Poesia, musica, celebridades, teatro, cinema, selecção de textos, poetas e escritores, banalidades, fotografias, arte, literatura, pintura e muita conversa.
sábado, junho 09, 2012
quarta-feira, junho 06, 2012
O Actor Carlos Santos, El-Rei D. Carlos e o Conde de Ficalho
O actor Carlos Santos, o Rei D. Carlos e o Conde de Ficalho
“26 de Março de 1897
Nesta data realizei a minha récita de que fazia
parte o seguinte programa: A Gravata Branca, comédia em I acto, em verso, de
Gondinet, tradução de Pinheiro Chagas; O Dinheiro, cançoneta original de
Geraldes de Queirós, música de Filipe Duarte, desempenhada pelo Telmo; Os
Namorados, comédia em 3 actos, de Goldoni, tradução de Pinheiro Chagas.
Uns dias antes da exibição deste espectáculo,
El-Rei D. Carlos assistia à representação de qualquer comédia hilariante do
reportório do nosso Teatro que Ele frequentava assiduamente, talvez para
repouso do seu espírito atormentado pelas misérias politiqueiras que tantas
vezes tinha de suportar. Lembrei-me então de que me cumpria o dever de
convidá-Lo a assistir à minha récita, a realizar daí a dias, deliberação de que
fiz confidente o Telmo, a quem confessei, no entanto, o embaraço em que me
colocava uma falta de ensaio para ir ao Paço da Ajuda fazer tal pedido de
formalidade protocolar. A esta minha observação logo o Telmo sugeriu com a sua
costumada desenvoltura:
- Porque não vais ter com Ele ao camarote, logo no
final do acto?
De começo renitente a pôr em prática tal alvitre,
vim afinal a aceitá-lo perante a insistência do Telmo e, no final do 2º acto
dos Namorados, vá de galgar ao camarote real e corajosamente bater à porta, que
me foi franqueada pelo oficial às ordens. Depois de apresentar a El-Rei as
desculpas que se impunham de me permitir aparecer-lhe assim vestido e
caracterizado para entrar em cena, e ao convite que me atrevia a fazer-lhe, em
lugar tão impróprio, para que honrasse com a sua presença a minha récita,
El-Rei, acedendo prontamente ao meu pedido, rematou com esta graciosa frase:
- Fizeste muito bem. Não faltarei. E, assim não
indo à Ajuda, metes na algibeira as três corõas da tipóia, o que não deixa de
ser também uma pequena “ajuda”…
Poucos dias depois de haver realizado a minha
récita fui, como me cumpria, até à cidadela de Cascais para agradecer
pessoalmente a El-Rei a honra que me concedera a ter assistido a esse espectáculo,
como me havia prometido.
Quando entro no grande terreiro da parada deparo
com El-Rei que, apoiado ao varandim duma janela, repousava o olhar na imensa
toalha de água do Oceano em plena calmaria, pondo-a talvez em contraste com a
tumultuosa e sórdida agitação dos conluios políticos que Ele tanto desprezava e
se empenhava em aniquilar.
El-Rei então dá por mim e, notando talvez o meu
enleio para entrar no palácio, convida-me num gesto afectuoso para que suba, o
que faço prontamente. No entanto, ao chegar ao topo da escadaria, deparo com o Conde
de Ficalho que, numa expressão de estranheza, inquere:
- Que deseja?
- Falar a El-Rei, que tendo-me visto me convidou a
subir – respondo. Num movimento de indignação o sr. Conde ainda me pergunta:
- Mas afinal que é feito do protocolo?
E eu fazendo-me desentendido, acrescento:
- É sujeito que não conheço. – Momentos depois de
entrar, a convite de El-Rei, num gabinete contíguo ao seu atelier, começo por
Lhe contar o episódio que acabara de dar-se. El-Rei então sorrindo-se
discretamente, dignou-se aceitar os agradecimentos que me levaram á sua
presença e, antes de dar por finda a honrosa audiência que amavelmente me
concedera, fez-me entrar no seu atelier, onde me entregou gentilmente um
desenho à pena, de sua autoria e por ele assinado, e com esta legenda: “Couraçado
de Esquadra – 1883 – Carlos” – acompanhando a oferta das seguintes palavras:
- E agora aqui tens esta lembrança pela noite da
tua récita.
No momento porém em que transpunha a porta de saída,
El-Rei detém-me inopinadamente para me dizer:
- Olha lá, se vires por aí o protocolo, dá-lhe
saudades minhas!”
domingo, junho 03, 2012
sábado, junho 02, 2012
Lavagem ao Ego - Portugal na Imprensa Estrangeira
quinta-feira, maio 24, 2012
Resposta ao Pescador - António Maria Eusébio (Calafate)
Resposta ao Pescador
por António Maria Eusébio (Calafate) - 1820/1911
Tu pescas e eu apanho
Quanto tu pescas eu caço,Tu pescas para o teu chalrão,
Eu apanho para o meu laço.
Glosa
Tu rapaz eu rapariga
Tu petiscas e eu petisco,Tu no mar pescas marisco
E eu em terra apanho espiga.
Tu de cu e eu de barriga,
Se banhas também eu banho,
Tu perdes, eu sempre ganho,
Tu tens pau e eu tenho a risca,
Tu tens pesca e eu tenha a isca,
Tu pescas e eu apanho.
Tu em certas madrugadas
Fazes a pesca geral,E eu dentro de qualquer nabal
Apanho boas nabadas.
Tu pescas coisas salgadas,
Eu apanho algum cabaço,
Tu abaixas o regaço,
Eu sou fêmea e tu és macho,
Eu para cima e tu para baixo
Quando tu pescas eu caço.
Tu és pescador de fé,
Vais pescar a várias partes,E eu vou apanhar tomates
Quando vejo dois num pé.
Para nós sempre há maré,
Nunca falta ocasião,
Com iscas de lingueirão
Vais pescar a qualquer Tejo
Camareiras com badejo,
Tu pescas para o teu chalrão.
Tu pescas peixes taludos,
Na pesca fazes empenho,Eu com um bom laço que tenho
Apanhos pássaros papudos.
São iguais nossos estudos,
É igual o nosso passo,
Com as armadilhas que faço
Tenho a passarada certa,
Tendo a ratoeira aberta,
Eu apanho para o meu laço.
quarta-feira, maio 23, 2012
João de Deus - Omissão
OMISSÃO
de João de Deus (1830-1896)
Uma noviça, jovem de talento
Na arte do desenho e da pintura,
Pede à madre abadessa do convento
O favor de lhe ver uma figura.
Era a imitação escrupulosa
De um menino em tamanho natural
... Que pertencia a sóror Anna Rosa,
Tido em conta de um belo original!
A sóror costumava, por decência,
Tê-lo com uma tanga pequenina,
Que lhe encobria aquela saliência
Que distingue o menino da menina.
Mas uma tanga tão apropriada
No tecido e na cor, que na verdade
A gente olhava e não lhe via nada
Que desmentisse a naturalidade.
Era, pois, de esperar que a nossa artista,
Assim como no mais, naquela parte,
Pintasse apenas o que tinha à vista,
Que é o preceito e o primor da arte.
Vê a madre abadessa a maravilha,
E não se cansa de a louvar! Mas lança
A vista atenta àquele ponto: "Ai, filha,
Que falta essencial!... pobre criança!
Que pena! o colorido, que beleza!
Pernas, braços e tudo, que perfeito!
Mas confesso... confesso com tristeza...
Que enorme, enormíssimo defeito!"
de João de Deus (1830-1896)
Uma noviça, jovem de talento
Na arte do desenho e da pintura,
Pede à madre abadessa do convento
O favor de lhe ver uma figura.
Era a imitação escrupulosa
De um menino em tamanho natural
... Que pertencia a sóror Anna Rosa,
Tido em conta de um belo original!
A sóror costumava, por decência,
Tê-lo com uma tanga pequenina,
Que lhe encobria aquela saliência
Que distingue o menino da menina.
Mas uma tanga tão apropriada
No tecido e na cor, que na verdade
A gente olhava e não lhe via nada
Que desmentisse a naturalidade.
Era, pois, de esperar que a nossa artista,
Assim como no mais, naquela parte,
Pintasse apenas o que tinha à vista,
Que é o preceito e o primor da arte.
Vê a madre abadessa a maravilha,
E não se cansa de a louvar! Mas lança
A vista atenta àquele ponto: "Ai, filha,
Que falta essencial!... pobre criança!
Que pena! o colorido, que beleza!
Pernas, braços e tudo, que perfeito!
Mas confesso... confesso com tristeza...
Que enorme, enormíssimo defeito!"
sábado, maio 19, 2012
O Virtuoso Criador. Joaquim Machado de Castro (1731-1822)
Uma exposição que importava fazer: a evocação da obra de Joaquim Machado de Castro (Coimbra, 1731 - Lisboa, 1822), considerado o maior escultor português de todos os tempos.
Quase 60 anos após a última mostra dedicada ao artista (comissariada por Maria José Mendonça, no MNAA, em 1954), “O Virtuoso Criador. Joaquim Machado de Castro (1731-1822)” reúne mais de 100 peças – esculturas, modelos, desenhos e importantes documentos, do acervo do Museu e provenientes de diversas instituições públicas e privadas – possibilitando um balanço crítico e a definição de novos critérios de classificação.
Revendo a historiografia tradicional, que consagrou Machado de Castro sobretudo como escultor da Estátua Equestre de D. José I e como autor de presépios, os comissários – Ana Duarte Rodrigues e Anísio Franco – pretendem tornar evidente, aos olhos do público, Machado de Castro como um estatuário à la grande maniera romana.
Senhor de uma longevidade imensa – morreu aos 91 anos –, fundou a primeira aula de escultura em Portugal, para formar artistas que colaborassem no seu Laboratório, e lutou pela elevação do estatuto da escultura no País.
A Estátua Equestre de D. José, a Fonte do Neptuno do Chafariz do Loreto, as esculturas da Basílica da Estrela e do Palácio da Ajuda, em Lisboa, a estátua de D. Maria I (agora, na Biblioteca Nacional) ou os bustos da Cascata dos Poetas da Quinta do Marquês de Pombal, em Oeiras, são algumas das obras monumentais criadas pelo artista. As circunstâncias levaram ainda Machado de Castro a produzir imaginária religiosa, da qual são exemplos Santa Ana Ensinando a Virgem a Ler (MNAA), a Virgem da Piedade (Capela Palatina de Salvaterra de Magos), São João Baptista (Igreja Matriz de Almeirim), Nossa Senhora da Encarnação (Igreja de Nossa Senhora da Encarnação, Lisboa). O artista realizou também escultura funerária, como os túmulos de D. Mariana de Áustria, no Real Hospício de S. João Nepomuceno (hoje, no Museu Arqueológico do Carmo), ou o de D. Mariana Vitória, na Igreja de S. Francisco de Paula, na freguesia dos Prazeres em Lisboa.
Ocupando todo o Piso 0 do MNAA, dividida em oito núcleos, a exposição insere-se num programa de divulgação da obra deste virtuoso criador, que engloba a intervenção na Estátua Equestre de D. José na Praça do Comércio (coordenada pelo World Monuments Fund) e o colóquio internacional “Machado de Castro. Da Utilidade da Escultura”, organizado pela Universidade Autónoma de Lisboa em colaboração com a Câmara Municipal de Oeiras, que conta, na conferência inaugural (a 19 de Maio, no MNAA), com intervenções de José-Augusto França e Alexandre Quintanilha.
Quase 60 anos após a última mostra dedicada ao artista (comissariada por Maria José Mendonça, no MNAA, em 1954), “O Virtuoso Criador. Joaquim Machado de Castro (1731-1822)” reúne mais de 100 peças – esculturas, modelos, desenhos e importantes documentos, do acervo do Museu e provenientes de diversas instituições públicas e privadas – possibilitando um balanço crítico e a definição de novos critérios de classificação.
Revendo a historiografia tradicional, que consagrou Machado de Castro sobretudo como escultor da Estátua Equestre de D. José I e como autor de presépios, os comissários – Ana Duarte Rodrigues e Anísio Franco – pretendem tornar evidente, aos olhos do público, Machado de Castro como um estatuário à la grande maniera romana.
Senhor de uma longevidade imensa – morreu aos 91 anos –, fundou a primeira aula de escultura em Portugal, para formar artistas que colaborassem no seu Laboratório, e lutou pela elevação do estatuto da escultura no País.
A Estátua Equestre de D. José, a Fonte do Neptuno do Chafariz do Loreto, as esculturas da Basílica da Estrela e do Palácio da Ajuda, em Lisboa, a estátua de D. Maria I (agora, na Biblioteca Nacional) ou os bustos da Cascata dos Poetas da Quinta do Marquês de Pombal, em Oeiras, são algumas das obras monumentais criadas pelo artista. As circunstâncias levaram ainda Machado de Castro a produzir imaginária religiosa, da qual são exemplos Santa Ana Ensinando a Virgem a Ler (MNAA), a Virgem da Piedade (Capela Palatina de Salvaterra de Magos), São João Baptista (Igreja Matriz de Almeirim), Nossa Senhora da Encarnação (Igreja de Nossa Senhora da Encarnação, Lisboa). O artista realizou também escultura funerária, como os túmulos de D. Mariana de Áustria, no Real Hospício de S. João Nepomuceno (hoje, no Museu Arqueológico do Carmo), ou o de D. Mariana Vitória, na Igreja de S. Francisco de Paula, na freguesia dos Prazeres em Lisboa.
Ocupando todo o Piso 0 do MNAA, dividida em oito núcleos, a exposição insere-se num programa de divulgação da obra deste virtuoso criador, que engloba a intervenção na Estátua Equestre de D. José na Praça do Comércio (coordenada pelo World Monuments Fund) e o colóquio internacional “Machado de Castro. Da Utilidade da Escultura”, organizado pela Universidade Autónoma de Lisboa em colaboração com a Câmara Municipal de Oeiras, que conta, na conferência inaugural (a 19 de Maio, no MNAA), com intervenções de José-Augusto França e Alexandre Quintanilha.
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