Poesia, musica, celebridades, teatro, cinema, selecção de textos, poetas e escritores, banalidades, fotografias, arte, literatura, pintura e muita conversa.
terça-feira, outubro 05, 2010
sábado, outubro 02, 2010
segunda-feira, agosto 30, 2010
"A Súplica", de Fernando Dacosta, na voz de Carmen Dolores
terça-feira, agosto 24, 2010
Humor de 1931
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Texto:
1º Quadrado:
"Acabavam de bater as três horas da madrugada quando o mendigo "Zé Pedinchas" foi bater à porta do capitalista Lopes Sargedas.
2º Quadrado:
Assustadissimo, e arreliadissimo porque a criadagem estava ferrada no sono, o nosso Lopes saltou da cama num pulo, para ir ver quem era.
3º Quadrado:
- Uma esmolinha pelo amor de Deus
- Então você vem acordar-me a esta horas para me pedir esmola? - berrou o Lopes.
- Que quer o cavalheiro, retorquiu o mendigo, com esta crise de trabalho não tenho remédio senão fazer horas extraordinárias.
terça-feira, agosto 17, 2010
A actividade Politica do meu Avô Manuel
Teixeira manuel marques
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quarta-feira, julho 21, 2010
Nós, Leitores, e o Encerramento da Biblioteca Nacional

O meu querido amigo Paulo Silveira e Sousa, juntamente com duas das maiores figuras da intelligenza nacional - Maria de Fátima Bonifácio e Maria Filomena Mónica -, redigiram uma carta onde contestam o encerramento por nove meses da Biblioteca Nacional e a inexpilcável falta de alternativas. Publicado no Diário de Notícias no sábado, 17 de Julho de 2010, o texto contesta algumas notícias e artigos que atribuíam a parte da comunidade científica portuguesa uma teimosa oposição às obras de construção e renovação dos depósitos da Biblioteca Nacional. Todavia, não é o caso.
"Nós, Leitores, e o Encerramento da Biblioteca Nacional
Após várias notícias e artigos publicados na imprensa relativos ao encerramento dos serviços de leitura da Biblioteca Nacional (BN), gostaríamos de destruir algumas ideias atribuídas aos investigadores que questionaram o processo de encerramento da BN. É, entre nós, consensual que as obras de ampliação e remodelação da BN são necessárias. Sabemos que, ao reabrir, a 1 de Setembro de 2011, a instituição reunirá melhores condições para responder às solicitações. O problema diz respeito à forma como foi planeado o seu encerramento. Quem abaixo assina está contra o fecho, por cerca de dez meses, da totalidade do fundo da Sala de Leitura Geral e não, naturalmente, contra as obras de requalificação.
Dizer o contrário é faltar à verdade. A apresentação dogmática de uma, e apenas uma, forma de proceder à transferência dos fundos, como se não houvesse alternativa, merece objecção. A nosso ver, a condução do processo negligenciou os leitores e o facto, importante, de a BN prestar um serviço público. Por exemplo, hospitais e aeroportos são, igualmente, remodelados, todavia não encerram. Por outro lado, há, no estrangeiro, exemplos de outras bibliotecas que migram para edifícios novos, fechando por partes ou durante períodos curtíssimos. Veja-se o caso da British Library, em Londres, ou da Bibliothèque Nationale de France, em Paris.
As notícias e os artigos de opinião publicados tendem a descrever os signatários do abaixo-assinado, recentemente organizado contra o encerramento da BN, como uma casta de privilegiados, ainda por cima birrentos, que não querem ver alterados os seus hábitos de trabalho. Ora, muitos de nós trabalham em várias bibliotecas e arquivos, em Portugal e no estrangeiro, e não apenas na BN. Sabemos do que falamos.
Ao contrário do que afirma a sub-directora da BN, a investigação científica em Portugal vai ser prejudicada, sobretudo nas áreas da História e das Ciências Sociais. Para além de periódicos, o fundo da Sala de Leitura Geral inclui títulos do século XVI ao século XXI. Todos os investigadores serão afectados, e não apenas os que trabalham sobre períodos mais recentes. A doutora Maria Inês Cordeiro pode não conhecer a Hemeroteca Municipal ou a Biblioteca do Palácio Galveias, mas nós sabemos onde ficam e as deficiências que apresentam. Do mesmo modo, pode desconhecer as formas misteriosas como funciona o Depósito Legal (uma obrigação criminosamente esquecida por empresas tipográficas, editoras e autores), mas os investigadores constatam diariamente a ausência de livros, antigos e recentes, que deveriam constar nos fundos das Bibliotecas. Por isso, quando a sub-directora da BN afirma que «há excelentes bibliotecas públicas e universitárias», só podemos interrogar há quanto tempo a doutora Maria Inês Cordeiro não vai - como leitora, naturalmente - a uma dessas “excelentes bibliotecas”, que infelizmente não chegam a contar-se pelos dedos de uma mão.
Se a sub-directora da BN é perita nos labirintos bibliotecários e nós uns ignorantes leitores, diga-nos, por favor, qual a percentagem de obras que apenas existem na BN e às quais o acesso irá portanto ficar vedado e, já agora, qual a percentagem do fundo que existe igualmente em Coimbra ou no Porto (locais para onde os funcionários da BN nos irão, presume-se, reencaminhar). E quem fala de livros, fala de periódicos, uma área onde a incúria nacional é escandalosa. Seriam estas as interrogações que deveriam ter sido atendidas pela direcção da BN, antes de ter decidido o fecho.
Desde há décadas que os decisores políticos têm tratado o sector das bibliotecas e arquivos com negligência. As chamadas «ciências documentais» apenas vieram reforçar a gestão burocrática que substituiu uma direcção assegurada por quem tem formação humanista. Pessoas há, como a doutora Isabel Pires de Lima, ex-ministra da Cultura, que consideram que tudo se resolve com mais cimento e que, provavelmente com sinceridade, julgam que os críticos são velhos que resistem ao maravilhoso mundo do investimento público (DN de 14.07.2010).
Não é esse o caso: queremos, desejamos, obras na BN, incluindo naturalmente locais adequados à preservação dos livros e manuscritos. Mas o processo de reestruturação seguido não é aceitável. Não tendo experiência directa de trabalho nestes locais, a doutora Isabel Pires de Lima deveria ter-se informado do que a BN contém. Em vez disso, limitou-se a fazer um frete político, afirmando que o movimento de crítica - aliás reduzido a um abaixo-assinado – mais não era de uma conspiração de «bloquistas», para mais, alfacinhas.
Este ódio ao Bloco de Esquerda – de que nenhum dos signatários é membro - é um assunto que os apoiantes do Partido Socialista têm de resolver com os respectivos psicanalistas.
Para nós, trata-se apenas de não impedir que a investigação em Portugal prossiga durante um tempo insuportavelmente longo. Ao contrário do que parece supor a Doutora Isabel Pires de Lima, frequentamos as bibliotecas e os arquivos de Lisboa, Porto, Coimbra, Évora e Ponta Delgada. Congratulamo-nos até com o facto de os interesses intelectuais da doutora Isabel Pires de Lima (a hermenêutica da poesia de Fradique Mendes e os versos «fosforescentes» de Eugénio de Andrade) estarem disponíveis em edições correntes, eximindo-a de frequentar as salas de leitura da BN.
Outro argumento falacioso, repetido nos jornais, prende-se com a Biblioteca Vaticana, fechada há vários anos. Este facto foi referido pela sub-directora, doutora Maria Inês Cordeiro, numa notícia que saiu no Público (25.06.2010). Não vale a pena entrar na discussão sobre as especificidades do Estado do Vaticano, mas gostaríamos de lembrar que em Roma, onde fica o dito Estado, existe aberta, e em funcionamento, a Biblioteca Nazionale Centrale di Roma. Ou seja, quem vive em Roma ou em Itália tem alternativa.
Nota-se, na forma como foi anunciado o encerramento, o desprezo pelos leitores. A BN nem sequer projectou a criação de uma sala provisória que pudesse acolher os pedidos de quem tem prazos académicos, financiamentos de projectos aprovados ou livros a entregar a editoras. Curiosamente, esse espaço existe: a antiga sala dos periódicos e o espaço da antiga livraria, ambos desactivados, poderiam servir para tal. Se a BN sabe que os pisos com mais pedidos são o 3.º, 4.º e 5.º, porque não foi previsto, para estes, um fecho por um período curto? Mais, se sabia, pelos vistos há anos, que iria ocorrer um longo período de encerramento (a obra foi adjudicada em 2008), porque não intensificou a digitalização das obras fundamentais?
Na década de 1990, quando o Arquivo Nacional da Torre do Tombo mudou do Parlamento para o Campo Grande, ouviu os seus leitores, pelo que tudo correu de forma aceitável. Quando a BN mudou de São Francisco para o Campo Grande, em 1969, a transferência demorou seis meses. Agora, a BN não estudou uma alternativa, porque não tem peso político, porque ninguém quer saber do que se passa nas bibliotecas e porque o Ministério da Cultura não previu a verba que permitiria acelerar o processo. Sem dinheiro, a BN teve de planear tudo da forma mais barata possível, imaginando que os leitores – que, pela sua natureza, são pouco dados a revoltas – não seriam capazes de contestar. Enganaram-se.
Lisboa, 15 de Julho de 2010
Maria Filomena Mónica
Maria de Fátima Bonifácio
Paulo Silveira e Sousa"
"Nós, Leitores, e o Encerramento da Biblioteca Nacional
Após várias notícias e artigos publicados na imprensa relativos ao encerramento dos serviços de leitura da Biblioteca Nacional (BN), gostaríamos de destruir algumas ideias atribuídas aos investigadores que questionaram o processo de encerramento da BN. É, entre nós, consensual que as obras de ampliação e remodelação da BN são necessárias. Sabemos que, ao reabrir, a 1 de Setembro de 2011, a instituição reunirá melhores condições para responder às solicitações. O problema diz respeito à forma como foi planeado o seu encerramento. Quem abaixo assina está contra o fecho, por cerca de dez meses, da totalidade do fundo da Sala de Leitura Geral e não, naturalmente, contra as obras de requalificação.
Dizer o contrário é faltar à verdade. A apresentação dogmática de uma, e apenas uma, forma de proceder à transferência dos fundos, como se não houvesse alternativa, merece objecção. A nosso ver, a condução do processo negligenciou os leitores e o facto, importante, de a BN prestar um serviço público. Por exemplo, hospitais e aeroportos são, igualmente, remodelados, todavia não encerram. Por outro lado, há, no estrangeiro, exemplos de outras bibliotecas que migram para edifícios novos, fechando por partes ou durante períodos curtíssimos. Veja-se o caso da British Library, em Londres, ou da Bibliothèque Nationale de France, em Paris.
As notícias e os artigos de opinião publicados tendem a descrever os signatários do abaixo-assinado, recentemente organizado contra o encerramento da BN, como uma casta de privilegiados, ainda por cima birrentos, que não querem ver alterados os seus hábitos de trabalho. Ora, muitos de nós trabalham em várias bibliotecas e arquivos, em Portugal e no estrangeiro, e não apenas na BN. Sabemos do que falamos.
Ao contrário do que afirma a sub-directora da BN, a investigação científica em Portugal vai ser prejudicada, sobretudo nas áreas da História e das Ciências Sociais. Para além de periódicos, o fundo da Sala de Leitura Geral inclui títulos do século XVI ao século XXI. Todos os investigadores serão afectados, e não apenas os que trabalham sobre períodos mais recentes. A doutora Maria Inês Cordeiro pode não conhecer a Hemeroteca Municipal ou a Biblioteca do Palácio Galveias, mas nós sabemos onde ficam e as deficiências que apresentam. Do mesmo modo, pode desconhecer as formas misteriosas como funciona o Depósito Legal (uma obrigação criminosamente esquecida por empresas tipográficas, editoras e autores), mas os investigadores constatam diariamente a ausência de livros, antigos e recentes, que deveriam constar nos fundos das Bibliotecas. Por isso, quando a sub-directora da BN afirma que «há excelentes bibliotecas públicas e universitárias», só podemos interrogar há quanto tempo a doutora Maria Inês Cordeiro não vai - como leitora, naturalmente - a uma dessas “excelentes bibliotecas”, que infelizmente não chegam a contar-se pelos dedos de uma mão.
Se a sub-directora da BN é perita nos labirintos bibliotecários e nós uns ignorantes leitores, diga-nos, por favor, qual a percentagem de obras que apenas existem na BN e às quais o acesso irá portanto ficar vedado e, já agora, qual a percentagem do fundo que existe igualmente em Coimbra ou no Porto (locais para onde os funcionários da BN nos irão, presume-se, reencaminhar). E quem fala de livros, fala de periódicos, uma área onde a incúria nacional é escandalosa. Seriam estas as interrogações que deveriam ter sido atendidas pela direcção da BN, antes de ter decidido o fecho.
Desde há décadas que os decisores políticos têm tratado o sector das bibliotecas e arquivos com negligência. As chamadas «ciências documentais» apenas vieram reforçar a gestão burocrática que substituiu uma direcção assegurada por quem tem formação humanista. Pessoas há, como a doutora Isabel Pires de Lima, ex-ministra da Cultura, que consideram que tudo se resolve com mais cimento e que, provavelmente com sinceridade, julgam que os críticos são velhos que resistem ao maravilhoso mundo do investimento público (DN de 14.07.2010).
Não é esse o caso: queremos, desejamos, obras na BN, incluindo naturalmente locais adequados à preservação dos livros e manuscritos. Mas o processo de reestruturação seguido não é aceitável. Não tendo experiência directa de trabalho nestes locais, a doutora Isabel Pires de Lima deveria ter-se informado do que a BN contém. Em vez disso, limitou-se a fazer um frete político, afirmando que o movimento de crítica - aliás reduzido a um abaixo-assinado – mais não era de uma conspiração de «bloquistas», para mais, alfacinhas.
Este ódio ao Bloco de Esquerda – de que nenhum dos signatários é membro - é um assunto que os apoiantes do Partido Socialista têm de resolver com os respectivos psicanalistas.
Para nós, trata-se apenas de não impedir que a investigação em Portugal prossiga durante um tempo insuportavelmente longo. Ao contrário do que parece supor a Doutora Isabel Pires de Lima, frequentamos as bibliotecas e os arquivos de Lisboa, Porto, Coimbra, Évora e Ponta Delgada. Congratulamo-nos até com o facto de os interesses intelectuais da doutora Isabel Pires de Lima (a hermenêutica da poesia de Fradique Mendes e os versos «fosforescentes» de Eugénio de Andrade) estarem disponíveis em edições correntes, eximindo-a de frequentar as salas de leitura da BN.
Outro argumento falacioso, repetido nos jornais, prende-se com a Biblioteca Vaticana, fechada há vários anos. Este facto foi referido pela sub-directora, doutora Maria Inês Cordeiro, numa notícia que saiu no Público (25.06.2010). Não vale a pena entrar na discussão sobre as especificidades do Estado do Vaticano, mas gostaríamos de lembrar que em Roma, onde fica o dito Estado, existe aberta, e em funcionamento, a Biblioteca Nazionale Centrale di Roma. Ou seja, quem vive em Roma ou em Itália tem alternativa.
Nota-se, na forma como foi anunciado o encerramento, o desprezo pelos leitores. A BN nem sequer projectou a criação de uma sala provisória que pudesse acolher os pedidos de quem tem prazos académicos, financiamentos de projectos aprovados ou livros a entregar a editoras. Curiosamente, esse espaço existe: a antiga sala dos periódicos e o espaço da antiga livraria, ambos desactivados, poderiam servir para tal. Se a BN sabe que os pisos com mais pedidos são o 3.º, 4.º e 5.º, porque não foi previsto, para estes, um fecho por um período curto? Mais, se sabia, pelos vistos há anos, que iria ocorrer um longo período de encerramento (a obra foi adjudicada em 2008), porque não intensificou a digitalização das obras fundamentais?
Na década de 1990, quando o Arquivo Nacional da Torre do Tombo mudou do Parlamento para o Campo Grande, ouviu os seus leitores, pelo que tudo correu de forma aceitável. Quando a BN mudou de São Francisco para o Campo Grande, em 1969, a transferência demorou seis meses. Agora, a BN não estudou uma alternativa, porque não tem peso político, porque ninguém quer saber do que se passa nas bibliotecas e porque o Ministério da Cultura não previu a verba que permitiria acelerar o processo. Sem dinheiro, a BN teve de planear tudo da forma mais barata possível, imaginando que os leitores – que, pela sua natureza, são pouco dados a revoltas – não seriam capazes de contestar. Enganaram-se.
Lisboa, 15 de Julho de 2010
Maria Filomena Mónica
Maria de Fátima Bonifácio
Paulo Silveira e Sousa"
segunda-feira, julho 12, 2010
quinta-feira, julho 08, 2010
domingo, junho 27, 2010
"Entre Nós e as Palavras", o dever de ver esta peça
(clique na imagem para aumentar)
Crítica da revista Visão à peça de homenagem a Mário Viegas, patente no Teatro Estúdio Mário Viegas, no Chiado.
quarta-feira, junho 09, 2010
António Manuel Couto Viana - 1923 - 2010
(Ilustração de Afonso Cruz)O poeta da Távola Redonda - António Manuel Couto Viana nasceu em Viana do Castelo, em 24 de Janeiro de 1923. O Teatro Sá de Miranda era propriedade de sua família e lá começou a dar os primeiros passos na arte de representar e estreou a sua primeira peça de teatro infantil, "A Rosa Verde". Em 1946, foi viver com a família para Lisboa onde conheceu Sebastião da Gama, David-Mourão Ferreira e Vasco Lima Couto. David-Mourão Ferreira, conhecedor da sua paixão pelo teatro, levou-o para o Teatro Estúdio do Salitre onde se estreou como actor, figurinista e encenador. Em 1948, estreou-se na poesia com o livro "O Avestruz Lírico" e desde então publicou dezenas de obras. Entre 1950 e 1954 dirigiu, com David-Mourão Ferreira, Luiz de Macedo e Alberto de Lacerda, os cadernos de poesia "Távola Redonda". Mais tarde dirigiu a revista cultural "Graal" e fez parte do conselho de redacção da revista "Tempo Presente" (1959-1961). O culto do passado está presente em toda a sua obra poética, em oposição ao neo-realismo que era na época a corrente literária dominante. Couto Viana fez parte da direcção do Teatro de Ensaio (Teatro Monumental), Companhia Nacional de Teatro e foi empresário e director do Teatro do Gerifalto, onde apresentou dezenas de peças para crianças. Encenou óperas para o Círculo Portuense de Ópera, Companhia Portuguesa de Ópera (Teatro da Trindade), foi mestre de arte de cena do Teatro Nacional de S. Carlos e orientador artístico da Oficina de Teatro da Universidade de Coimbra. A sua obra foi distinguida com vários prémios e foi condecorado pelo Governo Português e pelo Governo Espanhol.
"António Manuel Couto Viana é poeta, contista, ensaísta, actor, dramaturgo, encenador e figurinista. Entre a Poesia e o Teatro ainda há espaço para a Ópera e a Gastronomia. Reformou-se como Mestre de Cena do Teatro S. Carlos mas está desejoso de se reformar da reforma porque o seu quarto, na Casa do Artista, é uma oficina onde trabalha noite e dia.
Está a escrever três livros ao mesmo tempo, um sobre poetas do Minho, que fica concluído ainda este mês, outro de ensaios, estudos e memórias de viagens e outro ainda de poesia. Nos intervalos faz prefácios e conferências. Uma vida em cheio que recomeça todos os dias, vai para 83 anos. O teatro também tem lugar na sua oficina de reformado. Está a desenvolver um projecto de Teatro Sacro, com os franciscanos do Convento da Luz, em Lisboa.
Autores - A reforma está a dar-lhe muito trabalho?
António Manuel Couto Viana - Desde que estou a viver na Casa do Artista tenho trabalhado imenso, aqui tenho excelentes condições, isto é um projecto extraordinário. Neste momento estou a concluir o terceiro volume dos poetas minhotos, é uma encomenda da Câmara Municipal de Viana do Castelo. O livro inclui 22 autores e tem de estar pronto até final de Dezembro.
São poetas conhecidos do grande público? _Alguns são apenas conhecidos nas suas terras de origem mas figuram na antologia nomes como António Pedro, Tomás de Figueiredo, que não nasceu no Minho mas sempre se considerou um minhoto do coração, e Amândio César.
E o livro de ensaios? _Não é apenas um livro de ensaios, é um livro sobre escritores e literatura, obras e correntes literárias, memórias da minha vida, viagens. É o meu último livro, estou com 82 anos e vou ficar por aqui. Incluo nesta obra um estudo sobre Amélia Janny, uma poetisa do final do século XIX, parnasiana, formalmente perfeita, muito apreciada por Teixeira de Pascoaes e António Feliciano de Castilho. Ela foi contemporânea de João de Deus, que lhe dedicou um poema. Era filha de Correia Caldeira, um minhoto que fez carreira universitária em Coimbra e era sobrinho do célebre Cardeal Saraiva. A Câmara Municipal de Coimbra editou as obras completas de Amélia Janny.
O contista Couto Viana nasceu este ano. É para continuar? _Nunca me passou pela cabeça que o meu livro de contos ("Meias de Seda Vermelha e Sapatos de Verniz com Fivelas de Prata") tivesse tanto êxito. Está concluído um segundo livro de contos, "Os Despautérios do Padre Libório", na mesma linha do primeiro, são 11 contos irónicos, quase satíricos, na maioria pícaros, onde retrato uma época que não vivi - o final do século XIX, princípios do século XX - mas que me chegou por relatos da família.
Quando é editado? _Isso queria eu saber. Para já, não tenho editor, mas também tenho preguiçado a edição do livro, estou a trabalhar em coisas mais imediatas.
Ainda se recorda da sua primeira peça de teatro, no S* de Miranda, em Viana do Castelo? _Fiz l* tanta coisa... O teatro era nosso, herdado do meu avô. Ainda estudante do liceu, fiz lá muitas revistas. A minha vedeta era Estela Varajão, hoje viúva do marechal Costa Gomes. Mas lembro-me perfeitamente do último espectáculo, foi a pedido da minha mãe, que queria angariar receitas para o Socorro de Inverno, uma iniciativa filantrópica através da qual as senhoras de Viana conseguiam dinheiro para os pobres. Levei à cena "A Rosa Verde", a minha primeira peça de teatro infantil. As senhoras de Viana do Castelo queriam que os filhos entrassem no espectáculo e a minha mãe vinha pedir-me mais um papel para o filho ou a filha desta e daquela. Entrou na peça uma multidão.
E depois do Sá de Miranda o Teatro do Salitre? Após "A Rosa Verde" a minha família mudou-se para Lisboa, corria o ano de 1946. Um dia fui ao Café Chiado, que era propriedade de Júlio Dantas, encontrar-me com o poeta Sebastião da Gama, que me apresentou David-Mourão Ferreira. Organizámos um recital de poesia na Faculdade de Letras, onde é hoje a Academia das Ciências. O declamador foi Vasco Lima Couto. Na época, os declamadores eram todos epígonos de João Villaret, declamavam ao seu estilo e o seu reportório. Vasco Lima Couto declamou poemas nossos. Eu escrevi um texto sobre o espectáculo. Mais tarde, David-Mourão Ferreira levou-me para o Teatro Experimental do Salitre. Foi aí que me iniciei como actor, cenógrafo e figurinista, na peça "Isolda", de David-Mourão Ferreira, e que ainda hoje permanece inédita. Mais tarde fiz a peça "Contrabando", também de David-Mourão Ferreira, com Fernanda Botelho e Cecília Guimarães.
E o Teatro da Mocidade? _Aí trabalhei como director, foi uma época muito importante para mim. Jovens cheios de talento, como Rui Mendes, Morais e Castro, Francisco Nicholson, Fernanda Montemor, António Anjos, Alina Vaz, Catarina Avelar e muitos outros, começaram comigo a dar os primeiros passos no teatro.
Dada a sua ligação ao regime, teve dissabores depois do 25 de Abril? _Nada disso. Eu deixei o Teatro da Mocidade em 1968 e além disso nunca fui um político, sou sebastianista, aderi às teses do Quinto Império.
Fernando Pessoa também... _Pois foi, mas escondem essa faceta do poeta. Pessoa tinha uma grande paixão pelos ditadores, escreveu um belíssimo poema ao Miguel Primo de Rivera, quando ele morreu.
E escreveu violentamente contra o Salazar... _Isso é verdade, mas Fernando Pessoa escreveu contra o Salazar porque achava que ele era um ditador coitadinho, que não tomava café nem bebia vinho tinto. Considerava-o um pobre funcionário, burocrata, um verdadeiro pobre diabo. Pessoa gostava do Sidónio Pais, em cima de um cavalo e de espada na mão.
Como se define politicamente? _já disse que nunca fui político, sou um patriota que ama profundamente Portugal, apesar de metade de mim ser espanhol, a minha mãe era de Oviedo. É por isso que também gosto da grandeza espanhola, daquela pompa, do espectáculo. Como gosto da liturgia da Igreja, afinal sou um homem do Teatro. Quando me defino como quintoimperialista estou apenas a dizer que gosto do imperialismo no que ele tem de espectacular.
Portugal vai ser o centro do império? _Portugal para mim é e sempre será a aventura e o sonho, por isso sou sebastianista. Apaixona-me a grandeza do século das Descobertas, gosto dos reis sebásticos, D. António Prior do Crato, D. Pedro V, D. Miguel, os que hão-de vir para salvar a pátria. É verdade que depois dos Descobrimentos nunca mais fizemos nada de grandioso, mas temos de viver com a esperança no horizonte, algo há-de vir.
D. Sebastião, numa manhã de nevoeiro? _Que venha a ilusão, sou um poeta, tenho de participar nas utopias e nos sonhos, alimento a fogueira da ilusão.
O poeta Couto Viana continua na Távola Redonda?
Por acaso, estou a escrever numa linha mais próxima das origens, da estética dos cadernos da Távola Redonda, que fundei com David-Mourão Ferreira, Luiz de Macedo e Alberto de Lacerda. Os poemas de hoje, quase todos de 2004, vão ser publicados no livro "Restos de Quase Nada", mas deve ser uma obra póstuma. Este ano, a 24 de Janeiro, dia do meu aniversário, a Imprensa Nacional Casa da Moeda publicou toda a minha poesia, em dois volumes. A Caixotim Editores editou "O Velho de Novo" uma antologia de poemas extraídos de vários livros de poesia que fui editando ao longo da vida.
E a Ópera? _Nunca abandonei a ópera, continuo a encenar para a Companhia de Ópera de Câmara do Real Theatro de Queluz. Ainda este ano, encenei a "Serva Padrona". Gosto muito do trabalho de encenador, porque tem de melhorar sempre, como o escritor está sempre a emendar, nunca nada está perfeito. Afonso Lopes Vieira dizia que gostava de fazer muitas edições dos seus livros, para estar sempre a emendar.
Continua ligado ao Teatro? _Estive algum tempo afastado mas neste momento trabalho num projecto de teatro sacro. Aqui ao lado da Casa do Artista está o convento dos franciscanos. Eles têm lá um pequeno teatro, muito bonito, e vieram convidar-me para colaborar. Há muitos anos, Eduíno de Jesus, Azinhal Abelho e eu, tínhamos ideia de fazer teatro sacro. Esse projecto ressurgiu agora com os franciscanos. Vamos levar teatro sacro às romarias no Verão e no Inverno fazemos as representações no teatro do convento. Há muito material para representar, desde peças de Gil Vicente até ao teatro religioso.
Continua bom garfo e bom copo? _Continuo a trabalhar com a Confraria de Gastrónomos do Minho, faço intervenções nos congressos e conferências sobre a gastronomia minhota. Sou sócio de honra da Confraria Gastronómica do Alentejo, fiz uma oração de sapiência na Universidade de Évora. Vou escrevendo sobre gastronomia e esses materiais vão em breve ser publicados na Universitária Editora. O livro chama-se "Ao Sabor dos Sabores" e trata da gastronomia minhota mas também da cozinha tradicional portuguesa e internacional. Passo a vida a escrever, sobretudo prefácios e conferências. Ainda há dias fiz uma conferência sobre o poeta Pedro Homem de Mello.
Tem de continuar a trabalhar para viver? _As conferências e prefácios são de graça. Os editores não pagam os direitos de autor e até pior, há pouco tempo fizeram uma edição pirata do livro "Pedras do Céu", de Pablo Neruda, que eu traduzi. A reforma dá apenas para pagar a minha estadia na Casa do Artista. Vou vivendo do que recebo da Fundação Gulbenkian, pelo meu trabalho no Conselho de Leitura." -Texto Site SPA - Entrevista conduzida pelo jornalista Artur Queiroz.
(uma dedicatória que me escreveu)
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