sábado, setembro 14, 2013

O Botequim da Liberdade, de Fernando Dacosta



E terminei, num ápice, o novissimo livro de Fernando Dacosta: O Botequim da Liberdade.
Fernando Dacosta transporta-nos, ao longo de 300 e tal páginas, para o famoso Botequim que habitou, durante largos anos, na Graça. E faz uma coisa deliciosa. Biografando diversas personalidades dá-nos a conhecer Natália Correia - o pensamento, a obra, as angústias, os amores, as birras, as adopções da poeta - e, muito discretamente, a vivência que Dacosta teve com ela e restantes personalidades.
É um livro comovente. Percebe-se que, para Fernando Dacosta, não foi fácil escrevê-lo porque, acima de tudo, este livro foi o cumprir de uma promessa feita a Natália Correia e, com isso, aceitar (definitivamente?) o seu desaparecimento terreno. É um relato escrito pelo pena do sentimento e da saudade.
Fernando Dacosta, ao escrever sobre o Botequim e a Natália está também a escrever sobre si. As pessoas de quem escolhe escrever para nos dar uma imagem da Natália são aquelas que, também ele, acarinha e quer homenagear.
Nunca, num só livro, Fernando Dacosta se expõe tanto. O Bar é apenas o pretexto para se voltar a reunir com antigos amigos, praticamente todos desaparecidos.

"Volto ao bar. Nas suas cadeiras e mesas, já não há, porém, sombras de amigos meus - nem de Natália." - Termina assim Fernando Dacosta o seu livro.

Ler este Botequim da Liberdade é aceitar o convite (privilégio) de nos sentarmos à mesa com Fernando Dacosta e Natália Correia... infelizmente, sem o famoso rosbife acompanhado pela taça de tinto Lavrador.

P.S. - Há uma gralha no livro, de impressão, que faz com que todo um capítulo se torne praticamente incompreensivel. Falo do capítulo "Marabunta Vaginal", pág. 274.
Onde se lê, no final do primeiro parágrafo, "Por isso, é que deixei de ser feminista para ser feminista!" deve ler-se, "Por isso, é que deixei de ser feminista para ser femininista!".
Um conceito fundamental e muito caro a Natália Correia. A mesma correcção deverá ser feita no parágrafo seguinte.

Daniel Ferreira

sexta-feira, agosto 09, 2013

Vera Lagoa sobre Urbano Tavares Rodrigues



Urbano – As Duas Caras

Já esperavas. Já esperavas, Urbano. Já esperavas, Urbano Tavares Rodrigues. Pediu-me um amigo íntimo (dos dois) que te poupasse. Sempre tinhas sido o “nosso” Urbano. Mas tu, o “nosso”, esqueceste-te de quem te estimou e rodeou de carinho a vida inteira. Tu esqueceste-te dos teus amigos para endeusares os teus colegas do MUTI, do “PC” e indústrias correlativas. Tu provocaste-me, chamando fascista ao jornal onde trabalho, conhecendo-me há mais de vinte anos, tendo acompanhado a minha luta. Sabias, pois, que eu não me calaria. E, afinal, não tenho muito para dizer. Ou melhor. Tenho, mas não digo. Contendo-me, para te revelar como “revolucionário”, em contar a tua mania das dedicatórias, a tua colaboração íntima e ternurenta (és um poço de ternura) com altas figuras do regime deposto e com os escritores, teus colegas, da direita. Ser da direita não envergonha ninguém. Mas é preciso e necessário ter coragem para sê-lo. Navegar entre duas águas é que não. Sabes a que me refiro.

HOMENAGEM A SALAZAR

Tu, Urbano, um homem “sempre, sempre ao lado da esquerda”, não colaboraste na Távola Redonda e no Graal dirigidos por António Manuel Couto Viana, esse, sim, um homem de direita? Até fazia parte do Conselho de Redacção o Goulart Nogueira, que também não enjeita a cor política que prefere. Ora ninguém, ao que me parece, te obrigou a colaborar. Foste voluntário.
Mais. Gabavas-te a esses teus amigos (és capaz de agora não lhes falar) de Salazar ter prestado homenagem à tua prosa. E fala-se muito (infelizmente não tenho o livro em meu poder) duma dedicatória tua feita ao prof. Marcelo Caetano. Acho que esse livro anda por Coimbra. Mas tu deves saber.
A respeito de dedicatórias, lembro-me das tuas “Jornadas na Europa”, dedicadas a Marcelo Matias! A Marcelo Matias, Urbano, que não era, precisamente, o expoente máximo da esquerda portuguesa…
Pois, falemos de dedicatórias. Tenho na minha frente (eu ia lá perder essa preciosidade!), as Jornadas no Oriente, editadas pela Bertrand em 1956. Com uma dedicatória linda como todas as que me fizeste nos livros que me ofereceste, mas “dedicada” a obra ao “comandante Sarmento Rodrigues” (também será da esquerda?) e à guarnição do ‘Bartolomeu Dias’ na Volta da Índia”.

AO LADO DOS SOLDADOS… RAPAGÕES VIRIS…

Falemos, Urbano, violeta deliquescente, no capítulo VI do mesmo livro. Aqui vai:
“… A presença portuguesa em Goa, no passado e no presente, fez-me vibrar, irresistível, emocional, instintivamente. Ao lado dos nossos soldados, que aqui velam pela continuidade de Portugal em Goa, eu sentir-me-ia honrado, feliz, por dar a este solo ardente, se preciso fosse, o sangue que me corria nas veias. Aqui redescobri, não com a mente, que de há muito o sabia, mas com os nervos, que Portugal não é na verdade europeu, senão verdadeiramente universal.”
E mais adiante:
“… Rapagões azambrados de Trás-os-Montes, toscos e viris como a rocha e a torga das suas serras, grossos e entroncados pegureiros beirões, lépidos estremenhos maliciosos, esbeltos e aquilinos alentejanos meditativos, todos eles, soldados de Portugal, aqui estão, na brecha, dispostos a lutar ao sol pela Pátria e a morrer, se lhes couber a sorte, no caminho da honra. E não levam na boca nem o ódio, nem o insulto, incompatíveis com o verdadeiro valor.”
Não posso deixar de comentar. Quando Salazar enviou o célebre telegrama mandando que morressem para salvar Goa, não me lembro, Urbano, de teres concordado com ele. Todos nós (recordas-te?) achámos que Goa devia ser livre. E tu não vieste a público brandindo o teu livro e oferecendo-te para “ali derramares o sangue que te corre nas veias”. E aplaudiste os “rapagões azambrados de Trás-os-Montes, os aquilinos alentejanos, os lépidos estremenhos maliciosos”, etc., por lá não terem morrido. Quantas palavras tens, Urbano Tavares Rodrigues.

EM QUE FRONTEIRA ESTÁS?

Estou magoada, Fui muito amiga do teu pai, que hoje choraria por te ver nesta coluna de falsos revolucionários. Mas não te posso poupar. Aliás, aqueles que aqui descrevo são quase todos amigos. Ou antes. Eram-no até ao 25 de Abril, que os revelou, que nos revelou a todos. Aos nossos olhos e aos olhos de todo o mundo. Quem era cobarde, mostrou-o com demasiada evidência. Quem era valente também não o escondeu. Diz-me, Urbano, em que fronteira estás?
Voltemos às Jornadas no Oriente.
Continuamos a ler o teu livro que eu não vendia por uma fortuna e chegamos à página 92, quando tu falas da “Homenagem à memória dos heróis de Dadrá”:
“… Foi colocada mais uma lápide alusiva à morte heroica de Aniceto do Rosário e de António Fernandes. Aqui ouvi da boca do povo, repetida com emoção, a frase que Aniceto do Rosário disse ao governador de Damão, quando, pela última vez, este, apreensivo, o visitou no seu posto: ‘Parta V. Excelência descansado que, haja o que houver, não deixarei mal a bandeira de Portugal’. Palavras belas! Mais belo ainda foi o gesto que as confirmou. Aniceto do Rosário escolheu a morte, com plena consciência do seu acto. Natureza simples, etc., etc.”
E ainda:
“A expressão dos seus rostos não enganava. São homens prontos a dar a vida por uma realidade abstracta que os embriga e os transcende: Portugal.
“Diante do monumento aos heróis, perante a heterogénea população de Damão, ali reunida, sob os coqueiros e as mangueiras da praça, com o sol a pino, ardendo, rútilo, no céu lavado da Índia, houve uma cerimónia breve, mas impressionante.
Dois pelotões de Caçadores, marciais, de capacetes fúlgidos, um pelotão da Polícia, não menos aprumado, de farda de caqui, e um castelo da Mocidade formaram o largo. Em frente do monumento postaram-se os guarda-marinhas, de espada nua. Um deles, quando cessaram os últimos acordes do hino nacional, depôs um ramo de flores do pedestal e dirigiu uma rápida alocução ao povo de Damão, exaltando a sua lealdade e a sua coragem, traduzidas e simbolizadas no holocausto de Aniceto do Rosário e de António Fernandes.”

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Pois, Urbano, tu cantaste a homenagem aos heróis de Dadrá (sendo um deles da PIDE) com um nacionalismo, um entusiasmo, um amor a Portugal Colonial por nenhum outro igualado. Consultando os jornais da época, não se encontra amor mais extremado, mais vontade de ali morrer, mais desejo de ali “deixar correr, em defesa de Portugal, o sangue das veias.”
Para um vulto hoje lutador pela independência dos povos colonizados, um homem tão perseguido pela PIDE, um homem que tanto sofreu com os rigores do antigo regime, deves confessar que o teu entusiasmo pela colonização da Índia te deixa ficar um pouco mal.

TINHAS MUITO MAU HÁLITO

Foste um homem de esquerda. Mas não muito. Eu vi. Eu assisti à tua chegada a Portugal, vindo de Poitiers ou Montpellier ou coisa parecida, magro, moreno, olho quebrado, oferecendo o sangue das tuas veias a Portugal e a todas nós, mulheres do teu país. Tinhas uma fragilidade que aproximava, uma fragilidade que provocava da nossa parte a tal necessidade de te proteger. Usavas e abusavas disso. Embora eu não estivesse imune a esse género de homem (elas, bem pelo contrário…), a ti, Urbano, nunca me foi difícil resistir. Eras um homem sem espinha dorsal e… tinhas muito mau hálito.

O TRISTE CASO DA SOCIEDADE PORTUGUESA DE ESCRITORES
O que, verdadeiramente, começou a afastar-me de ti foi a atitude que tomaste quando do célebre e triste caso da Sociedade Portuguesa de Escritores.
Nessa altura, eu tomei decididamente uma atitude, decididamente deixei de falar a quem devia deixar de falar (não nomeio, porque hoje está vencido e eu não ataco vencidos) e tu continuavas terníssimo para com essa criatura. Um dia, na praia, no Algarve, na areia, muito ao fim da tarde, com a tua mulher, grande escritora e digníssima mulher, comentámos o facto. Eu apontava-te o romance que esse escritor (dum escritor se tratava) acabara de escrever pondo de rastos, enlameando, duas presas políticas portuguesas, que tu conhecias, que eu conhecia, que a Maria Judite conhecia. E eu explicava-te que não podia haver duas atitudes. Tua Mulher concordava comigo. Mas tu, mexendo na areia, sorrindo tristemente, explicavas que não te era possível tomar atitudes, cortar com essas pessoas. Muito longa seria esta história, mas como disse, não quero tocar mais no assunto. Só quero mostrar que foste sempre assim. Bem com uns e com outros. Indignado nas reuniões de escritores e afável e ternurento quando encontravas na rua as pessoas a quem os escritores não falavam.

VIOLETA ROXA… E BRANCA

Duas caras, Urbano. Violeta roxa… e branca, no mesmo pé. Foste sempre um homem protegido. Tiveste sempre muito trabalho. Colaboraste assiduamente no SNI e, não quero jurar, mas julgo que recebeste mesmo um prémio da dita organização.
Eras o nosso Urbano nacional. As esquerdas louvavam-te e as direitas… sorriam-te.
Agora, passado o 25 de Abril, não me consta que tivesses ido visitar à prisão o almirante Sarmento Rodrigues que cantaste tão ardentemente nas Jornadas.
Não. Não ouvi dizer que lá tivesses ido. E essas coisas sabem-se sempre…
Quando frequentavas a casa do Augusto de Castro, como te derretias com o dono da casa e seus convidados. Que não eram, note-se, figuras de esquerda. Oh, não!
A tua indignação contra os jornais independentes não tem limites. “Fascista e fascizante” foi o menos que chamaste a este jornal que também dirijo. Tu, Urbano, em consciência, sem ser para agradar aos teus novos senhores, podias chamar-me fascista ou fascizante? Podias?
Já depois do 25 de Abril, já depois da revolução que mostrou as nossas verdadeiras caras (como, por exemplo, a tua e a minha) na Galeria de S. Mamede, em noite de exposição, pedias a um canto, com a tua voz mais macia, mais aveludada, à Manuela de Azevedo que servisse de empenho para o teu irmão Miguel (que tinha chegado ou estava a chegar) entrar para o Diário de Notícias. A Manuela de Azevedo não é pêcê, mas servia-te. Influenciaria o Ribeiro dos Santos e arranjava-se um trabalhinho para lá infiltrar o Miguel, arcanjo de que também me ocuparei nestas colunas. Não é preciso ir muito longe para saber a história do mano. Senti-a na pele. Fui vítima da “generosidade e camaradagem” do mano Miguel. Mas, adiante. Não é dele que se trata.

“COMUNISTAS, ESSA POPULAÇA HEDIONDA”…

Não posso acabar sem me referir à tua primeira edição, de A Porta dos Limites, feita pela empresa do Diário de Notícias, em 1952. A 2ª edição, feita pela Arcádia, é de 1960. Nesta suprimiste a novela “Se Nós não Sabemos!...” É ambientada em Espanha e trata da guerra civil de 1936-39, numa perspectiva pró-franquista. Eis dois trechos significativos:
“… eu visionava os campos de Aragão, escorrendo sangue; as estradas desertas, onde se erguiam os letreiros do medo e do espanto, por onde passavam camiões carregados de espingardas e onde soava a risada suja e cruel da “milícia roja”: via as “milicianas”, apeando-se dos carros da morte para desfeitearem os feridos; e relembrava as notícias que então lera num grande assombro: o julgamento desse jovem inspirado, figura de lenda, José António Primo de Rivera; o “bluff” de Sevilha, as batalhas, Talavera, a gesta épica de Toledo, os bombardeamentos atrozes de Barcelona” (páginas 149-150).
“… Não eram os idealistas que se batiam pela legalidade democrática (como também havia) que violavam e fuzilavam a todas as horas do dia luminoso: eram os voluntários comunistas, a populaça hedionda, escumante, cega, vingativa, que exigia a desforra da longa sujeição e crucificava os pálidos senhoritos, culpados de haverem nascido do outro lado. E vira mais: vira crianças empaladas nas grades dos jardins senhoriais, à porta das cidades sarracenas que eram a graça e o sorriso de Espanha: vira-lhes os corpos pequeninos roxos e descompostos; e vira o sangue que tinha pingado, que se apagaria amanhã daquela terra, mas dos seus olhos nunca mais” (páginas 150-151).
A respeito desta novela, Urbano, o Carlos de Oliveira disse-te: “Aquilo até tem piada, mas não se compreende.” E tu, sempre conciliador, respondeste; “Sabe, aquilo é uma história que me contaram em Espanha, e ao contrário, mas se a publicasse, a censura cortava-ma.”
Para quem escrevias, Urbano?
Afinal razão tem um amigo meu que me disse ultimamente que andavas com a cara de “lâmpada fundida”.
Quanto ao Romanceiro Português, de 1956, um antologia editada pela Campanha Nacional de Educação de Adultos, o volume XXX da Colecção Educativa traz, à entrada, antes do prefácio, esta epígrafe:
“É certo que a humanidade acaba sempre por encontrar o seu caminho. Não está aí o problema. O problema está em que o encontre limpo de ruínas e isento de sofrimentos sem conta e sem par que são o preço por demais elevado de algumas viragens na história – SALAZAR”
Foste tu quem o citou, Urbano. Esta é a tua obra.

“TENS O LINFÁTICO ASPECTO DUMA CAMÉLIA MELADA”

Tu agora és PC convicto. Que assim continues é o que desejo, porque ao menos sempre tinhas tomado uma atitude definitiva. Mas se o PC se apaga?
Adeus, suave Urbano, nosso antigo Urbano nacional.
Conhecendo-te como me conheces, deves ter visto como te poupei. Hoje estou muito generosa.
Se tens memória, Urbano, que julgo não tens, já te esqueceste, certamente, dos serões em minha casa, quando procuravas intensamente agradar ao Eugénio Montes, meu amigo antigo. Não só procuravas a sua influência para ti, como a procuravas para os outros. Lembro-me, como se fosse hoje: eu morava naquela casita da Rua da Artilharia Um, que tinha um pé de glicínia no quintal, e tu lá levaste um poeta chatíssimo para que o Eugénio o ouvisse e apadrinhasse. O poeta lia os seus poemas e o Eugénio, maçado, dizia: “Adelante, adelante”. Foi um horror. Claro que o poeta que levaras pela mão ficou sem prefácio, a grande amizade do Eugénio perdoou o serão frustrado, mas tu ficaste muito triste.
O Eugénio Montes continua, já lá vão vinte e cinco anos, a ser um dos teus maiores amigos e continua da direita. E tu?
“Tens o linfático aspecto duma camélia melada”.
Vera Lagoa, Revolucionários que eu conheci, edição Intervenção, 1977

segunda-feira, julho 01, 2013

Sobre a Avó Eduarda (Dadinha para os amigos)



Maria Eduarda de Ataíde Sá e Melo Amaral Marques Teixeira

A minha Avó nasceu em 1925. Morreu em 2013, pouco menos de um mês antes de completar 88 anos.

Viveu uma vida feliz, apesar dos dissabores que numa existência em pleno são inevitáveis.

Nasceu no seio de uma família grande, privilegiada (a pulso, pelo Bisavô João), de refinada inteligência e humor. E partiu rodeada de uma família igualmente grande (dois filhos, um genro, seis netos, seis bisnetos e um número que já não sei contar de sobrinhos).

Escrever sobre a Avó não é tarefa fácil. É, garanto, sempre uma tarefa inacabada. As valências da sua pessoa são inúmeras, tanto há a salientar.

A par da inteligência, a “liberdade” foi aquilo que sempre me fascinou na Avó. A liberdade de escolher, de se adaptar, de se actualizar sempre, aceitando sempre, com uma enorme dignidade, cada novo desafio da vida: a viuvez, o desaparecimento precoce de todos os irmãos, um filho que, como tantos outros, foi à guerra e voltou, para depois de novo se ausentar para o outro lado do mundo, a mudança política e social em Portugal (que eu sei que a Avó abraçou e gostou - nos seus últimos meses de vida, e por diversas vezes, “deixou escapar” alguns comentários críticos à situação pré-25 de Abril).

Mais do que tudo, a Avó acompanhou, reflexiva e inteligentemente, a modernidade dos tempos. E sempre com uma elegância e uma postura como, desculpem-me a exclusão definitiva, nunca vi em mais ninguém. E foi assim na vida como na morte.

A Avó nunca viveu refugiada nos apelidos de nascença (que eram muitos), nem de vidas que já passaram e que não foram a sua. Construiu solidamente a sua biografia pelas acções que praticou. Nunca parou. O futuro, e nunca o passado, foi a sua vida. Olhou o primeiro de frente e do passado queria apenas as histórias, lembranças e recordações do que viveu mas nunca a ele ficou presa.

Ela própria o diz numa carta enviada a uma sobrinha em 2003, referindo-se à família, para ela tão importante e da qual ela própria foi um importante pilar:

Enquanto nós existirmos, as pessoas que amamos não morreram, porque vivem sempre na nossa lembrança e no nosso coração. Vamos recordá-las sempre com muita saudade, mas sem tristeza. Temos tantas coisas, tantos momentos, tantas lembranças tão boas nas nossas memórias, que é isso que devemos sempre conservar como um bem precioso. Temos de nos sentir felizes com a Família que Deus nos deu. Com os que já partiram e com todos os que temos junto de nós.

E isto tanto servia para a família como para os amigos. A Avó sempre cultivou grandemente as amizades. E tinha-as de longuíssima data. Não dispensava, fizesse Sol ou chuva, o chá semanal na Avenida de Roma com as colegas do Colégio.

Culturalmente, a Avó mantinha-se constantemente actualizada. Tantas vezes fui com ela ao Teatro, ao Cinema e a Exposições. Lembro-me, desde miúdo, de com ela conhecer a Gulbenkian como as minhas mãos. Levou-me ao Museu Grão Vasco. O ex-libris terá sido o Museu de Cera de Fátima… muito nos rimos. Falava-me de música, dos seus tempos no Conservatório Nacional de Música. Recordava comigo as grandes peças de Teatro que vira, os Bailados que assistiu, as Óperas.

Exercitava constantemente a memória e a inteligência.

Devorava palavras cruzadas (dava-as como álibi para comprar a revista Caras e outras).

Lia imenso e sempre com sentido crítico. E era tão bom ver o entusiasmo com que falava quando encontrava um novo – no sentido de desconhecido - autor que havia gostado. O último, penso, terá sido Rentes de Carvalho. O livro chamava-se “Ernestina”. Ofereci-o porque este era o nome de um cozinheira que tivera durante anos em sua casa. Uma figura que todos estimámos.

Mas para verem o quanto era importante a literatura para a Avó, aqui fica mais um excerto, desta feita de um postal de aniversário que me enviou em 2007:

À tarde, está calor e ficamos em casa. Leio 3 livros ao mesmo tempo. Levanto-me cedo e venho ler a Divina Comédia - o Inferno de Dante. É terrível e morro de medo. À tarde, para amenizar, leio as Cartas de Inglaterra do Eça e à noite não dispenso um policial. Assim se vai passando o tempo.”

Construiu assim uma grande biblioteca. Foi, aliás, a última grande obra que realizou na casa das Eiras. Mandou fazer, onde outrora funcionava a sala de refeições dos criados, uma biblioteca. A sua biblioteca.

Falar da Avó é, também, falar do Avô Manuel. Eram perfeitos um para o outro. Havia igualdade entre ambos e não se permitiam a fretes. Se um queria ir para a esquerda e o outro para a direita, assim era e encontrar-se-iam, de novo, mais à frente.

O Avô mimava-a constantemente. Com palavras, actos e nenhumas omissões. Tinham ambos uma inteligência forte e um sentido de humor apurado que se completavam. E nos longos meses da doença terminal do Avô a Avó foi uma heroína, até à exaustão física. Um exemplo. Mas era-o sempre perante a adversidade. Era seguro que encontraríamos nela um baluarte.

O Natal era, nunca lhe perguntei mas adivinha-se, a época favorita. Primeiro os passados na sua casa de infância, em Passos de Carvalhais, e por fim os passados na casa das Eiras que ela organizava e esmerava-se sempre.

Tudo profusamente iluminado e decorado. A lareira acesa. Por cima desta um presépio grande, com musgo verdadeiro, que a Avó sempre se ria e chamava a atenção para elementos “menos próprios” que nele habitavam: desde camelos decapitados, a uma confusa banda de música, um mocho de olhos esbugalhados, entre outras. O pinheiro, sempre verdadeiro, era cortada de alguma das suas matas.

Normalmente raquítico, com meia dúzia de agulhas onde se espalhavam as bolas e as fitas de Natal.

Tudo o resto era amor e muita comida. A canja, o bacalhau e o peru. Uma obscena mesa de doces, e taças e tacinhas de frutos secos, bombons de recheio e frutas cristalizadas. Sempre uma noite especial, com muita gente – a Tia e os primos de Vouzela, os meus irmãos, os meus pais, os caseiros da quinta e quem mais que aparecesse. A mesa de camilha com a braseira ligada (a lareira era mais decorativa que calorifica).

Haviam duas coisas que fascinavam a Avó: o Mar e as searas alentejanas (como somos diferentes até nisso!). Terá percorrido Portugal de lés a lés com o Avó… mas era sempre o Mar e as searas que lhe davam tranquilidade.

Tinha Espinho no coração. Era a praia de toda uma vida. E tantas histórias me contou. Foi lá, no Casino, que o Bisavó João – para grande escândalo de alguns presentes –  a levou para provar, pela primeira vez, vodka… a pedido da Avó (lembro-me de vê-la a beber caipirinha quando existia uma espécie de restaurante italiano em Santa Cruz da Trapa, há muitos anos).

Ouvi-la a contar as histórias das viagens de São Pedro do Sul para Espinho no célebre Vouguinha era de chorar a rir. Era todo um cerimonial e muitas horas de viagem. Aliás, histórias com comboios tinha muitas. Um atentado à bomba e um descarrilamento. Um deles foi sério. Foi parar, era noite escura, a um campo de milho.

Fico-me, para já, por aqui. São muitas as coisas que vêm à cabeça, tantas que se atropelam umas às outras e dificultam a escrita. Mais tarde, outro dia, voltarei a escrever.

Fica uma espécie de apresentação, que é de saudade, de amor e de falta. A vida ainda se está a reorganizar, a preencher os vazios da ausência. Foram anos e anos com um ritmo presente sempre certo. Agora não há os almoços de Terça e Quinta-feira. Agora não há os jantares aos Sábados. Vamos lá ver os Natais.

Para já, ainda não me adaptei.

terça-feira, março 12, 2013

Caricatura de António de Oliveira Salazar



De entre as coisas encontradas nas gavetas da minha querida Avó Eduarda, aqui fica aquela que mais gostei. Uma caricatura de Salazar feita por Helena Varela, grande amiga de minha Avó e mulher de Antunes Varela, ilustre jurista português e antigo Ministro da Justiça.

 Helena Varela e a Dadinha (a minha Avó Eduarda)
 
Antunes Varela numa festa organizada pela minha Avó Eduarda na sua casa de Santa Cruz da Trapa

quinta-feira, março 07, 2013

A "C. G. D. R. P.", por André Brun

A "C. G. D. R. P."
 
Há dois ou três anos, após uns acontecimentos de agitação operária, estava eu sentado a uma das mesas do Café Suiço, com o meu amigo Banana, quanto este me expôs uma destas ideias que não hesito em classificar de geniais. O meu amigo Banana terá muitos defeitos, podem mesmo chamar-lhe tolo; mas o que ninguém lhe deve contestar é a lógica, que distingue os seus actos e os seus princípios. Esse "amigo estimável, que vestia as ceroulas por dentro das calças e as meias por dentro das botas", discutia comigo a questão do direito à greve, o qual impõe aos proletários grevistas o dever de não deixar trabalhar os que se comprazem nesse salutar exercício que é a riqueza, é virtude, é vigor, consoante diz um hino muito cantado neste país de mandriões. Com aquela serenidade impertubável, que o caracteriza, Banana disse-me:
- "Meu velho! Acho justíssimo que os operários e trabalhadores se agremiem, se sindicatem e se federem; mas nós, o respeitável público, também temos direito a sindicar-nos. Não acha?
Mirei-o em silêncio e ele continuou:
- "Sim. Porque nós, o respeitável público, que somos, a miúdo, tratados de burgueses, de exploradores, de inúteis e de outras gentilezas parecidas, somos afinal quem, sempre que há greves, acaba por pagar as favas. Temos de nos defender, meu amigo. O que é o respeitável público neste conflito de governos e proletários? Nada. E, no entanto, tem que ser tudo.
- "Muito bem - disse eu sem perceber coisa alguma daquele arrazoado.
- "Claro. E tanto assim que penso em fundar a "C. G. D. R. P."
- "A quê?
- "A Confederação Geral do Respeitável Público, o sindicato mais racional que existe. A primeira proclamação tenho-a aqui.
E, tirando um papel do bolso, deu-me a ler o seguinte:
 
 
C G. D. R. P.
 
Cidadãos:
 
Basta! Basta! Basta! Os sindicalistas, os grevicultores, os trabalhadores conscientes, os proletários explorados, abusam de nós indecentemente. Perseguem-nos. Tiranizam-nos. Arruinam-nos. Perturbam-nos a vida. Nós é que andamos a pé, quando eles fazem greve de eléctricos, carroças, automóveis e tipóias. Nós é que comemos pão duro, quando os padeiros estão com a mão na massa das suas reivindicações. Nós é que temos de recolher cedo, quando há distúrbios. Nós é que levamos quase sempre as espadeiradas, que a Guarda Republicana lhes destina. Basta! Basta! Basta! Chegou o momento de reagir. Mas como?
Proclamemos desde já A GREVE GERAL DO PÚBLICO.
Burgueses, alerta! Nada de violências! Às exigências dos trabalhadores respondamos com a nossa inércia. Os ferroviários fazem greve de vez em quando? Pois de hoje em diante passaremos todos a andar a pé, excepto os entrevados, que andarão ao colo, bem como as crianças e militares sem graduação. Quando os gasomistas pretenderem esvaziar os gasómetros, cuidaremos de fazer pavios em casa, molhando pauzinhos numa solução de fósforo e enxôfre. E assim sucessivamente.
Regressemos à vida primitiva. Cada qual trate de si. Acabaremos por tramar os tecelões, que suspendem a trama, os curtidores, que nos querem fazer curtir cólicas e outros proletários de iguais intuitos. Nós, o público estúpido, burguês, burro e comodista, é que com a nossa fraqueza e a nossa indolência auxiliadas pelo progresso idiota, criámos as indústrias e profissões, que hoje querem abusar da dependência em que nós própios nos colocámos.
BURGUESES, ATENÇÃO! Adão e Eva no Paraíso não se preocuparam nunca com a greve dos boletineiros e outros cavalheiros. A idade de pedra e outras eras felizes provaram que se pode viver sem eléctricos, sem telefones, sem correios, sem gás, sem água encanada, etc.
SEM O PÚBLICO É QUE ELES NÃO VIVEM! BURGUESES! À GREVE DO PÚBLICO!
 
Pela comissão directora dos camarada
da C. G. D. R. P
 
Amigo Banana
 
Quando acabei de ler o manifesto, tive que curvar a cabeça. O amigo Banana continuava a ser lógico, duma lógica só comparável em solidez às pirâmides do Egito, muito bem construídas, ao que se diz, pelos mestres de obras Ramsés, que Deus tenha. Deus, não: o boi Ápis.
- "Mas isso, - exclamei eu após reflexão - é o fim do mundo!
- "Qual história, meu caro amigo! Se todos nós que podemos e devemos zelar pela nossa tranquilidade, que não fizemos o mundo e não temos, portanto, a obrigação de o endireitar, nos uníssemos a valer e suprimíssemos as profissões, que a nossa indolência e o nosso egoísmo criaram, se quiséssemos renunciar aos benefícios do progresso, - que, em geral, são como os benefícios do Ginásio: não dão resultado que se veja - se cada qual tratasse de si e ninguém se pudesse supor indispensável, se recusássemos pagar impostos ao Estado que nos sobrecarrega e nunca nos defende completamente, você veria, meu amigo, como a Sociedade entrava nos eixos. No fim de certo tempo duma balbúrdia infernal, todos compreenderiam que, dependendo uns dos outros, não é justo ser o Público, colocado entre o Estado e a Revolta, quem se incomode sempre, quem seja terrorizado quando a Revolta vence e violentado quando o Estado reprime.
- "Mas - quis eu intervir em favor dos proletários - um operário ganha tão pouco que...
- "Mas se ganhar mais, o patrão, que fabrica chinelos de ourelo aos milhões - por exemplo - terá que levar mais um pataco ao tendeiro, o qual meterá o pataco dos chinelos nas batatas, que vende ao operário...
- "Mas a gente ociosa, que anda de automóvel e faz quarenta vestidos por ano?...
"É quem dá de comer aos cerralheiros fazedores de automóveis e às modistas cosedeiras de vestidos. O mundo, meu amigo, é mais que uma esfera; é uma bola viciosa... Pois se até os vícios são precisos para manter a gente honesta! Um cavalheiro fuma um charuto caro? O manipulador de tabacos - como se chama aos de Xabregas, - não se lembra que foi com o fazer esse charuto irritante que alimentou os filhos e que, se não fizer o tal charuto, o burguês não o fumará, é certo; mas os filhos terão que se comer uns aos outros ou comer o pai que é mais velho...
 
Calei-me. Como meu amigo Banana não se pode discutir. Tem muita lógica, o marato.


domingo, março 03, 2013