terça-feira, outubro 20, 2009

Uma pérola de Bocage - "A Água"


"A Água",
de Manuel Maria Barbosa du Bocage.

Meus senhores eu sou a água
que lava a cara, que lava os olhos
que lava a rata e os entrefolhos
que lava a nabiça e os agriões
que lava a piça e os colhões
que lava as damas e o que está vago
pois lava as mamas e por onde cago.

Meus senhores aqui está a água
que rega a salsa e o rabanete
que lava a língua a quem faz minete
que lava o chibo mesmo da raspa
tira o cheiro a bacalhau rasca
que bebe o homem, que bebe o cão
que lava a cona e o berbigão.

Meus senhores aqui está a água
que lava os olhos e os grelinhos
que lava a cona e os paninhos
que lava o sangue das grandes lutas
que lava sérias e lava putas
apaga o lume e o borralho
e que lava as guelras ao caralho

Meus senhores aqui está a água
que rega rosas e manjericos
que lava o bidé, que lava penicos
tira mau cheiro das algibeiras
dá de beber ás fressureiras
lava a tromba a qualquer fantoche e
lava a boca depois de um broche.

Já Gozam Com Obama


Os reis do humor da TV americana, que os conservadores tanto acusaram de conluio com Obama durante a campanha eleitoral, mudaram de agulha e começaram a bater no presidente dos Estados Unidos.

Há poucos dias, Jay Leno, da NBC, abriu as hostilidades no seu programa: "É realmente impressionante. Obama ganhou o Prémio Nobel da Paz. Ironicamente, o seu maior feito como presidente, até ao momento, foi ganhar o Prémio Nobel da Paz..."

Ainda na NBC, nova bicada de Conan O´Brien: "Ontem à noite, a Casa Branca organizou uma homenagem à música latina. O presidente Obama sacudiu-se um pouco na pista de dança e tanto bastou para que um comité da Suécia lhe concedesse de imediato um Grammy Latino..."

Na estação HBO, Billy Mayer brincou com o facto de Obama não ter conseguido levar os Jogos Olímpicos de 2016 para Chicago: "Depois de vermos em manifestações cartazes com o bigode de Hitler na cara de Obama, temos provas de que Obama não é um Hiltler. Quando Hitler quis ter umas Olimpíadas, deram-lhas..."-

Esta reviravolta dos humoristas está a atingir tais proporções que até já despertou a atenção de diversos comentadores políticos, desde o "The New York Times" até ao "The Los Angeles Times".
In: Portal Sapo.pt

domingo, outubro 04, 2009

Mercedes Sosa

(Mercedes Sosa e a Presidente Argentina Cristina Kirchner, em 2005)

Cantora argentina Mercedes Sosa morre aos 74 anos

04.10.2009

A cantor folk argentina Mercedes Sosa, que lutou contra as ditaduras fascistas na América do Sul com a sua potente voz e se tornou numa lenda da música latino-americana, morreu hoje, aos 74 anos.

Há vários dias que Mercedes Sosa estava internada no hospital, com problemas renais.

O corpo da cantora está já a ser velado no Congresso Nacional, em Buenos Aires, para que o público argentino possa despedir-se de uma das suas cantoras favoritas.

Carinhosamente apelidada de La Negra - devido ao seu cabelo preto e à tez morena - Sosa foi igualmente chamada de “voz de uma maioria silenciosa”, tendo sempre lutado pelos direitos dos mais pobres e pela liberdade política.

A sua versão da música “Gracias a la Vida”, de Violeta Parra, tornou-se um hino para os esquerdistas de todo o mundo, nas décadas de 1970 e 1980, quando foi forçada a exilar-se na Europa e os seus discos foram banidos.

As suas imagens de marca eram o seu cabelo comprido e os seus ponchos, que usava durante os espectáculos ao vivo, fazendo ouvir a sua voz poderosa.

Nas décadas de 1960 e 1970, Sosa foi uma das expoentes máximas do politizado movimento Nuevo Cancionero, que quis levar a música folk de regresso às suas origens.

Politicamente, Sosa foi membro do Partido Comunista e as suas simpatias políticas acabaram por a obrigar ao exílio, em 1979 (ano em que Jorge Videla encabeçou a junta militar), depois de ter sido presa - bem como toda a sua audiência - durante um concerto na cidade universitária de La Plata.

Sosa dizia frequentemente ser uma mulher de esquerda, mas que a sua única vocação era a música. “Eu nasci para cantar”, disse numa entrevista em 2005. “A minha vida é dedicada a cantar, a encontrar canções e a cantá-las (...) Se eu me envolvesse na política, teria que negligenciar aquilo que é mais importante para mim, a canção folk”.

Sosa nasceu o seio de uma família de trabalhadores, na província de Tucuman, a 9 de Julho de 1935. O seu primeiro contacto com a fama teve-o aos 15 anos, quando ganhou um concurso de talentos promovido por uma rádio local.

Especialista em interpretar as palavras de escritores, abraçou a poesia dos grandes autores argentinos e latino-americanos.

Apesar de, nos últimos anos, ter feito algumas experiências com o rock e com o tango, a sua raiz era a do folk. Era a esse estilo que voltava sempre.

Em 1982 Sosa regressou ao seu país natal, percebendo nessa altura que as suas canções tinham conquistado um público jovem e uma nova geração de fãs.

Numa série de concertos que marcaram o seu regresso aos palcos, fez-se acompanhar de músicos populares argentinos, como Leon Gieco e Charly Garcia, tendo depois iniciado uma digressão mundial que passou pela Europa e pelos Estados Unidos. Aqui arrebatou uma ovação de pé durante dez minutos, após a sua actuação no Carnegie Hall de Nova Iorque.

Sosa continuou a cantar até este ano, permanecendo muito popular e destronando até alguns artistas jovens nas tabelas de vendas.

O seu último álbum, Cantora (volumes 1 e 2) - uma colaboração com artistas como Shakira, Caetano Veloso, Joan Manuel Serrat e Jorge Drexler - foi um dos dez mais vendidos do ano e ganhou várias nomeações para os Grammys Latinos, que serão atribuídos no próximo mês.

Durante a sua carreira, Sosa recebeu ainda uma série de galardões que lhe reconheceram a luta em prol dos direitos humanos, incluindo um Grammy Latino e um prémio da UNESCO

Há já vários anos que Mercedes Sosa se debatia com problemas de saúde, mas nunca quis largar a música. Em 2001 deu uma entrevista em que disse: “Não sou nova nem bonita, mas tenho a minha voz e a minha alma, que me sai quando canto”. - In: Jornal Público Online




Implantação da República

sexta-feira, outubro 02, 2009

Temos de mexer na Amália - Revista Ipsilon - Jornal Público



Tem sido assim a nossa relação com ela: aprisionámos o monstro. Amália tornou-se figura sem corpo, à mercê do imaginário colectivo. A exposição "Amália, Coração Independente" pode ser o início de uma nova relação.

Quando Jean-François Chougnet sugeriu o título “Coração Independente” para a exposição que abre terça-feira em Lisboa, no Museu Berardo e no Museu da Electricidade, não estava a contar com resistência interna. Fez uma sondagem junto da sua equipa e “ninguém gostou”, revela. “Diziam que era um fado de que ninguém gosta, que não era um fado popular, mas um fado para a ‘intelligentsia’, etc.” No dia seguinte, o director do Museu Colecção Berardo apanhou o autocarro 745 para o aeroporto de Lisboa e reparou num jovem com um leitor de MP3 a seu lado – isto é, reparou no que ele ouvia. “Dois dias depois regresso aqui e digo: ‘Se há um jovem no autocarro 745 a ouvir ‘Estranha Forma de Vida’ [canção de que fazem parte os versos ‘Coração independente, coração que não comando’], é porque não é uma coisa totalmente fora...”, ri-se.
É uma “petite histoire”, mas é reveladora do que tem sido a história da nossa relação com Amália Rodrigues: à força de a meter em caixinhas, nunca deixámos que fosse tudo o que podia ser. Aprisionámos o monstro e criámos regras de convivência para o manter sob controle. Amália tornou-se uma figura sem corpo à mercê das disposições do imaginário colectivo. Somos reféns convertidos em sequestradores: a sombra de Amália é inescapável, mas também não a deixamos à solta (e tentamos sempre disparar primeiro).
É por isso que este pode ser o início de uma nova relação com Amália: a exposição “Amália, Coração Independente”, que está no centro de uma verdadeira Operação Amália, com uma programação intensa que se estende a outras instituições (Teatro S. Luiz, Museu do Fado) no momento em que se assinala o décimo aniversário da morte da fadista, propõe repensar o fenómeno nas suas múltiplas dimensões com uma perspectiva contemporânea. Além da tentativa de concentrar Amália na sua totalidade – fadista, actriz de cinema, vedeta internacional, mito nacional, etc. – procuram lançar-se novas abordagens que, se não quebram o espelho, pelo menos poderão abrir fissuras na percepção pública da figura. Talvez um dia olhemos para agora como o momento em que se fez o “reset” de Amália.
Obra aberta

Primeira constatação: apesar da sua popularidade, prestígio e amplitude, Amália tem sido pouco estudada, o que é revelador do estado incipiente dos estudos culturais em Portugal. “A minha primeira surpresa, ao começar a trabalhar sobre Amália, é que não há grande bibliografia”, diz Jean-François Chougnet. “É um assunto evidente mas que não é tão tratado quanto parece.”A única biografia existente, que continua a ser a referência de base para qualquer investigador, foi publicada em 1987 pelo ex-crítico de teatro e antigo director do Museu Nacional do Teatro, Vítor Pavão dos Santos, e reeditada em 2005. Intitulada “Amália – Uma Biografia”, é, na verdade, uma espécie de autobiografia composta a partir de inúmeras e extensas entrevistas (78 horas de gravações) conduzidas entre 1982 e 1986.
“O Vítor Pavão dos Santos é o ponto de partida e de chegada de todos os estudiosos da Amália e a gente tem de tirar o chapéu ao trabalho dele porque sem ele tínhamos de começar do zero”, nota o musicólogo Rui Vieira Nery. “Mas não podemos esquecer que são entrevistas tardias. E que a Amália relembra a sua vida mas também reconstrói a sua imagem. Não é que esteja a tentar enganar-nos. Mas ela própria vai olhando para a sua vida e vai refazendo as coisas. Olha com uma perspectiva que já é posterior e que não corresponde àquela que ela tinha na altura. Temos de desmontar o seu discurso e perceber em cada época qual é a postura dela e como é que foi evoluindo.”
David Ferreira, ex-director da EMI-Valentim de Carvalho, responsável por muitas reedições da obra de Amália e pelas duas compilações que vão ser lançadas em simultâneo com a exposição “Coração Independente”, corrobora: “Faz falta um documento do mesmo género pré-1974” porque “não é a mesma pessoa”.Segunda constatação: pelas suas características, Amália é um tema que resiste à análise crítica. “Há um obstáculo muito grande que parte da relação afectiva que temos todos com ela”, diz Nery, acrescentando que existe uma tentação de proteccionismo em relação à figura. “É preciso não divinizar de tal maneira a Amália que ela se liberta da espécie humana e do contexto específico em que se moveu.”
A exposição “Coração Independente” é acompanhada por um catálogo, que é um complemento, mais do que uma reprodução gráfica da mostra, e denota um esforço para produzir análise. Pediu-se a um conjunto de especialistas que reflectissem sobre os campos de acção de Amália ou sobre aspectos específicos: a sua dimensão política durante o regime salazarista, o reportório musical (Rui Vieira Nery) e poético (António Guerreiro), imagem fotográfica (Emília Tavares), filmografia (António Rodrigues), etc.
Muitos deles, ouvidos pelo Ípsilon, admitem que uma das dificuldades na abordagem de Amália é a profusão de lugares-comuns, a par de uma “aura de respeitabilidade” (Emília Tavares) que contribui para a preservação de uma imagem canónica. “Como é um mito, Amália convida muito à repetição das fórmulas litúrgicas de veneração – ‘a santa do fado’ e por aí fora”, aponta Vieira Nery. “Não podemos ter estas relações de fidelidade mórbida a uma figura intocável. Temos de mexer na Amália.”
O Estado Novo e os fantasmas

Houve pelo menos um caso em que isso implicou tocar numa questão sensível: a eterna dúvida sobre o nível de envolvimento político de Amália durante o Estado Novo. Se calhar, não é por acaso que tenha sido um francês a reabrir o “dossier Amália” no catálogo. Ele admite: não foi por acaso. “A polémica tem a ver com a relação da sociedade portuguesa com o Estado Novo. Não é uma questão específica de Portugal. O dossier da ocupação alemã no meu país só foi reaberto nos anos 70-80, aliás por um americano, Robert O. Paxton.”
Sem escamotear alguns “erros” cometidos pela fadista – a sua actuação no Estádio de Alvalade numa gala promovida pelo Governo num momento de apelo ao boicote e protesto face à fraude eleitoral de 1958, e umas quadras enviadas a Salazar quando este caiu da cadeira (“Ponha-se-me bom depressa / Meu querido presidente / Depressa, que essa cabeça / Não merece estar doente”) –, Chougnet dissipa quaisquer fantasmas de colaboracionismo. “Muitos amalianos dizem que não vale a pena falar disso. Eu acho que vale a pena, precisamente porque não houve crime. A Amália nunca fez parte da PIDE, nunca houve um túnel entre o Palácio de São Bento e a casa dela, como foi dito depois do 25 de Abril.” Refere-se à campanha de boatos que visaram Amália durante o período revolucionário, e que a alinhavam com o regime deposto. Vieira Nery: “Quando tiveram essa postura, as pessoas esqueceram-se de coisas importantíssimas, como o facto de nos anos 50 Amália cantar Sidónio Muralha, que era um exilado político anti-fascista, perseguido pela PIDE. E cantou o ‘Libertação’ do David Mourão-Ferreira, que era o ‘Fado de Peniche’, que toda a gente sabe que foi escrito em alusão à prisão de Álvaro Cunhal. A casa da Amália era um espaço de liberdade onde conviviam intelectuais maioritariamente da oposição. Não se conspirava contra o regime mas não havia restrições de palavra. Portanto, Amália é tudo menos um símbolo da ideologia fascista pura e dura.”
António Rodrigues, programador da Cinemateca, diz que a filmografia de Amália (oito filmes, entre 1946 e 1965) permanece desconhecida porque “a maior parte das pessoas não viu os filmes”. “Os portugueses em geral têm tamanha rejeição em relação ao cinema anterior ao 25 de Abril que se recusam a ver. Se eu passar uma coisa ‘kitsch’, em ‘cinemascope’ e a cores, com o António Calvário, as pessoas não vão ver, nem para rir nem para atirar pedras. Mas se passar uma coisa pimba com a Doris Day, já vão.”
Entre os especialistas existe a opinião de que a carreira de Amália no cinema nunca arrancou como podia, que “não deu certo”, que foi uma ocasião perdida. Rodrigues nota que ela “não falhou mais do que a de Edith Piaf ou Billie Holiday”, que até trabalharam em cinematografias mais sólidas e ricas do que a portuguesa. Tem uma filmografia maior e foi das poucas cantoras “a fazer um papel inteiro”. Amália “nunca é má no cinema”, diz. “É sóbria e intensa.”
Amália total

Jean-François Chougnet viu Amália pela primeira vez ao vivo no Olympia em 1975, e assistiu a mais três concertos em Paris. “Cada um de nós, provavelmente, tem uma Amália verdadeira a defender”, reconhece. Na prática, isso significa que aceitamos uma parte da história mas rejeitamos outra ou outras. A perda é nossa. Amália “teve cinco ou seis carreiras diferentes”, resume o director do Museu do Berardo: os anos iniciais marcados pelo reportório clássico do fado e pela música do compositor Frederico Valério; a carreira de estrela de cinema a partir de 1947; a “fase francesa”, que arranca com a sua participação no filme de 1955 “Les Amants du Tage”, onde canta “Barco negro”, e que desperta o interesse de Bruno Coquatrix, empresário do Olympia; a “explosão de carreira”, que corresponde à colaboração com o compositor Alain Oulman a partir de 1962; e o pós-25 de Abril. Mas em vez de uma visão de totalidade, esta evolução cambiante tem gerado leituras segmentadas, com o privilégio de certas fases em detrimento de outras. “Da grande fase Oulman sabemos tudo”, lembra Chougnet. “Mas a última fase é como algo nos grandes pintores: o último Picasso, o último Renoir são pouco considerados. E, de facto, os amalianos tradicionais dizem que a última fase é mais fraca.”
Vieira Nery diz que a Amália dos primeiros 20 anos de carreira é tão importante quanto a grande renovação dos anos 60 trazida pela sua associação com Alain Oulman. “Se Amália tivesse morrido em 59, nós teríamos de qualquer maneira um contributo extraordinário para a história do fado. É preciso trazer essa primeira Amália ao de cima, para combinar com a Amália da época de grande maturidade e para fazermos um exercício que é delicado e melindroso: ver a Amália final. É muito fácil dizer: ‘Ah, é a Amália sem voz, com a voz estragada’ e tudo o mais. A voz está num frangalho mas há tantos cantores, de jazz por exemplo, que ouvimos até ao fim com interesse. Há uma espécie de maturidade final com uma profundidade e uma inteligência redobradas. Se tivermos estas três épocas traçadas, percebemos um fenómeno muito mais complexo, muito mais rico e muito mais facetado do que lembrarmo-nos apenas da ‘Gaivota’, do ‘Fado Português’ ou do ‘Povo Que Lavas no Rio”, que são momentos grandes mas têm um contexto, têm uma história, não são coisas isoladas.”
Mudar a (sua) imagem

Emília Tavares, historiadora e curadora de fotografia, analisou a construção da imagem de Amália ao longo da sua carreira. O encontro com a fotografia não foi um produto da sua fotogenia, espontaneamente captada pela objectiva, mas o resultado uma gestão cuidada da imagem. “A Amália é muito moderna nisso. É como se um designer hoje pegasse no fado e na imagem dela e fizesse uma coisa nova. Sem distorcer nem renegar os aspectos visuais ligados ao fado, ela consegue modernizá-los e dar-lhes uma nova interpretação e um novo uso. Consegue criar uma personagem, que tem poucos adereços. Reinventa a maneira de usar o xaile, reinventa a maneira de usar o preto, veste-se com vestidos muito mais vaporosos e deixa de usar a chita da Severa. Aquela voluptuosidade bairrista que a Severa tinha, a Amália sofistica-a. Dá-lhe uma envolvência muito misteriosa: o negro, a expressividade, o fechar os olhos quando canta...”
Ao mesmo tempo, Amália não se manteve fiel a um estilo fotográfico. Retratada por portugueses como Silva Nogueira e Augusto Cabrita, e por fotógrafos estrangeiros que são a referência para o “star-system” da época (o Studio Harcourt, em Paris, e Bruno Hollywood), o portfolio de Amália revela mudanças e rupturas e a exposição explora os contrastes entre a Amália dos primeiros anos, representada segundo estereótipos fadistas (mãos na anca, olhar enlevado e dirigido ao céu), e uma progressiva sofisticação que acompanha a sua internacionalização (retrato de estúdio à maneira de Hollywood, imagens que dão a ver o mundanismo de uma estrela, mudanças físicas radicais que abalam a representação tradicional da fadista).
Tal como mudou o reportório do fado para que um público internacional o acolhesse, “Amália percebeu, pela grande intuição que tinha, que era preciso mudar a sua imagem”, diz Emília Tavares. Uma imagem que faz valer a sua feminilidade – “há uma certa erotização, que foi sempre uma coisa pudica de se falar, como se a Amália não tivesse sexualidade” – e que se afasta dos modelos da cultura oficial do salazarismo.
“Era uma mulher independente que fumava em público, e emancipada”, lembra José Manuel dos Santos, programador da Fundação EDP, amigo de Amália. “Parecia, quase antes do tempo, uma daquelas romancistas francesas... Quer dizer, vemos fotografias dela dos anos 60 e parece uma mulher tão livre e emancipada como a Françoise Sagan. Não tinha o estereótipo da mulher portuguesa desse tempo.”
Emília Tavares lamenta a inexistência de uma reflexão crítica no campo dos estudos de género: “Era interessante perceber que efeitos é que esta imagem da Amália teve ou não nalguns sectores da sociedade portuguesa”, diz. Rui Vieira Nery diz o que podia ser o programa de “Coração Independente”: “Não há herdeiros legítimos da Amália. Todos nós somos herdeiros e nela cabem os nossos olhares todos. Porque é uma obra aberta.”
Temos hoje condições para avaliá-la de forma diferente?Jean-François Chougnet é cauteloso. “Se calhar é um pouco cedo. É como na história geral: normalmente temos capacidade para começar uma outra avaliação – não sei se é melhor ou pior – quando a última pessoa a conhecer o facto histórico morre. As primeiras histórias críticas da I Guerra Mundial foram feitas há 20 anos. Da II Guerra começam a ser feitas agora, por uma geração que não fez parte dos acontecimentos. No caso de Amália, a avaliação da geração seguinte vai ser muito diferente. O décimo aniversário da morte, provavelmente, é o primeiro passo. É mais fácil falar da questão politica, por exemplo, do que há dez anos.”
Chougnet já trabalhou sobre pesos-pesados da música popular como Serge Gainsbourg e Jacques Brel, mas não encontra paralelo francês para a relação “única” que os portugueses têm com Amália. “É uma relação de identificação enorme, e toda essa identificação é acompanhada de coisas verdadeiras e coisas falsas, toda a gente tem uma projecção sobre a imagem de Amália que é diferente da realidade. Ela continua a ocupar um lugar central na vida cultural do país, e é provavelmente a personalidade que mais representa o Portugal contemporâneo. Não há muitos casos assim. Talvez só a Oum Kalsoum, no Egipto. Se entrar num autocarro do Cairo, vai ouvir a Oum Kalsoum. Se entrar num autocarro em Lisboa, vai ouvir a Amália.” Num MP3 perto de si.

"Amália, Coração Independente" reparte-se entre o Museu Colecção Berardo e o muito próximo Museu de Electricidade em Lisboa

A exposição “Amália, Coração Independente” (de 6 de Outubro a 31 de Janeiro de 2010) reparte-se entre o Museu Colecção Berardo e o muito próximo Museu da Electricidade, em Lisboa. Não é obrigatório começar por nenhum deles, não há primeira nem segunda partes. São núcleos temáticos diferentes, mas paralelos: no Museu Berardo explora-se o “Mito/Diva”, no Museu da Electricidade o “Glamour”, aproveitando a cenografia industrial da antiga Central Tejo para exibir os vestidos e jóias (de cena e verdadeiras) de Amália.
Apesar de ser composta em grande parte por material e objectos iconográficos – fotografias, revistas, cartazes, capas de discos, trajes, acessórios, provenientes dos principais acervos amalianos, como a Fundação Amália Rodrigues, Museu Nacional do Teatro e Edições Valentim de Carvalho – não é uma exposição ilustrativa ou descritiva da vida e carreira da maior estrela do fado de todos os tempos.
No Museu Berardo, há uma cronologia inicial para contextualizar a figura, em que os principais momentos da carreira surgem sinalizados com a apresentação de trajes e acessórios usados em palco (mas a colecção principal de vestidos está no Museu da Electricidade). Uma das secções é dedicada à fotografia e à evolução da representação da fadista ao longo dos anos, mostrando a cumplicidade que Amália teve com fotógrafos nacionais e estrangeiros, geradora de imagens diversas e, nalguns casos, contrastantes. Noutra área explora-se a contemporaneidade de Amália, expondo peças de artistas que a tiveram como referência. Pela primeira vez são apresentados em conjunto os três corações de filigrana feitos a partir de talheres de plástico por Joana Vasconcelos, intitulados “Coração Independente”, e de cor diferente, a par de um vídeo do italiano Francesco Vezzoli, “Amália Traída”, súmula biográfica telenovelesca conduzida por duas divas, Lauren Bacall e Sónia Braga, e dos retratos produzidos por Leonel Moura e Adriana Molder.
Bruno de Almeida, autor de “The Art of Amália”, documentário concebido nos anos finais de Amália, realizou uma instalação-vídeo especialmente para a exposição, um trabalho de montagem e processamento de imagens de arquivo e sons que vai ser projectado em quatro ecrãs gigantes.
No centro da mostra haverá uma “sala de escuta”, que propõe uma síntese do reportório musical amaliano: 52 temas remasterizados pela Valentim de Carvalho a partir das gravações originais, que irão passar em contínuo. Jean-François Chougnet, director do Museu Berardo e coordenador de “Amália, Coração Independente”, explica que quis evitar “uma cacofonia dentro da exposição”, preferindo concentrar o som numa sala. Seria “uma traição a Amália” tratar o seu reportório como “música de elevador”, diz.
A exposição no Museu Berardo fecha com uma instalação-vídeo concebida por encomenda por Ana Rito: no tríptico “Encore”, duas bailarinas interpretam o tema “Grito” (do álbum “Lágrima”, de 1983), enquanto no ecrã central várias bocas pronunciam o nome de Amália como um mantra. Em qualquer dos casos, o som é inaudível para o espectador. Silêncio, que se vai cantar o fado.

O Teatro S. Luiz e o Museu do Fado desenvolvem em Outubro uma série de iniciativas para homenagear a fadista

Uma tertúlia, com amigos a conversar, como Amália gostava de ter em casa, é o que o Teatro São Luiz se propõe fazer a 6 de Outubro (21h, entrada livre) no encontro Amigos de Amália. “Conversar sobre Amália pode ser um contínuo de lugares comuns. Pode também ser uma tentativa de compreender melhor uma artista complexa, sem protagonismos nem afirmações de personalidade dos intervenientes. E é por esse caminho que queremos seguir”, explica, no programa, Nuno Vieira de Almeida, que vai moderar a conversa entre Duarte Pinto Coelho, João Braga, José Manuel dos Santos, Lili, Mané Bobone, Maria João Avillez e Vítor Pavão dos Santos.
No dia seguinte, 7 (18h30, entrada livre), debate-se o futuro do património de Amália. Um património que, escreve o moderador Rui Vieira Nery, passa pelo “legado físico do seu espaço íntimo”, pelo “registo da sua voz” e por todo “o corpus da documentação que se lhe refere”. Mas vai para além disso. Esse legado “é sobretudo o exemplo da sua postura artística que permanece vivo e continua a motivar intérpretes, poetas e compositores de todos os géneros, bem como artistas em todos os ramos”.
Para falar sobre esse património foram convidados Jean-François Chougnet, director do Museu Berardo, Sara Pereira, directora do Museu do Fado, Américo Lourenço, presidente da Fundação Amália, Vítor Pavão dos Santos, historiador de Teatro, José Carlos Alvarez, director do Museu do Teatro, Manuel Bairrão Oleiro, director do Instituto dos Museus e da Conservação, e David Ferreira, editor discográfico.
Para os dias 9 e 10 (23h30, no Jardim de Inverno), em Fadistas Cantam Amália, o São Luiz convidou os “intérpretes com quem [a fadista] partilhou grandes momentos da sua vida e alguns dos músicos com quem percorreu os quatro cantos do mundo”, para além de representantes da actual geração do fado – ocasião para ouvir Joana Amendoeira, Celeste Rodrigues e João Ferreira Rosa, acompanhados na guitarra portuguesa por Pedro Amendoeira e José Fontes Rocha, na viola de fado por Diogo Clemente e Pedro Pinhal, na viola baixo por Joel Pina e no contrabaixo (e também baixo) por Paulo Vaz, num espectáculo concebido por Hélder Moutinho.No Museu do Fado, entre 6 e 10 de Outubro, estarão expostas fotografias inéditas de Rui Valentim de Carvalho com Amália – homenagem à relação editor/artista que mantiveram desde 1952. Na mesma semana, o museu passa diariamente uma selecção de programas de concertos de Amália (entre 1962 e 1973) escolhidos pelo realizador Bruno de Almeida, num ciclo intitulado Memórias de Amália na Televisão. No dia 10, a terminar a semana, será exibido “The Art of Amália” de Bruno de Almeida.
Entre as iniciativas previstas pelo museu está ainda o espectáculo “Amália em Nova Iorque”, com encenação de Miguel Abreu e interpretação de Maria José Pascoal. E as Visitas Cantadas ao circuito expositivo, com vários artistas a interpretar temas do reportório de Amália.
Foi entretanto já lançada a colecção “Amália Nossa: A Primeira Época de Ouro”, em 12 livros com CD, um projecto editado por João Pinto de Sousa e coordenado por Rui Vieira Nery, que conta com comentários poéticos de Vasco Graça Moura e a direcção de arte e design de Maria João Ribeiro (uma edição Tugaland em parceria com o Museu do Fado, Fundação Amália, jornal PÚBLICO e Museu Colecção Berardo).
Para esta edição – distribuída em exclusivo com o PÚBLICO e disponível nas lojas Fnac – a Tugaland convidou 12 ilustradores a fazerem uma ilustração/imagem de Amália. Haverá também uma edição limitada de 12 LPs em vinil da mesma colecção que é editada em CD (a colecção em vinil é exclusiva para a Fnac).Mas há outros projectos editoriais em torno de Amália: o livro “Nessa Solidão Que É Minha: Amália e os Poetas Que Cantou”, uma compilação de todos os poemas gravados por Amália ao longo da sua carreira; e BD Amália+ 1 CD, uma edição em três volumes de uma banda desenhada de Nuno Saraiva, que “aborda numa linguagem algo ficcionada mas simultaneamente humorística a vida e obra de Amália”.

Vem aí uma versão remasterizada de "Com que Voz"

Amália e a Valentim de Carvalho tiveram uma relação de fidelidade que durou 47 anos e que apenas foi interrompida por um breve período de dois anos, entre 1958 e 1960, quando grava com a editora francesa Ducretet-Thomson. Nos seus últimos anos de vida, a Valentim de Carvalho (VC) editou alguns discos de inéditos, nomeadamente “Segredo”, em 1997, que, entre outros, continha temas compostos por Alain Oulman nunca publicados, e “Rara e Inédita” em 1989, que fez parte de uma caixa de oito CDs que assinalou os 50 anos de carreira. Em 2002, o 40º aniversário de “Busto”, um dos álbuns mais emblemáticos de Amália, foi pretexto para uma edição revista e aumentada, contendo versões alternativas de temas originais e registos de ensaios. Estes lançamentos vieram levantar a ponta do véu sobre a existência de material inédito nos arquivos da VC, cuja dimensão e características talvez nunca tenham sido publicamente esclarecidas. Rui Vieira Nery, coordenador da colecção de 12 CDs “Amália Nossa” que desde a última semana começou a ser vendida pelo PÚBLICO, lamenta que a edição integral e crítica da discografia de Amália ainda não tenha sido feita. “Devíamos já ter todas as sessões de gravação, devíamos saber exactamente o que é que se fez, que ‘takes’ é que foram rejeitados. Tenho a impressão que não há uma nota gravada em estúdio pela Billie Holiday que não esteja editada com comentários. Este trabalho básico não está feito no caso da Amália.”
Em 1999, David Ferreira, então director da EMI-VC, encarregou Jorge Mourinha (actual crítico do PÚBLICO) de inventariar e datar toda a discografia e todo o material gravado por Amália, procurando fixar um reportório o mais exaustivo possível. Uma base de dados que viria a servir de referência a um plano de edições e reedições críticas da discografia de Amália, entretanto iniciado com alguns lançamentos: “Amália/Vinícius”, “Bobino”, “For Your Delight” e “Abbey Road 1952”. David Ferreira, que deixou a EMI e a VC em 2007, mas desde a Primavera é consultor para o catálogo Amália, tenciona lançar uma edição remasterizada e crítica de “Com Que Voz”, com “takes” adicionais, à semelhança de “Busto”, prevista para Março de 2010, no 40º aniversário do álbum. Até final do ano, também planeia editar discos com a Amália a cantar em espanhol, italiano e francês.
Contagem aproximada do material inédito por década: cerca de 30 trechos nos anos 50, que são sobretudo “takes” alternativos de temas editados ou registos de ensaios e “quatro ou cinco inéditos absolutos”; dos anos 60 existem oito inéditos, “entre os quais um possível inédito absoluto”, e dos anos 70, outros oito, mas “quase todos absolutos”; dos anos 80 estão identificados quase 40 inéditos, gravados na sua maioria no início da década, e entre os quais se incluem as gravações feitas para o que deveria ter sido um LP de músicas populares, com orquestra, que não chegou a ser publicado. David Ferreira diz que a sua preocupação sempre foi “prestar um bom serviço”, fazendo “edições cuidadas e seguras” com “som de qualidade”. “Não assino coisas que não sejam bem feitas. As grandes obras são grandes desafios e não podem ser tratadas com os pés. Compare com a arca do Pessoa 10 anos depois da sua morte. A arca do Pessoa demorou muito tempo a ser catalogada.”

Revista Ipsilon, Jornal Público, 02 de Outubro de 2009

terça-feira, setembro 29, 2009

Madonna: a rare and candid interview with the Queen of Pop - Times Online

Madonna shows Dan Cairns all too clearly who is in control - of her life, her astonishing 27-year career, and their meeting
The British nerve centre for Madonna Inc is to be found in two adjoining townhouses in central London. The buildings are a home for the singer and her four children when they are in this country, plus offices and a personal gym. From the outside, the six-storey edifices are standard-issue London mansions — that is, way beyond the standards most of us are accustomed to. There is something impregnable about such streets: an air of discreet luxury pervades them. Litter seems not to blow or rattle down their immaculate expanses; no chewing gum or urgently expelled kebab encrusts their gleaming paving stones. You might glance up at Madonna’s perfect residential pair and admire their symmetry, the cleanness of their architectural lines. But you would be more likely, unless you were a lurking paparazzo, not even to notice them; they are merely two houses in a long, wide street of the things. Anonymous, ordered, well maintained and with a touch of class. Madonna wouldn’t have it any other way. “Where do you live?” she asks when we meet later. Dalston, I say. The name doesn’t register. Stoke Newington, I add as a pointer. “That’s not even in London,” she scoffs. And it isn’t, to be fair. Or not in this London, at any rate.
The evening before I walk down her street and ring the doorbell, I visit another imposing building near the singer’s home. A few days earlier, a leaflet had been thrust into my hand. “It’s a Sign,” it read, and considering that it went on to invite the bearer to an introductory talk on kabbalah at the centre Madonna bought for the organisation six years ago, it seemed just that. The lecture offered an hour-long precis of what cynics would dismiss as woolly mumbo jumbo. One per cent of each of us is concerned with our corporal beings; concentrate on the remaining 99%, the speaker suggests, and we locate the key to a spiritually nourishing life. There is, however, an impression of calm, wellbeing, even complacency. And Madonna, as even a cursory knowledge of her questing, controversy-courting 27-year career will attest, needs calm. Because the opposite of calm, of control, is? “Chaos,” she says later. “Pain, suffering.”
We are meeting to discuss Celebration, the two-disc, 36-track greatest-hits collection that marks Madonna’s final contractual obligation to her record label before she skips off into the $120m embrace of Live Nation, the American concert promoters. Conditions have been imposed: no questions about adoption, about her divorce, about her love life, her faith; discussion is to be confined to her music. Refereeing the joust is the singer’s longtime American publicist, a formidable, don’t-mess-with-me powerhouse named Liz Rosenberg, whose manner, if not appearance, puts one instantly and inescapably in mind of the character of Roz, the giant snail in the film Monsters Inc, with her catch phrase: “I’m watching you, Wazowski. Always watching.” She has worked for the singer pretty much from the moment, in 1982, when Madonna was first handed the keys to the candy store of stardom. “By the way,” Madonna says at one point, “my dream was always to work in a candy store. It was because of my obsession with candy; I don’t have it any more, now that my teeth are all rotten. I did go to a university for a year, as shocking as that might sound to people, and there was a candy shop that I used to go to all the time, an old-fashioned one where all the candy was in these big glass jars. I used to go in there and look at all the candy and think, ‘God, it would be really cool to work in here; I could have candy whenever I wanted.’ So I did want the keys to the candy store, but I had different keys.” Confectionery’s loss, pop’s gain.
In Life with My Sister Madonna, Christopher Ciccone’s bitchy and embittered memoir, the singer’s brother recounts how every single minute of his sister’s day is planned and accounted for. Today, however, that schedule has gone awry. Seconds before I am due at her front door, a call comes through advising me to delay by 15 minutes. Which I duly do, only to be parked in the reception hall for a further quarter of an hour. It gives me a chance to take a look around. As I wait, Madonna appears briefly before descending to the basement, from which various sounds drift up: a peal of throaty laughter; a burst of her new single; and the noise of a vacuum cleaner. Is she catching up on housework, geed up by one of her own songs on the stereo and skipping round, Dyson in hand? Unlikely, but it’s an appealing image. In the hall where I wait, a painting by the 17th-century Dutch baroque artist Gerrit Dou hangs on one of the walls, which are covered with blue brushed velvet. On another wall, a pair of circular canvases show a troupe of pierrots, rope-dancing. Scented Christian Dior candles fill the air in a space so dimly lit, it seems both slightly theatrical and quasi-religious. A huge telephone with multiple extensions bears labels such as M study, M dressing room, M bathroom, Laundry, Music Room, Kitchen, Mews. The picture is one of great wealth combined with logistical and organisational rigour. Discipline, control, precision. “And that’s the definition of me?” Madonna says later, finishing my out-loud train of thought. “Yeah, but I don’t even think, when people write that, that they really believe it. I just think people are tapping into a zeitgeist and repeating things they’ve heard other people say; and it makes good copy.”
Our encounter finally gets under way in Madonna’s study, an all-grey room with a Frida Kahlo painting above the huge art-deco desk, glass shelves bearing art books and family photographs, and two semi-facing armchairs, on which we sit. In the flesh, in black trousers and a sleeveless shirt, the 51-year-old is tiny, even in heels, and pretty, her face somehow more animated and readable than you expect, her features forming into butter-wouldn’t-melt or knowingly ironic expressions as she talks. Her accent is noticeably clipped, with a Queen’s English clarity, a result of the amount of time she began to spend in this country following her marriage to Guy Ritchie. For a good 10 minutes, her discomfort is visible, a hand covering her face as she answers. And when, during this initial awkwardness, I lean into the space between us to emphasise a point, I sense without any room for doubt that I have crossed an invisible line.
You begin to understand why people are so in awe of her: you wouldn’t want to be on the receiving end of one of her frosty glares. Does that mean, I ask at one point, that we have stopped treating her as a mere mortal? “A lot of people are just really confused by me,” she says. “They don’t know what to think of me, so they try to compartmentalise me or diminish me. Maybe they just feel unsafe. But any time you have an overtly emotional or irrational, negative reaction to something, you’re fearing something that it’s bringing up in you.” She pauses and looks over at Rosenberg. “Let’s all call our shrinks right now and have that discussion. Liz?”
When, last year, an American magazine writer profiled Madonna and wrote “Think back on her career. It’s not songs you remember, or not primarily”, you knew what he meant. Videos, film roles, marriages, haircuts, children, charity work: all carry visual freight that has often seemed to overshadow Madonna’s original claim to fame. But doesn’t Celebration, I suggest, indicate that the songs figured in there somewhere, too? That writer, Rosenberg barks suddenly from behind the desk, “is an arsehole”. “Those are harsh words,” Madonna chides, unable to suppress a laugh. “I don’t know, I guess it depends on what side of the fence you’re on. Some people don’t appreciate my music, so they’re not going to think of me as a musician or songwriter. They like to think of me as a sort of cultural phenomenon.” So people listen to her songs and react visually, more than emotionally or musically? “Right — ‘That’s when she had the cone bra on’, ‘That’s the burning-crosses song’. That kind of stuff. I suppose that’s partly my fault.” And when we sift through the milestones of her career, we look for, what? Motivation, irony? “Manipulation, provocation,” she says.
Another commentator wrote that Madonna’s “ability to absorb and incorporate knowledge keeps her one step ahead”. Certainly, her instincts about music, fashion and future cultural trends have proved uncanny. But doesn’t this concentration on her skill for assimilation overlook what she herself does with that knowledge? “Well, yeah,” she replies. “We can all take in information. It’s how we regurgitate it that makes us different. Right?” And might concentrating on the absorption remove her own subsequent input from the equation? “Well, it’s an undermining thing to do, isn’t it?” She laughs. “Isn’t that the point of the exercise?”
I ask her about her early days in New York in the late 1970s, where she arrived, penniless and a university dropout, to pursue a career as a dancer. And where she earned a reputation as a stop-at-nothing, man­ipulative, sexually promiscuous wannabe, discarding managers, bandmates and boyfriends on a whim.
Five years of hard graft, thrift, ruthlessness and opportunism paid off when she signed a record contract in 1982. But they also marked her, indelibly, as an artist; indeed, from the way she talks about the period, you get the sense that, no matter the rumoured £300m fortune, the art collection, the toy boy, the record-breaking tours (her most recent, Sticky & Sweet, grossed a staggering $408m), there is a part of Madonna that is still motivated by the cross-fertilisation and experimentalism of early-1980s New York.
Physically, she left it long ago. Artistically, she’s still there, in her own imagination at least: zooming around taking on influences and collaborators, draining them dry, moving on, a cultural magpie. The budgets, and the headlines, have got bigger; the spirit, she argues, remains. “The city will never be the same,” she says. “It was an amazing time, an amazing convergence of pop culture and art. To think I used to have dinner on a regular basis with Andy Warhol and Jean-Michel Basquiat and Keith Haring. That was like an everyday thing. It was a much more informative part of my life than most of the parts people choose to focus on. I got to do gigs at places like CBGB before I got put underneath the microscope, and that was helpful to me, as an artist, and also to give me a sense of confidence about myself — regardless of the subsequent beatings I would take.”
Madonna contra mundum? It’s a condition you find in many artists, a willed psychological state that pumps them up before they rescale the heights with each successive album or tour. The affirmation of album sales — Madonna is the most successful female recording artist of all time — cannot shake such people from a sense of victimhood, of being misunderstood or under­appreciated. Possibly, this is rooted in the belief that what they create is ineffably trivial. That might explain why some, especially the intellectually curious (or insecure), dabble in a multitude of other arts disciplines or gather around them the appurtenances of cultural refinement and significance. (How revealing, after all, is that “I did go to a university for a year, as shocking as that might sound to people”?)
Madonna is surely better placed than most to resist such doubts. Her recent releases may have been patchy — you’d need to go back to 1998, and Ray of Light, to find her last bona-fide classic — but Celebration offers indisputable affirmation of her pop genius. Vogue, Cherish, Into the Groove, Borderline, Like a Prayer, Material Girl, Frozen: the hits rattle by, potent reminders of what we — and Madonna, too — have lost by drowning in the froth of celebrity, rather than being swept along by the music. “The song comes first,” Madonna agrees. “And all of those other things that people remember, the imagistic things, are secondary, or certainly not as important.” She wants us, she implies, to get back to the music. But surely she doesn’t care, by now, what people think? “I do too,” she zaps back. “But I think I’ve become pretty good at sussing out when people’s opinions of my work are coming from what they think of me personally. You just have to do your thing and then let it go out into the world. The rest, you’re not in control. So there goes that theory that I’m a control freak. I can make all the music, do all the shows that I want, make all the films I want, but I can’t control people’s reactions — at all. They’re going to think what they want to think, and feel what they want to feel. I can only control myself — and sometimes I can’t do that very well.” Her reputation for ruthlessness is, she argues, confused with simple self-discipline, although she concedes: “Sometimes I will stop at nothing.”
Again, it was New York that finetooled that drive into the unstoppable force it still is today. “That was when I knew,” she says, “that that’s what I was going to do — be a singer and a songwriter and an entertainer, and I don’t care if I have to starve, and live in a room with five guys, and wash in a sink; this is what I’m going to do. And because I lived a pretty dismal life and I didn’t care, well, if you’re living a dismal life and you don’t care and you’re enjoying it, then that must be proof that you’ve committed to something.”
The 36 songs on Celebration document the succession of skilfully selected producers and writers — John “Jellybean” Benitez, Steve Bray, Pat Leonard, William Orbit, Mirwais, Stuart Price — Madonna has worked with during her career. Other collaborations — with Prince, with Michael Jackson — either went off like a damp squib or failed entirely. Of the Jackson collaboration, she says: “We spent a chunk of time together, and became friends, but it never happened. I wrote a bunch of words and presented them to him, and he didn’t want to go there. He didn’t want to be provocative. And I said, ‘Well, why come to me?’ I mean, that’s like asking Quentin Tarantino to not put any violence in his films. I felt like he was too inhibited, too shy. Well, I’m shy too. When you’re writing with somebody, you immediately become shy, because, unless you’re already good friends, you can’t be honest and say, ‘That’s the shittest thing I’ve ever heard.’ You’re afraid to say that you don’t like something because you don’t want to hurt their feelings, or you’re afraid your ideas are shit; and if you reveal those cards, they’re not going to want to work with you.” Surely any musician in the world, I think, would kill to work with her. But of course that’s not the point. Madonna needs to want to work with them. It’s never the other way around.
“The first thing that came into my head,” she continues, referring now to Jackson’s death, “was the word ‘abandoned’. I feel like we all abandoned him and put him in a box and labelled him as a strange person. And it used to pain me to see people go write such horrible things about him, accuse him of being a child molester, and all these things that nobody had any proof of — because, you know, I’ve had plenty of things I’ve been accused of. When I adopted David, I was accused of kidnapping him, for God’s sakes; and it’s very hurtful, and people love to jump on bandwagons. The lynch-mob mentality is pretty scary.”
As Madonna said in her tribute to Jackson at last week’s MTV awards, she lost her mother at six, and he lost his childhood. Both engaged in a long search for something to fill those gaps. Madonna is still looking, but alive. Something armoured her on that journey that was missing in Jackson. What advice would she give to her 24-year-old self, about to release her first single and blast into the limelight? “Don’t take it personally,” she answers without a pause.
Listening back to the tape later, I’m struck by how un-uptight she sounds, but also how tired. Perhaps that’s because she still had a few shows left before her world tour finally wound up. But there is, in her voice, the beginning of a sense of weariness, even as she recites self-motivating mantras such as: “I’m still curious and still hungry. I want more knowledge, I want more information, I want more experience.” Her enthusiasm for London, for music, for success, is both audible and visible, especially when she laughs, which she does often. But there are moments when you can’t help but wonder if she doesn’t dream of jumping off the carousel. And, however circumscribed the line of questioning, it is nothing like as controlled as Madonna’s candour, which seems nonetheless designed to brook neither argument nor deeper inquiry. She is open to an extent, but determinedly crease-free.
A growl from Rosenberg indicates that my time is up. And with that, Madonna looks at the watch hanging from a chain around her neck, rises from her chair and says, “Ooh, bathtime.” And is gone. Off to a room that doubtless has its own telephone extension. In a pristine household where everything runs (almost) like clockwork. You look back at the career Celebration marks, at how much could have gone so horribly wrong, and suddenly that craving for order, for security, for predictability, begins to make a lot of sense. Perhaps that’s what it’s all been about, at heart. “Pain, suffering,” she called it. At a young age, Madonna resolved not to experience that again. How much of her has succeeded in that avoidance strategy, only she can know. But that’s probably the only percentage that counts.
From The Sunday Times
September 20, 2009

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Amália Rodrigues com o jornal Público


Durante 12 semanas, e sempre às terças-feiras, o jornal Público lançará um CD com livro no interior dedicados a Amália Rodrigues e que se insere nas diversas homenagens que serão prestadas, no ano em que passam 10 anos sobre o seu desaparecimento físico.
A coordenação do projecto tem a assinatura de Rui Vieira Nery e os textos são, além deste reconhecido musicólogo, da autoria de Vasco Graça Moura.
A colecção, de um grafismo extraordinário, está dividida em 12 temas (um por cada CD):
1 - Paixão
2 - Ciúme
3 - Abandono
4 - Saudade
5 - Sina
6 - Tradição
7 - Palcos
8 - Cordas
9 - Salero
10 - Mundo
11 - Lisboa
12 - Ao Vivo
As gravações deste primeiro CD vão dos anos de 1945 a 1958 e conta com temas como Libertação, Nem às Paredes Confesso ou O Namorico da Rita.
No interior do livro, além dos textos, estão presentes imagens de Amália do arquivo do Museu Nacional do Teatro e do Museu do Fado e da Guitarra Portuguesa.
Estes CD's inscrevem-se também na candidatura do Fado a Património da Humanidade.
Uma colecção que, creio, imprescindível.
Tudo por € 6.90.