in: Point de Vue, nº 3333, 6 Junho de 2012
Poesia, musica, celebridades, teatro, cinema, selecção de textos, poetas e escritores, banalidades, fotografias, arte, literatura, pintura e muita conversa.
terça-feira, junho 12, 2012
sábado, junho 09, 2012
Thomas Mann - O Jovem José
“José tinha dezassete anos e era, na opinião de
todos os que o viam, o mais belo dentre os filhos dos homens. Francamente, não
discreteamos com prazer sobre a formosura. Tanto a palavra como a ideia são
insípidas. A formosura não será um sofisma, um sonho exemplar? Supõe-se que há
leis reguladoras da beleza. Mas uma lei dirige-se ao entendimento e não às
sensações. As sensações escapam ao entendimento. Daí a insipidez da beleza perfeita
que não deixa nada a desejar. As sensações precisam de ter algo que perdoar,
senão viram-se para outro lado com um bocejo. Só o pedante, que ama o
consagrado, o convencional, pode apreciar a estrita perfeição a ponto de se
entusiasmar por ela. É difícil atribuir grande valor a essa espécie de
entusiasmo. Uma lei obriga e impõe exteriormente. A compulsão interior não é
obra de lei, mas de sedução. A beleza é uma magia exercida nas nossas sensações
e, como tal, sempre um tanto ilusória, muito vacilante e efémera em seus
efeitos. Coloque-se uma cabeça feia num corpo belo. Este só continuará a ser
belo se for visto no escuro, havendo portanto engano. Na verdade, quanta
ilusão, quanta artimanha, quanto engano andam envolvidos no assunto! O munda
está cheio de anedotas de rapazes vestidos de mulher que fazem andar à roda a
cabeça dos homens e de raparigas vestidas à homem que despertam paixões em
pessoas do mesmo sexo. Basta que se descubra o embuste para que as paixões
arrefeçam, porque a beleza perdeu o seu objectivo. Talvez até que a beleza
humana em seus efeitos sobre os sentidos não passe de magia do sexo. De modo
que, em vez de se dizer que um ente é formoso, falar-se-á com mais propriedade
de um homem perfeito ou de uma mulher absolutamente feminina.
Só através de uma vitória alcançada sobre si
próprio é que um homem, ou uma mulher, poderá referir-se à beleza do seu
semelhante. Raros são os casos, embora existam, em que a beleza provoca
sensações inteiramente destituídas de interesse prático. O que em geral entra
em jogo é o elemento da juventude, isto é, uma magia que as sensações têm
tendência a tomar por beleza. A juventude, quando não é prejudicada por senões
demasiado graves, suscita no observador a impressão de beleza, e até a si própria
causa a mesma impressão que o sorriso evidencia inequivocamente. O encanto da
juventude é a manifestação de beleza que por sua própria natureza paira entre o
masculino e o feminino. Um jovem de dezassete anos não é belo no sentido de
masculinidade perfeita. Também não é belo no sentido de uma feminilidade
destituída de alcance prático, o que atrairia bem poucas pessoas. Mas temos de
convir que a beleza apoiada na graça juvenil se inclina sempre mais, tanto
interiormente como exteriormente, para o lado feminino. Isto faz parte da sua
essência, das suaves relações da juventude com o mundo e do mundo com ela, como
o seu sorriso traduz. Aos dezassete anos, na verdade, pode ser-se mais formoso
do que uma mulher ou um homem; ser formoso pelo lado feminino e pelo masculino;
ser tão belo, tão gracioso que, diante de tanta beleza e tanta graça, os homens
e as mulheres fiquem boquiabertos, encantados.”
quarta-feira, junho 06, 2012
O Actor Carlos Santos, El-Rei D. Carlos e o Conde de Ficalho
O actor Carlos Santos, o Rei D. Carlos e o Conde de Ficalho
“26 de Março de 1897
Nesta data realizei a minha récita de que fazia
parte o seguinte programa: A Gravata Branca, comédia em I acto, em verso, de
Gondinet, tradução de Pinheiro Chagas; O Dinheiro, cançoneta original de
Geraldes de Queirós, música de Filipe Duarte, desempenhada pelo Telmo; Os
Namorados, comédia em 3 actos, de Goldoni, tradução de Pinheiro Chagas.
Uns dias antes da exibição deste espectáculo,
El-Rei D. Carlos assistia à representação de qualquer comédia hilariante do
reportório do nosso Teatro que Ele frequentava assiduamente, talvez para
repouso do seu espírito atormentado pelas misérias politiqueiras que tantas
vezes tinha de suportar. Lembrei-me então de que me cumpria o dever de
convidá-Lo a assistir à minha récita, a realizar daí a dias, deliberação de que
fiz confidente o Telmo, a quem confessei, no entanto, o embaraço em que me
colocava uma falta de ensaio para ir ao Paço da Ajuda fazer tal pedido de
formalidade protocolar. A esta minha observação logo o Telmo sugeriu com a sua
costumada desenvoltura:
- Porque não vais ter com Ele ao camarote, logo no
final do acto?
De começo renitente a pôr em prática tal alvitre,
vim afinal a aceitá-lo perante a insistência do Telmo e, no final do 2º acto
dos Namorados, vá de galgar ao camarote real e corajosamente bater à porta, que
me foi franqueada pelo oficial às ordens. Depois de apresentar a El-Rei as
desculpas que se impunham de me permitir aparecer-lhe assim vestido e
caracterizado para entrar em cena, e ao convite que me atrevia a fazer-lhe, em
lugar tão impróprio, para que honrasse com a sua presença a minha récita,
El-Rei, acedendo prontamente ao meu pedido, rematou com esta graciosa frase:
- Fizeste muito bem. Não faltarei. E, assim não
indo à Ajuda, metes na algibeira as três corõas da tipóia, o que não deixa de
ser também uma pequena “ajuda”…
Poucos dias depois de haver realizado a minha
récita fui, como me cumpria, até à cidadela de Cascais para agradecer
pessoalmente a El-Rei a honra que me concedera a ter assistido a esse espectáculo,
como me havia prometido.
Quando entro no grande terreiro da parada deparo
com El-Rei que, apoiado ao varandim duma janela, repousava o olhar na imensa
toalha de água do Oceano em plena calmaria, pondo-a talvez em contraste com a
tumultuosa e sórdida agitação dos conluios políticos que Ele tanto desprezava e
se empenhava em aniquilar.
El-Rei então dá por mim e, notando talvez o meu
enleio para entrar no palácio, convida-me num gesto afectuoso para que suba, o
que faço prontamente. No entanto, ao chegar ao topo da escadaria, deparo com o Conde
de Ficalho que, numa expressão de estranheza, inquere:
- Que deseja?
- Falar a El-Rei, que tendo-me visto me convidou a
subir – respondo. Num movimento de indignação o sr. Conde ainda me pergunta:
- Mas afinal que é feito do protocolo?
E eu fazendo-me desentendido, acrescento:
- É sujeito que não conheço. – Momentos depois de
entrar, a convite de El-Rei, num gabinete contíguo ao seu atelier, começo por
Lhe contar o episódio que acabara de dar-se. El-Rei então sorrindo-se
discretamente, dignou-se aceitar os agradecimentos que me levaram á sua
presença e, antes de dar por finda a honrosa audiência que amavelmente me
concedera, fez-me entrar no seu atelier, onde me entregou gentilmente um
desenho à pena, de sua autoria e por ele assinado, e com esta legenda: “Couraçado
de Esquadra – 1883 – Carlos” – acompanhando a oferta das seguintes palavras:
- E agora aqui tens esta lembrança pela noite da
tua récita.
No momento porém em que transpunha a porta de saída,
El-Rei detém-me inopinadamente para me dizer:
- Olha lá, se vires por aí o protocolo, dá-lhe
saudades minhas!”
domingo, junho 03, 2012
sábado, junho 02, 2012
Lavagem ao Ego - Portugal na Imprensa Estrangeira
quinta-feira, maio 24, 2012
Resposta ao Pescador - António Maria Eusébio (Calafate)
Resposta ao Pescador
por António Maria Eusébio (Calafate) - 1820/1911
Tu pescas e eu apanho
Quanto tu pescas eu caço,Tu pescas para o teu chalrão,
Eu apanho para o meu laço.
Glosa
Tu rapaz eu rapariga
Tu petiscas e eu petisco,Tu no mar pescas marisco
E eu em terra apanho espiga.
Tu de cu e eu de barriga,
Se banhas também eu banho,
Tu perdes, eu sempre ganho,
Tu tens pau e eu tenho a risca,
Tu tens pesca e eu tenha a isca,
Tu pescas e eu apanho.
Tu em certas madrugadas
Fazes a pesca geral,E eu dentro de qualquer nabal
Apanho boas nabadas.
Tu pescas coisas salgadas,
Eu apanho algum cabaço,
Tu abaixas o regaço,
Eu sou fêmea e tu és macho,
Eu para cima e tu para baixo
Quando tu pescas eu caço.
Tu és pescador de fé,
Vais pescar a várias partes,E eu vou apanhar tomates
Quando vejo dois num pé.
Para nós sempre há maré,
Nunca falta ocasião,
Com iscas de lingueirão
Vais pescar a qualquer Tejo
Camareiras com badejo,
Tu pescas para o teu chalrão.
Tu pescas peixes taludos,
Na pesca fazes empenho,Eu com um bom laço que tenho
Apanhos pássaros papudos.
São iguais nossos estudos,
É igual o nosso passo,
Com as armadilhas que faço
Tenho a passarada certa,
Tendo a ratoeira aberta,
Eu apanho para o meu laço.
quarta-feira, maio 23, 2012
João de Deus - Omissão
OMISSÃO
de João de Deus (1830-1896)
Uma noviça, jovem de talento
Na arte do desenho e da pintura,
Pede à madre abadessa do convento
O favor de lhe ver uma figura.
Era a imitação escrupulosa
De um menino em tamanho natural
... Que pertencia a sóror Anna Rosa,
Tido em conta de um belo original!
A sóror costumava, por decência,
Tê-lo com uma tanga pequenina,
Que lhe encobria aquela saliência
Que distingue o menino da menina.
Mas uma tanga tão apropriada
No tecido e na cor, que na verdade
A gente olhava e não lhe via nada
Que desmentisse a naturalidade.
Era, pois, de esperar que a nossa artista,
Assim como no mais, naquela parte,
Pintasse apenas o que tinha à vista,
Que é o preceito e o primor da arte.
Vê a madre abadessa a maravilha,
E não se cansa de a louvar! Mas lança
A vista atenta àquele ponto: "Ai, filha,
Que falta essencial!... pobre criança!
Que pena! o colorido, que beleza!
Pernas, braços e tudo, que perfeito!
Mas confesso... confesso com tristeza...
Que enorme, enormíssimo defeito!"
de João de Deus (1830-1896)
Uma noviça, jovem de talento
Na arte do desenho e da pintura,
Pede à madre abadessa do convento
O favor de lhe ver uma figura.
Era a imitação escrupulosa
De um menino em tamanho natural
... Que pertencia a sóror Anna Rosa,
Tido em conta de um belo original!
A sóror costumava, por decência,
Tê-lo com uma tanga pequenina,
Que lhe encobria aquela saliência
Que distingue o menino da menina.
Mas uma tanga tão apropriada
No tecido e na cor, que na verdade
A gente olhava e não lhe via nada
Que desmentisse a naturalidade.
Era, pois, de esperar que a nossa artista,
Assim como no mais, naquela parte,
Pintasse apenas o que tinha à vista,
Que é o preceito e o primor da arte.
Vê a madre abadessa a maravilha,
E não se cansa de a louvar! Mas lança
A vista atenta àquele ponto: "Ai, filha,
Que falta essencial!... pobre criança!
Que pena! o colorido, que beleza!
Pernas, braços e tudo, que perfeito!
Mas confesso... confesso com tristeza...
Que enorme, enormíssimo defeito!"
sábado, maio 19, 2012
Subscrever:
Mensagens (Atom)
























