Poesia, musica, celebridades, teatro, cinema, selecção de textos, poetas e escritores, banalidades, fotografias, arte, literatura, pintura e muita conversa.
quarta-feira, novembro 02, 2011
quarta-feira, outubro 05, 2011
terça-feira, outubro 04, 2011
Vive Pobre, o Pobre Op'rario - Letra de Avelino de Sousa, Música de André Santos
Entre 1870 e 1920, o Canto do Fado foi a “canção de intervenção” ao serviço do ideário revolucionário que se haveria de propagar as ideias republicanas a cantar a República e desiludir-se com ela. Um conjunto de operários de Lisboa, e região envolvente, muitos deles ligados à indústria tipográfica e à Voz do Operário, vão agarrar num canto de improviso, o canto do Fado e vão fazer dele o seu canto catequético em Lisboa, no resto do País, Continente e Ilhas, e inclusive fora de Portugal. Vão não só mudar-lhe a melodia, como vão intervir poeticamente nos textos, recorrendo à décima e complexificando-a a um nível sem paralelo, quer em Portugal quer internacionalmente.
Os chamados Fados Socialistas vão ser de grande importância para a propagação do ideal revolucionário. Estes operários perceberam que através dos fados poderiam comunicar com vastas camadas iletradas e passar-lhes não só o ideário como aumentar a sua cultura dando-lhes a conhecer autores de grande relevo, principalmente franceses e russos. Muitos destes propagadores do Canto do fado e da Revolução vão fazer missões pelas províncias lusitanas, do Sul ao Norte, espalhando os novos ideais pelas comunidades rurais. No Alentejo, a marca será fortíssima, indo influenciar todo o canto de improviso e moldar o Canto Coral, este muito devedor da grande discussão sobre o que é que o povo deve cantar: música coral ou Canto do Fado.
A par deste movimento, os operários vão iniciar todo um trabalho de imprensa, e associadas ao Canto do Fado, entre 1910 e 1929, vão surgir cerca de duas dezenas de títulos de jornais dedicados ao Fado e à Revolução. Mas este movimento em torno de uma canção operária e de um ideal revolucionário não acontece só em Portugal. Na altura, o mesmo está a acontecer em Espanha e em toda a América Latina, tendo em comum um mesmo texto, a décima; uma mesma forma, o improviso e um ideário libertário e revolucionário. - Texto de Orlando Leite
terça-feira, setembro 13, 2011
Amália Rodrigues e Teresa Tarouca
Uma das muitas coisas que gosto no Fado é a forma como sagrado e profano se entrecruzam. Como a barreira entre os dois praticamente não existe. Como o sagrado se torna profano e profano sagrado. Aqui ficam dois exemplos que acho maravilhosos.
quarta-feira, agosto 31, 2011
Vergonhosa entrevista dada por Luís Miguel Cintra ao jornal Público em 19.11.2010
O Teatro da Cornucópia recebe o maior apoio da Direcção-Geral das Artes (DGA): 689 mil euros previstos para 2011. Mesmo assim o seu director está preocupado com os efeitos dos cortes de 23 por cento (menos 158 mil euros). Luís Miguel Cintra, que não costuma falar sobre a política do sector, acusa o MC de agressão às companhias.
Estes cortes preocupam-no?
Preocupam-me muitíssimo. Para nós é um rombo gigantesco. Manter esta casa sai muito caro e resta muito pouco dinheiro para a produção. Só há duas soluções: ou somos ajudados pelos processos de co-produção, com entidades que possam pagar grande parte dos espectáculos, ou entramos no mercado e fabricamos produtos que se possam vender. E isso é muito difícil. O que é mais fácil de comprar, pelo menos na nossa terra, não são o género de coisas que fazemos, porque estas constituem um grande risco económico para as entidades. Ou, então, fazemos espectáculos de muito menor dimensão e que, de certa maneira, reduzem a expectativa em relação ao nosso trabalho. Isso é perverso, porque se pode chegar a uma situação onde nos perguntam: “porque vos estamos a subsidiar se o que produzem é só isto?”
É uma situação muito complicada da qual não sei como nos vamos conseguir safar.
Não é só grave para o Teatro da Cornucópia. É grave para muitas outras estruturas, porque é tudo proporcional. O problema será menor em grupos menores mas, quantitativamente, quando trabalham com orçamentos menores, acaba por ser tão pernicioso como o resto. A Ministra da Cultura pediu, no dia em que anunciou estas medidas, a cumplicidade dos agentes culturais, mas só podemos aceitar de bom grado estes cortes, se concordarmos com uma política que nos leve a aceitar sermos sacrificados em nome de qualquer coisa. Há uma agressão concreta à actividade das companhias subsidiadas, mas em nome de quê? Espero que a situação possa vir a ser revista, mas para já é uma agressão à actividade, e mais nada.
Uma agressão desatenta àquelas que são as responsabilidades de cada espaço?
Pois é, porque isso dá muito trabalho e exige um certo tempo e cuidado. Há pouco tempo veio uma notícia de um sector do Ministério onde se dizia que este queria ajudar a publicitar o trabalho subsidiado, fabricando um livro como fotografias e dados da companhia. Faziam um questionário e queriam que fizéssemos um currículo da companhia, tudo dados que existem nos relatórios do MC. Eu perguntei-me: mas então aqueles funcionários fazem o quê? Nada, só pedem que a gente faça mais um trabalho. Depois veio nova notícia, onde já não era um livro, porque não havia dinheiro, mas material para fazer um site. Mas o nosso site tem muito mais material sobre a Cornucópia do que aquele que vai ficar no site do Ministério. Portanto, o que é que vamos fazer, se nem sequer têm capacidade de ir buscar a informação ao nosso site? O que estamos é a justificar o salário que é dado aquelas pessoas que, talvez façam outras coisas para além disto, mas isto [que fazem] não é nada. É sintomático de como nos estão a exigir ainda mais trabalho a nós, para dar a aparência de que trabalham no Ministério.
Apesar de serem, desde há muito tempo, a companhia mais apoiada, disse sempre que queria a concurso para estar numa posição de igualdade com as outras companhias. Porquê?
Os concursos são muitos discutíveis, sobretudo, na altura em que vivemos. Não tenho a certeza de que seja a melhor forma de solucionar a questão, no momento e na situação em que o país está. Muitas vezes penso que seria preferível que o MC assumisse uma escolha, em vez de se estar a escudar atrás de júris que, no fundo, tem muita dificuldade me formar. Deve ser uma dificuldade imensa porque, as pessoas que estão envolvidas nas candidaturas não o podem ser, e as pessoas informadas e com capacidade de trabalho, análise e que conheçam os dossiers das companhias, são muito difíceis [de encontrar]. [Mesmo] os critérios são tão duvidosos quanto os do próprio ministro. Prefiro que seja o MC a dar a cara e a tomar decisões, sendo julgado pela sua acção cultural, [podendo] até ser muito apreciado ou recusado. E talvez aí as pessoas comecem a perceber como devem votar. [Se] eu estou a votar no Partido Socialista espero que ele corresponda à sua “marca”. Posso perceber que, afinal, o partido Socialista não era aquilo que eu pensava e, talvez da próxima vez, já não vote nele. Passados mais de 30 anos sobre a criação da companhia acha que as condições já deviam ser outras?
Completamente. Já devia ser mais do que reconhecido que prestamos mais do que um serviço, e que é útil ao público que existamos. Mesmo na própria classe este ponto de vista tem sido muito esquecido. As pessoas dentro do próprio teatro não ajudam a colocar a questão nos termos certos, fazendo crer na opinião pública que os subsídios são formas de garantir a subsistência das pessoas que estão metidas no teatro. Os apoios do MC não têm que ter esse critério, mas critérios de natureza cultural e de utilidade pública.
O que devia acontecer, do ponto de vista do MC, era a definição do que é que este considera útil para o usufruto do próprio cidadão. E aí, julgo que será consensual, mas teria de haver alguém que o assumisse, que o trabalho que temos feito, e a existência do Teatro da Cornucópia, é útil para a vida cultural do país.
Se estão a medir, como já têm aparecido algumas pessoas com responsabilidade política, o número de cidadãos tocado pela cultura, vão chegar à conclusão que a melhor coisa de utilidade cultural é, provavelmente, a música rock, os jogos de futebol e outras coisas do género, porque são as que têm mais público. Ora, não pode ser.
Tem que haver a noção de que a actividade cultural é uma coisa que demora muito tempo a ter efeito e que, de certa maneira é útil tal como a educação é útil.
Eu tenho noção de que a continuidade da Cornucópia influenciou o teatro português e a maneira de pensar de muitas pessoas, mesmo que não tenham visto os espectáculos. A influência funciona indirectamente. Mas para isso acontecer é preciso haver uma visão, e um desejo político verdadeiro, de que os cidadãos sejam pessoas de maior cultura, com maior capacidade de decisão, com maior sentido crítico, maior criatividade, etc. Isto são tudo critérios, este é um bem que muito poucos cidadãos reconhecem. O sistema está todo perverso. O que as pessoas pensam é em ter comida para comer, um automóvel bom, não terem que viver à custa de dívidas e outras coisas do género. Quando se vive numa sociedade em que muitas das coisas imediatas e essenciais escasseiam, é muito difícil fazer crer que as pessoas têm que ser mais inteligentes, têm que ter mais imaginação, mais prazer na vida, mais alegria, e por aí adiante.
Daí o perigo do argumento dos direitos adquiridos?
É por ser contra essa lógica que, justamente, gostaria de ser posto em situação de igualdade com os outros. Sou contra os direitos adquiridos porque esses conduzem à inércia. É a capacidade da actividade que mostra o que as pessoas se propõem fazer. Há pessoas que já deram tantas provas, e continuam a fazê-lo, que de certa maneira, podia-se incentivar isso.
Tenho tentado dizer isto a tantos ministros e eles não entendem: quem é que existe em actividade que possa ser útil ao fomento da criatividade púbica ou da cultura de toda a sociedade de que somos responsáveis? Deviam escolher e dar o máximo de condições a essas estruturas, para que o público usufruísse o máximo possível disso. A situação é sempre posta ao contrário. São sempre as pessoas [os agentes culturais] a ir pedir. Nós não devíamos pedir. Eles [o MC] é que nos deviam pedir a nós. Com certeza que [eles] se dão conta disso quando, de repente, têm que mudar os directores dos teatros nacionais e começam a ter que escolher quem é lá querem. Nessa altura eles usam o critério da escolha, já têm esse ponto de vista. Porque é que não o têm em relação a toda a actividade teatral? Há qualquer coisa aqui que não faz sentido.
No vosso caso o que é que estes cortes representam?
Não tive tempo para ver exactamente o que vai acontecer, porque estamos em estreia, as também porque não quero dar como dado assente que vai ser mesmo assim porque nem quero acreditar nisso. Imediatamente a seguir há uma co-produção com o TNDMII [“A Catatua Verde”, de Arthur Schnitzler, estreia a 17 de Fevereiro 2011] que, em princípio, se confirma. A programação daí para a frente, confirmando-se os cortes, terá que ser revista, porque sobra muito pouco dinheiro para produção. Este espectáculo [“Fim de Citação”, estreado ontem] funcionava como prólogo dessa programação. E, o que estava previsto era, de seguida, fazermos “A Varanda”, do Genet [estreia a 9 de Junho 2011], mas esta está ameaçada porque tem muita gente. Pensámos que estávamos amparados com “A Catatua Verde”, porque [eram, em parte] os gastos de produção do Nacional. Isso permitia fazermos a “Varanda”, sozinhos. Mas agora vai ser mais complicado porque o resto do dinheiro [que sobra] não existe. Já para não falar [no arranque da temporada] do Outono. No fundo temos que repensar tudo e medir até que ponto encontramos outras fontes de financiamento que possam completar e nos permitam fazer uma programação mais ambiciosa ou então reduzir completamente os objectivos.
Pondo em causa a razão pela qual tiveram o apoio que tiveram, que é o reconhecimento dessa qualidade.
A própria Direcção-Geral das Artes reconhece o problema. Na carta que nos mandam avisam: “atenção não baixem a fasquia”. Mas como é que podem querer que o façamos se existe menos dinheiro? É muito difícil. Mesmo a estrutura na qual funcionamos é muito precária, com poucas pessoas. Não tem comparação o nível de trabalho de secretaria que é exigido com o número de funcionários que existem para o fazer. Cada vez que vem mais um inquérito eu fico a pensar quem é que vai responder. Sobretudo se queremos fazer com um determinado critério, que é pessoal e pensado, mesmo nas mais ínfimas tarefas. Numa companhia como a nossa não há distinção entre o que é uma tarefa de um inteligente e de um burro. Todas são inteligentes. Se trata de se escolher fotografias, é uma tarefa de grande responsabilidade, não são umas fotografias quaisquer. Se se trata de redigir um press release a sua redacção é uma coisa muito importante. Não pode ser uma pessoa com formação pré-formatada para servir de relações públicas em qualquer sítio que pode fazer um press release da Cornucópia, porque se trata da relação com o público. Temos que fazer muitas coisas e com muito poucos funcionários que, para fazerem o que é necessário, teriam que ter uma formação muito especial. E isto ninguém entende.
Leu o comunicado da Plataforma das Artes?
Li. Basicamente estou de acordo com tudo aquilo que lá está. Mas é preciso ir mais longe. É demasiado reactivo e muito pouco afirmativo do que é que se quer verdadeiramente. O que deveria haver – mas é muito difícil quando é tanta gente haver pontos de vista comuns –, era uma espécie de projecto, de desejo, de nova relação do Estado com o teatro e as artes do espectáculo. Quem conseguiu isso foram os cineastas. No nosso caso ainda não o conseguimos e era muito importante consegui-lo, porque senão a atitude será sempre a de protestar contra umas coisas que “eles” fazem. Creio que devia ser: “nós queremos isto”. Mas isso é muito difícil fazer, até porque as condições nas quais as pessoas trabalham as obrigam a uma vida muito difícil. Eu tenho muito pouco tempo para ir a reuniões e estar a discutir uma tarde inteira. Não posso. É tudo muito complicado.Vão fazer greve?
Eu sou patrão, é muito esquisito eu fazer greve. O que nós vamos fazer, com certeza, é, por causa da greve não fazer espectáculo. Estamos [a direcção da companhia] a dar a possibilidade às outras pessoas [com contrato com a Cornucópia] que façam.
Preocupam-me muitíssimo. Para nós é um rombo gigantesco. Manter esta casa sai muito caro e resta muito pouco dinheiro para a produção. Só há duas soluções: ou somos ajudados pelos processos de co-produção, com entidades que possam pagar grande parte dos espectáculos, ou entramos no mercado e fabricamos produtos que se possam vender. E isso é muito difícil. O que é mais fácil de comprar, pelo menos na nossa terra, não são o género de coisas que fazemos, porque estas constituem um grande risco económico para as entidades. Ou, então, fazemos espectáculos de muito menor dimensão e que, de certa maneira, reduzem a expectativa em relação ao nosso trabalho. Isso é perverso, porque se pode chegar a uma situação onde nos perguntam: “porque vos estamos a subsidiar se o que produzem é só isto?”
É uma situação muito complicada da qual não sei como nos vamos conseguir safar.
Não é só grave para o Teatro da Cornucópia. É grave para muitas outras estruturas, porque é tudo proporcional. O problema será menor em grupos menores mas, quantitativamente, quando trabalham com orçamentos menores, acaba por ser tão pernicioso como o resto. A Ministra da Cultura pediu, no dia em que anunciou estas medidas, a cumplicidade dos agentes culturais, mas só podemos aceitar de bom grado estes cortes, se concordarmos com uma política que nos leve a aceitar sermos sacrificados em nome de qualquer coisa. Há uma agressão concreta à actividade das companhias subsidiadas, mas em nome de quê? Espero que a situação possa vir a ser revista, mas para já é uma agressão à actividade, e mais nada.
Uma agressão desatenta àquelas que são as responsabilidades de cada espaço?
Pois é, porque isso dá muito trabalho e exige um certo tempo e cuidado. Há pouco tempo veio uma notícia de um sector do Ministério onde se dizia que este queria ajudar a publicitar o trabalho subsidiado, fabricando um livro como fotografias e dados da companhia. Faziam um questionário e queriam que fizéssemos um currículo da companhia, tudo dados que existem nos relatórios do MC. Eu perguntei-me: mas então aqueles funcionários fazem o quê? Nada, só pedem que a gente faça mais um trabalho. Depois veio nova notícia, onde já não era um livro, porque não havia dinheiro, mas material para fazer um site. Mas o nosso site tem muito mais material sobre a Cornucópia do que aquele que vai ficar no site do Ministério. Portanto, o que é que vamos fazer, se nem sequer têm capacidade de ir buscar a informação ao nosso site? O que estamos é a justificar o salário que é dado aquelas pessoas que, talvez façam outras coisas para além disto, mas isto [que fazem] não é nada. É sintomático de como nos estão a exigir ainda mais trabalho a nós, para dar a aparência de que trabalham no Ministério.
Apesar de serem, desde há muito tempo, a companhia mais apoiada, disse sempre que queria a concurso para estar numa posição de igualdade com as outras companhias. Porquê?
Os concursos são muitos discutíveis, sobretudo, na altura em que vivemos. Não tenho a certeza de que seja a melhor forma de solucionar a questão, no momento e na situação em que o país está. Muitas vezes penso que seria preferível que o MC assumisse uma escolha, em vez de se estar a escudar atrás de júris que, no fundo, tem muita dificuldade me formar. Deve ser uma dificuldade imensa porque, as pessoas que estão envolvidas nas candidaturas não o podem ser, e as pessoas informadas e com capacidade de trabalho, análise e que conheçam os dossiers das companhias, são muito difíceis [de encontrar]. [Mesmo] os critérios são tão duvidosos quanto os do próprio ministro. Prefiro que seja o MC a dar a cara e a tomar decisões, sendo julgado pela sua acção cultural, [podendo] até ser muito apreciado ou recusado. E talvez aí as pessoas comecem a perceber como devem votar. [Se] eu estou a votar no Partido Socialista espero que ele corresponda à sua “marca”. Posso perceber que, afinal, o partido Socialista não era aquilo que eu pensava e, talvez da próxima vez, já não vote nele. Passados mais de 30 anos sobre a criação da companhia acha que as condições já deviam ser outras?
Completamente. Já devia ser mais do que reconhecido que prestamos mais do que um serviço, e que é útil ao público que existamos. Mesmo na própria classe este ponto de vista tem sido muito esquecido. As pessoas dentro do próprio teatro não ajudam a colocar a questão nos termos certos, fazendo crer na opinião pública que os subsídios são formas de garantir a subsistência das pessoas que estão metidas no teatro. Os apoios do MC não têm que ter esse critério, mas critérios de natureza cultural e de utilidade pública.
O que devia acontecer, do ponto de vista do MC, era a definição do que é que este considera útil para o usufruto do próprio cidadão. E aí, julgo que será consensual, mas teria de haver alguém que o assumisse, que o trabalho que temos feito, e a existência do Teatro da Cornucópia, é útil para a vida cultural do país.
Se estão a medir, como já têm aparecido algumas pessoas com responsabilidade política, o número de cidadãos tocado pela cultura, vão chegar à conclusão que a melhor coisa de utilidade cultural é, provavelmente, a música rock, os jogos de futebol e outras coisas do género, porque são as que têm mais público. Ora, não pode ser.
Tem que haver a noção de que a actividade cultural é uma coisa que demora muito tempo a ter efeito e que, de certa maneira é útil tal como a educação é útil.
Eu tenho noção de que a continuidade da Cornucópia influenciou o teatro português e a maneira de pensar de muitas pessoas, mesmo que não tenham visto os espectáculos. A influência funciona indirectamente. Mas para isso acontecer é preciso haver uma visão, e um desejo político verdadeiro, de que os cidadãos sejam pessoas de maior cultura, com maior capacidade de decisão, com maior sentido crítico, maior criatividade, etc. Isto são tudo critérios, este é um bem que muito poucos cidadãos reconhecem. O sistema está todo perverso. O que as pessoas pensam é em ter comida para comer, um automóvel bom, não terem que viver à custa de dívidas e outras coisas do género. Quando se vive numa sociedade em que muitas das coisas imediatas e essenciais escasseiam, é muito difícil fazer crer que as pessoas têm que ser mais inteligentes, têm que ter mais imaginação, mais prazer na vida, mais alegria, e por aí adiante.
Daí o perigo do argumento dos direitos adquiridos?
É por ser contra essa lógica que, justamente, gostaria de ser posto em situação de igualdade com os outros. Sou contra os direitos adquiridos porque esses conduzem à inércia. É a capacidade da actividade que mostra o que as pessoas se propõem fazer. Há pessoas que já deram tantas provas, e continuam a fazê-lo, que de certa maneira, podia-se incentivar isso.
Tenho tentado dizer isto a tantos ministros e eles não entendem: quem é que existe em actividade que possa ser útil ao fomento da criatividade púbica ou da cultura de toda a sociedade de que somos responsáveis? Deviam escolher e dar o máximo de condições a essas estruturas, para que o público usufruísse o máximo possível disso. A situação é sempre posta ao contrário. São sempre as pessoas [os agentes culturais] a ir pedir. Nós não devíamos pedir. Eles [o MC] é que nos deviam pedir a nós. Com certeza que [eles] se dão conta disso quando, de repente, têm que mudar os directores dos teatros nacionais e começam a ter que escolher quem é lá querem. Nessa altura eles usam o critério da escolha, já têm esse ponto de vista. Porque é que não o têm em relação a toda a actividade teatral? Há qualquer coisa aqui que não faz sentido.
No vosso caso o que é que estes cortes representam?
Não tive tempo para ver exactamente o que vai acontecer, porque estamos em estreia, as também porque não quero dar como dado assente que vai ser mesmo assim porque nem quero acreditar nisso. Imediatamente a seguir há uma co-produção com o TNDMII [“A Catatua Verde”, de Arthur Schnitzler, estreia a 17 de Fevereiro 2011] que, em princípio, se confirma. A programação daí para a frente, confirmando-se os cortes, terá que ser revista, porque sobra muito pouco dinheiro para produção. Este espectáculo [“Fim de Citação”, estreado ontem] funcionava como prólogo dessa programação. E, o que estava previsto era, de seguida, fazermos “A Varanda”, do Genet [estreia a 9 de Junho 2011], mas esta está ameaçada porque tem muita gente. Pensámos que estávamos amparados com “A Catatua Verde”, porque [eram, em parte] os gastos de produção do Nacional. Isso permitia fazermos a “Varanda”, sozinhos. Mas agora vai ser mais complicado porque o resto do dinheiro [que sobra] não existe. Já para não falar [no arranque da temporada] do Outono. No fundo temos que repensar tudo e medir até que ponto encontramos outras fontes de financiamento que possam completar e nos permitam fazer uma programação mais ambiciosa ou então reduzir completamente os objectivos.
Pondo em causa a razão pela qual tiveram o apoio que tiveram, que é o reconhecimento dessa qualidade.
A própria Direcção-Geral das Artes reconhece o problema. Na carta que nos mandam avisam: “atenção não baixem a fasquia”. Mas como é que podem querer que o façamos se existe menos dinheiro? É muito difícil. Mesmo a estrutura na qual funcionamos é muito precária, com poucas pessoas. Não tem comparação o nível de trabalho de secretaria que é exigido com o número de funcionários que existem para o fazer. Cada vez que vem mais um inquérito eu fico a pensar quem é que vai responder. Sobretudo se queremos fazer com um determinado critério, que é pessoal e pensado, mesmo nas mais ínfimas tarefas. Numa companhia como a nossa não há distinção entre o que é uma tarefa de um inteligente e de um burro. Todas são inteligentes. Se trata de se escolher fotografias, é uma tarefa de grande responsabilidade, não são umas fotografias quaisquer. Se se trata de redigir um press release a sua redacção é uma coisa muito importante. Não pode ser uma pessoa com formação pré-formatada para servir de relações públicas em qualquer sítio que pode fazer um press release da Cornucópia, porque se trata da relação com o público. Temos que fazer muitas coisas e com muito poucos funcionários que, para fazerem o que é necessário, teriam que ter uma formação muito especial. E isto ninguém entende.
Leu o comunicado da Plataforma das Artes?
Li. Basicamente estou de acordo com tudo aquilo que lá está. Mas é preciso ir mais longe. É demasiado reactivo e muito pouco afirmativo do que é que se quer verdadeiramente. O que deveria haver – mas é muito difícil quando é tanta gente haver pontos de vista comuns –, era uma espécie de projecto, de desejo, de nova relação do Estado com o teatro e as artes do espectáculo. Quem conseguiu isso foram os cineastas. No nosso caso ainda não o conseguimos e era muito importante consegui-lo, porque senão a atitude será sempre a de protestar contra umas coisas que “eles” fazem. Creio que devia ser: “nós queremos isto”. Mas isso é muito difícil fazer, até porque as condições nas quais as pessoas trabalham as obrigam a uma vida muito difícil. Eu tenho muito pouco tempo para ir a reuniões e estar a discutir uma tarde inteira. Não posso. É tudo muito complicado.Vão fazer greve?
Eu sou patrão, é muito esquisito eu fazer greve. O que nós vamos fazer, com certeza, é, por causa da greve não fazer espectáculo. Estamos [a direcção da companhia] a dar a possibilidade às outras pessoas [com contrato com a Cornucópia] que façam.
Atribuição dos subsídios ao teatro para os anos 2009-2012
Estes são os subsídios atribuidos pela Direcção Geral das Artes, no quadriénio de 2009-2012. Um escândalo.
Continua o compadrio, a atribuição constante de enormes somas de dinheiro a companhias que trabalham e fazem teatro para o seu úmbigo, para a meia dúzia de iluminados que lá vão e que, caso da Cornúcopia, fazem duas peças por ano, estando em cartaz, no máximo dos máximos, mês, mês e meio. Estas companhias não dão qualquer retorno à sociedade.
Não têm público (e agradecem... que horror, casa cheia é sinal de "comercial", palavra que abominam).
A minha consolação é saber que, como bolseiro de investigação, não pago impostos. E, por isso, o conforto de saber que nem um cêntimo do que lá está é meu.
A POLÍTICA DE ATRIBUIÇÃO DE SUBSÍDIOS ÀS ARTES, E AO TEATRO EM PARTICULAR, TEM DE MUDAR. CHEGA DE ALIMENTAR ABUTRES.
segunda-feira, agosto 29, 2011
Conclusão do Julgamento sobre o Crime de Serrazes ou Crime dos Malafaias
| Solar das Malafaias O segundo Solar das Malafaias, a Casa das Quintãs, localiza-se em Serrazes, perto de Santa Cruz da Trapa, concelho de São Pedro do Sul. No final do século XIX, foi acrescentado à casa, uma varanda virada à nascente, coisa muito comum nessa época, a fazer de estufa e jardim de Inverno. A história do crime resume-se no seguinte: Por aquele tempo, chegou à região um açoreano, José Bettencourt, que ficou noivo de Eugénia Malafaia, da Casa das Quintãs. Pela versão do ramo da família destes últimos, consta que, José Bettencourt despeitado por se ter enganado na escolha das primas e para pretexto de se livrar da noiva, terá inventado ter o Dr. Augusto Malafaia atentado contra o poder da prima Eugénia. E assim, pela manhã do dia 26 de Junho de 1917, José Bettencourt e o irmão da noiva, Fernando Novais, vão à Casda das Quintãs procuraro Dr. Augusto em desagravo de honra. O Dr. Augusto, não prevendo o que iria passar, convida-os a entrar e depois de um pequeno diálogo,desmente qualquer envolvimento com a prima. O Dr. Augusto Malafaia, foi atingido por quatro tiros de duas automáticas 6.35, do mesmo calibre,para que depois da premeditada fuga (um automóvel esperava-os para os levar à estação) só ao Fernando fosse imputado o crime, em justificada defesa de honra da irmã. Falhado o plano de fuga e presos os assassinos, o escandaloso caso assombrou e apaixonou o país. Formaram-se partidos,os presos muito apadrinhados gozaram de privilégios e o julgamento, em 1919, foi a causa célebre, especialmente pela acção do advogado de acusação Cunha e Costa que conseguiu a pena máxima para os culpados, já considerados impunes. Os réus foram degredados para África, condenados a prisão por toda a vida, tendo sido posteriormente subxtituído por uma pena de 20 anos. Bettencourt acabou por casar com a sua noiva e Novais retornou à terra, mas nunca mais se resgataram aos olhos de ninguém. A mãe do Dr. Augusto Malafaia, D. Amélia de Pina Falcão Malafaia, ficou com certas perturbações mentais, e nunca deixou lavar o sangue do chão, que seu filho derramou ao ser morto, ficando assim até hoje a marca do sangue no chão. |
segunda-feira, agosto 22, 2011
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