quinta-feira, maio 24, 2012

Resposta ao Pescador - António Maria Eusébio (Calafate)



Resposta ao Pescador
por António Maria Eusébio (Calafate) - 1820/1911

Mote

Tu pescas e eu apanho
Quanto tu pescas eu caço,
Tu pescas para o teu chalrão,
Eu apanho para o meu laço.

Glosa

Tu rapaz eu rapariga
Tu petiscas e eu petisco,
Tu no mar pescas marisco
E eu em terra apanho espiga.
Tu de cu e eu de barriga,
Se banhas também eu banho,
Tu perdes, eu sempre ganho,
Tu tens pau e eu tenho a risca,
Tu tens pesca e eu tenha a isca,
Tu pescas e eu apanho.

Tu em certas madrugadas
Fazes a pesca geral,
E eu dentro de qualquer nabal
Apanho boas nabadas.
Tu pescas coisas salgadas,
Eu apanho algum cabaço,
Tu abaixas o regaço,
Eu sou fêmea e tu és macho,
Eu para cima e tu para baixo
Quando tu pescas eu caço.

Tu és pescador de fé,
Vais pescar a várias partes,
E eu vou apanhar tomates
Quando vejo dois num pé.
Para nós sempre há maré,
Nunca falta ocasião,
Com iscas de lingueirão
Vais pescar a qualquer Tejo
Camareiras com badejo,
Tu pescas para o teu chalrão.

Tu pescas peixes taludos,
Na pesca fazes empenho,
Eu com um bom laço que tenho
Apanhos pássaros papudos.
São iguais nossos estudos,
É igual o nosso passo,
Com as armadilhas que faço
Tenho a passarada certa,
Tendo a ratoeira aberta,
Eu apanho para o meu laço.

quarta-feira, maio 23, 2012

João de Deus - Omissão


OMISSÃO
de João de Deus (1830-1896)

Uma noviça, jovem de talento
Na arte do desenho e da pintura,
Pede à madre abadessa do convento
O favor de lhe ver uma figura.

Era a imitação escrupulosa
De um menino em tamanho natural
... Que pertencia a sóror Anna Rosa,
Tido em conta de um belo original!

A sóror costumava, por decência,
Tê-lo com uma tanga pequenina,
Que lhe encobria aquela saliência
Que distingue o menino da menina.

Mas uma tanga tão apropriada
No tecido e na cor, que na verdade
A gente olhava e não lhe via nada
Que desmentisse a naturalidade.

Era, pois, de esperar que a nossa artista,
Assim como no mais, naquela parte,
Pintasse apenas o que tinha à vista,
Que é o preceito e o primor da arte.

Vê a madre abadessa a maravilha,
E não se cansa de a louvar! Mas lança
A vista atenta àquele ponto: "Ai, filha,
Que falta essencial!... pobre criança!

Que pena! o colorido, que beleza!
Pernas, braços e tudo, que perfeito!
Mas confesso... confesso com tristeza...
Que enorme, enormíssimo defeito!"

sábado, maio 19, 2012

Mosteiro dos Jerónimos, Lisboa




O Virtuoso Criador. Joaquim Machado de Castro (1731-1822)








Uma exposição que importava fazer: a evocação da obra de Joaquim Machado de Castro (Coimbra, 1731 - Lisboa, 1822), considerado o maior escultor português de todos os tempos.

Quase 60 anos após a última mostra dedicada ao artista (comissariada por Maria José Mendonça, no MNAA, em 1954), “O Virtuoso Criador. Joaquim Machado de Castro (1731-1822)” reúne mais de 100 peças – esculturas, modelos, desenhos e importantes documentos, do acervo do Museu e provenientes de diversas instituições públicas e privadas – possibilitando um balanço crítico e a definição de novos critérios de classificação.

Revendo a historiografia tradicional, que consagrou Machado de Castro sobretudo como escultor da Estátua Equestre de D. José I e como autor de presépios, os comissários – Ana Duarte Rodrigues e Anísio Franco – pretendem tornar evidente, aos olhos do público, Machado de Castro como um estatuário à la grande maniera romana.
Senhor de uma longevidade imensa – morreu aos 91 anos –, fundou a primeira aula de escultura em Portugal, para formar artistas que colaborassem no seu Laboratório, e lutou pela elevação do estatuto da escultura no País.

A Estátua Equestre de D. José, a Fonte do Neptuno do Chafariz do Loreto, as esculturas da Basílica da Estrela e do Palácio da Ajuda, em Lisboa, a estátua de D. Maria I (agora, na Biblioteca Nacional) ou os bustos da Cascata dos Poetas da Quinta do Marquês de Pombal, em Oeiras, são algumas das obras monumentais criadas pelo artista. As circunstâncias levaram ainda Machado de Castro a produzir imaginária religiosa, da qual são exemplos Santa Ana Ensinando a Virgem a Ler (MNAA), a Virgem da Piedade (Capela Palatina de Salvaterra de Magos), São João Baptista (Igreja Matriz de Almeirim), Nossa Senhora da Encarnação (Igreja de Nossa Senhora da Encarnação, Lisboa). O artista realizou também escultura funerária, como os túmulos de D. Mariana de Áustria, no Real Hospício de S. João Nepomuceno (hoje, no Museu Arqueológico do Carmo), ou o de D. Mariana Vitória, na Igreja de S. Francisco de Paula, na freguesia dos Prazeres em Lisboa.

Ocupando todo o Piso 0 do MNAA, dividida em oito núcleos, a exposição insere-se num programa de divulgação da obra deste virtuoso criador, que engloba a intervenção na Estátua Equestre de D. José na Praça do Comércio (coordenada pelo World Monuments Fund) e o colóquio internacional “Machado de Castro. Da Utilidade da Escultura”, organizado pela Universidade Autónoma de Lisboa em colaboração com a Câmara Municipal de Oeiras, que conta, na conferência inaugural (a 19 de Maio, no MNAA), com intervenções de José-Augusto França e Alexandre Quintanilha.

quinta-feira, maio 17, 2012

Jornais de Outros Tempos





Veja outras capas desta revista aqui ou delicie-se com o que a Hemeroteca Municipal On-Line tem para mostrar.

Dia da Espiga - Por André Brun



“O Dia da Espiga – Por André Brun

Hontem á noite um estrangeiro de passagem em Lisboa interrogou-me ácerca  da solenidade do dia. Citei-lhe a tradição que obriga todo o bom alfacinha a ir pelos campos floridos colher uma espiga afim de ter pão todo o ano. O meu interlocutôr, creatura ingénua e simples, declarou-se encantado com essa tradição e citou-me várias da sua terra. Animando-se, descreveu-me as grandes festas rústicas do seu paiz, apoteóses da Primavera e outras, e, durante meia hora, falou-me de excursões alegres, de bandos de raparigas acompanhando grupos musicaes e constituindo orfeões, de grandes bailes populares onde a mocidade se expande gracíosa, em que há musicas por toda a parte, em que se organisam á volta longos cortejos luminosos… A cada passo punha em relêvo a fraternidade que preside a todos esses folguêdos, cheios de desprendimento das convenções e preconceitos, mantidos todavía na mais absoluta correcção.

Eu escutava-o tristemente e quando êle, por sua vez, me perguntou como se passavam as coias por cá, improvisei uma larga e mentirosa narrativa, parodíada da que acabava de ouvir.

Tive vergônha de lhe diser que esta nossa grande festa nacional da Espiga se limita a uma passeiata ao campo em pequenos grupos, com um farnelsito mesquinho, sem a menór sombra de familiaridade entre ranchos visinhos e antes com esta perpétua desconfíança do proximo que é vêso do bom portuguez, a uma devastação cruel de ceáras mal nascidas ainda, a umas vinhosas expansões pelo entardecer e a uma retirada urgente, mal lusem as primeiras estrêlas não venha por acaso uma malta de fadistas bêbados rematar com uma coça de facadas o triste arremêdo duma festa.

Hoje os jornaes vêm cheios de desordens, algumas sangrentas e desastrosas. Em todas a notícias se mencionam casos de embriaguez escandalosa e réles. Houve furtos, assaltos, agressões. Em resumo: Lisboa foi hontem expandir-se para o “Papagaio”, para a “Aguia Roxa”, etc. Para nós, lisboêtas, não é preciso diser mais nada.

1907” -  foi respeitada a ortografia original

quarta-feira, maio 16, 2012

IMPROVISO - Natália Correia e António Vitorino de Almeida

A1
A Donzela De Biscaia
A2
Queixa Das Almas Jovens Censuradas
A3
Quarto
A4
Telex
A5
Árvore Geneológica
A6
A Rapariga Do Sweater Vermelho
A7
Fado De Diogo Ary Dos Santos Jovem Lusíada Tocador De Guitarra Que Morreu De Amor
B1
Núpcias Químicas
B2
Caosmonáutica
B3
Rebis
B4
O Encontro
B5
Uma Laranja Para Alberto Caeiro
B6
A Política Do Dia
B7
Cabelos Os Meus Cabelos
B8
Amanhecer

quinta-feira, maio 10, 2012

O Meu Primeiro Fato de Máscara, por André Brun


Mascarei-me duas vezes na minha vida. A segunda foi de dominó e tinha estreado, para correr várias casas conhecidas e intrigar meio mundo, umas botas de polimento próximas descendentes daqueles borzeguins da Inquisição, com que os Torquemadas arranjavam um pé para fazer confessar as suas vítimas tudo quanto lhes convinha saber. Recordo-me que fui acabar melancolicamente a noite num camarote do D. Maria dentro de uma tipóia ignóbil, com o aparelho de tortura debaixo do braço.
A primeira vez tinhe eu sete anos e foi de pajem. Em pequeno, as máscaras inspiravam-me um pavor terrível. Mas despontava o Entrudo e ouvia na minha rua a voz fanhosa dos chéchés pedindo dez reisinhos para velhos, sentia não ter a fortuna dos Vanderbilst para fazer desaparecer da face da terra aquele horror, bem maior para mim do que o de Macbeth em face do fantasma do seu crime.
Meus pais deliberaram curar-me pela fórmula do similia similibus tão querida dos homeopatas. Confeccionou-se um fato de pajem, mais ou menos da Idade Média. Tinha então, minhas senhoras, uns caracóis louros, que muito desejaria ainda ter hoje para vos fascinar. A fatiota ficou luxuosa. A capa era de cetim de três tostões o metro e tinha um galão dourado, deste de loja de caixões, que produzia um efeito deslumbrante. Havia mais uns calções com um folho, um gibão também folhado, umas botas de veludo muito simpáticas, um gorro com uma pluma de peru e uma espécie de punhal, que fora comprado num ferro-velho da Rua de S. Bento. Dias antes do Domingo Gordo, o fato concluiu-se e vestiram-me. Achei as botas um tudo nada apertadas; mas a espadinha encheu-me do contentamento mais discreto. Sentia nesse tempo uma vocação, que perdi depois, para espadas, espadins e outras armas brancas. Levaram-me a um espelho e tal era o susto qu eu tinha das mascáras que tive medo de mim mesmo. Pois nem por isso estava terrível: uma cara bochechuda de maça camoesa, umas perninhas tortas que ainda hoje tenho, os caracóis acima referidos, os pés metidos para dentro e um embaraço terrível derivado a não saber onde meter as mãos, visto os calções não serem dotados de bolsos. Para remediar essa falta, calçaram-me umas luvar brancas de pelica, justas como uma sentença do sábio Salomão e todo o pessoal , que assistia à prova, declarou una voce  que estava um pajem completo. Eu nem ousava olhar para a minha imagem e pus-me a tremer interiormente, pensando no dia próximo em que teria de estarrecer a multidão com os meus encantos. Chegou o dia. Esses malditos dias de encravação chegam sempre. Cuidando dar-me um prazer infinito, minha mãe vestiu-me ao romper da alva e, como Jesus a Lazaro, disse-me: "Surge et ambula!" Posto que autorizado a ambular pela casa toda, melancolicamente me sentei numa cadeira e a primeira opinião que ouvi foi a do meu gato. O Tareco nunca me tinha visto tão formoso e, não me reconhecendo, começou a fazer-se marreca, a eriçar o rabo e acabou por me fungar. Ao cair em si, sorriu, miou um: Bem te conheço, ó máscara, cheirou o espadim, viu que era de lata muito ordinária e não me ligou mais importância, retirando-se para debaixo do poial do pote, onde certamente me acabou de desconsiderar.
Depois do almoço tive de sair. Iam levar-me ao meu avô, às minhas tias, às várias pessoas das minhas insignificantes relações. A minha rua, pejada de cavalheiros em fralda de camisa, de velhos de Entrudo, de cegadas, inspirava-me um medo atroz; mas, silencioso e disposto a tudo, dei a mão a minha mãe. Logo ao sair a porta de casa tive um desgosto. Vários petizes, da minha idade, fizeram-me uma tourada indecente. Todos me vieram desfrutar; um quis bulir-me no espadim, outro apalpou-me as pernas por detrás. Eu estava vexado por tão pouco respeito. Ao voltar da primeira esquina foi o fim do mundo. Avança um mariola, com um facalhão de papelão prateado numa mão e um chifre na outra, com umas lunetas de lata e a cara besuntada de zarcão e, ao dar comigo, quis por força que eu desse uma pançadinha ao velho. Eu, que sempre respeitei pessoas de idade, começo a chorar, o chéché a dar pulos de corça e, quando por fim ele foi dançar a outra freguesia, deixou-me banhado em pranto, como Madalena depois de ouvir a palavra de Cristo. Para me animar, minha mãe informava-me sobre os costumes dos pajens da Idade Média.
- Não chores, filho! Os pajens nunca choravam.
É que provavelmente naquele tempo não havia chéchés. As sucessivas visitas às pessoas das minhas relações consolaram-me um pouco das amarguras da rua. Fui sempre recebido com aclamações:
- Olha que bonito!
- Adeus, ó máscara. Bem te conheço...
- É ele! É ele!
Era eu, com efeito. Muito aborrecido; mas era eu. Naquele Calvário faltava um passo ainda: - o fotógrafo - e lá dei entrada pela tarde. O local de pose estava ocupado nessa ocasião por um notável oficial de marinha de uns cinco anos, com dragonas, calças até para debaixo dos pés e espada comprida. Também tinha caracóis. Não sei bem em que marinha esse ornamento capilar é admitido: na armada suiça talvez. O almirante ainda estava mais aborrecido do que eu. Por mais que lhe dissessem que olhasse para um pauzinho de onde havia de sair um passarinho, o marítimo não queria acreditar e chorava como um danado. Se a tripulação da esquadra o visse! Quando chegou a minha vez, portei-me heroicamente. Deixei que me operassem duas vezes sem clorofórmio.
Não estavam, porém, terminadas as provações desse dia. Faltava ainda uma visita a casa dum amigo de meu pai, amigo que tinha um cão chamado Garibaldi. Cada vez que avistava com esse célebre guerrilheiro italiano, eu curtia angústias infinitas. Era enorme e doido por brincar. Nesse dia, recebeu-me ladrando com furor. Decididamente os animais eram contra o meu disfarce. Por fim aquietou-se e principiou na brincadeira do costume. Começou girando em volta de mim, dando uns pulinhos idiotas e entrou de bulir com a capinha, que airosamente me prendi dum ombro. Três vezes dei volta ao quarto, onde me achava só com o bicho; outras tantas ele tratou de investir comigo, abanando jubilosamente o rabo. A capinha dera-lhe no goto. Por fim deitou-lhe os dentes e abalou para o quintal com ela. Eu não me atrevia a dizer nada. Parecia um cristão lançado às feras do circo. Garibaldi voltou. Não lhe bastava a capa; cobiçava agora o gorro com a pena de peru. Dei-lho. Levou-o e nunca mais ninguém o viu. Resignado, já estaca disposto a dar-lhe o espadim, as botas de veludo e os calções, quando voltaram as pessoas crescidas e fui gratificado com dois pescoções por ter deixado estragar um fato tão bonito, que me ficava tão bem... Para me arreliar de todo, declararam os meus progenitores que nunca mais me mascarariam. Eu, contentíssimo, jurei nessa hora que, se Deus me desse filhos menores, nunca os vistiria de pajem. Porém, ainda a minha Aninhas não tinha cinquenta dias, tirei-lhe o retrato vestida à moda do Minho, com o fato duma boneca. Que terá ela pensado de mim? - André Brun, in Sem Pés Nem Cabeça