sábado, agosto 18, 2012

Postais da I Grande Guerra Mundial







Berguette, França, 21 de Fevereiro de 1919

Exma Senhora

Agradeço-vos muito o vosso postal de 13 do corrente. Fiquei bastante satisfeito em saber que não foram incomodadas com a revolta dos trauliteiros que, como dizem os jornais, espancáram covardemente muitos Republicanos. Esses bandidos, só à traição, é que se atrevem a atacar os defensores da Liberdade! Por causa desses covardes, ainda eu e os meus camaradas, não podemos embarcar este mês para Portugal poisque, os barcos em que nós haviamos de embarcar, tiveram que ser utilizados noutros serviços mais urgentes. Agora dizem que que embarcamos no dia 22 de Março.
Recebam um sincero e fraternal abraço do vosso sincero admirador

Anastácio J[osé] Santos [Republicanos fervoroso, de Viseu, fundador do jornal O Trabalho]

sexta-feira, agosto 17, 2012

Não Percas a Rosa - Natália Correia


Não Percas a Rosa - Diário e algo mais (25 de Abril de 1974 - 20 de Dezembro de 1975), Lisboa, 1978, Dom Quixote: Cota Biblioteca Nacional L. 60455 V

"08 de Outubro de 1974

No raciocínio arranjadinho de um alcoviteiro nórdico da revolução, coloco uma inquietante varejeira. Mais um espécime da cretinice itinerante que vasculha nas revoluções ideais de preço único para os vender no "pronto a vestir" do seu jornal.
Sou frequentemente incomodada por estes libidinosos da catástrofe. A coluna que mantenho em A Capital recomenda-me, mercê de umas poucas análises certeiras (como se mérito houvesse em ver através da transparência!), à bisbilhotice destas comadres das maleitas internacionais. Tento explicar-lhes que não sou especialista em matéria tão desimaginativa e que se nela meto as mãos, maiormente me move a recusa de sucumbir à intimidação que no silêncio ou no pacto aviltante encarneira o grosso da nossa intelectualidade.
É precisamente sobre esta alarmante omissão dos nossos escritores que o tal repórter vem procurar quem ao seu sono não quer levar o pesadelo de não se exceptuar a tão degradante regra.
Ouço-o:
- Dantes não havia liberdade de expressão. O silência era compreensível. Mas agora que podem livremente exprimir as suas opiniões, porque se retraem os intelectuais num mutismo tumular?
Lanço-lhe a varejeira que põe em barafunda os esquemas simplistas do meu interlocutor:
- O caso é que não saíram e jamais serão capazes de sair do túmulo da autocensura. E sabe porquê? Porque, ao contrário do que se pode pensar, dantes havia liberdade de expressão.
É a altura de o insecto lhe picar as ideias ao ponto delas lhe abrirem desmesuradamente a boca para fugirem a tão insidiosa mordedura.
- Liberdade de expressão?! Nunca ouvi tal coisa.
Prossigo:
- Mas é preciso dizê-la e acrescentar que a censura fascista foi o paraíso terrestre dos que não tinham liberdade interior. Mantenho que havia liberdade de expressão para quem quisesse correr os riscos de exprimir a sua liberdade interior. Riscos, sublinho. Fugir a eles pelo corredor sombrio da autocensura é tornar a coerção suportável. Auto-exaltação repugnante do vitimismo. Entendamo-nos. Não minimizo os malefícios da tirania censória. mas também não absolvo a sua cúmplice maior: a autocensura. A automutilação da liberdade íntima da maioria dos nossos escritores alimentou o monstro que continua a cravar as garras nas suas mentes. No fundo, a sua consciência continua a obedecer ao diktat fascista reincarnado na marxocracia do novo campo autoritário.
Colhido pelo desaforo da minha concepção de uma liberdade de expressão comportando riscos, o nórdico quedou-se abanando as ideias coladas por esse academismo democrático que chega a fazer da democracia uma chantagem sentimental sobre a liberdade de se chamar zarolho ao zarolho. A democracia exige que se lhe chame estrábico.
- A liberdade de expressão - insistiu a escandinava beatitude democrática do repórter - não pode conhecer riscos. E, matematicamente contente com a evidência da conclução: - Logo, não houve liberdade de expressão durante o fascismo.
A partir daqui condeno-me ao isolamento das minhas reflexões. Como convencer um democrático de que a liberdade de expressão é um truque burguês com que a democracia, para satisfazer o seu economismo insaciável, assalaria as piores submissões? A adaptação democratizada do homem à liberdade, eis a oferta alienante da hipocrisia humanista do poder democrático. Ora eu não sou livre enquanto uso uma liberdade que me é estipulada. Sou-o, sim, se fruir uma liberdade adaptada a mim, aos imperativos da minha subjectividade. Nenhuma máquina do poder o consente. Exprimir a minha vida individual é então um risco permanente. A repressão fascista procura a sua lógica no interior dos seres que, sob qualquer signo, se submetem à tirania. E convenhamos que tacitamente abriu as suas malhas ferozmente fechadas aos escrevinhadores das bagatelas marxizantes do realismo socialista que mercê desta aliança invisível com o fascismo pôde instaurar a ditadura do seu estilo nas letras. Nada de espantar este pacto inaparente se pensarmos que o neo-realismo se colocava numa perspectiva de coacções e neste sentido agradava ao poder fascista. Como não havia o fascismo de permitir a exteriorização desta esterilidade do valor individual sacrificado à aceitação absoluta do poder?
Quanto à coerção da norma democrática tira esta a sua força da "liberdade permitida" que sujeita o homem à tirania da mediocridade colectiva. O exercício interior da necessidade vital criadora de não nos submetermos à liberdade tolerada, eis a mola que, incontrolável pelo Estado, levanta o dedo para protestar. A tesoura da censura fascista corta-o? Perdi alguns dedos, é certo. Mas não a minha liberdade. Fugi ao maior risco: o de apodrecer no campo de concentração interiorizado da autocensura. Os que se suicidaram no escarrador da autocoacção aliada do Estado repressivo salvaram os dedos. Cinco pontas inertes da sua interioridade gangrenada. Que poderão escrever se não o pus da submissão a um novo dono?
Não, meu caro produto escandinavo do beatério das liberdades democráticas. Por mais que o assuste, mantenho: a liberdade de expressão negada pelo fascismo mas tomada por uns raros extravagantes que se recusaram a introverter a inexistência foi o risco menor que correram aqueles que hoje escapam às garras da nova opressão. Considero-me entre estes extravagantes. O que me dá o direito de o chamar imbecil.

Maria Barroso diz Carlos Oliveira - 1974


Descrição da Guerra em Guernica, de Carlos Oliveira, por Maria Barroso

I

Entra pela janela
o anjo camponês;
com a terceira luz na mão;
minucioso, habituado
aos interiores de cereal,
aos utensílios
que dormem na fuligem;
os seus olhos rurais
não compreendem bem os símbolos
desta colheita: hélices,
motores furiosos;
e estende mais o braço; planta
no ar, como uma árvore,
a chama do candeeiro.
II

As outras duas luzes
são lisas, ofuscantes;
lembram a cal, o zinco branco
nas pedreiras;
ou nos umbrais
de cantaria aparelhada; bruscamente;
a arder; há o mesmo
branco na lâmpada do tecto;
o mesmo zinco
nas máquinas que voam
fabricando o incêndio; e assim,
por toda a parte,
a mesma cal mecânica
vibra os seus cutelos.
III

Ao alto; à esquerda;
onde aparece
a linha da garganta,
a curva distendida como
o gráfico dum grito;
o som é impossível; impede-o pelo menos
o animal fumegante;
com o peso das patas, com os longos
músculos negros; sem esquecer
o sal silencioso
no outro coração:
por cima dele; inútil; a mão desta
mulher de joelhos
entre as pernas do touro.
IV

Em baixo, contra o chão
de tijolo queimado,
os fragmentos duma estátua;
ou o construtor da casa
já sem fio de prumo,
barro, sestas pobres? quem
tentou salvar o dia,
o seu resíduo
de gente e poucos bens? opor
à química da guerra,
aos reagentes dissolvendo
a construção, as traves,
este gládio,
esta palavra arcaica?
V

Mesa, madeira posta
próximo dos homens: pelo corte
da plaina,
a lixa ríspida,
a cera sobre o betume, os nós;
e dedos tacteando
as últimas rugosidades;
morosamente; com o amor
do carpinteiro ao objecto
que nasceu
para viver na casa;
no sítio destinado há muito;
como se fosse, quase,
uma criança da família.
VI

O pássaro; a sua anatomia
rápida; forma cheia de pressa,
que se condensa
apenas o bastante
para ser visível no céu,
sem o ferir;
modelo doutros voos: nuvens;
e vento leve, folhas;
agora, atónito, abre as asas
no deserto da mesa;
tenta gritar às falsas aves
que a morte é diferente:
cruzar o céu com a suavidade
dum rumor e sumir-se.
VII

Cavalo; reprodutor
de luz nos prados; quando
respira, os brônquios;
dois frémitos de soro; exalam
essa névoa
que o primeiro sol transforma
numa crina trémula
sobre pastos e éguas; mas aqui
marcou-o o ferro
dos lavradores que o anjo ignora;
e endureceu-o de tal modo
que se entrega;
como as bestas bíblicas;
ao tétano; ao furor.
VIII

Outra mulher: o susto
a entrar no pesadelo;
oprime-a o ar; e cada passo
é apenas peso: seios
donde os mamilos pendem,
gotas duras
de leite e medo; quase pedras;
memória tropeçando
em árvores, parentes,
num descampado vagaroso;
e amor também:
espécie de peso que produz
por dentro da mulher
os mesmos passos densos.
IX

Casas desidratadas
no alto forno; e olhando-as,
momentos antes de ruírem,
o anjo desolado
pensa: entre detritos
sem nenhum cerne ou água,
como anunciar
outra vez o milagre das salas;
dos quartos; crescendo cisco
a cisco, filho a filho?
as máquinas estranhas,
os motores com sede, nem sequer
beberam o espírito das minhas casas;
evaporaram-no apenas.
X

O incêndio desce;
do canto superior direito;
sobre os sótãos,
os degraus das escadas
a oscilar;
hélices, vibrações, percutem os alicerces;
e o fogo, veloz agora, fende-os, desmorona
toda a arquitectura;
as paredes áridas desabam
mas o seu desenho
sobrevive no ar; sustém-no
a terceira mulher; a última; com os braços
erguidos; com o suor da estrela
tatuada na testa

segunda-feira, agosto 13, 2012

sábado, agosto 11, 2012

sexta-feira, agosto 10, 2012

sexta-feira, julho 20, 2012

O Roubo da Mona Lisa em 1911


A propósito da reportagem do jornal I sobre o roubo de Mona Lisa em 1911, deixo-vos aqui a capa que a Ilustração Portuguesa sobre esse facto, na sua edição de 04 de Setembro de 1911.

Roubaram a Mona Lisa. A história do homem que se apaixonou pelo sorriso da Gioconda

Por Rosa Ramos, publicado em 20 Jul 2012
 
Um dos quadros mais famosos do mundo foi levado do Louvre em 1911 e ninguém deu por falta dele durante 30h

Em Paris multiplicavam-se as teorias sobre o desaparecimento do quadro. Para uns, a Mona Lisa tinha simplesmente sido destruída por um louco. Para outros, o roubo fazia parte de uma misteriosa conspiração anarquista para fazer cair o governo. Havia também quem garantisse que o autor do crime teria sido um pobre homem que fora enfeitiçado pelo sorriso da mulher desenhada por Leonardo da Vinci. Uns diziam que o único propósito do acontecimento tinha sido pôr a nu as graves e inaceitáveis falhas de segurança no Museu do Louvre. Outros asseguravam que o quadro já estava a caminho da América do Sul. Ou que tinha sido avistado na Polónia. E na Alemanha. E nos Estados Unidos.
A sociedade francesa – atiçada pela imprensa da época – estava atónita com o desaparecimento da Mona Lisa. Mas a verdade é que durante 30 horas ninguém deu pela falta do quadro no museu. No dia do roubo, 21 de Agosto de 1911, o Louvre esteve fechado, como todas as segundas-feiras. E era costume que as obras expostas fossem emprestadas aos fotógrafos da casa. Por isso, no dia seguinte, quando alguém se apercebeu que a Mona Lisa não estava pendurada na parede, concluiu-se que algum deles se esquecera de a devolver a horas. O desaparecimento só foi levado a sério graças à insistência de um artista parisiense – que não parava de perguntar quando é que o quadro voltaria a ser reposto. Afinal ninguém sabia onde estava a Mona Lisa.
Às segundas-feiras costumava haver apenas um guarda de serviço no Salon Carré, onde a obra estava exposta. E, como se já não bastasse, o segurança ainda tinha de tomar conta, ao mesmo tempo, da enorme sala adjacente, a Galerie d’Apollon. Para choque da sociedade francesa, descobriu-se que não havia, no Louvre, um sistema de registo de entradas nos dias de folga. E os quadros não estavam seguros à parede com cadeados porque a administração do museu entendia que deveria ser fácil retirá-los caso houvesse um incêndio. A imprensa e a população mostravam-se horrorizadas com as falhas de segurança e o director do Louvre, Homolle, acabou demitido. Com ele, foi despedido o chefe da segurança. O primeiro jornal a dar conta do desaparecimento foi o “Le Temps”, logo na terça-feira à tarde. Nos dias seguintes, o “Le Matin” oferecia 5000 francos a qualquer vidente que ajudasse a descobrir o paradeiro do quadro. O “L’Illustration” prometia 10 mil por uma simples informação e subia a parada para os 40 mil para quem devolvesse a Mona Lisa inteira, garantindo anonimato ao ladrão.

A reconstituição do crime Enquanto isso, a polícia procurava seguir todas as pistas. O caso foi entregue ao prefeito da polícia de Paris, Lepine – um homem nada discreto, carismático e conhecido por nunca abdicar de um antiquado chapéu de coco branco. O inspector estava convencido de que conseguiria resolver o mistério num ápice. Afinal de contas, ninguém no seu perfeito juízo roubaria a Mona Lisa e o ladrão acabaria por tentar vender o quadro. Mas a confiança inicial rapidamente esmoreceu: todas as buscas se mostravam infrutíferas.
A 26 de Agosto, sábado, o juiz encarregado do caso, Henri Drioux, publicava o primeiro relatório da investigação. Com a ajuda de duas testemunhas, a polícia tinha conseguido reconstituir o crime com alguma exactidão. A primeira era um canalizador, que relatou como na segunda-feira, durante uma ronda de inspecção, tinha dado de caras com um homem jovem, com cerca de 1,75m de altura, bigode aparado à moda da altura e que envergava um blusão branco e comprido, igual ao de todos os operários do Louvre. O homem estava sentado numas escadas ao lado de uma pequena porta que dava acesso a um pátio interior e pediu ao canalizador o favor de a abrir. Estava trancada e, estranhamente, faltava-lhe a maçaneta. A segunda testemunha era um homem chamado Bouquet, empregado na secção de embalagens de um armazém e que relatou ter visto um homem com ar apressado a atirar qualquer coisa fora no exterior do museu. A polícia veio a encontrar, nesse local, a maçaneta da porta. Bouquet acrescentou que o indivíduo parecia dirigir-se para a estação de comboios
Apesar de as indicações parecerem vagas, havia uma outra pista que prometia dar frutos. Bertillon – o inventor do sistema de impressões digitais – analisou minuciosamente todas as impressões encontradas na moldura da Mona Lisa, deixada para trás pelo ladrão, e comparou-as com as dos funcionários do Louvre. Sobraram apenas duas marcas, que não correspondiam a ninguém do museu. E uma delas, de um polegar de uma mão direita, era perfeita.
Passaram-se dez dias e a polícia continuava empenhada em resolver o crime. Além de terem passado a pente fino as impressões digitais dos funcionários, os investigadores fizeram um levantamento de 257 nomes de antigos trabalhadores do museu. Entre eles, figurava o de um italiano: Vicenzo Perruggia. A polícia interrogou-o, esteve no apartamento onde vivia, mas a franqueza, a simpatia e a disponibilidade que demonstrou levaram os polícias a não o considerarem suspeito. Aliás, nem lhe foram pedidas impressões digitais para comparar com as da moldura.

O roubo Mas a verdade é que no dia 21 de Agosto de 1911 Perruggia tinha mesmo estado no museu. O Louvre estava fechado e a entrada só era permitida a funcionários: guardas, fotógrafos, artistas e operários encarregados da manutenção. Perruggia juntou-se a um grupo de operários no exterior do edifício – ainda conhecia alguns do tempo em que lá trabalhara como vidraceiro. Já dentro do museu, afastou-se sem levantar suspeitas e, às 7h20 da manhã, estava frente a frente com o sorriso da Mona Lisa. Tirou o quadro da parede e atravessou o pequeno salão a correr. Pelo caminho, retirou a tela da moldura e embrulhou--a num pano velho. Depois, tentou sair por uma pequena porta – que não contava que estivesse fechada à chave. Perruggia desaparafusou a fechadura, retirou os parafusos e tirou a maçaneta. Foi nesse momento que ouviu passos, enfiou a maçaneta no bolso e sentou-se nas escadas. Apareceu o canalizador que, ingenuamente, lhe abriu a porta. Perruggia saiu triunfante e calmo do museu. Com a tela debaixo do braço.

A resolução do crime Passaram dois anos sem que o caso fosse resolvido e o interesse do público pela Mona Lisa caiu a pique. Entretanto, o Titanic afundou--se na sua viagem inaugural. A Itália e a Turquia entraram em guerra. A Europa preparava-se para enfrentar o seu primeiro conflito mundial. E Perruggia convivia com o quadro, pintado quatro séculos antes, no miserável apartamento que tinha arrendado em Paris. Mais tarde confessou em tribunal que se apaixonou pelo sorriso da Mona Lisa. “Fui enfeitiçado por ele e todas as tardes me deliciava a olhar para ela, descobrindo mais e mais beleza e perversidade. Apaixonei--me por ela”, contou. No julgamento, um psiquiatra chegou a alegar que o italiano era mentalmente desequilibrado e, por isso, inimputável. Mas quando foi apanhado, Perruggia garantiu que roubara o quadro movido por razões sérias.
Em Novembro de 1913, o ladrão escreveu a um negociante de arte italiano, Alfredo Geri. Na carta – que assinou com o pseudónimo “Leonardo” –, Perruggia contava que tinha em sua posse o quadro de Da Vinci e que pretendia restituí--lo a Itália, de onde nunca deveria ter saído. Embora não pedisse dinheiro, o italiano insinuava que era um homem pobre. Assim que recebeu a missiva, Geri saiu a correr ao encontro de Giovanni Poggi, o director da Galeria Uffizi. Combinaram um encontro com Perruggia para o dia 10 de Dezembro, em Florença, num pequeno quarto do terceiro andar do Hotel Trípoli-Itália. E avisaram a polícia. Perruggia foi preso e confirmou-se que a tela era a original. Nos dias seguintes, generalizou-se em Florença a convicção de que a Mona Lisa deveria permanecer na cidade e que Perruggia tinha razão: a obra de Da Vinci nunca deveria ter saído de Itália. Era preciso que o país se vingasse de Napoleão – que, no século anterior, teria confiscado a obra. Mas a verdade é que foi o próprio Leonardo Da Vinci quem vendeu a Mona Lisa a Francisco I, rei de França, no início do século XVI. Face às evidências históricas, o quadro foi devolvido a França, apesar de autorizadas várias exposições em Itália. A Mona Lisa foi exposta na Galeria Uffizi e só no primeiro dia compareceram à chamada mais de 30 mil pessoas. Para comemorar o aparecimento do quadro, o Papa Pio X celebrou, no Vaticano, uma missa de acção de graças. Na Câmara dos Deputados de Itália, a notícia evitou uma cena de pugilato entre alguns dos membros. Em frente ao Louvre juntou--se uma multidão e o embaixador de França agradeceu pessoalmente ao primeiro-ministro italiano. O Hotel Trípoli-Itália mudou de nome para “La Gioconda”. Em 1911 ainda não se sabia se a Itália se iria aliar à Alemanha e à Áustria ou à Inglaterra e à França na guerra que estava prestes a eclodir e, para alguns historiadores, o incidente com o quadro de Leonardo da Vinci terá mesmo contribuído para um estreitamento das relações diplomáticas de Itália, que acabou a lutar ao lado da França e de Inglaterra.

O julgamento Perruggia ficou preso até ser levado a tribunal em Junho de 1914. Frente ao juiz, referiu-se à glória de Itália e ao roubo praticado por Napoleão. Estava convicto de que acabaria por ser aclamado como herói nacional. Mas os promotores públicos descobriram na casa do italiano uma lista de negociantes de arte escrita à mão. Afinal, Perruggia talvez tivesse sido movido por outras questões que não o patriotismo, argumentava o tribunal.
O ladrão da Mona Lisa foi condenado a um ano e 15 dias de prisão, mas conseguiu ver a pena reduzida – através de um recurso – para apenas sete meses. Depois de sair da cadeia, Perruggia voltou à aldeia natal, em Dumenza, no Norte de Itália, e alistou-se no exército. Casou com uma prima, com quem abriu uma loja de tintas em Paris. Ainda hoje há quem acredite que a Mona Lisa que está no Louvre não passa de uma falsificação e que o original está algures no Norte de Itália, escondido debaixo de uma mesa.
 
Link para o Jornal I

domingo, julho 01, 2012

Exposição Universal de Paris - Torre Eiffel - 1900


Exposição Universal de Paris - 1900 - Torre Eiffel
vista pela Revista Occidente, de 30 de Julho de 1900

"Á exposição universal de Paris em 1900 parece faltar, não obstante as maravilhas ali reunidas, o costumado clou, isto é, uma obra pasmosa e que só ella se tornasse digna de attrahir á capital da França todo o mundo civilisado, ávido de admirar o prodigioso engenho humano.
em verdade, bem se tratou de conseguir para o grande certamen uma obra de subido arrojo inventivo, e os projectos não faltaram, tão interessantes como originaes. Dos que se levaram a effeito, uns não atingiram precisamente o que se imaginára, outros são inderiores á grandeza colossal do conjuncto da exposição. Assim, o grande telescopio para ser ver a lua a um metro nãoproduziu esse effeito, mostrando-a comtudo a uma distancia relativamente curta. O castello d'Agua, o Palácio da Electricidade, e o passeio rolante, muito embora sejam obras notáveis não se deve considerar qualquer d'ellas como o clou da exposição.
Mas confessemos que depois da Torre Eiffel é difficil fazer-se obra mais assombrosa, que a exceda ou sequer a eguale. Succede, pois, que para muitos dos visitantes da exposição, e que pela primeira vez vão a Paris, é ainda, passados onze anos, a Torre Eiffel o clou do grande certamen universal. O monumento ergue-se ousadamente; o olhar do forasteiro vê-o de qualuqer sitio. O monstruoso edificio de ferro esbraseia-se nas noites de festa, ou illumina-se phantasticamente; de forma que é sempre admirado, quer de longe, quer subindo ás plataformas e vendo d'ellas o panorama da cidade.
É realmente extraordinária a impressão de quem d'essas alturas observa Paris, ou vê o formigar da multidão por entre as variadissimas installações da grande feira.
Na estampa pode o leitor attentar melhor toda a enormidade do colosso de engenharia d'este século, essa prodigiosa torre que se ergue 300 metros acima do solo, imaginar das impressões que se poderão experimentar em tal altura.
Na primeira plataforma, que está a 38 metros, o espectáculo é ainda vulgar, porém na segunda, a 110 metros, o panorama é extremamente curioso, porque todos os grandes edificios que povoam Paris parecem pequenas casinhas que se erguem sobre grandes manchas escuras, formadas pelos telhados das outras edificações ou pelas mattas dos bosques e grandes avenidas da cidade, confundindo-se na distancia com os campos que a circumdam. Na terceira plataforma, que está á altura de 207 metros, o panorama é ainda mais dilatado e confuso. O monte Valeriano deixa-se dominar pela torre e a vista extende-se para além d'elle, descobrindo a collina de Montmartre, que parece um grande promontorio alvinitente n'uma extensa costa marítima.
Sobre a quarta plataforma, que está a 273 metros levanta-se a cupola, e sobre esta o farol que não obstante ter 8 metros de altura, parece, visto do solo, um pequeno botão. Em volta d'este pharol há uma varanda circular, unico ponto accesssivel da torre, que ainda conta até á cuspide mais 20 metros prefazendo o total de 300 metros tão celebrados.
Nas festas nocturnas da exposição continua-se decorando-se com vistosas iluminações a gigantesca torre e a ella sobem milhares de visitantes, que não se cançam de admirar o aspecto feerico do immenso recinto da exposição, tão constellado de luzes como o céo o é de estrellas em noites limpidas e serenas."

sexta-feira, junho 29, 2012