na Avenida de Roma com as colegas do Colégio.
Culturalmente, a Avó
mantinha-se constantemente actualizada. Tantas vezes fui com ela ao Teatro, ao
Cinema e a Exposições. Lembro-me, desde miúdo, de com ela conhecer a Gulbenkian
como as minhas mãos. Levou-me ao Museu Grão Vasco. O ex-libris terá sido o
Museu de Cera de Fátima… muito nos rimos. Falava-me de música, dos seus tempos
no Conservatório Nacional de Música. Recordava comigo as grandes peças de
Teatro que vira, os Bailados que assistiu, as Óperas.
Exercitava constantemente
a memória e a inteligência.
Devorava palavras cruzadas
(dava-as como álibi para comprar a revista Caras e outras).
Lia imenso e sempre com
sentido crítico. E era tão bom ver o entusiasmo com que falava quando encontrava
um novo – no sentido de desconhecido - autor que havia gostado. O último,
penso, terá sido Rentes de Carvalho. O livro chamava-se “Ernestina”. Ofereci-o
porque este era o nome de um cozinheira que tivera durante anos em sua casa.
Uma figura que todos estimámos.
Mas para verem o quanto
era importante a literatura para a Avó, aqui fica mais um excerto, desta feita
de um postal de aniversário que me enviou em 2007:
“À tarde, está calor e ficamos em casa. Leio 3
livros ao mesmo tempo. Levanto-me cedo e venho ler a Divina Comédia - o Inferno
de Dante. É terrível e morro de medo. À tarde, para amenizar, leio as Cartas de
Inglaterra do Eça e à noite não dispenso um policial. Assim se vai passando o
tempo.”
Construiu assim uma grande biblioteca. Foi, aliás,
a última grande obra que realizou na casa das Eiras. Mandou fazer, onde outrora
funcionava a sala de refeições dos criados, uma biblioteca. A sua biblioteca.
Falar da Avó é, também, falar do Avô Manuel. Eram
perfeitos um para o outro. Havia igualdade entre ambos e não se permitiam a
fretes. Se um queria ir para a esquerda e o outro para a direita, assim era e
encontrar-se-iam, de novo, mais à frente.
O Avô mimava-a constantemente. Com palavras, actos
e nenhumas omissões. Tinham ambos uma inteligência forte e um sentido de humor
apurado que se completavam. E nos longos meses da doença terminal do Avô a Avó
foi uma heroína, até à exaustão física. Um exemplo. Mas era-o sempre perante a
adversidade. Era seguro que encontraríamos nela um baluarte.
O Natal era, nunca lhe perguntei mas adivinha-se,
a época favorita. Primeiro os passados na sua casa de infância, em Passos de
Carvalhais, e por fim os passados na casa das Eiras que ela organizava e
esmerava-se sempre.
Tudo profusamente iluminado e decorado. A lareira
acesa. Por cima desta um presépio grande, com musgo verdadeiro, que a Avó
sempre se ria e chamava a atenção para elementos “menos próprios” que nele
habitavam: desde camelos decapitados, a uma confusa banda de música, um mocho
de olhos esbugalhados, entre outras. O pinheiro, sempre verdadeiro, era cortada
de alguma das suas matas.
Normalmente raquítico, com meia dúzia de agulhas onde se espalhavam as bolas e as fitas de Natal.
Normalmente raquítico, com meia dúzia de agulhas onde se espalhavam as bolas e as fitas de Natal.
Tudo o resto era amor e muita comida. A canja, o bacalhau e o peru. Uma obscena mesa de doces, e taças e tacinhas de frutos secos, bombons de recheio e frutas cristalizadas. Sempre uma noite especial, com muita gente – a Tia e os primos de Vouzela, os meus irmãos, os meus pais, os caseiros da quinta e quem mais que aparecesse. A mesa de camilha com a braseira ligada (a lareira era mais decorativa que calorifica).
Haviam duas coisas que fascinavam a Avó: o Mar e
as searas alentejanas (como somos diferentes até nisso!). Terá percorrido Portugal
de lés a lés com o Avó… mas era sempre o Mar e as searas que lhe davam
tranquilidade.
Tinha Espinho no coração. Era a praia de toda uma
vida. E tantas histórias me contou. Foi lá, no Casino, que o Bisavó João – para
grande escândalo de alguns presentes – a
levou para provar, pela primeira vez, vodka… a pedido da Avó (lembro-me de vê-la
a beber caipirinha quando existia uma espécie de restaurante italiano em Santa
Cruz da Trapa, há muitos anos).
Ouvi-la a contar as histórias das viagens de São
Pedro do Sul para Espinho no célebre Vouguinha era de chorar a rir. Era todo um
cerimonial e muitas horas de viagem. Aliás, histórias com comboios tinha
muitas. Um atentado à bomba e um descarrilamento. Um deles foi sério. Foi
parar, era noite escura, a um campo de milho.
Fico-me, para já, por aqui. São muitas as coisas
que vêm à cabeça, tantas que se atropelam umas às outras e dificultam a
escrita. Mais tarde, outro dia, voltarei a escrever.
Fica uma espécie de apresentação, que é de
saudade, de amor e de falta. A vida ainda se está a reorganizar, a preencher os
vazios da ausência. Foram anos e anos com um ritmo presente sempre certo. Agora
não há os almoços de Terça e Quinta-feira. Agora não há os jantares aos
Sábados. Vamos lá ver os Natais.
Para já, ainda não me adaptei.
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