quinta-feira, junho 28, 2012

Fernando Dacosta - Partir os Dedos


Fernando Dacosta - Partir os Dedos

Andam contentes os nossos governantes: os europeus afagam-nos pela sua devota submissão, os portugueses amornam-nos com a sua pastosa quietude.
Comovido, o responsável por São Bento exulta com tal resignação – e acredita nela.
O português parece, na verdade, passivo, só que essa passividade não significa desistência, significa lentidão. Quando ele decide pôr-se em movimento chega a ser incontrolável; basta olhar a História para o perceber. As nossas guerras civis, as nossas revoltas populares foram, na verdade, terríveis. Só num século, o XX, despachámos a tiro um rei (D. Carlos), um príncipe herdeiro (D. Luiz) e um presidente (Sidónio Paes); nesse mesmo período fizemos duas revoluções (a do 5 de Outubro e a do 25 de Abril) e participámos em duas guerras: uma mundial (a primeira) e outra regional (a de África). Além disso exercitamo-nos com afinco na navalha, na sachola, no veneno, no atropelamento, na pistola, no ácido, uff!
Lembro-me de António José Saraiva ter-me admoestado por, certa vez, enfatizar os brandos costumes. “Não, o português não é nenhuma ameixa, é um pêssego”, exclamou. “Como o pêssego é macio, sumarento à superfície, mas no interior tem um caroço duríssimo. Frequentemente os políticos espetam-lhe os dedos com força e ... partem-nos!”
Começa, aliás, a transbordar já a taça da paciência nacional com as surpresas (inconcebíveis) dos economistas no poder ante o descalabro das suas políticas reducionistas. As ondas de protesto contra o Presidente estão, por outro lado, a lembrar as vaias a Thomaz nas vésperas do 25 de Abril.
Não estranhemos por isso se em breve surgirem à nossa volta muitas mãos engessadas.

Fernando Dacosta escreve agora às quintas-feiras no Jornal I

Fernando Dacosta - Missa Campal


Fernando Dacosta - Missa Campal

Infiéis podem ser os que, por fidelidade a si mesmos, se apartam dos outros. Gosto, assim, bastante da palavra, pelo que ela significa de diferença, de ousadia.
Comecei a apreciá-la com Francisco Lucas Pires, homem de estimulante inteligência e cultura, ironia e criatividade. Foi ele, aliás, quem deu o título e a chave a um romance meu com esse nome.
Dizendo-se da “direita conservadora”, FLP surgiu no CDS até concluir haver-se enganado, o que era previsível, no partido. Se tivesse ido para o PS, quando este desandou, como ele, ao centro, ter-nos-ia por certo evitado um Eng. José Sócrates e, concomitantemente, um Dr. Passos Coelho.
Na campanha eleitoral como líder dos centristas, FLP quis, deliciosamente, converter as massas à sua ideologia – começando-a com uma missa campal em pleno coração mourisco, isto é, em vermelhusco descampado alentejano. Dali partiu “à reconquista do país”, não entusiasmando, no entanto, grandes multidões – pela fidelidade às mudanças que sentia em si, adaptava a si.
Os correligionários seriam, entretanto, os primeiros a infidelizaram-se-lhe, escorregando-o para a prateleira de Bruxelas.
Titular da Cultura, impulsionou o lançamento de bolsas de criação artística (anuladas depois pelo PSD) e de reformas de mérito cultural.
Quando da reeleição de Mário Soares, encarou a hipótese de se candidatar a Belém e arquitectou um slogan estimulante: avançava não para “concorrer com Soares” mas para “suceder a Soares”.
A referência que aqui se faz a Francisco Lucas Pires ganha especial significado por a coerência (altiva) que ele superiorizou estar a ser, agora, bastardamente crucificada.

Fernando Dacosta escreve agora às quintas-feiras no Jornal I

domingo, junho 17, 2012

Mestre Joel Pina aos 92 anos

Maria da Fé e Beatriz da Conceição


O concerto de Beatriz da Conceição no Castelo de S. Jorge, em Lisboa, foi um misto de muitas emoções... No palco uma mulher frágil. Soou a despedida, o que é uma dor de alma, uma tristeza grande. Mas o Fado e a Poesia estiveram lá. Sempre. E para sempre Beatriz da Conceição.

sexta-feira, junho 15, 2012

Álbum de Memórias de Maria Barroso com o Jornal Sol


O Jornal Sol inicia esta semana a publicação do Álbum de Memórias de Maria Barroso. Mais do que a política, tenho muita curiosidade em saber mais do seu trabalho no Colégio Moderno e como Actriz de teatro e cinema... espero que esta colecção abarque estas duas facetas.

O bom disto tudo é que, à excepção deste primeiro volume, todos os outros podem ser comprados separadamente do jornal. Cada volume irá custar € 2.90.

quinta-feira, junho 14, 2012

Rainha e Monja: D. Adelaide Sofia de Loewenstein-Wertheim-Rosenberg


Rainha e Monja: D. Adelaide Sofia de Loewenstein-Wertheim-Rosenberg, Mulher de D. Miguel I.

Revista Occidente - 10 de Abril de 1900

D. Miguel I casou em 1851 com a princesa Adelaide de Loewenstein-Wertheim-Rosenberg, nasceu em Kleinhenbach, a 3 de Abril de 1831; faleceu em Cowes, Inglaterra, a 16 de Dezembro de 1909, filha do príncipe Constantino José e de sua mulher Maria Luísa Henriqueta, prin...cesa de Hohenlohe-Langenburgo. Do casamento nasceram:

1. D. Maria das Neves. Nasceu no Castelo de Heubach, a 5 de Agosto de 1852; faleceu em Viena de Áustria, a 15 de Fevereiro de 1941. Casou a 26 de Abril de 1871 com o príncipe D. Afonso Carlos de Bourbon, que nasceu em Londres, a 12 de Setembro de 1849, e faleceu em Viena, a 29 de Setembro de 1936, pretendente carlista à coroa de Espanha;

2. D. Miguel, herdeiro legitimista à coroa de Portugal, com o título de D. Miguel II. Nasceu em Kleinenbach, a 19 de Setembro de 1853; faleceu em Seebenstein, na Áustria, a 11 de Outubro de 1927). Casou em 1877 com a princesa Isabel de Thurn e Taxis (n. em 28 de Maio de 1860; f. a 7 de Fevereiro de 1881), filha do príncipe Maximiliano de Thurn e Taxis e de sua mulher, a princesa Helena, duquesa na Baviera. Casou em segundas núpcias, a 7 de Novembro de 1893, com a princesa Maria Teresa Sofia Pia Ana Melchiora (n. em Roma, a 4 de Janeiro de 1870; f. em Viena, a 16 de Janeiro de 1935), filha do príncipe Carlos de Loewenstein-Wertheim-Roserrberg e da princesa Sofia de Liechstein. Com descendência dos dois casamentos.

3. A infanta D. Maria Teresa. Nasceu em Kleinheubach, a 24 de Agosto de 1855; faleceu em Viena, a 12 de Fevereiro de 1944). Casou a 23 de Julho de 1873 com Carlos Luís de Habsburgo (n. em Schoenbrunn, a 30 de Julho de 1833; f. em Viena, a 19 de Maio de 1896), arquiduque de Áustria e príncipe real da Hungria, irmão do imperador Francisco José. Com descendência.

4. A infanta D. Maria José. Nasceu em Bronnbach, a 19 de Março de 1857; faleceu em Viena, a 11 de Março de 1943). Casou a 29 de Abril de 1874 com Carlos Teodoro, duque da Baviera (n. em Possenhofen, a 9 de Agosto de 1839; £ em Kreuth, a 30 de Novembro de 1909), filho do duque Maximiliano e da duquesa Luísa, princesa real da Baviera. Com descendência.

5. A infanta D. Aldegundes. Nasceu. em Bronnbach, a 10 de Novembro de 1858; faleceu em Gunten, na Suíça, a 15 de Abril de 1946). Casou em 15 de Outubro de 1876 com Henrique de Bourbon-Parma (n. em Parma, a 12 de Fevereiro de 1851; f. em Menthon, a 14 de Abril de 1905 ), conde de Bardi e filho de Carlos III, duque de Parma, e de sua mulher a duquesa Luísa de Bourbon-Artois. Sem descendência.

6. A infanta D. Maria Ana. Nasceu em Bronnbach, a 13 de julho de 1861; faleceu. em Nova Iorque, a 31 de Julho de 1942). Casou em 21 de Abril de 1893 com Guilherme Alexandre (n. Biebrich, a 22 de Abril de 1852; f. em Berg, a 25 de Fevereiro de 1912), filha do grão-duque Adolfo e de sua mulher Adelaide, grã-duquesa do Luxemburgo. Com descendência.

7. A infanta D. Maria Antónia. Nasceu em Bronnbach, a 28 de Novembro de 1862; faleceu em Berg, no Luxemburgo, a 14 de Maio de 1959). Casou em 15 de Outubro de 1884 com Roberto de Bourbon (n. em Florença, a 9 de Julho de 1848; f. em Pianore, a 16 de Novembro de 1907), filho de Carlos III e de Luísa, duques de Parma. Com descendência.

quarta-feira, junho 13, 2012

Incêndio no Teatro Baquet


Incêndio do Teatro Baquet, Rua Sá da Bandeira, Porto, 21 de Março de 1888
Revista Occidente, Ano 11º, Vol. XI, Nº 334, de 01 de Abril de 1888

E a descrição é crua: "Todos elles [os corpos] estavam carbonisados, resequidos pela acção do fogo. Havia troncos sem braços, nem pernas. Outros sem cabeça; muitos nem o sexo se lhes podia reconhecer; quasi todos com algumas das extremidades devoradas pelas chamas, exibindo em posições medonhas, os ossos das pernas e dos braços, descornados e negros, os intestinos tisnados sahiam pelo ventre de uns, outros eram completos esqueletos e depois de tudo isto, um grande numero de membros dispersos, pastas uniformes de carne calcinada, aqui uma cabeça, acolá uma perna ou um braço, além uma carcaça." - quando a imagem não era possível, as palavras tinham de ser visuais... 

sábado, junho 09, 2012

Thomas Mann - O Jovem José



“José tinha dezassete anos e era, na opinião de todos os que o viam, o mais belo dentre os filhos dos homens. Francamente, não discreteamos com prazer sobre a formosura. Tanto a palavra como a ideia são insípidas. A formosura não será um sofisma, um sonho exemplar? Supõe-se que há leis reguladoras da beleza. Mas uma lei dirige-se ao entendimento e não às sensações. As sensações escapam ao entendimento. Daí a insipidez da beleza perfeita que não deixa nada a desejar. As sensações precisam de ter algo que perdoar, senão viram-se para outro lado com um bocejo. Só o pedante, que ama o consagrado, o convencional, pode apreciar a estrita perfeição a ponto de se entusiasmar por ela. É difícil atribuir grande valor a essa espécie de entusiasmo. Uma lei obriga e impõe exteriormente. A compulsão interior não é obra de lei, mas de sedução. A beleza é uma magia exercida nas nossas sensações e, como tal, sempre um tanto ilusória, muito vacilante e efémera em seus efeitos. Coloque-se uma cabeça feia num corpo belo. Este só continuará a ser belo se for visto no escuro, havendo portanto engano. Na verdade, quanta ilusão, quanta artimanha, quanto engano andam envolvidos no assunto! O munda está cheio de anedotas de rapazes vestidos de mulher que fazem andar à roda a cabeça dos homens e de raparigas vestidas à homem que despertam paixões em pessoas do mesmo sexo. Basta que se descubra o embuste para que as paixões arrefeçam, porque a beleza perdeu o seu objectivo. Talvez até que a beleza humana em seus efeitos sobre os sentidos não passe de magia do sexo. De modo que, em vez de se dizer que um ente é formoso, falar-se-á com mais propriedade de um homem perfeito ou de uma mulher absolutamente feminina.

Só através de uma vitória alcançada sobre si próprio é que um homem, ou uma mulher, poderá referir-se à beleza do seu semelhante. Raros são os casos, embora existam, em que a beleza provoca sensações inteiramente destituídas de interesse prático. O que em geral entra em jogo é o elemento da juventude, isto é, uma magia que as sensações têm tendência a tomar por beleza. A juventude, quando não é prejudicada por senões demasiado graves, suscita no observador a impressão de beleza, e até a si própria causa a mesma impressão que o sorriso evidencia inequivocamente. O encanto da juventude é a manifestação de beleza que por sua própria natureza paira entre o masculino e o feminino. Um jovem de dezassete anos não é belo no sentido de masculinidade perfeita. Também não é belo no sentido de uma feminilidade destituída de alcance prático, o que atrairia bem poucas pessoas. Mas temos de convir que a beleza apoiada na graça juvenil se inclina sempre mais, tanto interiormente como exteriormente, para o lado feminino. Isto faz parte da sua essência, das suaves relações da juventude com o mundo e do mundo com ela, como o seu sorriso traduz. Aos dezassete anos, na verdade, pode ser-se mais formoso do que uma mulher ou um homem; ser formoso pelo lado feminino e pelo masculino; ser tão belo, tão gracioso que, diante de tanta beleza e tanta graça, os homens e as mulheres fiquem boquiabertos, encantados.”

Azulejos do Mercado da Ribeira