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quarta-feira, novembro 18, 2009
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Dias Cinzentos

Os dias cinzentos são menos dias porque mais escuros. Os dias cinzentos são noites longas, nostálgicas e melancólicas.
Tudo é feito num ritmo lento, arrastado. Até os pensamentos nos surgem em leves brisas ou como vagas de maré baixa que trazem consigo saudades de tempos passados, barcos afundados de antigas memórias, pescadores mortos de outras férias de Verão.
Nos dias cinzentos as casas decoram-se de sombras esbatidas, imperceptíveis. As pratas cinzentas como o dia, não brilham. Os quadros envergonham-se das cores, os sorrisos de outros em fotografias parece que se fecham.
Nos dias cinzentos ficamos mais sós, ainda mais sós do que em dias de Sol a sós.
Nos dias cinzentos visto-me de cor alegre, prolongo as horas de luz em mim e espero a noite, tranquilamente.
Tudo é feito num ritmo lento, arrastado. Até os pensamentos nos surgem em leves brisas ou como vagas de maré baixa que trazem consigo saudades de tempos passados, barcos afundados de antigas memórias, pescadores mortos de outras férias de Verão.
Nos dias cinzentos as casas decoram-se de sombras esbatidas, imperceptíveis. As pratas cinzentas como o dia, não brilham. Os quadros envergonham-se das cores, os sorrisos de outros em fotografias parece que se fecham.
Nos dias cinzentos ficamos mais sós, ainda mais sós do que em dias de Sol a sós.
Nos dias cinzentos visto-me de cor alegre, prolongo as horas de luz em mim e espero a noite, tranquilamente.
sábado, novembro 14, 2009
Teatro - A Dama de Copas e o Rei de Cuba - Companhia Teatral do Chiado

A Companhia Teatral do Chiado, residente no Teatro Estúdio Mário Viegas - Lisboa, estreou na passada Quinta-Feira, 12 de Novembro, a sua mais recente produção: A Dama de Copas e o Rei de Cuba, do sociólogo brasileiro Timochenco Whebi.
Juvenal Garcês - Director da CTC e encenador deste espectáculo - no seu breve discurso de estreia desta peça, referiu que a mesma é o pontapé de saída para a comemoração dos 20 anos da Companhia Teatral do Chiado e que a escolha deste texto não foi inocente. Timochenco Whebi, falecido há uns anos, foi grande amigo de Mário Viegas que nunca teve a oportunidade de encenar uma peça do amigo do "país irmão". Esta era a altura ideal. E a oportunidade de levar à cena um texto em lingua portuguesa.
Juvenal Garcês teve ainda a oportunidade de referir que esta peça foi levada à cena em Portugal, pela mão de Raul Solnado, no dia 22 de Abril de 1974. Três dias depois deu-se a Revolução dos Cravos e a oportunidade do êxito esfumou-se.
E o que dizer desta peça? Tiro certeiro, escolha acertada. Trata-se de um grande texto, escrito para uma realidade das favelas brasileiras mas aqui com uma excelente adaptação à realidade popular portuguesa, realidade popular citadina.
Três personagens muito bem construidas e conseguidas, quer na consistência quer na interpretação - Alexandra Sargento (Zinha), Cristina Basílio (Tita) e Pedro Saavedra (Avelino).
A acção desenrola-se num qualquer quarto de uma qualquer pensão da cidade de Lisboa, onde habitam duas personagens muito diversas mas com um ponto em comum - a solidão e a tentativa de fuga da mesma. Carlos Porto, critico de teatro, quando da estreia em 1974, referiu que esta peça era uma "comédia amarga". Nada mais certo. O segundo acto é, em certas cenas, altamente triste e comovedor.
São duas personagens femininas antagónicas, onde o cordeiro em pele de lobo (e vice-versa) assenta que nem uma luva.
O cenário é irrepreensível, onde as diferenças entre as personagens se notam até no mobiliário.
A escolha musical, apanágio aliás de qualquer encenação de Juvenal Garcês é comovedora e acertada. Amália Rodrigues, com "Formiguinha Bossa Nova" dá o arranque.
A encenação de Juvenal Garcês não apresenta uma única falha e, aqui, a sua imaginação e "sexto sentido" revela-se ao mais alto grau do bom-gosto e da inteligência, nunca caindo no óbvio e no brejeiro, caminho que seria de todo errado mas o mais fácil para o texto em questão.
As referências ao imaginário religioso português - como, não tenho dúvidas, no brasileiro - são uma constante na peça. Quer na referência à Procissão da Senhora da Saúde, quer no sonho de Zinha (onde uma Nossa Senhora aparece - cena de teatro brilhante), ou ainda, no final da peça, na Pieta de Zinha com Avelino (momento de celebração do Kitsch e de um certo imaginário Pierre Et Gilles).
O momento que elejo dos mais comoventes ao longo da peça, foi quando Tita abre uma caixinha de música e põe-se a danças ao som da música. Essa caixinha havia sido já usada por Lia Gama na peça que inaugurou a nova e bonita sala do Teatro Estúdio Mário Viegas - Oh Que Ricos Dias. Inocente ou não, esta caixinha de música marca uma nova etapa da Companhia Teatral do Chiado e do próprio Teatro em Portugal.
Só posso reforçar a escolha acertada de Juvenal Garcês, a sua encenação, os cenário e figurinos, a interpretação das actrizes. O extraordinário texto.
Parabéns Juvenal Garcês e a toda a Companhia Teatral do Chiado por este trabalho e pelos extraordinários 20 anos a encantar Portugal com o que de melhor se faz em Teatro.
Não percam esta peça: Quintas, Sextas e Sábados, às 21 horas, no Largo do Picadeiro, Chiado, Lisboa - Companhia Teatral do Chiado - Teatro Estúdio Mário Viegas
Interpretação: Alexandra Sargento, Cristina Basílio, Pedro Saavedra
Encenação: Juvenal Garcês
Adaptação: Juvenal Garcês, Luciano Cavaco
Cenografia: Luciano Cavaco
Figurinos: Luciano Cavaco
Desenho de Luz: Vasco Letria
Sonoplastia: Sérgio Silva
Assistência de Encenação: Aritz Bengoa
Contra-Regra: Aritz Bengoa
Produção: Companhia Teatral do Chiado
Direcção de Produção: Luís Macedo
Marketing e Comunicação: Nuno Santos
Responsável de Bilheteira: Duarte Nuno Vasconcelos
Bilheteira: Ana Filipa Neves, Joana Barreto
Gestão de conteúdos da página na internet: Duarte Nuno Vasconcelos
quinta-feira, novembro 12, 2009
O Viúvo - Memórias do Fim do Império

Um dos mais aclamados romances do Jornalista/Escritor Fernando Dacosta - O Viúvo - Memórias do Fim do Império - é o livro escolhido pela revista Visão e Jornal Expresso para a colecção Jornalistas Escritores, Escritores Jornalistas... e por apenas € 3.90.
Não perca este extraordinário romance, do mesmo autor de As Máscaras de Salazar e Nascido no Estado Novo.
Crítica ao livro "O Viúvo - Memórias do Fim do Império"
"A escrita de Fernando Dacosta é expressiva duma certa tensão entre duas paixões essenciais: a função jornalística, exercida com a dignidade e a competência que se lhe reconhece e, acumulativamente, a criação literária - em cujo compromisso tem predominado a produção de textos para teatro. Posta nestes termos, esta constatação talvez possa parecer irrelevante, quano o objectivo é a abordagem crítica do romance O Viúvo, obra que mereceu o Prémio Literário Círculo de Leitores - 1986, atribuído por unanimidade. A circunstância de a obra vir já rotulada pelos sucessos dum tal evento (cuja meritória iniciativa não é demais realçar) não me inibe de problematizá-la à luz de outros parâmetros, como seja o de tentar stuá-la, primeiro, no âmbito da anterior obra literária do Autor, depois no centro dum fenómeno recente entre nós (o da ficção publicada por numerosos jornalistas portugueses) e, finalmente, no confronto com o romance que vem sendo o elemento polarizador duma nova geração de escritores.
Não é difícil provar que O Viúvo irrompe, como prova de maturidade e espaço de inovação, em qualquer dos domínios atrás assinalados. A começar, deixa a alguma distância a anterior ficção do A., de que conheço Um Jeep Em Segunda Mão e A Súplica (ambos de 1982) e Sequestraram o Senhor Presidente (1983).
Quanto às obras subscritas por outros jornalistas (ressalvadas que sejam as inevitáveis excepções), é também nítida a separação, assim como a irreversibilidade de O Viúvo relativamente à escrita jornalística (nem sempre despretensiosa) e à outra, a da criação literária - linguística e romanescamente entendida na sua especificidade e sobretudo na sua universalidade. A ruptura situa-se no ponto em que este romance, coexistindo embora com uma salutar estratégia de simplicidade, não cede ao elemento mais redutor da literatura, que é o despojar a linguagem, querê-la meramente epidérmica e, logo, amarelecida, contaminada pela “finalidade” jornalística. Resta, pois, falar de O Viúvo enquanto obra acabada de romance e inseri-lo no mundo diverso e capitoso da nova ficção portuguesa.
Toda a ideia e a própria esquematização estrutural da obra parecem assentar numa evidente dicotomia: a solidão mortal do “viúvo” (o inominado protagonista desta memória lusitana) e o povoamento progressivo dos mundos, dos tempos e dos perfis humanos que servem de suporte a uma certa autópsia moral de um país que enfrenta o seu futuro mas parece minado pelo eco, pela vicissitude convulsa dum passado de oito séculos. O trânsito dessa “memória” faz-se com base no recurso a um acróstico: cada capítulo encima com as letras da palavra LUSITÂNIA, no que parece ser uma organização vertical e paradigmática e, melhor ainda, uma interrogação acerca do devir histórico. Evidentes, também, os paralelismos: o velho octogenário simboliza os oito séculos “morais” (não históricos, mas também históricos] do país que já foi ponto de partida para o mundo desconhecido e agora se situa ao nível do estuário, sem identidade e novamente carecido dum encontro consigo próprio. Depois, os seus transparentes sinónimos éticos e simbólicos: o velho não é senão um despojo (na agonia, nas fezes, no marasmo da paralisia), posto o que a sua relação com o mundo exterior é predominantemente sensorial: o ouvido, a atenção do lobo, a auto-suficiência miserável e quase fantasmal do seu expediente de vida. O forte contraponto do ????????, como espaço fechado do não-acontecido, encontra ainda a possibilidade da fuga para o exterior: aí vívem os outros, num jogo de marionetas e em movimento circulatório, que é simultaneamente de ronda e de afastamento sem remédio. Á equação entre solidão e solidariedade repousa, assim, na sua absoluta contradição.
Prevalece a ideia (e O Viúvo é, substantivamente, um livro de ideias, exigindo, por isso, também uma leitura ideológica) do desconcerto do mundo, nesse progressivo desaguamento da intemporalidade portuguesa, no desenlace pós-imperial e pós-colonial, na própria inutilização dos mitos, no regresso marítimo do torna-viagem de todos nós, na volumétrica sensação de que um novo Alcácer-Quibir (não necessariamente apocalíptico) se reapoderou deste povo. O equilíbrio acentua-se na segurança da síntese, no manejo competente e não demagógico da idiossincrasia lusitana, na própria expressão da nossa típica saudade (dos bons tempos dos heróis, dos resistentes ao fascismo, da euforia revolucionária e do seu mar de sonhos, mesmo até dos símbolos práticos da nossa pequenez). É, como disse, centrado na interrogação dos sofismas portugueses, no refluir da nova identidade, que verdadeiramente assentam a moral e a lição do livro. Nenhuma possibilidade de o catalogar nas premissas do chamado romance histórico, porquanto da História ele capta apenas um universo ensimesmado, algo caótico e assistido até por algum pessimismo (a integraçao europeia será, por fatalidade, um horizonte baixo, uma ameaça cultural?). Não sendo histórico, decorre contudo duma marcada introspecção histórica - mas, sintomaticamente, o tempo físico cobre apenas um Inverno serrano, no berço de Viriato. O octogenário (o jacente, conformado e moribundo octogenário) quase pode ser entendido como o búzio em terra, labirinto e enigma do ser e do não ser português. E, posto assim, no sopé dum destino não cumprido e errado de nascença, é muito mais o depositário desse concerto de vozes na distância do que o mensageiro ideológico da circunstância histórica - nisso diferindo, e radicalmente, do Velho do Restelo de Os Lusíadas. Dentro destas considerações se compõe também esta antí-epopeia, sem idílios nem devaneios, valendo antes como a elegia discreta do nosso vinho e da tragédia que lhe assiste.
Há um novo realismo nesta matriz (típica dos anos 80) em que cada um de nós foi ou é pessoa implicada e pessoa problemática. Há o assomo dum lendário típicamente português e até ibérico (na linha, recorde-se, do inventário das nossas legendas comuns e da sua função etnofantástica). Há, ainda, a transparência da alegoria religiosa, nas mistificações da aparecida e na projecção dum maravilhoso caracterizadamente popular (politicamente utilizado pela ditadura e ainda hoje capitalizado por sectores ideológicos fixos).
Em suma, pela sua actualidade anti-sistêmica, pela inteligência simbólica e concreta dos seus tropos e motivos e pleo modo como O Viúvo parece comportar um mundo de sugestões cuja leitura terá de ser progressiva - não é excessivo afirmar que se trata duma obra exemoplar, a um tempo unívoca e numerosa. Na linha melódica e epistemológica que vem sendo ensaíada pelos escritores da geração a que eu julgo pertencer.
João de Melo
MELO, João de
“[Recensão crítica a “O Viúdo”, de Fernando Dacosta]” / João de Melo. In: Revista Colóquio/Letras. Recensões Críticas, nº 98, Jul. 1987, p. 122-123."
quarta-feira, novembro 04, 2009
Versos escritos por Amália Rodrigues

Ai Esta Pena de Mim
Ai esta angústia sem fim
Ai este meu coração
Ai esta pena de mim
Ai a minha solidão
Ai a minha infância dorida
Ai o meu bem que não foi
Ai minha vida perdida
Ai lucidez que me dói
Ai esta grande ansiedade
Ai este não ter sossego
Ai passado sem saudade
Ai a minha falta de aprego
Ai de mim que vou vivendo
Em meu grande desespero
Ai tudo o que não entendo
Ai o que entendo e não quero
Gostava de Ser Quem Era
Tinha alegria nos olhos
Tinha sorrisos na boca
Tinha uma saia de folhos
Tinha uma cabeça louca
Tinha uma louca esperança
Tinha fé no meu destino
Tinha sonhos de criança
Tinha um mundo pequenino
Tinha toda a minha rua
Tinha as outras raparigas
Tinha estrelas tinha a lua
Tinha rodas de cantigas
Gostava de ser quem era
Pois quando eu era menina
Tinha toda a Primavera
Só numa flor pequenina
Tive Um Coração Perdi-o
Tive um coração perdi-o
Ai quem mo dera encontrar
Preso no fundo do rio
Ou afogado no mar
Quem me dera ir embora
Ir embora sem voltar
A morte que me namora já me pode vir buscar
Tive um coração perdi-o
Ainda o vou encontrar
Preso no lodo do rio
Ou afogado no mar
Trago Fados Nos Sentidos
Trago fados nos sentidos
Tristezas no coração
Trago os meus sonhos perdidos
Em noites de solidão
Trago versos trago sons
Duma grande sinfonia
Tocada em todos os tons
Da tristeza e da agonia
Trago amarguras aos molhos
Lucidez e desatinos
Trago secos os meus olhos
Que choram desde meninos
Trago noites de luar
Trago planícies de flores
Trago o céu e trago o mar
Trago dores ainda maiores
Quando Se Gosta de Alguém
Quando se gosta de alguém
Sente-se dentro da gente
Ainda não percebi bem
Ao certo o que é que se sente
Quando alguém gosta d'alguém
É de nós que não gostamos
Perde-se o sono por quem
Perdidos de amores andamos
Quando alguém gosta de alguém
Anda assim como ando eu
Que não anda nada bem
Com este mal que me deu
Quando se gosta de alguém
É como estar-se doente
Quanto mais amor se tem
Pior a gente se sente
Quando se gosta de alguém
Como eu gosto de quem gosto
O desgosto que se tem
É desgosto que dá gosto
Lágrima
Cheia de penas
Cheia de penas me deito
E com mais penas
Com mais penas me levanto
No meu peito
Já me ficou no meu peito
Este jeito
O jeito de te querer tanto
Desespero
Tenho por meu desespero
Dentro de mim
Dentro de mim um castigo
Não te quero
Eu digo que não te quero....
E de noite
De noite sonho contigo
Se considero
Que um dia hei-de morrer
No desespero
Que tenho de te não ver
Estendo o meu xaile
Estendo o meu xaile no chão
Estendo o meu xaile
E deixo-me adormecer
Se eu soubesse
Se eu soubesse que morrendo
Tu me havias
Tu me havias de chorar
Uma lágrima
Por uma lágrima tua
Que alegria
Me deixaria matar
Ai Minha Doce Loucura
Ai minha doce loucura
Ai minha loucura doce
Meu amor se assim não fosse
Seria a noite mais escura
Meu amor se assim não fosse
Se eu dantes tinha fome
Meu amor anda faminto
Com os beijos que te dei
O que sinto eu já não sei
Eu já nem sei o que sinto
Seria a noite mais noite
Meu amor se assim não fosse
Seria a noite mais escura
Ai minha doce loucura
Ai minha loucura doce
Ai minha loucura doce
Ai minha doce loucura
Ai minha loucura louca
Eu hei-de achar a tua boca
Mesmo na noite mais escura
Se minha alma não ousa
Meu coração que se afoite
Eu hei-de achar tua boca
Ai minha loucura louca
Mesmo na noite mais noite
Meu amor se assim não fosse
Seria a noite mais escura
Ai minha loucura doce
Ai minha loucura louca
Ai minha doce loucura
O Fado Chora-se Bem
Moram numa rua escura
A tristeza e a amargura
A angústia e a solidão
No mesmo quarto fechado
Também la mora o meu fado
E mora meu coração
Tantos passos temos dado
Nós as três de braço dado
Eu a tristeza e a amargura
À noite um fado chorado
Sai deste quarto fechado
E enche esta rua tão escura
Somos vizinhos do tédio
Senhor que não tem remédio
Na persistência que tem
Vem p'ró meu quarto fechado
Senta-se ali a meu lado
Não deixa entrar mais ninguém
Nesta risonha morada
Não há lugar p'ra mais nada
Não cabe lá mais ninguém
Só lá cabe mais um fado
Que neste quarto fechado
O fado chora-se bem
Amor de Mel Amor de Fel
Tenho um amor
Que não posso confessar
Mas posso chorar
Amor pecado
Amor de amor
Amor de mel
Amor de flor
Amor de fel
Amor maior
Amor amado
Tenho um amor
Amor de dor
Amor maior
Amor chorado
Em tom menor
Em tom menor
Maior o fado
Choro a chorar
Tornando maior o mar
Não posso deixar de amar
O meu amor em pecado
Foi andorinha
Que chegou na Primavera
E eu era quem era
Fado maior
Cantado em tom de menor
Chorando um amor de dor
Dor de um bem e mal amado
Grito
Silêncio
Do silêncio faço um grito
E o corpo todo me dói
Deixai-me chorar um pouco
De sombra a sombra
Há um céu tão recolhido
De sombra a sombra
Já lhe perdi o sentido
Ao céu
Aqui me falta a luz
Aqui me falta uma estrela
Chora-se mais
Quando se vive atrás d'ela
E eu
A quem o céu esqueceu
Sou a que o mundo perdeu
Só choro agora
Que quem morre já não chora
Solidão
Que nem mesmo é inteira
Há sempre uma companheira
Uma profunda amargura
Ai solidão
Quem fora escorpião
Ai solidão
E se mordera a cabeça
Adeus
Já fui p'r'além da vida
Do que já fui tenho sede
Sou sombra triste
Encostada a uma parede
Adeus
Vida que tanto duras
Vem morte que tanto tardas
Ai como dói
A solidão quase loucura
Horas de Vida Perdida
Horas de vida perdida
À procura de viver
Vai-se á procura da vida
Não a encontra quem quer
Quem sou eu para dizer
Quem sou eu para o saber
Nem sei se sou ou não sou
Ninguém pode conhecer
Isto de ser e não ser
Sem saber sei entender
Assim sei o que não sei
Sinto que sou e não sou
Entre o que sei e não sei
A minha vida gastei
Sem conseguir entender
Ai quem me dera encontrar
As rimas da poesia
Ai se eu soubesse rimar
Tantas coisas que eu dizia
O Tempo Dantes Corria
O tempo dantes corria
E eu ainda corria mais
Mas vi-te e desde esse dia
Que correm mais os meus ais
O tempo dantes corria
E com ele meus folguedos
Mas vi-te e desde esse dia
Correm p'ra ti meus segredos
O tempo dantes corria
E eu corria para a vida
Mas vi-te e desde esse dia
Fiquei de vida perdida
O tempo dantes corria
E eu vivia a correr
Mas vi-te e desde esse dia
Que corro só p'ra te ver
Por Que Voltas De Que Lei
Por que voltas de que lei
Vem este sentir profundo
Por te ver como sei
Me sinto dona do mundo
Por que espada de que rei
Meu amor é fogo posto
És tanto de quanto amei
Que és tudo de quanto gosto
Por este amor que te tenho
Por ser assim como sou
És inferno de onde venho
És o céu para onde vou
Por que voltas de que lei
És tudo de quanto gosto
Me perdi e me encontrei
Nas voltas que tem teu rosto
Por que voltas de que rei
Em meu peito te desenho
És tanto de quanto amei
Que és todo o mundo que tenho
E de tão rica que estou
Nunca tão pobre fiquei
Por ser assim como sou
E te saber como sei
Mãos Desertas
Nesta solidão que é minha
Mora a minha inquietação
E esta angústia que me mata
Mora no meu coração
Salvai o meu coração
Que se queima na fogueira
No fogo desta paixão
Que será p'rá vida inteira
O nosso amor, meu amor
É bom e faz-me sofrer
Prazer que me traz a dor
Do medo de te perder
Ai De Mim Que Me Perdi
Ai de mim que me perdi
Pelos caminhos do tédio
Perdi-me cheguei aqui
Agora não tem remédio
Ai de mim que me perdi
Perdi-me no fim da estrada
Ai de mim porque vivi
A vida desencontrada
Tantos caminhos andados
Não fui eu que os descobri
Foram meus passoa mal dados
Que me trouxeram aqui
Perdida me acho na vida
E a vida já me perdeu
Ando na vida perdida
Sem saber quem a viveu
Por mais que queira encontrar
A razão do meu viver
A razão de cá andar
Não posso compreender
Que culpa tem o destino
Dos caminhos que eu andei
Fui eu no meu desatino
Que andei e não reparei
Perdida estou sem remédio
Meu pecado é meu castigo
Pecado é morrer de tédio
Castigo e viver contigo
Faz-me Pena
Que culpa tem o destino
Deste destino que eu tenho
Se o desgosto é pequenino
Eu aumento-lhe o tamanho
É meu destino
Se o desgosto é pequenino
Eu aumento-lhe o tamanho
Se o desespero matasse
Eu já teria morrido
Talvez alguém me chorasse
Talvez o tenha merecido
Talvez alguém
Talvez alguém me chorasse
Talvez o tenha merecido
Sinto que cheguei ao fim
Das ilusões que não tive
Porque alguém gosta de mim
Algo de mim sobrevive
Cheguei ao fim
Mas se alguém gosta de mim
Algo de mim sobrevive
Adeus que chegou a hora
Há muito a venho esperando
E se por mim ninguém chora
Faz-me pena e vou chorando
Já vou embora
E se por mim ninguém chora
Faz-me pena e vou chorando
Amália Rodrigues - Versos
quarta-feira, outubro 21, 2009
Uma descrição negra de carvão e delirante de gás da Lisboa de Cesário Verde

O SENTIMENTO DE UM OCIDENTAL
I
AVE-MARIAS
Nas nossas ruas, ao anoitecer,
Há tal soturnidade, há tal melancolia,
Que as sombras, o bulício, o Tejo, a maresia
Despertam-me um desejo absurdo de sofrer.
O céu parece baixo e de neblina,
O gás extravasado enjoa-me, perturba-me;
E os edifícios, com as chaminés, e a turba
Toldam-se duma cor monótona e londrina.
Batem os carros de aluguer, ao fundo,
Levando à via-férrea os que se vão. Felizes!
Ocorrem-me em revista, exposições, países:
Madrid, Paris, Berlim, Sampetersburgo, o mundo!
Semelham-se a gaiolas, com viveiros,
As edificações somente emadeiradas:
Como morcegos, ao cair das badaladas,
Saltam de viga em viga, os mestres carpinteiros.
Voltam os calafates, aos magotes,
De jaquetão ao ombro, enfarruscados, secos,
Embrenho-me a cismar, por boqueirões, por becos,
Ou erro pelos cais a que se atracam botes.
E evoco, então, as crónicas navais:
Mouros, baixéis, heróis, tudo ressuscitado
Luta Camões no Sul, salvando um livro a nado!
Singram soberbas naus que eu não verei jamais!
E o fim da tarde inspira-me; e incomoda!
De um couraçado inglês vogam os escaleres;
E em terra num tinido de louças e talheres
Flamejam, ao jantar, alguns hotéis da moda.
Num trem de praça arengam dois dentistas;
Um trôpego arlequim braceja numas andas;
Os querubins do lar flutuam nas varandas;
Às portas, em cabelo, enfadam-se os lojistas!
Vazam-se os arsenais e as oficinas;
Reluz, viscoso, o rio, apressam-se as obreiras;
E num cardume negro, hercúleas, galhofeiras,
Correndo com firmeza, assomam as varinas.
Vêm sacudindo as ancas opulentas!
Seus troncos varonis recordam-me pilastras;
E algumas, à cabeça, embalam nas canastras
Os filhos que depois naufragam nas tormentas.
Descalças! Nas descargas de carvão,
Desde manhã à noite, a bordo das fragatas;
E apinham-se num bairro aonde miam gatas,
E o peixe podre gera os focos de infecção!
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