quarta-feira, maio 18, 2011

Carolina Beatriz Ângelo - Centenário do seu voto




O voto de Carolina Beatriz Ângelo, no dia 28 de Maio de 1911, marcou para sempre a História de Portugal e das mulheres portuguesas. Foi, sem dúvida, um feito corajoso e um acto de ousadia perante um poder republicano então pouco favorável ao voto das mulheres.

Este ano, comemoram-se os 100 anos do voto de Carolina Beatriz Ângelo. Para celebrar a data, a UMAR (União de Mulheres Alternativa e Resposta) organiza o seminário internacional “Carolina Beatriz Ângelo 100 anos Percursos Históricos e de Cidadania”, no dia 28 de Maio, no Auditório 1 da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa.

Carolina Beatriz Ângelo (1871 — 1911) foi uma feminista portuguesa. Nasceu na Guarda, onde frequentou o Liceu. Mais tarde ingressou nas Escolas Politécnica e Médico-Cirúrgica em Lisboa, onde concluiu o curso de Medicina em 1902. Médica, lutadora sufragista e fundadora da Associação de Propaganda Feminista, foi a primeira mulher a votar em Portugal, por ocasião das eleições da Assembleia Constituinte, em 1911.

O facto de ser viúva permitiu-lhe invocar em tribunal de ser "chefe de família". Por forma a evitar que tal exemplo pudesse ser repetido, a lei foi alterada no ano seguinte, com a especificação de que apenas os chefes de família do sexo masculino poderiam votar.

Almeida Garrett - ADEUS



ADEUS

Adeus! para sempre adeus!
Vai-te, oh! vai-te, que nesta hora
Sinto a justiça dos céus
Esmagar-me a alma que chora.
Choro porque não te amei,
Choro o amor que me tiveste;
O que eu perco, bem no sei,
Mas tu... tu nada perdeste:
Que este mau coração meu
Nos secretos escaminhos
Tem venenos tão daninhos
Que o seu poder só sei eu.

Oh! vai... para sempre adeus!
Vai, que há justiça nos céus.
Sinto gerar na peçonha
Do ulcerado coração
Essa víbora medonha
Que por seu fatal condão
Há-de rasgá-lo ao nascer:
Há-de sim, serás vingada,
E o meu castigo há-de ser
Ciúme de ver-te amada,
Remorso de te perder.

Vai-te, oh! vai-te, longe, embora
Que sou eu capaz agora
De te amar – Ai! se eu te amasse!
Vê se no árido pragal
Deste peito se ateasse
De amor o incêndio fatal!
Mais negro e feio no inferno
Não chameja o fogo eterno.

Que sim? Que antes isso? – Ai, triste!
Não sabes o que pediste.
Não te bastou suportar
O cepo-rei; impaciente
Tu ousas a deus tentar
Pedindo-lhe o rei-serpente!

E cuidas amar-me ainda?
Enganas-te: é morta, é finda,
Dissipada é a ilusão.
Do meio azul dos teus olhos
Tanta lágrima verteste,
Tanto esse orvalho celeste
Derramado o viste em vão
Nesta seara de abrolhos,
Que a fonte secou. Agora
Amarás... sim, hás-de amar,
Amar deves... Muito embora...
Oh! mas noutro hás-de sonhar
Os sonhos de oiro encantados
Que o mundo chamou amores.

E eu réprobo... eu se o verei?
Se em meus olhos encovados
Der a luz de teus ardores...
Se com ela cegarei?
Se o nada dessas mentiras
Me entrar pelo vão da vida...
Se, ao ver que feliz deliras,
Também eu sonhar... Perdida,
Perdida serás – perdida.

Oh! vai-te, vai, longe, embora!
Que te lembre sempre e agora
Que não te amei nunca... ai! não;
E que pude a sangue-frio,
Covarde, infame, vilão,
Gozar-te – mentir sem brio,
Sem alma, sem dó, sem pejo,
Cometendo em cada beijo
Um crime... Ai! triste, não chores,
Não chores, anjo do céu,
Que o desonrado sou eu.

Perdoar-me tu?... Não mereço.
A inundo cerdo voraz
Essas pérolas de preço
Não as deites: é capaz
De as desprezar na torpeza
De sua bruta natureza.
Irada, te há-de admirar,
Despeitosa, respeitar,
Mas indulgente... Oh! o perdão
É perdido no vilão,
Que de ti há-de zombar.

Vai, vai... para sempre adeus!
Para sempre aos olhos meus
Sumido seja o clarão
De tua divina estrela.
Faltam-me olhos e razão
Para a ver, para entendê-la:
Alta está no firmamento
De mais, e de mais é bela
Para o baixo pensamento
Com que em má hora a fitei;
Falso e vil o encantamento
Com que a luz lhe fascinei.
Que volte a sua beleza
Do azul do céu à pureza,
E que a mim me deixe aqui
Nas trevas em que nasci,
Trevas negras, densas, feias,
Como é negro este aleijão
Donde me vem sangue às veias,
Este que foi coração,
Este que amar-te não sabe
Porque é só terra – e não cabe
Nele uma ideia dos céus...
Oh! vai, vai; deixa-me, adeus!

Almeida Garrett

quinta-feira, maio 05, 2011

O Campo na Cidade - Cidade Universitária, em Lisboa

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Memória Online - A SAPATEIRA PRODIGIOSA - RTP Memória - RTP

Memória Online - A SAPATEIRA PRODIGIOSA - RTP Memória - RTP

"A Sapateira Prodigiosa", é uma peça de teatro de autoria de Frederico Garcia Lorca, protagonizada por Amália Rodrigues, Varela Silva e Fernanda Borsatti.

Uma produção nacional de referência do ano de 1968, realizada por Fernando Frazão, e que conta também com a participação dos seguintes actores: Barreto Poeira, Costinha, Paulo Renato, Varela Silva, entre outros.

Assinatura de Almada Negreiros - Reitoria da Universidade de Lisboa

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domingo, maio 01, 2011

Poemas à(s) Mãe(s) - Feliz Dia da Mãe

Aqui ficam 5 poemas que falam de "Mães", de 4 Poetas maiores de Portugal - Eugénio de Andrade, António Gedeão, Miguel Torga e Natália Correia.
Da minha parte, homenageio a minha Mãe através das fotografias do vídeo... as palavras, essas, são apenas dos Poetas.




Poema à Mãe, de e dito por Eugénio de Andrade
As Mães, de e dito por Eugénio de Andrade
Mãezinha, de António Gedeão, dito por Mário Viegas
Mãe, de e dito por Miguel Torga
Requiem por nossa Mãe, de e dito por Natália Correia

segunda-feira, abril 25, 2011

Vera Lagoa - Uma das "Crónicas do Tempo" - "Fizeste bem, Rogério Paulo"



Fizeste bem, Rogério Paulo

Confesso, Rogério, que ao ter conhecimento de que tinhas recusado a ser entrevistado para este jornal, fiquei surpreendida. Recusado, porquê? Pensei maduramente e, por fim, compreendi. Não podias fazer outra coisa.


Sim, porque um homem justo, honesto, recto, sincero como tu, ao ser entrevistado, teria de dizer a verdade. Toda a verdade. Não podia ser de outra maneira. E a verdade, Rogério, como a poderias tu dizer? Foi melhor assim. Praticamente passaste-me a palavra. Porque há coisas, que, como sabes, como imaginas, eu tenho há longos anos para dizer.


Tenho também a mania dos apartes. E por isso julgo vir a propósito contar que tenciono, nas minhas horas vagas, escrever um livro a que darei o título: “Revolucionários que conheci”. Dizem-me os que também conheceram esses revolucionários, que será um “best-seller”. Oxalá. Mas ainda não lá cheguei.


Pois, como ia dizendo, na altura em que estávamos todos contra o fascismo, em que todos éramos vítimas, não podíamos andar para aqui a dizer o que sabíamos uns dos outros. Seriam armas a fornecer ao inimigo. Mas agora, não. Agora o fascismo está dum lado, tu doutro, e eu, ainda, doutro. Estou do lado que não recebe protecções, ordenados acumulados, gasolina a 8$00 e as palmas por ter sido uma lutadora antifascista. Assim, achei de minha obrigação, visto que por ti, dada a tua honestidade e isenção, não te sentirias à vontade para contar a tua vida, fazê-lo eu. Por isso digo que “fizeste bem, Rogério”.


E aqui vai. Não. Não seria eu a entrevistar-te. Mas ia ensinar o entrevistador a perguntar-te, por exemplo, à custa de quantas mulheres subiste tu na vida. Sim. Ora deixa-me pensar, para eu responder ao entrevistador. Terias começado pela Magê, com quem foste ao baile de Cascais? Talvez. Foi nessa altura que começou a dar nas vistas o amparo, o apoio, que procuravas junto das mulheres. E a dar nas vistas a necessidade urgente que tinhas em te casar. Porque se murmurava que as pessoas que estavam no baile de Cascais tinham certos hábitos. O que contigo, não era verdade. Não era, mas para evitar rumores, casaste com a Suzana Prado. Ela foi leal. Ela foi a mulher que dá a cara e salva um amigo. Ela advertiu-te. Que sim, que te ajudava, mas que continuava a sua ligação como Oliveira Martinho. Aceitaste. Sempre eram umas coroas que vinham para ti.


A seguir à Suzana? Ora deixa-me pensar. Teria sido a Márcia Condessa? Ou a Márcia foi depois da patinadora? Não tem importância. O que interessa é que a Márcia não ficou arruinada (embora ficasse com uma terrível vontade de vomitar). Quem ficou nas lonas (a expressão não é bonita, mas o teu gesto, Rogério, também não) foi a patinadora. Não lhe digo o nome. É minha amiga. Disseste-lhe que a Pide te perseguia e que tinhas de fugir para Paris. A rapariga era pobre. Mas queria salvar-te. Procurou um agiota e arranjou-te trinta contos. Fugiste? Claro. Dela. Parece que os trinta contos (muito dinheiro na época, foi há muito tempo. Foi na altura em que morreu Sara Vale) foram para ajuda dum carro ou coisa parecida. Porque tu tinhas ordenado. Trabalhavas no “Nacional” com a D. Amélia [Rey Colaço].


Até me lembro do mal que ias naquela peça: ‘As Bruxas de Salém”. Era um horror. Também nunca entendi por que motivo elas gostavam de ti. Sempre pareceste um manequim da Rua dos Fanqueiros.


Como o agiota exigia o pagamento das letras e a patinadora não tinha dinheiro, foi para Paris cantar o fado para a Clara de Ovar. Pagou o que devia, voltou, mudou de profissão, ainda ajudou a viver dois valentíssimos democratas e hoje está em Angola. Gosto muito dela.


A seguir? Deixa-me pensar. A seguir (já disse que não me lembro em que altura se situa a Márcia) veio a locutora. Também não lhe digo o nome. É uma amiga muito querida. Tanto, que a acompanhava a pagar as letras do teu carro e a tua renda da casa todos os meses. Ajudou-te muito. Pensava ela (como tantos outros) que eras perseguido politicamente.


Foi na altura em que te candidataste a deputado. Que diabo! Tinhas de acabar com a locutora. Não tinha fama de ser suficientemente das esquerdas. E eis que te lembras dum golpe de mestre. Atracas-te à Maria Alçada Padez (dum esquerdismo indiscutível) e nada de melhor para um candidato a deputado. Tudo duma queijadada. Estava eu a jantar com a minha amiga locutora na ‘Viela’ para a consolar de ter esperado durante horas por ti à porta do emprego e entras tu, de braço dado com a Maria. Padez, claro. E assim ficou o assunto locutora arrumado. Lá se ia a renda da casa. Lá se iam as letras do carro. Mas havia o prestígio da Maria. Padez, claro.


O pior ainda estava para vir. Nunca tinhas segurança, pobre rapaz. A candidatura foi-se ao ar, como todas as daquele tempo, e tiveste mais uma vez de te apoiar. Até porque já estavas cansado. E precisavas de respeitabilidade… e apoio no governo.


Surge a Teresa. Simpática, solteira, admirando-te muito e… filha do lugar.tenente do Henrique Tenreiro. Agora, sim. Agora podias ser democrata à vontade, que não te prendiam.


Como me lembro daquele casamento que deu brado em Lisboa! Até veio na Eva. Sim, senhores. Na Eva. Foste de casaca (o que é incomportável num casamento, mas não te tinham ensinado que era de fraque). Foste de casaca e tiraste as fotografias oficiais na relva ao pé da Teresa. Não tenho o exemplar, mas na Eva devem ter.


Convites para o casamento? Tudo gente grada. Lembro-me (tenho, como deves pensar, uma memória lixada) de teres convidado o Silva Passos e o Tenreiro. Não sei se o primeiro foi, mas do Tenreiro sei eu que, para não desgostar o pai da Teresa (havia por ali um negócio de armas para os lados da António Augusto de Aguiar) foi para Madrid. Não gostava de ti, o Tenreiro. Mas depois, ajudou-te. Sim, foi ele, certamente. Como seria possível um perseguido político como tu sair de Portugal, entrar em Cuba, voltar a Portugal, etc., todas as vezes que querias? Se eles nem deixavam sair o Santareno, autor da peça que lá ias montar!


Não sei bem em que altura o teu sogro te ofereceu uma vivenda no Restelo que, na época (recuada) custou 2 mil contos. Uma bagatela. Os camaradas, esses, vivem para aí em barracas. E tu tens-te preocupado imenso com eles. Principalmente, com os teus camaradas actores.


Adiante. Pois chegou o 25 de Abril. E tu, homem impoluto, o grande lutador anti-fascista, eis-te a declarar na televisão que nunca lá tinhas ido. À Televisão. Pois não. Mas todas as peças em que entravas (no Teatro Maria Matos, da R.T.P.) eram passadas na televisão. E lá estavas tu. Muito mau actor, porque melhorar não melhoraste. Mas lá estavas tu. O perseguido. Sempre protegido pelo Ramiro Valadão, que dizia que eras muito bom rapaz e precisavas de apoio.


Curioso. Tenho ido visitar o Valadão à Judiciária, a Alcoentre e ultimamente ao Aljube, e nunca te encontrei. É porque vais noutros dias, certamente.


Esta já vai longa. Teria sido mais curta se fosses tu a responder ao entrevistador. Mas ainda tenho umas coisitas a dizer. E, se quero fazer o teu retrato de homem impoluto, digno, justo e, acima de tudo bom camarada, devo contar que o 25 de Abril te deu o lugar (os lugares) que merecias. Sempre no Teatro Maria Matos, claro, presidente da INATEL (ex-FNAT), programas de rádio, etc. Os teus colegas, aqui há tempos, contavam os teus tachos.


O que é chato é teres passado à frente da bicha da gasolina. Sim. Da bicha dos empregados da INATEL para terem gasolina a oito escudos. Foste o último a chegar e já tens a gasolina.


Pronto. O resto fica para o tal livro “Revolucionários que conheci”. O pior é se os tipógrafos se recusam a compô-lo. Mas não. Eles gostam de saber a vida de certos camaradas.


E boa viagem para Cuba. Lá, contigo, é uma loucura. Não fazem nada sem te consultar. O pior é se o Fidel lê uma tradução desta crónica. Mas não lê. Podes estar descansado e continuar a ser herói.


Já agora, que estás bem instalado na vida (aliás como se vê, sempre estiveste) aproveita para deixares de representar. Poupa-nos isso. E despeço-me, insistindo, a propósito de não teres dado a entrevista:


“Fizeste bem, Rogério Paulo.”

P. S. – E aquela tua ida à Casa dos Estudantes do Império, aí por volta dos anos 60, para falar de teatro revolucionário? Foi por seres angolano (de Silva Porto), certamente, que te convidaram. Até lá estava a Lília da Fonseca. Deves lembrar-te.


E aquela participação do nascimento da tua filha, que correu Lisboa e o maroto do Ramos da Costa me levou para Paris, para pensar que era brincadeira minha? Um nunca acabar. Fica para o livro.


Vera Lagoa, Crónicas do Tempo - 5.6.1975 - 2.10.1975, Porto, Livraria Internacional, 1975

sábado, abril 16, 2011

Maria, Cavakov e Tudo o Mais - Companhia Teatral do Chiado

Maria, Cavakov e Tudo o Mais é a nova peça que a Companhia Teatral do Chiado de Juvenal Garcês estreou ontem, com grande êxito.

Esta peça, aprovada pelo PEC4 (Plano Entretenimento e Comédia), conta com o Pedido de Casamento de Anton Tchekhov, um poema de Alexandre O'Neill e muitas referências ao cinema mundo, aos inicios do cinema sonoro, a Buster Keaton, gestos e situações de Laurel & Hardy e houve até quem visse uma referência ao teatro de Lourdes Castro.

Seja como fôr, esta é uma aposta ganha por Juvenal Garcês que, paulatinamente, tem vindo a criar nos últimos anos uma "revolução estética" do seu modo de fazer teatro, onde "less is more" (veja-se, a exemplo, as peças Antes de Começar e Amor com Amor se Paga - Um acto teatral para Mário Viegas).

O bom gosto "grotesco" (parece contrasenso, mas não é), a enorme sensibilidade e humanidade que imprime nas personagens e um non-sense desconcertante mas comovente, são os trunfos de mestre das encenações de Juvenal.

Duarte Grilo é exímio na expressão corporal e utilização vocal, interpretando um "Noivo" hipocondriamente apaixonado até ao momento em que lhe metem a mão nas propriedades.

Fábio Sousa, a figura feminina da peça, constrói uma fogosa "Noiva", bipolar da doçura ao histerismo, com grandes momentos em cena, em que julguei estar perante uma marioneta.

João Carracedo, o "Pai e Sogro" e tudo o mais, interpreta com muito humor e à-vontade as situações em cenas e cabe-lhe o extraordinário momento dizer o discurso fúnebre a Cavakov, com palavras de Alexandre O'Neill.

Uma palavra para a brilhante execução do cenário, salientando um extraordinário coração-baloiço que nos remete a uma mistura de Moulin Rouge com um postal de amor dos anos 30.

No fim, rebuscando a velha tradição da Revista à Portuguesa, distribuí-se pelo público o refrão da letra de Chaplin - Smile - e assim, em perfeita comunhão, somos levados a cantar, a sorrir e amar, cada vez mais, o Teatro da Companhia Teatral do Chiado.

Em cena Sextas e Sábados, no Teatro Estúdio Mário Viegas (Chiado, Lisboa), às 21 horas.