Poesia, musica, celebridades, teatro, cinema, selecção de textos, poetas e escritores, banalidades, fotografias, arte, literatura, pintura e muita conversa.
terça-feira, setembro 13, 2011
Amália Rodrigues e Teresa Tarouca
Uma das muitas coisas que gosto no Fado é a forma como sagrado e profano se entrecruzam. Como a barreira entre os dois praticamente não existe. Como o sagrado se torna profano e profano sagrado. Aqui ficam dois exemplos que acho maravilhosos.
quarta-feira, agosto 31, 2011
Vergonhosa entrevista dada por Luís Miguel Cintra ao jornal Público em 19.11.2010
O Teatro da Cornucópia recebe o maior apoio da Direcção-Geral das Artes (DGA): 689 mil euros previstos para 2011. Mesmo assim o seu director está preocupado com os efeitos dos cortes de 23 por cento (menos 158 mil euros). Luís Miguel Cintra, que não costuma falar sobre a política do sector, acusa o MC de agressão às companhias.
Estes cortes preocupam-no?
Preocupam-me muitíssimo. Para nós é um rombo gigantesco. Manter esta casa sai muito caro e resta muito pouco dinheiro para a produção. Só há duas soluções: ou somos ajudados pelos processos de co-produção, com entidades que possam pagar grande parte dos espectáculos, ou entramos no mercado e fabricamos produtos que se possam vender. E isso é muito difícil. O que é mais fácil de comprar, pelo menos na nossa terra, não são o género de coisas que fazemos, porque estas constituem um grande risco económico para as entidades. Ou, então, fazemos espectáculos de muito menor dimensão e que, de certa maneira, reduzem a expectativa em relação ao nosso trabalho. Isso é perverso, porque se pode chegar a uma situação onde nos perguntam: “porque vos estamos a subsidiar se o que produzem é só isto?”
É uma situação muito complicada da qual não sei como nos vamos conseguir safar.
Não é só grave para o Teatro da Cornucópia. É grave para muitas outras estruturas, porque é tudo proporcional. O problema será menor em grupos menores mas, quantitativamente, quando trabalham com orçamentos menores, acaba por ser tão pernicioso como o resto. A Ministra da Cultura pediu, no dia em que anunciou estas medidas, a cumplicidade dos agentes culturais, mas só podemos aceitar de bom grado estes cortes, se concordarmos com uma política que nos leve a aceitar sermos sacrificados em nome de qualquer coisa. Há uma agressão concreta à actividade das companhias subsidiadas, mas em nome de quê? Espero que a situação possa vir a ser revista, mas para já é uma agressão à actividade, e mais nada.
Uma agressão desatenta àquelas que são as responsabilidades de cada espaço?
Pois é, porque isso dá muito trabalho e exige um certo tempo e cuidado. Há pouco tempo veio uma notícia de um sector do Ministério onde se dizia que este queria ajudar a publicitar o trabalho subsidiado, fabricando um livro como fotografias e dados da companhia. Faziam um questionário e queriam que fizéssemos um currículo da companhia, tudo dados que existem nos relatórios do MC. Eu perguntei-me: mas então aqueles funcionários fazem o quê? Nada, só pedem que a gente faça mais um trabalho. Depois veio nova notícia, onde já não era um livro, porque não havia dinheiro, mas material para fazer um site. Mas o nosso site tem muito mais material sobre a Cornucópia do que aquele que vai ficar no site do Ministério. Portanto, o que é que vamos fazer, se nem sequer têm capacidade de ir buscar a informação ao nosso site? O que estamos é a justificar o salário que é dado aquelas pessoas que, talvez façam outras coisas para além disto, mas isto [que fazem] não é nada. É sintomático de como nos estão a exigir ainda mais trabalho a nós, para dar a aparência de que trabalham no Ministério.
Apesar de serem, desde há muito tempo, a companhia mais apoiada, disse sempre que queria a concurso para estar numa posição de igualdade com as outras companhias. Porquê?
Os concursos são muitos discutíveis, sobretudo, na altura em que vivemos. Não tenho a certeza de que seja a melhor forma de solucionar a questão, no momento e na situação em que o país está. Muitas vezes penso que seria preferível que o MC assumisse uma escolha, em vez de se estar a escudar atrás de júris que, no fundo, tem muita dificuldade me formar. Deve ser uma dificuldade imensa porque, as pessoas que estão envolvidas nas candidaturas não o podem ser, e as pessoas informadas e com capacidade de trabalho, análise e que conheçam os dossiers das companhias, são muito difíceis [de encontrar]. [Mesmo] os critérios são tão duvidosos quanto os do próprio ministro. Prefiro que seja o MC a dar a cara e a tomar decisões, sendo julgado pela sua acção cultural, [podendo] até ser muito apreciado ou recusado. E talvez aí as pessoas comecem a perceber como devem votar. [Se] eu estou a votar no Partido Socialista espero que ele corresponda à sua “marca”. Posso perceber que, afinal, o partido Socialista não era aquilo que eu pensava e, talvez da próxima vez, já não vote nele. Passados mais de 30 anos sobre a criação da companhia acha que as condições já deviam ser outras?
Completamente. Já devia ser mais do que reconhecido que prestamos mais do que um serviço, e que é útil ao público que existamos. Mesmo na própria classe este ponto de vista tem sido muito esquecido. As pessoas dentro do próprio teatro não ajudam a colocar a questão nos termos certos, fazendo crer na opinião pública que os subsídios são formas de garantir a subsistência das pessoas que estão metidas no teatro. Os apoios do MC não têm que ter esse critério, mas critérios de natureza cultural e de utilidade pública.
O que devia acontecer, do ponto de vista do MC, era a definição do que é que este considera útil para o usufruto do próprio cidadão. E aí, julgo que será consensual, mas teria de haver alguém que o assumisse, que o trabalho que temos feito, e a existência do Teatro da Cornucópia, é útil para a vida cultural do país.
Se estão a medir, como já têm aparecido algumas pessoas com responsabilidade política, o número de cidadãos tocado pela cultura, vão chegar à conclusão que a melhor coisa de utilidade cultural é, provavelmente, a música rock, os jogos de futebol e outras coisas do género, porque são as que têm mais público. Ora, não pode ser.
Tem que haver a noção de que a actividade cultural é uma coisa que demora muito tempo a ter efeito e que, de certa maneira é útil tal como a educação é útil.
Eu tenho noção de que a continuidade da Cornucópia influenciou o teatro português e a maneira de pensar de muitas pessoas, mesmo que não tenham visto os espectáculos. A influência funciona indirectamente. Mas para isso acontecer é preciso haver uma visão, e um desejo político verdadeiro, de que os cidadãos sejam pessoas de maior cultura, com maior capacidade de decisão, com maior sentido crítico, maior criatividade, etc. Isto são tudo critérios, este é um bem que muito poucos cidadãos reconhecem. O sistema está todo perverso. O que as pessoas pensam é em ter comida para comer, um automóvel bom, não terem que viver à custa de dívidas e outras coisas do género. Quando se vive numa sociedade em que muitas das coisas imediatas e essenciais escasseiam, é muito difícil fazer crer que as pessoas têm que ser mais inteligentes, têm que ter mais imaginação, mais prazer na vida, mais alegria, e por aí adiante.
Daí o perigo do argumento dos direitos adquiridos?
É por ser contra essa lógica que, justamente, gostaria de ser posto em situação de igualdade com os outros. Sou contra os direitos adquiridos porque esses conduzem à inércia. É a capacidade da actividade que mostra o que as pessoas se propõem fazer. Há pessoas que já deram tantas provas, e continuam a fazê-lo, que de certa maneira, podia-se incentivar isso.
Tenho tentado dizer isto a tantos ministros e eles não entendem: quem é que existe em actividade que possa ser útil ao fomento da criatividade púbica ou da cultura de toda a sociedade de que somos responsáveis? Deviam escolher e dar o máximo de condições a essas estruturas, para que o público usufruísse o máximo possível disso. A situação é sempre posta ao contrário. São sempre as pessoas [os agentes culturais] a ir pedir. Nós não devíamos pedir. Eles [o MC] é que nos deviam pedir a nós. Com certeza que [eles] se dão conta disso quando, de repente, têm que mudar os directores dos teatros nacionais e começam a ter que escolher quem é lá querem. Nessa altura eles usam o critério da escolha, já têm esse ponto de vista. Porque é que não o têm em relação a toda a actividade teatral? Há qualquer coisa aqui que não faz sentido.
No vosso caso o que é que estes cortes representam?
Não tive tempo para ver exactamente o que vai acontecer, porque estamos em estreia, as também porque não quero dar como dado assente que vai ser mesmo assim porque nem quero acreditar nisso. Imediatamente a seguir há uma co-produção com o TNDMII [“A Catatua Verde”, de Arthur Schnitzler, estreia a 17 de Fevereiro 2011] que, em princípio, se confirma. A programação daí para a frente, confirmando-se os cortes, terá que ser revista, porque sobra muito pouco dinheiro para produção. Este espectáculo [“Fim de Citação”, estreado ontem] funcionava como prólogo dessa programação. E, o que estava previsto era, de seguida, fazermos “A Varanda”, do Genet [estreia a 9 de Junho 2011], mas esta está ameaçada porque tem muita gente. Pensámos que estávamos amparados com “A Catatua Verde”, porque [eram, em parte] os gastos de produção do Nacional. Isso permitia fazermos a “Varanda”, sozinhos. Mas agora vai ser mais complicado porque o resto do dinheiro [que sobra] não existe. Já para não falar [no arranque da temporada] do Outono. No fundo temos que repensar tudo e medir até que ponto encontramos outras fontes de financiamento que possam completar e nos permitam fazer uma programação mais ambiciosa ou então reduzir completamente os objectivos.
Pondo em causa a razão pela qual tiveram o apoio que tiveram, que é o reconhecimento dessa qualidade.
A própria Direcção-Geral das Artes reconhece o problema. Na carta que nos mandam avisam: “atenção não baixem a fasquia”. Mas como é que podem querer que o façamos se existe menos dinheiro? É muito difícil. Mesmo a estrutura na qual funcionamos é muito precária, com poucas pessoas. Não tem comparação o nível de trabalho de secretaria que é exigido com o número de funcionários que existem para o fazer. Cada vez que vem mais um inquérito eu fico a pensar quem é que vai responder. Sobretudo se queremos fazer com um determinado critério, que é pessoal e pensado, mesmo nas mais ínfimas tarefas. Numa companhia como a nossa não há distinção entre o que é uma tarefa de um inteligente e de um burro. Todas são inteligentes. Se trata de se escolher fotografias, é uma tarefa de grande responsabilidade, não são umas fotografias quaisquer. Se se trata de redigir um press release a sua redacção é uma coisa muito importante. Não pode ser uma pessoa com formação pré-formatada para servir de relações públicas em qualquer sítio que pode fazer um press release da Cornucópia, porque se trata da relação com o público. Temos que fazer muitas coisas e com muito poucos funcionários que, para fazerem o que é necessário, teriam que ter uma formação muito especial. E isto ninguém entende.
Leu o comunicado da Plataforma das Artes?
Li. Basicamente estou de acordo com tudo aquilo que lá está. Mas é preciso ir mais longe. É demasiado reactivo e muito pouco afirmativo do que é que se quer verdadeiramente. O que deveria haver – mas é muito difícil quando é tanta gente haver pontos de vista comuns –, era uma espécie de projecto, de desejo, de nova relação do Estado com o teatro e as artes do espectáculo. Quem conseguiu isso foram os cineastas. No nosso caso ainda não o conseguimos e era muito importante consegui-lo, porque senão a atitude será sempre a de protestar contra umas coisas que “eles” fazem. Creio que devia ser: “nós queremos isto”. Mas isso é muito difícil fazer, até porque as condições nas quais as pessoas trabalham as obrigam a uma vida muito difícil. Eu tenho muito pouco tempo para ir a reuniões e estar a discutir uma tarde inteira. Não posso. É tudo muito complicado.Vão fazer greve?
Eu sou patrão, é muito esquisito eu fazer greve. O que nós vamos fazer, com certeza, é, por causa da greve não fazer espectáculo. Estamos [a direcção da companhia] a dar a possibilidade às outras pessoas [com contrato com a Cornucópia] que façam.
Preocupam-me muitíssimo. Para nós é um rombo gigantesco. Manter esta casa sai muito caro e resta muito pouco dinheiro para a produção. Só há duas soluções: ou somos ajudados pelos processos de co-produção, com entidades que possam pagar grande parte dos espectáculos, ou entramos no mercado e fabricamos produtos que se possam vender. E isso é muito difícil. O que é mais fácil de comprar, pelo menos na nossa terra, não são o género de coisas que fazemos, porque estas constituem um grande risco económico para as entidades. Ou, então, fazemos espectáculos de muito menor dimensão e que, de certa maneira, reduzem a expectativa em relação ao nosso trabalho. Isso é perverso, porque se pode chegar a uma situação onde nos perguntam: “porque vos estamos a subsidiar se o que produzem é só isto?”
É uma situação muito complicada da qual não sei como nos vamos conseguir safar.
Não é só grave para o Teatro da Cornucópia. É grave para muitas outras estruturas, porque é tudo proporcional. O problema será menor em grupos menores mas, quantitativamente, quando trabalham com orçamentos menores, acaba por ser tão pernicioso como o resto. A Ministra da Cultura pediu, no dia em que anunciou estas medidas, a cumplicidade dos agentes culturais, mas só podemos aceitar de bom grado estes cortes, se concordarmos com uma política que nos leve a aceitar sermos sacrificados em nome de qualquer coisa. Há uma agressão concreta à actividade das companhias subsidiadas, mas em nome de quê? Espero que a situação possa vir a ser revista, mas para já é uma agressão à actividade, e mais nada.
Uma agressão desatenta àquelas que são as responsabilidades de cada espaço?
Pois é, porque isso dá muito trabalho e exige um certo tempo e cuidado. Há pouco tempo veio uma notícia de um sector do Ministério onde se dizia que este queria ajudar a publicitar o trabalho subsidiado, fabricando um livro como fotografias e dados da companhia. Faziam um questionário e queriam que fizéssemos um currículo da companhia, tudo dados que existem nos relatórios do MC. Eu perguntei-me: mas então aqueles funcionários fazem o quê? Nada, só pedem que a gente faça mais um trabalho. Depois veio nova notícia, onde já não era um livro, porque não havia dinheiro, mas material para fazer um site. Mas o nosso site tem muito mais material sobre a Cornucópia do que aquele que vai ficar no site do Ministério. Portanto, o que é que vamos fazer, se nem sequer têm capacidade de ir buscar a informação ao nosso site? O que estamos é a justificar o salário que é dado aquelas pessoas que, talvez façam outras coisas para além disto, mas isto [que fazem] não é nada. É sintomático de como nos estão a exigir ainda mais trabalho a nós, para dar a aparência de que trabalham no Ministério.
Apesar de serem, desde há muito tempo, a companhia mais apoiada, disse sempre que queria a concurso para estar numa posição de igualdade com as outras companhias. Porquê?
Os concursos são muitos discutíveis, sobretudo, na altura em que vivemos. Não tenho a certeza de que seja a melhor forma de solucionar a questão, no momento e na situação em que o país está. Muitas vezes penso que seria preferível que o MC assumisse uma escolha, em vez de se estar a escudar atrás de júris que, no fundo, tem muita dificuldade me formar. Deve ser uma dificuldade imensa porque, as pessoas que estão envolvidas nas candidaturas não o podem ser, e as pessoas informadas e com capacidade de trabalho, análise e que conheçam os dossiers das companhias, são muito difíceis [de encontrar]. [Mesmo] os critérios são tão duvidosos quanto os do próprio ministro. Prefiro que seja o MC a dar a cara e a tomar decisões, sendo julgado pela sua acção cultural, [podendo] até ser muito apreciado ou recusado. E talvez aí as pessoas comecem a perceber como devem votar. [Se] eu estou a votar no Partido Socialista espero que ele corresponda à sua “marca”. Posso perceber que, afinal, o partido Socialista não era aquilo que eu pensava e, talvez da próxima vez, já não vote nele. Passados mais de 30 anos sobre a criação da companhia acha que as condições já deviam ser outras?
Completamente. Já devia ser mais do que reconhecido que prestamos mais do que um serviço, e que é útil ao público que existamos. Mesmo na própria classe este ponto de vista tem sido muito esquecido. As pessoas dentro do próprio teatro não ajudam a colocar a questão nos termos certos, fazendo crer na opinião pública que os subsídios são formas de garantir a subsistência das pessoas que estão metidas no teatro. Os apoios do MC não têm que ter esse critério, mas critérios de natureza cultural e de utilidade pública.
O que devia acontecer, do ponto de vista do MC, era a definição do que é que este considera útil para o usufruto do próprio cidadão. E aí, julgo que será consensual, mas teria de haver alguém que o assumisse, que o trabalho que temos feito, e a existência do Teatro da Cornucópia, é útil para a vida cultural do país.
Se estão a medir, como já têm aparecido algumas pessoas com responsabilidade política, o número de cidadãos tocado pela cultura, vão chegar à conclusão que a melhor coisa de utilidade cultural é, provavelmente, a música rock, os jogos de futebol e outras coisas do género, porque são as que têm mais público. Ora, não pode ser.
Tem que haver a noção de que a actividade cultural é uma coisa que demora muito tempo a ter efeito e que, de certa maneira é útil tal como a educação é útil.
Eu tenho noção de que a continuidade da Cornucópia influenciou o teatro português e a maneira de pensar de muitas pessoas, mesmo que não tenham visto os espectáculos. A influência funciona indirectamente. Mas para isso acontecer é preciso haver uma visão, e um desejo político verdadeiro, de que os cidadãos sejam pessoas de maior cultura, com maior capacidade de decisão, com maior sentido crítico, maior criatividade, etc. Isto são tudo critérios, este é um bem que muito poucos cidadãos reconhecem. O sistema está todo perverso. O que as pessoas pensam é em ter comida para comer, um automóvel bom, não terem que viver à custa de dívidas e outras coisas do género. Quando se vive numa sociedade em que muitas das coisas imediatas e essenciais escasseiam, é muito difícil fazer crer que as pessoas têm que ser mais inteligentes, têm que ter mais imaginação, mais prazer na vida, mais alegria, e por aí adiante.
Daí o perigo do argumento dos direitos adquiridos?
É por ser contra essa lógica que, justamente, gostaria de ser posto em situação de igualdade com os outros. Sou contra os direitos adquiridos porque esses conduzem à inércia. É a capacidade da actividade que mostra o que as pessoas se propõem fazer. Há pessoas que já deram tantas provas, e continuam a fazê-lo, que de certa maneira, podia-se incentivar isso.
Tenho tentado dizer isto a tantos ministros e eles não entendem: quem é que existe em actividade que possa ser útil ao fomento da criatividade púbica ou da cultura de toda a sociedade de que somos responsáveis? Deviam escolher e dar o máximo de condições a essas estruturas, para que o público usufruísse o máximo possível disso. A situação é sempre posta ao contrário. São sempre as pessoas [os agentes culturais] a ir pedir. Nós não devíamos pedir. Eles [o MC] é que nos deviam pedir a nós. Com certeza que [eles] se dão conta disso quando, de repente, têm que mudar os directores dos teatros nacionais e começam a ter que escolher quem é lá querem. Nessa altura eles usam o critério da escolha, já têm esse ponto de vista. Porque é que não o têm em relação a toda a actividade teatral? Há qualquer coisa aqui que não faz sentido.
No vosso caso o que é que estes cortes representam?
Não tive tempo para ver exactamente o que vai acontecer, porque estamos em estreia, as também porque não quero dar como dado assente que vai ser mesmo assim porque nem quero acreditar nisso. Imediatamente a seguir há uma co-produção com o TNDMII [“A Catatua Verde”, de Arthur Schnitzler, estreia a 17 de Fevereiro 2011] que, em princípio, se confirma. A programação daí para a frente, confirmando-se os cortes, terá que ser revista, porque sobra muito pouco dinheiro para produção. Este espectáculo [“Fim de Citação”, estreado ontem] funcionava como prólogo dessa programação. E, o que estava previsto era, de seguida, fazermos “A Varanda”, do Genet [estreia a 9 de Junho 2011], mas esta está ameaçada porque tem muita gente. Pensámos que estávamos amparados com “A Catatua Verde”, porque [eram, em parte] os gastos de produção do Nacional. Isso permitia fazermos a “Varanda”, sozinhos. Mas agora vai ser mais complicado porque o resto do dinheiro [que sobra] não existe. Já para não falar [no arranque da temporada] do Outono. No fundo temos que repensar tudo e medir até que ponto encontramos outras fontes de financiamento que possam completar e nos permitam fazer uma programação mais ambiciosa ou então reduzir completamente os objectivos.
Pondo em causa a razão pela qual tiveram o apoio que tiveram, que é o reconhecimento dessa qualidade.
A própria Direcção-Geral das Artes reconhece o problema. Na carta que nos mandam avisam: “atenção não baixem a fasquia”. Mas como é que podem querer que o façamos se existe menos dinheiro? É muito difícil. Mesmo a estrutura na qual funcionamos é muito precária, com poucas pessoas. Não tem comparação o nível de trabalho de secretaria que é exigido com o número de funcionários que existem para o fazer. Cada vez que vem mais um inquérito eu fico a pensar quem é que vai responder. Sobretudo se queremos fazer com um determinado critério, que é pessoal e pensado, mesmo nas mais ínfimas tarefas. Numa companhia como a nossa não há distinção entre o que é uma tarefa de um inteligente e de um burro. Todas são inteligentes. Se trata de se escolher fotografias, é uma tarefa de grande responsabilidade, não são umas fotografias quaisquer. Se se trata de redigir um press release a sua redacção é uma coisa muito importante. Não pode ser uma pessoa com formação pré-formatada para servir de relações públicas em qualquer sítio que pode fazer um press release da Cornucópia, porque se trata da relação com o público. Temos que fazer muitas coisas e com muito poucos funcionários que, para fazerem o que é necessário, teriam que ter uma formação muito especial. E isto ninguém entende.
Leu o comunicado da Plataforma das Artes?
Li. Basicamente estou de acordo com tudo aquilo que lá está. Mas é preciso ir mais longe. É demasiado reactivo e muito pouco afirmativo do que é que se quer verdadeiramente. O que deveria haver – mas é muito difícil quando é tanta gente haver pontos de vista comuns –, era uma espécie de projecto, de desejo, de nova relação do Estado com o teatro e as artes do espectáculo. Quem conseguiu isso foram os cineastas. No nosso caso ainda não o conseguimos e era muito importante consegui-lo, porque senão a atitude será sempre a de protestar contra umas coisas que “eles” fazem. Creio que devia ser: “nós queremos isto”. Mas isso é muito difícil fazer, até porque as condições nas quais as pessoas trabalham as obrigam a uma vida muito difícil. Eu tenho muito pouco tempo para ir a reuniões e estar a discutir uma tarde inteira. Não posso. É tudo muito complicado.Vão fazer greve?
Eu sou patrão, é muito esquisito eu fazer greve. O que nós vamos fazer, com certeza, é, por causa da greve não fazer espectáculo. Estamos [a direcção da companhia] a dar a possibilidade às outras pessoas [com contrato com a Cornucópia] que façam.
Atribuição dos subsídios ao teatro para os anos 2009-2012
Estes são os subsídios atribuidos pela Direcção Geral das Artes, no quadriénio de 2009-2012. Um escândalo.
Continua o compadrio, a atribuição constante de enormes somas de dinheiro a companhias que trabalham e fazem teatro para o seu úmbigo, para a meia dúzia de iluminados que lá vão e que, caso da Cornúcopia, fazem duas peças por ano, estando em cartaz, no máximo dos máximos, mês, mês e meio. Estas companhias não dão qualquer retorno à sociedade.
Não têm público (e agradecem... que horror, casa cheia é sinal de "comercial", palavra que abominam).
A minha consolação é saber que, como bolseiro de investigação, não pago impostos. E, por isso, o conforto de saber que nem um cêntimo do que lá está é meu.
A POLÍTICA DE ATRIBUIÇÃO DE SUBSÍDIOS ÀS ARTES, E AO TEATRO EM PARTICULAR, TEM DE MUDAR. CHEGA DE ALIMENTAR ABUTRES.
segunda-feira, agosto 29, 2011
Conclusão do Julgamento sobre o Crime de Serrazes ou Crime dos Malafaias
| Solar das Malafaias O segundo Solar das Malafaias, a Casa das Quintãs, localiza-se em Serrazes, perto de Santa Cruz da Trapa, concelho de São Pedro do Sul. No final do século XIX, foi acrescentado à casa, uma varanda virada à nascente, coisa muito comum nessa época, a fazer de estufa e jardim de Inverno. A história do crime resume-se no seguinte: Por aquele tempo, chegou à região um açoreano, José Bettencourt, que ficou noivo de Eugénia Malafaia, da Casa das Quintãs. Pela versão do ramo da família destes últimos, consta que, José Bettencourt despeitado por se ter enganado na escolha das primas e para pretexto de se livrar da noiva, terá inventado ter o Dr. Augusto Malafaia atentado contra o poder da prima Eugénia. E assim, pela manhã do dia 26 de Junho de 1917, José Bettencourt e o irmão da noiva, Fernando Novais, vão à Casda das Quintãs procuraro Dr. Augusto em desagravo de honra. O Dr. Augusto, não prevendo o que iria passar, convida-os a entrar e depois de um pequeno diálogo,desmente qualquer envolvimento com a prima. O Dr. Augusto Malafaia, foi atingido por quatro tiros de duas automáticas 6.35, do mesmo calibre,para que depois da premeditada fuga (um automóvel esperava-os para os levar à estação) só ao Fernando fosse imputado o crime, em justificada defesa de honra da irmã. Falhado o plano de fuga e presos os assassinos, o escandaloso caso assombrou e apaixonou o país. Formaram-se partidos,os presos muito apadrinhados gozaram de privilégios e o julgamento, em 1919, foi a causa célebre, especialmente pela acção do advogado de acusação Cunha e Costa que conseguiu a pena máxima para os culpados, já considerados impunes. Os réus foram degredados para África, condenados a prisão por toda a vida, tendo sido posteriormente subxtituído por uma pena de 20 anos. Bettencourt acabou por casar com a sua noiva e Novais retornou à terra, mas nunca mais se resgataram aos olhos de ninguém. A mãe do Dr. Augusto Malafaia, D. Amélia de Pina Falcão Malafaia, ficou com certas perturbações mentais, e nunca deixou lavar o sangue do chão, que seu filho derramou ao ser morto, ficando assim até hoje a marca do sangue no chão. |
segunda-feira, agosto 22, 2011
sábado, agosto 20, 2011
sexta-feira, agosto 12, 2011
A Cena do Ódio, de Almada Negreiros, por Mário Viegas
| A Cena do Ódio - José de Almada Negreiros, por Mário Viegas |
A Álvaro de Campos a dedicação intensa de todos os meus avatares. Foi escrito durante os três dias e as três noites que durou a revolução de 14 de Maio de 1915 |
| Ergo-Me Pederasta apupado d'imbecis, Divinizo-Me Meretriz, ex-líbris do Pecado, e odeio tudo o que não Me é por Me rirem o Eu! Satanizo-Me Tara na Vara de Moisés! O castigo das serpentes é-Me riso nos dentes, Inferno a arder o Meu Cantar! Sou Vermêlho-Niagara dos sexos escancarados nos chicotes dos cossácos! Sou Pan-Demónio-Trifauce enfermiço de Gula! Sou Génio de Zaratrusta em Taças de Maré-Alta! Sou Raiva de Medusa e Danação do Sol! Ladram-Me a Vida por vivê-La e só Me deram Uma! Hão-de lati-La por sina! Agora quero vivê-La! Hei-de Poeta cantá-La em Gala sonora e dina Hei-de Glória desanuviá-La! Hei-de Guindaste içá-La Esfinge da Vala pedestre onde Me querem rir! Hei-de trovão-clarim levá-La Luz às Almas-Noites do Jardim das Lágrimas! Hei-de bombo rufá-La pompa de Pompeia nos Funerais de Mim! Hei-de Alfange-Mahoma cantar Sodoma na Voz de Nero! Hei-de ser Fuas sem Virgem do Milagre, hei-de ser galope opiado e doido, opiado e doido... Hei-d' Átila, hei-de Nero, hei-de Eu, cantar Atila, cantar Nero, cantar Eu! Sou Narciso do Meu Ódio! - O Meu ódio é Lanterna de Diógenes, é cegueira de Diógenes, é cegueira da Lanterna! (O Meu Ódio tem tronos d' Herodes, histerismos de Cleópatra, perversões de Catarina!) O Meu ódio é Dilúvio Universal sem Arcas de Noé, só Dilúvio Universal! e mais Universal ainda: Sempre a crescer, sempre a subir... até apagar o Sol! Sou trono de Abandono, mal-fadado, nas iras dos Bárbaros meus Avós. Oiço ainda da Berlinda d'Eu ser sina gemidos vencidos de fracos, ruídos famintos de saque, ais distantes de Maldição eterna em Voz antiga! Sou ruínas rasas, inocentes como as asas de rapinas afogadas. Sou relíquias de mártires impotentes sequestradas em antros do Vício. Sou clausura de Santa professa, Mãe exilada do Mal, Hóstia d'Angústia no Claustro, freira demente e donzela, virtude sozinha da cela em penitência do sexo! Sou rasto espezinhado d'Invasores que cruzaram o meu sangue, desvirgando-o. Sou a Raiva atávica dos Távoras, o sangue bastardo de Nero, o ódio do último instante do Condenado inocente! A podenga do Limbo mordeu raivosa as pernas nuas da minh'Alma sem baptismo... Ah! que eu sinto, claramente, que nasci de uma praga de ciúmes! Eu sou as sete pragas sobre o Nilo e a Alma dos Bórgias a penar! Tu, que te dizes Homem! Tu, que te alfaiatas em modas e fazes cartazes dos fatos que vestesp'ra que se não vejam as nódoas de baixo! Tu, qu'inventaste as Ciências e as Filosofias, as Políticas, as Artes e as Leis, e outros quebra-cabeças de sala e outros dramas de grande espectáculo Tu, que aperfeiçoas sabiamente a arte de matar. Tu, que descobriste o cabo da Boa-Esperança e o Caminho Marítimo da índia e as duas Grandes Américas, e que levaste a chatice a estas Terras e que trouxeste de lá mais gente p'raqui e qu'inda por cima cantaste estes Feitos... Tu, qu'inventaste a chatice e o balão, e que farto de te chateares no chão te foste chatear no ar, e qu'inda foste inventar submarinos p'ra te chateares também por debaixo d'água, Tu, que tens a mania das Invenções e das Descobertas e que nunca descobriste que eras bruto, e que nunca inventaste a maneira de o não seres Tu consegues ser cada vez mais besta e a este progresso chamas Civilização! Vai vivendo a bestialidade na Noite dos meus olhos, vai inchando a tua ambição-toiro 'té que a barriga te rebente rã. Serei Vitória um dia -Hegemonia de Mim! e tu nem derrota, nem morto, nem nada. O Século-dos-Séculos virá um dia e a burguesia será escravatura se for capaz de sair de Cavalgadura! Hei-de, entretanto, gastar a garganta a insultar-te, ó besta! Hei-de morder-te a ponta do rabo e por-te as mãos no chão, no seu lugar! Ahi! Saltimbanco-bando de bandoleiros nefastos! Quadrilheiros contrabandistas da Imbecilidade! Ahi! Espelho-aleijão do Sentimento, macaco-intruja do Alma-realejo! Ahi! macrelle da Ignorância! Silenceur do Génio-Tempestade! Spleen da Indigestão! Ahi! meia-tigela, travão das Ascensões! Ahi! povo judeu dos Cristos mais que Cristo! Ó burguesia! Ó ideal com i pequeno Ó ideal ricócó dos Mendes e Possidonios Ó cofre d'indigentes Cuja personalidade é a moral de todos! Ó geral da mediocridade! Ó claque ignóbil do Vulgar, protagonista do normal! Ó Catitismo das lindezas d'estalo! Ahi! lucro do fácil, cartilha-cabotina dos limitados, dos restringidos! Ai! dique-impecilho do Canal da Luz! Ó coito d'impotentes a corar ao sol no riacho da Estupidez! Ahi! Zero-barómetro da Convicção! bitola dos chega, dos basta, dos não quero mais! Ahi! Plebeísmo Aristocratizado no preço do panamá! erudição de calça de xadrez! competência de relógio d'oiro e correntes com suores do Brasil, e berloques de cornos de búfalo! E eu vivo aqui desterrado e Job da Vida-gémea d'Eu ser feliz! E eu vivo aqui sepultado vivo na Verdade de nunca ser Eu! Sou apenas o Mendigo de Mim-Próprio, órfão da Virgem do meu sentir. E como queres que eu faça fortuna se Deus, por escárnio, me deu Inteligência, e não tenho sequer, irmãs bonitas nem uma mãe que se venda para mim? (Pesam quilos no Meu querer as salas de espera de Mim. Tu chegas sempre primeiro... Eu volto sempre amanhã... Agora vou esperar que morras. Mas tu és tantos que não morres... Vou deixar d'esp'rar que morras - Vou deixar d'esp'rar por mim!) Ah! que eu sinto, claramente, que nasci de uma praga de ciúmes! Eu sou as sete pragas sobre o Nilo e a alma dos Bórgias a penar! E tu, também, vieille-roche, castelo medieval fechado por dentro das tuas ruínas! Fiel epitáfio das crónicas aduladoras! E tu também ó sangue azul antigo que já nasceste co'a biografia feita! Ó pajem loiro das cortesias-avozinhas! Ó pergaminho amarelo-múmia das grandes galas brancas das paradas e das Vitórias dos torneios-lotarias com donzelas-glórias! Ó resto de cetros, fumo de cinzas! Ó lavas frias do Vulcão pirotécnico com chuvas d'oiros e cabeleiras prateadas! Ó estilhacos heráldicos de Vitrais despegados lentamente sobre o tanque do silêncio! Ó Cedro secular debruçado no muro da Quinta sobre a estrada a estorvar o caminho da Mala-posta! E vós também, ó Gentes de Pensamento, ó Personalidades, ó Homens! Artistas de todas as partes, cristãos sem pátria, Cristos vencidos por serem só Um! E vós, ó Génios da Expressão, e vós também, ó Génios sem Voz! ó além-infinito sem regressos, sem nostalgias, Espectadores gratuitos do Drama-Imenso de Vós-Mesmos! Profetas clandestinos do Naufrágio de Vossos Destinos! E vós também, teóricos-irmãos-gémeos do meu sentir internacional! Ó escravos da Independência! Vós que não tendes prémios por se ter passado a vez de os ganhardes, e famintos e covardes entreteis a fome em revoltas do Mau-Génio no boémia da bomba e da pólvora! E tu também, ó Beleza Canalha Co'a sensibilidade manchada de vinho! Ó lírio bravo da Floresta-Ardida à meia-porta da tua Miséria! Ó Fado da Má-Sina com ilustrações a giz e letra da Maldição! Ó fera vadia das vielas açaimada na Lei! Ó xale e lenço a resguardar a tísica! Ó franzinas do fanico co'a sífilis ao colo por essas esquinas! Ó nu d'aluguer na meia-luz dos cortinados corridos! Ó oratório da meretriz a mendigar gorjetas p'rá sua Senhora da Boa-Sorte! Ó gentes tatuadas do calão! carro vendado da Penitenciária! E tu também, ó Humilde, ó Simples! enjaulados na vossa ignorância! Ó pé descalço a calejar o cérebro! Ó músculos da saúde de ter fechada a casa de pensar! Ó alguidar de açorda fria na ceia-fadiga da dor-candeia! Ó esteiras duras pra dormir e fazer filhos! Ó carretas da Voz do Operário com gente de preto a pé e filarmónica atrás! Ó campas rasas, engrinaldadas, com chapões de ferro e balões de vidro! Ó bota rota de mendigo abandonada no pó do caminho! Ó metamorfose-selvagem das feras da cidade! Ó geração de bons ladrões crucificados na Estupidez! Ó sanfona-saloia do fandango dos campinos! Ó pampilho das Lezírias inundadas de Cidade! ó trouxa d'aba larga da minha lavadeira, Ó rodopio azul da saia azul de Loures! E vós varinas que sabeis a sal as Naus da Fenícia ainda não voltaram?! E vós também, ó moças da Província que trazeis o verde dos campos no vermelho das faces pintadas! E tu também, ó mau gosto co'a saia de baixo a ver-se e a falta d'educação! Ó oiro de pechisbeque (esperteza dos ciganos) a luzir no vermelho verdadeiro da blusa de chita! Ó tédio do domingo com botas novas e música n'Avenida! Ó santa Virgindade a garantir a falta de lindeza! Ó bilhete postal ilustrado com aparições de beijos ao lado! E vós ó gentes que tendes patrões, autómatos do dono a funcionar barato! Ó criadas novas chegadas de fora p'ra todo o serviço! Ó costureiras mirradas, emaranhadas na vossa dor! Ó reles caixeiros, pederastas do balcão, a quem o patrão exige modos lisonjeiros e maneiras agradáveis pròs fregueses! Ó Arsenal fadista de ganga azul e coco socialista! Ó saídas pôr-do-sol das Fábricas d'Agonia! E vós também, ó toda a gente, que todos tendes patrões! E vós também, nojentos da Política que explorais eleitos o Patriotismo! Macrots da Pátria que vos pariu ingénuos e vos amortalha infames! E vós também, pindéricos jornalistas que fazeis cócegas e outras coisas à opinião pública! E tu também roberto fardado: Futrica-te espantalho engalonado, apoia-te das patas de barro, Larga a espada de matar e põe o penacho no rabo! Ralha-te mercenário, asceta da Crueldade! Espuma-te no chumbo da tua Valentia! Agoniza-te Rilhafoles armado! Desuniversidadiza-te da doutorança da chacina, da ciencia da matança! Groom fardado da Negra, pária da Velha! Encaveira-te nas esporas luzidias de seres fera! Despe-te da farda, desenfia-te da Impostura, e põe-te nu, ao léu que ficas desempregado! Acouraça-te de senso, vomita de vez o morticínio, enche o pote de raciocínio, aprende a ler corações, que há muito mais que fazer do que fazer revoluções! Ruína com tuas próprias peças-colossos as tuas próprias peças colossais, que de 42 a 1 é meio-caminho andado! Rebusca no seres selvagem no teu cofre do extermínio o teu calibre máximo! Põe de parte a guilhotina, dá férias ao garrote! Não dês língua aos teus canhões, nem ecos às pistolas, nem vozes às espingardas! – São coisas fora de moda! Põe-te a fazer uma bomba que seja uma bomba tamanha que tenha dez raios da Terra. Põe-lhe dentro a Europa inteira, os dois pólos e as Américas, a Palestina, a Grécia, o mapa e, por favor, Portugal! Acaba de vez com este planeta, faze-te Deus do Mundo em dar-lhe fim! (Há tanta coisa que fazer, Meu Deus! e esta gente distraída em guerras!) Eu creio na transmigração das almas por isto de Eu viver aqui em Portugal. Mas eu não me lembro o mal que fiz durante o Meu avatar de burguês. Oh! Se eu soubesse que o Inferno não era como os padres mo diziam: uma fornalha de nunca se morrer... mas sim um Jardim da Europa à beira-mar plantado... Eu teria tido certamente mais juízo, teria sido até o mártir São Sebastião! E inda há quem faça propaganda disto: a pátria onde Camões morreu de fome e onde todos enchem a barriga de Camões! Se ao menos isto tudo se passasse numa Terra de mulheres bonitas! Mas as mulheres portuguesas são a minha impotência! E tu, meu rotundo e pançudo-sanguessugo, meu desacreditado burguês apinocado da rua dos bacalhoeiros do meu ódio co'a Felicidade em casa a servir aos dias! Tu tens em teu favor a glória fácil igual à de outros tantos teus pedaços que andam desajuntados neste Mundo, desde a invenção do mau cheiro, a estorvar o asseio geral. Quanto mais penso em ti, mais tenho Fé e creio que Deus perdeu de vista o Adão de barro e com pena fez outro de bosta de boi por lhe faltar o barro e a inspiração! E enquanto este Adão dormia os ratos roeram-lhe os miolos, e das caganitas nasceu a Eva burguesa! Tu arreganhas os dentes quando te falam d'Orpheu e pões-te a rir, como os pretos, sem saber porquê. E chamas-me doido a Mim que sei e sinto o que Eu escrevi! Tu que dizes que não percebes; rir-te-has de não perceberes? Olha Hugo! Olha Zola, Cervantes e Camões, e outros que não são nada por te cantarem a ti! Olha Nietzche! Wilde! Olha Rimbaub e Dowson! Cesário, Antero e outros tantos mundos! Beethoven, Wagner e outros tantos génios que não fizeram nada, que deixaram este mundo tal qual! Olha os grandes o que são estragados por ti! O teu máximo é ser besta e ter bigodes. A questão é estar instalado. Se te livras de burguês e sobes a talento, a génio, a seres alguém, o Bem que tu fizeres é um décimo de seres fera! E de que serve o livro e a ciência se a experiência da vida é que faz compreender a ciência e o livro? Antes não ter ciências! Antes não ter livros! Antes não ter Vida! Eu queria cuspir-te a cara e os bigodes, quando te vejo apalermado p'las esquinas a dizeres piadas às meninas, e a gostares das mulheres que não prestam e a fazer-lhes a corte e a apalpar-lhes o rabo, esse tão cantado belo cu que creio ser melhor o teu ideal que a própria mulher do cu grande! E casaste-te com Ela, porque o teu ideal veio pegado a Ela, e agora à brocha limpas a calva em pinga à coca de cunhas p'ró Cunha examinador do teu décimo nono filho dezanove vezes parvo! (É o caso mais exemplar de Constância e fidelidade a tua história sexual co'a Felisberta, desde o teu primogénito tanso 'té ao décimo nono idiota.) 'Té no matrimónio te maldigo, infame cobridor! Espécie de verme das lamas dos pântanos que de tanto se encharcar em gozos o seu corpo se atrofiou e o sexo elefantizado foi todo o seu corpo! Em toda a parte tu és o admirador e em toda a parte a tua ignorância tem a cumplicidade da incompetência dos que te falam 'té dos lugares sagrados. Sim! Eu sei que tu és juiz e qu'inda ontem prometeste a tua amante, despedindo-a num beijo de impotente, a condenação dos réus que tivesses se Ela faltasse à matinée da Boa-Hora! Pulha! E és tu que do púlpito d'essa barriga d'Água da Curia dás a ensinança de trote aos teus dezanove filhos?! Cocheiros, contai: dezanove!!! Zute! bruto-parvo-nada que Me roubaste tudo: 'té Me roubaste a Vida e não Me deixaste nada! nem Me deixaste a Morte! Zute! poeira-pingo-micróbio que gemes pequeníssimos gemidos gigantes grávido de uma dor profeta colossal. Zute! elefante-berloque parasita do não presta! Zute! bugiganga-celulóide-bagatela! Zute, besta! Zute, bácoro!! Zute, merda!!! Em toda a parte o teu papel é admirar, mas (caso inf'liz) nunca acertas numa admiração feliz. Lês os jornais e admiras tudo do princípio ao fim e se por desgraça vem um dia sem jornais, tens de ficar em casa nos chinelos porque nesse dia, felizmente, não tens opinião pra levares à rua. Mas nos outros dias lá estás a discutir. É que a Natureza é compensadora: quem não tem dinheiro p'ra ir ao Coliseu deve ter cá fora razões p'ra se rir. Só te oiço dizer dos outros a inveja de seres como eles. Nem ao menos, pobre fadista, a veleidade de seres mais bruto? Até os teus desejos são avaros como as tuas unhas sujas e ratadas. Ó meu gordo pelintrão, água-morna suja, broa do outro v'rao! Os homens são na proporção dos seus desejos e é por isso que eu tenho a Concepção do Infinito... Não te cora ser grande o teu avô e tu apenas o seu neto, e tu apenas o seu esperma? Não te dói Adão mais que tu? Não te envergonha o teres antes de ti outros muito maiores que tu? Jamais eu quereria vir a ser um dia o que o maior de todos já o tivesse sido eu quero sempre muito mais e mais ainda muito pr'além-demais-Infinito... Tu não sabes, meu bruto, que nós vivemos tão pouco que ficamos sempre a meio-caminho do Desejo? Em toda a parte o bicho se propaga, em toda a parte o nada tem estalagem. O meu suplício não é somente de seres meu patrício ou o de ver-te meu semelhante, tu, mesmo estrangeiro, és besta bastante. Foi assim que te encontrei na Rússia como vegetas aqui e por toda a parte, e em todos os ofícios e em todas as idades. Lá suportei-te muito! Lá falavas russo e eu só sabia o francês. Mas na França, em Paris - a grande capital, apesar de fortificada, foi assolada por esta espécie animal. E andam p'los cafés como as pessoas e vestem-se na moda como elas, e de tal maneira domésticos que até vão às mulheres e até vão aos domésticos. Felizmente que na minha pátria, a minha verdadeira mãe, a minha santa Irlanda, apenas vivi uns anos d'Infância, apenas me acodem longinquamente as festas ensuoradas do priest da minha aldeia, apenas ressuscitam sumidamente as asfixias da tísica-mater, apenas soam como revoltas as pistolas do suicídio de meu pai, apenas sinto infantilmente no leito de uma morta o gelo de umas unhas verdes, um frio que não é do Norte, um beijo grande como a vida de um tísico a morrer. Ó Deus! Tu que m'os levaste é que sabias o ódio que eu lhes teria se não tivessem ficado por ali! Mas antes, mil vezes antes, aturar os burgueses da My Ireland que estes desta Terra que parece a pátria deles! Ó Horror! Os burgueses de Portugal têm de pior que os outros o serem portugueses! A Terra vive desde que um dia deixou de ser bola do ar p'ra ser solar de burgueses. Houve homens de talento, génios e imperadores. Precisaram-se de ditadores, que foram sempre os maiores. Cansou-se o mundo a estudar e os sábios morreram velhos fartos de procurar remédios, e nunca acharam o remédio de parar. E inda eu hoje vivo no século XX a ver desfilar burgueses trezentas e sessenta e cinco vezes ao ano, e a saber que um dia são vinte e quatro horas de chatice e cada hora sessenta minutos de tédio e cada minuto sessenta segundos de spleen! Ora bolas para os sábios e pensadores! Ora bolas para todas as épocas e todas as idades! Bolas pròs homens de todos os tempos, e prà intrujice da Civilização e da Cultura! Eu invejo-te a ti, ó coisa que não tens olhos de ver! Eu queria como tu sentir a beleza de um almoço pontual e a f'licidade de um jantar cedinho co'as bestas da família. Eu queria gostar das revistas e das coisas que não prestam porque são muitas mais que as boas e enche-se o tempo mais! Eu queria, como tu, sentir o bem-estar que te dá a bestialidade! Eu queria, como tu, viver enganado da vida e da mulher, e sem o prazer de seres inteligente pessoalmente! Eu queria, como tu, não saber que os outros não valem nada p'ra os poder admirar como tu! Eu queria que a vida fosse tão divinal como tu a supões, como tu a vives! Eu invejo-te, ó pedaço de cortiça a boiar à tona d'água, à mercê dos ventos, sem nunca saber que fundo que é o Mar! Olha para ti! Se te não vês, concentra-te, procura-te! Encontrarás primeiro o alfinete que espetaste na dobra do casaco, e depois não percas o sítio, porque estás decerto ao pé do alfinete. Espeta-te nele para não te perderes de novo, e agora observa-te! Não te escarneças! Acomoda-te em sentido! Não te odeies ainda qu'inda agora começaste! Enioa-te no teu nojo, mastodonte! Indigesta-te na palha dessa tua civilização! Desbesunta te dessa vermência! Destapa a tua decência, o teu imoral pudor! Albarda te em senso! Estriba-te em Ser! Limpa-te do cancro amarelo e podre! Do lazareto de seres burro! Desatrela-te do cérebro-carroça! Desata o nó-cego da vista! Desilustra-te, descultiva-te, despole-te, que mais vale ser animal que besta! Deixa antes crescer os cornos que outros adornos da Civilização! Queria-te antes antropófago porque comias os teus – talvez o mundo fosse Mundo e não a retrete que é! Ahi! excremento do Mal, avergonha-te no infinitamente pequeno de ti com o teu papagaio: Ele fala como tu e diz coisas que tu dizes e se não sabe mais é por tua culpa, meu mandrião! E tu, se não fossem os teus pais, davas guinchos, meu saguim! - Tu és o papagaio de teus pais! Mas há mais, muito mais que a tua ignorância-miopia te cega. Empresto-te a minha Inteligência. Vê agora e não desmaies ainda! Então eu não tinha razão? P'ra que me chamavas doido quando eu m'enjoava de ti? Ah! Já tens medo?! Porque te rias da vida e ias ensuorar as vrilhas nos fauteuils das revistas co'as pernas fogo de vistas das coristas de petróleo? Porque davas palmas aos compéres e actorecos pelintras e fantoches antes do palco, no palco e depois do palco? Ora dize-Me com franqueza: Era por eles terem piada? Então era por a não terem Ah! Era p'ra tu teres piada, meu bruto?! Porque mandaste de castigo os teus filhos p'r'ás Belas-Artes quando ficaram mal na instrução primária? Porque é que dizes a toda a gente que o teu filho idiota estuda p'ra poeta? Porque te casaste com a tua mulher se dormes mais vezes co'a tua criada? Porque bateste no teu filho quando a mestra te contou as indecências na aula? Não te lembras das que tu fizeste com a própria mestra de moral? Ou queres tu ser decente, tu, que tens dezanove filhos?! Porque choraste tanto quando te desonraram a filha? Porque lhe quiseste matar o amante? Não achas isto natural? Não achas isto interessante? Porque não choraste também pelo amante?... Deixa! Deixa! Eu não te quero morto com medo de ti-próprio! Eu quero-te vivo, muito vivo, a sofrer! Não te despetes do alfinete! Eu abro a janela pra não cheirar mal! Galopa a tua bestialidade na memória que eu faço dos teus coices, cavalga o teu insecticismo na tua sela de D. Duarte! Arreia-te de Bom-Senso um segundo! peço-te de joelhos. Encabresta-te de Humanidade e eu passo-te uma zoologia para as mãos p'ra te inscreveres na divisão dos Mamíferos. Mas anda primeiro ao Jardim Zoológico! Vem ver os chimpanzés! Acorpanzila-te neles se te ousas! Sagra-te de cu-azul a ver se eles te querem! Lá porque aprendeste a andar de mãos no ar não quer dizer que sejas mais chimpanzé que eles! Larga a cidade masturbadora, febril, rabo decepado de lagartixa, labirinto cego de toupeiras, raça de ignóbeis míopes, tísicos, tarados, anémicos, cancerosos e arseniados! Larga a cidade! Larga a infâmia das ruas e dos boulevards esse vaivém cínico de bandidos mudos esse mexer esponjoso de carne viva Esse ser-lesma nojento e macabro Esse S ziguezague de chicote auto-fustigante Esse ar expirado e espiritista... Esse Inferno de Dante por cantar Esse ruído de sol prostituído, impotente e velho Esse silêncio pneumónico de lua enxovalhada sem vir a lavadeira! Larga a cidade e foge! Larga a cidade! Vence as lutas da família na vitória de a deixar. Larga a casa, foge dela, larga tudo! Nem te prendas com lágrimas, que lágrimas são cadeias! Larga a casa e verás - vai-se-te o Pesadelo! A família é lastro, deita-a fora e vais ao céu! Mas larga tudo primeiro, ouviste? Larga tudo! – Os outros, os sentimentos, os instintos, e larga-te a ti também, a ti principalmente! Larga tudo e vai para o campo e larga o campo também, larga tudo! – Põe-te a nascer outra vez! Não queiras ter pai nem mãe, não queiras ter outros nem Inteligência! A Inteligência é o meu cancro eu sinto-A na cabeça com falta de ar! A Inteligência é a febre da Humanidade e ninguém a sabe regular! E já há Inteligência a mais pode parar por aqui! Depois põe-te a viver sem cabeça, vê só o que os olhos virem, cheira os cheiros da Terra come o que a Terra der, bebe dos rios e dos mares, - põe-te na Natureza! Ouve a Terra, escuta-A. A Natureza à vontade só sabe rir e cantar! Depois, põe-te a coca dos que nascem e não os deixes nascer. Vai depois pla noite nas sombras e rouba a toda a gente a Inteligência e raspa-lhos a cabeça por dentro co'as tuas unhas e cacos de garrafa, bem raspado, sem deixar nada, e vai depois depressa muito depressa sem que o sol te veja deitar tudo no mar onde haja tubarões! Larga tudo e a ti também! Mas tu nem vives nem deixas viver os mais, Crápula do Egoísmo, cartola d'espanta-pardais! Mas hás-de pagar-Me a febre-rodopio novelo emaranhado da minha dor! Mas hás-de pagar-Me a febre-calafrio abismo-descida de Eu não querer descer! Hás-de pagar-Me o Absinto e a Morfina Hei-de ser cigana da tua sina Hei-de ser a bruxa do teu remorso Hei-de desforra-dor cantar-te a buena-dicha em águas fortes de Goya e no cavalo de Tróia e nos poemas de Poe! Hei-de feiticeira a galope na vassoura largar-te os meus lagartos e a Peçonha! Hei-de Vara Magica encantar-te Arte de Ganir Hei-de reconstruir em ti a escravatura negra! Hei-de despir-te a pele a pouco e pouco e depois na carne-viva deitar fel, e depois na carne-viva semear vidros, semear gumes, lumes, e tiros. Hei-de gozar em ti as poses diabólicas dos teatrais venenos trágicos do persa Zoroastro! Hei-de rasgar-te as virilhas com forquilhas e croques, e desfraldar-te nas canelas mirradas o negro pendão dos piratas! Hei-de corvo marinho beber-te os olhos vesgos! Hei-de bóia do Destino ser em brasa e tua náufrago das galés sem horizontes verdes! E mais do que isto ainda, muito mais: Hei-de ser a mulher que tu gostes, hei-de ser Ela sem te dar atenção! Ah! que eu sinto claramente que nasci de uma praga de ciúmes. Eu sou as sete pragas sobre o Nilo e a Alma dos Bórgias a penar!... de José Almada Negreiros poeta sensacionista e Narciso do Egipto Almada Negreiros |
sábado, agosto 06, 2011
quarta-feira, agosto 03, 2011
Biografia de Mário Viegas por ele próprio
"ANTÓNIO MÁRIO LOPES PEREIRA VIEGAS
Nasceu em Santarém em 10 de Novembro de 1948, às 23.30h, meia-Hora antes do Dia de S. Martinho.
É do signo Escorpião no Hemisfério Ocidental e do Rato no Hemisfério Oriental.
Trineto, por via paterna, do grande Actor Cómico do século XIX Francisco Leoni, Bisneto de Francisco José Pereira, Republicano, Deputado e Senador por Santarém na Primeira Assembleia da Primeira República, sendo saneado de Director Geral do Congresso no 28 de Maio.
Neto e filho de Republicanos e Anti-Fascistas, duma família paterna toda ligada ao ramo Farmacêutico.
Neto por via materna, de um dos fundadores da Amadora, António Cardoso Lopes e sobrinho, do famoso hoquista Álvaro Lopes (8 vezes campeão do mundo), e Tiotónio (um dos pioneiros da Banda-Desenhada em Portugal e criador do semanário “O Mosquito”), e de Augusto Lopes (inventor e criador do sistema do Cinema foto-sonoro em Portugal), sendo a sua Mãe licenciada em Grego Clássico, Latim. Viveu a sua infância e adolescência em Santarém, onde estudou no Liceu Sá da Bandeira e onde se estreia como Actor-Recitador amador com o Coro de Amadores de Música, dirigido pelo Maestro Fernando Lopes-Graça, com 16 anos, em substituição da ex-Actriz e Declamadora Maria Barroso.
Fica logo com a sua primeira ficha na P.I.D.E.
Não tem pre-conceitos sexuais. Sendo scalabitano, gosta de touros, cavalos, mulheres, homens, vinho branco ou tinto, sabe dançar o fandango e já pegou uma vaca em 1967.
Frequentou a Fac. de Letras de Lisboa em 1966/67 e 1967/68 e a Fac. de Letras do Porto em 1968/69, onde termina o 3º ano do Curso Superior de História. Faz parte da Crise Académica de 1969, como Recitador e Agitador no Porto e em Coimbra.
Nunca esteve filiado em nenhum Partido ou Clube Desportivo, nem nunca foi convidado para tal.
Não tem nenhuma ficha na P.S.P. ou na Polícia Judiciária por actividades ilícitas e/ou imorais.
É solteiro e não tenciona casar oficialmente.
É-lhe retirado o Adiamento Militar, por actividades políticas e é proibido de actuar como Actor e Recitador quer públicamente, na antiga Emissora Nacional e na R.T.P.
Os seus discos de Poesia são proibidos de passar na Rádio, até ao 25 de Abril de 1974.
Cumpre o Serviço Militar Obrigatório como Oficial entre Outubro de 1971 e Outubro de 1974, tendo a sua Caderneta Militar os mais altos louvores pela disciplina militar.
É-lhe dada a especialidade e o curso de Acção Psicológica e Propaganda do Exército (A.P.S.I.C.), sendo re-classificado quando estagiava na 2ª Repartição do Estado-Maior do Exército em 1972. É-lhe dado um cargo de Instrutor de Combustíveis e Lubrificantes no Quartel do Campo Grande (E.P.A.N.), de onde é afastado no dia 22 de Abril de 1974.
Assiste e participa desde as 11H00 da manhã, ao golpe-militar do 25 de Abril, no Largo do Carmo. Às 19H00 na Rua António Maria Cardoso e participa na primeira tentativa Popular de assalto à sede da P.I.D.E.-D.G.S.
Faz parte da Extinção da P.I.D.E.-D.G.S. e Legião Portuguesa desde o início de Maio de 1974 até Outubro de 1974, como Oficial-Miliciano do M.F.A., de onde é afastado.
Após proibição em Conselho de Ministros, da peça “EVA PERÓN”, de Copi, (de que era protagonista e que seria a primeira encenação de Filipe La Féria), em Janeiro de 1975, sai de Portugal entre inícios de Maio de 1975 até finais de Setembro de 1975, indo viver para Copenhaga, Dinamarca, desiludido com a situação política do país.
Como Independente, participou “de borla” em algumas campanhas e espectáculos ao vivo e na televisão do P.C.P. (1977), do P.S.R. e da U.D.P., até 1994. Está arrependidíssimo! Abre uma excepção à U.D.P.
Apoiou públicamente a candidatura à Presidência da República do Engº Carlos Marques nas últimas eleições Presidenciais.
Foi leitor durante 2 anos (1987, 1988), dos comunicados do dia 25 de Abril de Otelo Saraiva de Carvalho, quando este esteve preso em Caxias (caso FP25). Não ganhou nada com isso!
Foi alcoólico Público e Anónimo, encontrando-se completamente recuperado.
É Fumador activo e passivo, careca e práticamente cego do olho esquerdo.
Estreia-se como Actor profissional em 16 de Fevereiro de 1968 no Teatro Experimental de Cascais. Trabalhou diariamente durante 30 anos no Teatro, Cinema, Disco, Rádio e Televisão como Actor, Empresário, Encenador e Cenógrafo, com o nome artístico de Mário Viegas. Ao contracenar com Marcello Mastroianni em 1994 descobriu que não conseguiria ser o Maior Actor de Portugal, da Europa e do Mundo, de Teatro e Cinema; o mais popular Cómico do País e com maior unanimidade; ter um lugar em Hollywood; representar em francês, espanhol, inglês ou japonês. Desiludido e revoltado decide encetar a carreira mais fácil, menos efémera e com reforma assegurada: PRESIDENTE DA REPÚBLICA de Portugal, Açores, Madeira, Macau e Timor-Leste.
As Sondagens dão-lhe 93,4% de intenção de voto.
Não sabe o que quer para o País, mas o País sabe o que quer dele!
Não quer ser o Presidente de todos os Portugueses!
Tem como Lemas da campanha a frase de Eduardo de Filippo: “Os Actores vivem a sério no Palco, o que os outros na Vida representam mal”; e “Nesta Pátria onde a Terra acaba e o Mário começa!”.
Slogans da campanha:
“VIEGAS AMIGO ! O MÁRIO ESTÁ CONTIGO !!”
“MÁRIO SÓ HÁ UM ! O VIEGAS E MAIS NENHUM !”
“O MÁRIO QUE SE LIXE ! O VIEGAS É QUE É FIXE !”
Foi agraciado por sua Exª o actual Presidente da República, o Sr. Dr. Mário Soares com a Comenda da Ordem do Infante D. Henrique, sendo pois, Comendador da Ordem do Infante D. Henrique.
Mário Viegas"
Texto retirado da "Auto-Photo Biografia (não autorizada), de Mário Viegas
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