segunda-feira, julho 01, 2013

Sobre a Avó Eduarda (Dadinha para os amigos)



Maria Eduarda de Ataíde Sá e Melo Amaral Marques Teixeira

A minha Avó nasceu em 1925. Morreu em 2013, pouco menos de um mês antes de completar 88 anos.

Viveu uma vida feliz, apesar dos dissabores que numa existência em pleno são inevitáveis.

Nasceu no seio de uma família grande, privilegiada (a pulso, pelo Bisavô João), de refinada inteligência e humor. E partiu rodeada de uma família igualmente grande (dois filhos, um genro, seis netos, seis bisnetos e um número que já não sei contar de sobrinhos).

Escrever sobre a Avó não é tarefa fácil. É, garanto, sempre uma tarefa inacabada. As valências da sua pessoa são inúmeras, tanto há a salientar.

A par da inteligência, a “liberdade” foi aquilo que sempre me fascinou na Avó. A liberdade de escolher, de se adaptar, de se actualizar sempre, aceitando sempre, com uma enorme dignidade, cada novo desafio da vida: a viuvez, o desaparecimento precoce de todos os irmãos, um filho que, como tantos outros, foi à guerra e voltou, para depois de novo se ausentar para o outro lado do mundo, a mudança política e social em Portugal (que eu sei que a Avó abraçou e gostou - nos seus últimos meses de vida, e por diversas vezes, “deixou escapar” alguns comentários críticos à situação pré-25 de Abril).

Mais do que tudo, a Avó acompanhou, reflexiva e inteligentemente, a modernidade dos tempos. E sempre com uma elegância e uma postura como, desculpem-me a exclusão definitiva, nunca vi em mais ninguém. E foi assim na vida como na morte.

A Avó nunca viveu refugiada nos apelidos de nascença (que eram muitos), nem de vidas que já passaram e que não foram a sua. Construiu solidamente a sua biografia pelas acções que praticou. Nunca parou. O futuro, e nunca o passado, foi a sua vida. Olhou o primeiro de frente e do passado queria apenas as histórias, lembranças e recordações do que viveu mas nunca a ele ficou presa.

Ela própria o diz numa carta enviada a uma sobrinha em 2003, referindo-se à família, para ela tão importante e da qual ela própria foi um importante pilar:

Enquanto nós existirmos, as pessoas que amamos não morreram, porque vivem sempre na nossa lembrança e no nosso coração. Vamos recordá-las sempre com muita saudade, mas sem tristeza. Temos tantas coisas, tantos momentos, tantas lembranças tão boas nas nossas memórias, que é isso que devemos sempre conservar como um bem precioso. Temos de nos sentir felizes com a Família que Deus nos deu. Com os que já partiram e com todos os que temos junto de nós.

E isto tanto servia para a família como para os amigos. A Avó sempre cultivou grandemente as amizades. E tinha-as de longuíssima data. Não dispensava, fizesse Sol ou chuva, o chá semanal na Avenida de Roma com as colegas do Colégio.

Culturalmente, a Avó mantinha-se constantemente actualizada. Tantas vezes fui com ela ao Teatro, ao Cinema e a Exposições. Lembro-me, desde miúdo, de com ela conhecer a Gulbenkian como as minhas mãos. Levou-me ao Museu Grão Vasco. O ex-libris terá sido o Museu de Cera de Fátima… muito nos rimos. Falava-me de música, dos seus tempos no Conservatório Nacional de Música. Recordava comigo as grandes peças de Teatro que vira, os Bailados que assistiu, as Óperas.

Exercitava constantemente a memória e a inteligência.

Devorava palavras cruzadas (dava-as como álibi para comprar a revista Caras e outras).

Lia imenso e sempre com sentido crítico. E era tão bom ver o entusiasmo com que falava quando encontrava um novo – no sentido de desconhecido - autor que havia gostado. O último, penso, terá sido Rentes de Carvalho. O livro chamava-se “Ernestina”. Ofereci-o porque este era o nome de um cozinheira que tivera durante anos em sua casa. Uma figura que todos estimámos.

Mas para verem o quanto era importante a literatura para a Avó, aqui fica mais um excerto, desta feita de um postal de aniversário que me enviou em 2007:

À tarde, está calor e ficamos em casa. Leio 3 livros ao mesmo tempo. Levanto-me cedo e venho ler a Divina Comédia - o Inferno de Dante. É terrível e morro de medo. À tarde, para amenizar, leio as Cartas de Inglaterra do Eça e à noite não dispenso um policial. Assim se vai passando o tempo.”

Construiu assim uma grande biblioteca. Foi, aliás, a última grande obra que realizou na casa das Eiras. Mandou fazer, onde outrora funcionava a sala de refeições dos criados, uma biblioteca. A sua biblioteca.

Falar da Avó é, também, falar do Avô Manuel. Eram perfeitos um para o outro. Havia igualdade entre ambos e não se permitiam a fretes. Se um queria ir para a esquerda e o outro para a direita, assim era e encontrar-se-iam, de novo, mais à frente.

O Avô mimava-a constantemente. Com palavras, actos e nenhumas omissões. Tinham ambos uma inteligência forte e um sentido de humor apurado que se completavam. E nos longos meses da doença terminal do Avô a Avó foi uma heroína, até à exaustão física. Um exemplo. Mas era-o sempre perante a adversidade. Era seguro que encontraríamos nela um baluarte.

O Natal era, nunca lhe perguntei mas adivinha-se, a época favorita. Primeiro os passados na sua casa de infância, em Passos de Carvalhais, e por fim os passados na casa das Eiras que ela organizava e esmerava-se sempre.

Tudo profusamente iluminado e decorado. A lareira acesa. Por cima desta um presépio grande, com musgo verdadeiro, que a Avó sempre se ria e chamava a atenção para elementos “menos próprios” que nele habitavam: desde camelos decapitados, a uma confusa banda de música, um mocho de olhos esbugalhados, entre outras. O pinheiro, sempre verdadeiro, era cortada de alguma das suas matas.

Normalmente raquítico, com meia dúzia de agulhas onde se espalhavam as bolas e as fitas de Natal.

Tudo o resto era amor e muita comida. A canja, o bacalhau e o peru. Uma obscena mesa de doces, e taças e tacinhas de frutos secos, bombons de recheio e frutas cristalizadas. Sempre uma noite especial, com muita gente – a Tia e os primos de Vouzela, os meus irmãos, os meus pais, os caseiros da quinta e quem mais que aparecesse. A mesa de camilha com a braseira ligada (a lareira era mais decorativa que calorifica).

Haviam duas coisas que fascinavam a Avó: o Mar e as searas alentejanas (como somos diferentes até nisso!). Terá percorrido Portugal de lés a lés com o Avó… mas era sempre o Mar e as searas que lhe davam tranquilidade.

Tinha Espinho no coração. Era a praia de toda uma vida. E tantas histórias me contou. Foi lá, no Casino, que o Bisavó João – para grande escândalo de alguns presentes –  a levou para provar, pela primeira vez, vodka… a pedido da Avó (lembro-me de vê-la a beber caipirinha quando existia uma espécie de restaurante italiano em Santa Cruz da Trapa, há muitos anos).

Ouvi-la a contar as histórias das viagens de São Pedro do Sul para Espinho no célebre Vouguinha era de chorar a rir. Era todo um cerimonial e muitas horas de viagem. Aliás, histórias com comboios tinha muitas. Um atentado à bomba e um descarrilamento. Um deles foi sério. Foi parar, era noite escura, a um campo de milho.

Fico-me, para já, por aqui. São muitas as coisas que vêm à cabeça, tantas que se atropelam umas às outras e dificultam a escrita. Mais tarde, outro dia, voltarei a escrever.

Fica uma espécie de apresentação, que é de saudade, de amor e de falta. A vida ainda se está a reorganizar, a preencher os vazios da ausência. Foram anos e anos com um ritmo presente sempre certo. Agora não há os almoços de Terça e Quinta-feira. Agora não há os jantares aos Sábados. Vamos lá ver os Natais.

Para já, ainda não me adaptei.

terça-feira, março 12, 2013

Caricatura de António de Oliveira Salazar



De entre as coisas encontradas nas gavetas da minha querida Avó Eduarda, aqui fica aquela que mais gostei. Uma caricatura de Salazar feita por Helena Varela, grande amiga de minha Avó e mulher de Antunes Varela, ilustre jurista português e antigo Ministro da Justiça.

 Helena Varela e a Dadinha (a minha Avó Eduarda)
 
Antunes Varela numa festa organizada pela minha Avó Eduarda na sua casa de Santa Cruz da Trapa

quinta-feira, março 07, 2013

A "C. G. D. R. P.", por André Brun

A "C. G. D. R. P."
 
Há dois ou três anos, após uns acontecimentos de agitação operária, estava eu sentado a uma das mesas do Café Suiço, com o meu amigo Banana, quanto este me expôs uma destas ideias que não hesito em classificar de geniais. O meu amigo Banana terá muitos defeitos, podem mesmo chamar-lhe tolo; mas o que ninguém lhe deve contestar é a lógica, que distingue os seus actos e os seus princípios. Esse "amigo estimável, que vestia as ceroulas por dentro das calças e as meias por dentro das botas", discutia comigo a questão do direito à greve, o qual impõe aos proletários grevistas o dever de não deixar trabalhar os que se comprazem nesse salutar exercício que é a riqueza, é virtude, é vigor, consoante diz um hino muito cantado neste país de mandriões. Com aquela serenidade impertubável, que o caracteriza, Banana disse-me:
- "Meu velho! Acho justíssimo que os operários e trabalhadores se agremiem, se sindicatem e se federem; mas nós, o respeitável público, também temos direito a sindicar-nos. Não acha?
Mirei-o em silêncio e ele continuou:
- "Sim. Porque nós, o respeitável público, que somos, a miúdo, tratados de burgueses, de exploradores, de inúteis e de outras gentilezas parecidas, somos afinal quem, sempre que há greves, acaba por pagar as favas. Temos de nos defender, meu amigo. O que é o respeitável público neste conflito de governos e proletários? Nada. E, no entanto, tem que ser tudo.
- "Muito bem - disse eu sem perceber coisa alguma daquele arrazoado.
- "Claro. E tanto assim que penso em fundar a "C. G. D. R. P."
- "A quê?
- "A Confederação Geral do Respeitável Público, o sindicato mais racional que existe. A primeira proclamação tenho-a aqui.
E, tirando um papel do bolso, deu-me a ler o seguinte:
 
 
C G. D. R. P.
 
Cidadãos:
 
Basta! Basta! Basta! Os sindicalistas, os grevicultores, os trabalhadores conscientes, os proletários explorados, abusam de nós indecentemente. Perseguem-nos. Tiranizam-nos. Arruinam-nos. Perturbam-nos a vida. Nós é que andamos a pé, quando eles fazem greve de eléctricos, carroças, automóveis e tipóias. Nós é que comemos pão duro, quando os padeiros estão com a mão na massa das suas reivindicações. Nós é que temos de recolher cedo, quando há distúrbios. Nós é que levamos quase sempre as espadeiradas, que a Guarda Republicana lhes destina. Basta! Basta! Basta! Chegou o momento de reagir. Mas como?
Proclamemos desde já A GREVE GERAL DO PÚBLICO.
Burgueses, alerta! Nada de violências! Às exigências dos trabalhadores respondamos com a nossa inércia. Os ferroviários fazem greve de vez em quando? Pois de hoje em diante passaremos todos a andar a pé, excepto os entrevados, que andarão ao colo, bem como as crianças e militares sem graduação. Quando os gasomistas pretenderem esvaziar os gasómetros, cuidaremos de fazer pavios em casa, molhando pauzinhos numa solução de fósforo e enxôfre. E assim sucessivamente.
Regressemos à vida primitiva. Cada qual trate de si. Acabaremos por tramar os tecelões, que suspendem a trama, os curtidores, que nos querem fazer curtir cólicas e outros proletários de iguais intuitos. Nós, o público estúpido, burguês, burro e comodista, é que com a nossa fraqueza e a nossa indolência auxiliadas pelo progresso idiota, criámos as indústrias e profissões, que hoje querem abusar da dependência em que nós própios nos colocámos.
BURGUESES, ATENÇÃO! Adão e Eva no Paraíso não se preocuparam nunca com a greve dos boletineiros e outros cavalheiros. A idade de pedra e outras eras felizes provaram que se pode viver sem eléctricos, sem telefones, sem correios, sem gás, sem água encanada, etc.
SEM O PÚBLICO É QUE ELES NÃO VIVEM! BURGUESES! À GREVE DO PÚBLICO!
 
Pela comissão directora dos camarada
da C. G. D. R. P
 
Amigo Banana
 
Quando acabei de ler o manifesto, tive que curvar a cabeça. O amigo Banana continuava a ser lógico, duma lógica só comparável em solidez às pirâmides do Egito, muito bem construídas, ao que se diz, pelos mestres de obras Ramsés, que Deus tenha. Deus, não: o boi Ápis.
- "Mas isso, - exclamei eu após reflexão - é o fim do mundo!
- "Qual história, meu caro amigo! Se todos nós que podemos e devemos zelar pela nossa tranquilidade, que não fizemos o mundo e não temos, portanto, a obrigação de o endireitar, nos uníssemos a valer e suprimíssemos as profissões, que a nossa indolência e o nosso egoísmo criaram, se quiséssemos renunciar aos benefícios do progresso, - que, em geral, são como os benefícios do Ginásio: não dão resultado que se veja - se cada qual tratasse de si e ninguém se pudesse supor indispensável, se recusássemos pagar impostos ao Estado que nos sobrecarrega e nunca nos defende completamente, você veria, meu amigo, como a Sociedade entrava nos eixos. No fim de certo tempo duma balbúrdia infernal, todos compreenderiam que, dependendo uns dos outros, não é justo ser o Público, colocado entre o Estado e a Revolta, quem se incomode sempre, quem seja terrorizado quando a Revolta vence e violentado quando o Estado reprime.
- "Mas - quis eu intervir em favor dos proletários - um operário ganha tão pouco que...
- "Mas se ganhar mais, o patrão, que fabrica chinelos de ourelo aos milhões - por exemplo - terá que levar mais um pataco ao tendeiro, o qual meterá o pataco dos chinelos nas batatas, que vende ao operário...
- "Mas a gente ociosa, que anda de automóvel e faz quarenta vestidos por ano?...
"É quem dá de comer aos cerralheiros fazedores de automóveis e às modistas cosedeiras de vestidos. O mundo, meu amigo, é mais que uma esfera; é uma bola viciosa... Pois se até os vícios são precisos para manter a gente honesta! Um cavalheiro fuma um charuto caro? O manipulador de tabacos - como se chama aos de Xabregas, - não se lembra que foi com o fazer esse charuto irritante que alimentou os filhos e que, se não fizer o tal charuto, o burguês não o fumará, é certo; mas os filhos terão que se comer uns aos outros ou comer o pai que é mais velho...
 
Calei-me. Como meu amigo Banana não se pode discutir. Tem muita lógica, o marato.


domingo, março 03, 2013

sábado, fevereiro 23, 2013

Coisas vários do periódico O Branco e Negro, de Jorge Colaço

 O Branco e Negro (capa)
 Ângela Pinto e a Penhora de Bens
 O Padre José Daniel e o Fado do Branco e Negro
 O Baptizado do Gungunhana
 Sobre a Casa da Boneca, de Ibsen, com Lucília Simões
 As lindas rosas da Batalha das Flores
Palavreado à la sec. XIX e a Higiene Feminina - Ser Formosa

quarta-feira, fevereiro 20, 2013

Do Almanak de "O Mundo" - 1908 e 1909

 Adelaide Cabette
 Bernardino Machado - I
 Bernardino Machado - II
 Casa Africana
 Chapelaria A Social - Chapéus de Políticos
 Escola Estefânia
 Filtros de Água Sistema Pasteur
 Coroas Fúnebres
 Escola Estefânia
Agência Funerária - Embalsamamento
Hino De Algum Dia - Guerra Junqueiro - Republicano
Hino da Maria da Fonte
Jardim de Lisboa
Chá Lipton
Loção de Nice
Pensão, Hotel ou as duas coisas
Armazéns Mousinho - Porto
Quem É O Papa - Guerra Junqueiro
Fotografo com acessório especial para pessoas nervosas
Mulheres Republicanas
Os Táxis de então - Trens de Aluguer
Tisana Anti-Sifilitica
 
Acessível no site da Biblioteca Nacional de Portugal Digital. Para ver este Almanaque de O Mundo na integra clique AQUI.