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terça-feira, setembro 29, 2009
Amália Rodrigues com o jornal Público

segunda-feira, setembro 28, 2009
Eleições Legislativas 2009 - Resultados
sexta-feira, setembro 18, 2009
quinta-feira, setembro 17, 2009
Notável Discurso de Obama na Abertura do Ano Lectivo 2009/2010

Também conheço essa sensação. Quando era miúdo, a minha família viveu alguns anos na Indonésia e a minha mãe não tinha dinheiro para me mandar para a escola onde andavam os outros miúdos americanos. Foi por isso que ela decidiu dar-me ela própria umas lições extras, segunda a sexta-feira, às 4h30 da manhã.
A ideia de me levantar àquela hora não me agradava por aí além. Adormeci muitas vezes sentado à mesa da cozinha. Mas quando eu me queixava a minha mãe respondia-me: "Olha que isto para mim também não é pêra doce, meu malandro..."
Tenho consciência de que alguns de vocês ainda estão a adaptar-se ao regresso às aulas, mas hoje estou aqui porque tenho um assunto importante a discutir convosco. Quero falar convosco da vossa educação e daquilo que se espera de vocês neste novo ano escolar.
Já fiz muitos discursos sobre educação, e falei muito de responsabilidade. Falei da responsabilidade dos vossos professores de vos motivarem, de vos fazerem ter vontade de aprender. Falei da responsabilidade dos vossos pais de vos manterem no bom caminho, de se assegurarem de que vocês fazem os trabalhos de casa e não passam o dia à frente da televisão ou a jogar com a Xbox. Falei da responsabilidade do vosso governo de estabelecer padrões elevados, de apoiar os professores e os directores das escolas e de melhorar as que não estão a funcionar bem e onde os alunos não têm as oportunidades que merecem.
No entanto, a verdade é que nem os professores e os pais mais dedicados, nem as melhores escolas do mundo são capazes do que quer que seja se vocês não assumirem as vossas responsabilidades. Se vocês não forem às aulas, não prestarem atenção a esses professores, aos vossos avós e aos outros adultos e não trabalharem duramente, como terão de fazer se quiserem ser bem sucedidos.
E hoje é nesse assunto que quero concentrar-me: na responsabilidade de cada um de vocês pela sua própria educação.
Todos vocês são bons em alguma coisa. Não há nenhum que não tenha alguma coisa a dar. E é a vocês que cabe descobrir do que se trata. É essa oportunidade que a educação vos proporciona.
Talvez tenham a capacidade de ser bons escritores - suficientemente bons para escreverem livros ou artigos para jornais -, mas se não fizerem o trabalho de Inglês podem nunca vir a sabê-lo. Talvez sejam pessoas inovadoras ou inventores - quem sabe capazes de criar o próximo iPhone ou um novo medicamento ou vacina -, mas se não fizerem o projecto de Ciências podem não vir a percebê-lo. Talvez possam vir a ser mayors ou senadores, ou juízes do Supremo Tribunal, mas se não participarem nos debates dos clubes da vossa escola podem nunca vir a sabê-lo.
No entanto, escolham o que escolherem fazer com a vossa vida, garanto-vos que não será possível a não ser que estudem. Querem ser médicos, professores ou polícias? Querem ser enfermeiros, arquitectos, advogados ou militares? Para qualquer dessas carreiras é preciso ter estudos. Não podem deixar a escola e esperar arranjar um bom emprego. Têm de trabalhar, estudar, aprender para isso.
E não é só para as vossas vidas e para o vosso futuro que isto é importante. O que vocês fizerem com os vossos estudos vai decidir nada mais nada menos que o futuro do nosso país. Aquilo que aprenderem na escola agora vai decidir se enquanto país estaremos à altura dos desafios do futuro.
Vão precisar dos conhecimentos e das competências que se aprendem e desenvolvem nas ciências e na matemática para curar doenças como o cancro e a sida e para desenvolver novas tecnologias energéticas que protejam o ambiente. Vão precisar da penetração e do sentido crítico que se desenvolvem na história e nas ciências sociais para que deixe de haver pobres e sem-abrigo, para combater o crime e a discriminação e para tornar o nosso país mais justo e mais livre. Vão precisar da criatividade e do engenho que se desenvolvem em todas as disciplinas para criar novas empresas que criem novos empregos e desenvolvam a economia.
Precisamos que todos vocês desenvolvam os vossos talentos, competências e intelectos para ajudarem a resolver os nossos problemas mais difíceis. Se não o fizerem - se abandonarem a escola -, não é só a vocês mesmos que estão a abandonar, é ao vosso país.
Eu sei que não é fácil ter bons resultados na escola. Tenho consciência de que muitos têm dificuldades na vossa vida que dificultam a tarefa de se concentrarem nos estudos. Percebo isso, e sei do que estou a falar. O meu pai deixou a nossa família quando eu tinha dois anos e eu fui criado só pela minha mãe, que teve muitas vezes dificuldade em pagar as contas e nem sempre nos conseguia dar as coisas que os outros miúdos tinham. Tive muitas vezes pena de não ter um pai na minha vida. Senti-me sozinho e tive a impressão que não me adaptava, e por isso nem sempre conseguia concentrar-me nos estudos como devia. E a minha vida podia muito bem ter dado para o torto.
Mas tive sorte. Tive muitas segundas oportunidades e consegui ir para a faculdade, estudar Direito e realizar os meus sonhos. A minha mulher, a nossa primeira-dama, Michelle Obama, tem uma história parecida com a minha. Nem o pai nem a mãe dela estudaram e não eram ricos. No entanto, trabalharam muito, e ela própria trabalhou muito para poder frequentar as melhores escolas do nosso país.
Alguns de vocês podem não ter tido estas oportunidades. Talvez não haja nas vossas vidas adultos capazes de vos dar o apoio de que precisam. Quem sabe se não há alguém desempregado e o dinheiro não chega. Pode ser que vivam num bairro pouco seguro ou os vossos amigos queiram levar-vos a fazer coisas que vocês sabem que não estão bem.
Apesar de tudo isso, as circunstâncias da vossa vida - o vosso aspecto, o sítio onde nasceram, o dinheiro que têm, os problemas da vossa família - não são desculpa para não fazerem os vossos trabalhos nem para se portarem mal. Não são desculpa para responderem mal aos vossos professores, para faltarem às aulas ou para desistirem de estudar. Não são desculpa para não estudarem.
A vossa vida actual não vai determinar forçosamente aquilo que vão ser no futuro. Ninguém escreve o vosso destino por vocês. Aqui, nos Estados Unidos, somos nós que decidimos o nosso destino. Somos nós que fazemos o nosso futuro.
E é isso que os jovens como vocês fazem todos os dias em todo o país. Jovens como Jazmin Perez, de Roma, no Texas. Quando a Jazmin foi para a escola não falava inglês. Na terra dela não havia praticamente ninguém que tivesse andado na faculdade, e o mesmo acontecia com os pais dela. No entanto, ela estudou muito, teve boas notas, ganhou uma bolsa de estudos para a Universidade de Brown, e actualmente está a estudar Saúde Pública.
Estou a pensar ainda em Andoni Schultz, de Los Altos, na Califórnia, que aos três anos descobriu que tinha um tumor cerebral. Teve de fazer imensos tratamentos e operações, uma delas que lhe afectou a memória, e por isso teve de estudar muito mais - centenas de horas a mais - que os outros. No entanto, nunca perdeu nenhum ano e agora entrou na faculdade.
E também há o caso da Shantell Steve, da minha cidade, Chicago, no Illinois. Embora tenha saltado de família adoptiva para família adoptiva nos bairros mais degradados, conseguiu arranjar emprego num centro de saúde, organizou um programa para afastar os jovens dos gangues e está prestes a acabar a escola secundária com notas excelentes e a entrar para a faculdade.
A Jazmin, o Andoni e a Shantell não são diferentes de vocês. Enfrentaram dificuldades como as vossas. Mas não desistiram. Decidiram assumir a responsabilidade pelos seus estudos e esforçaram-se por alcançar objectivos. E eu espero que vocês façam o mesmo.
É por isso que hoje me dirijo a cada um de vocês para que estabeleça os seus próprios objectivos para os seus estudos, e para que faça tudo o que for preciso para os alcançar. O vosso objectivo pode ser apenas fazer os trabalhos de casa, prestar atenção às aulas ou ler todos os dias algumas páginas de um livro. Também podem decidir participar numa actividade extracurricular, ou fazer trabalho voluntário na vossa comunidade. Talvez decidam defender miúdos que são vítimas de discriminação, por serem quem são ou pelo seu aspecto, por acreditarem, como eu acredito, que todas as crianças merecem um ambiente seguro em que possam estudar. Ou pode ser que decidam cuidar de vocês mesmos para aprenderem melhor. E é nesse sentido que espero que lavem muitas vezes as mãos e que não vão às aulas se estiverem doentes, para evitarmos que haja muitas pessoas a apanhar gripe neste Outono e neste Inverno.
Mas decidam o que decidirem gostava que se empenhassem. Que trabalhassem duramente. Eu sei que muitas vezes a televisão dá a impressão que podemos ser ricos e bem-sucedidos sem termos de trabalhar - que o vosso caminho para o sucesso passa pelo rap, pelo basquetebol ou por serem estrelas de reality shows -, mas a verdade é que isso é muito pouco provável. A verdade é que o sucesso é muito difícil. Não vão gostar de todas as disciplinas nem de todos os professores. Nem todos os trabalhos vão ser úteis para a vossa vida a curto prazo. E não vão forçosamente alcançar os vossos objectivos à primeira.
No entanto, isso pouco importa. Algumas das pessoas mais bem-sucedidas do mundo são as que sofreram mais fracassos. O primeiro livro do Harry Potter, de J. K. Rowling, foi rejeitado duas vezes antes de ser publicado. Michael Jordan foi expulso da equipa de basquetebol do liceu, perdeu centenas de jogos e falhou milhares de lançamentos ao longo da sua carreira. No entanto, uma vez disse: "Falhei muitas e muitas vezes na minha vida. E foi por isso que fui bem-sucedido."
Estas pessoas alcançaram os seus objectivos porque perceberam que não podemos deixar que os nossos fracassos nos definam - temos de permitir que eles nos ensinem as suas lições. Temos de deixar que nos mostrem o que devemos fazer de maneira diferente quando voltamos a tentar. Não é por nos metermos num sarilho que somos desordeiros. Isso só quer dizer que temos de fazer um esforço maior por nos comportarmos bem. Não é por termos uma má nota que somos estúpidos. Essa nota só quer dizer que temos de estudar mais.
Ninguém nasce bom em nada. Tornamo-nos bons graças ao nosso trabalho. Não entramos para a primeira equipa da universidade a primeira vez que praticamos um desporto. Não acertamos em todas as notas a primeira vez que cantamos uma canção. Temos de praticar. O mesmo acontece com o trabalho da escola. É possível que tenham de fazer um problema de Matemática várias vezes até acertarem, ou de ler muitas vezes um texto até o perceberem, ou de fazer um esquema várias vezes antes de poderem entregá-lo.
Não tenham medo de fazer perguntas. Não tenham medo de pedir ajuda quando precisarem. Eu todos os dias o faço. Pedir ajuda não é um sinal de fraqueza, é um sinal de força. Mostra que temos coragem de admitir que não sabemos e de aprender coisas novas. Procurem um adulto em quem confiem - um pai, um avô ou um professor ou treinador - e peçam-lhe que vos ajude.
E mesmo quando estiverem em dificuldades, mesmo quando se sentirem desencorajados e vos parecer que as outras pessoas vos abandonaram - nunca desistam de vocês mesmos. Quando desistirem de vocês mesmos é do vosso país que estão a desistir.
A história da América não é a história dos que desistiram quando as coisas se tornaram difíceis. É a das pessoas que continuaram, que insistiram, que se esforçaram mais, que amavam demasiado o seu país para não darem o seu melhor.
É a história dos estudantes que há 250 anos estavam onde vocês estão agora e fizeram uma revolução e fundaram este país. É a dos estudantes que estavam onde vocês estão há 75 anos e ultrapassaram uma depressão e ganharam uma guerra mundial, lutaram pelos direitos civis e puseram um homem na Lua. É a dos estudantes que estavam onde vocês estão há 20 anos e fundaram a Google, o Twitter e o Facebook e mudaram a maneira como comunicamos uns com os outros.
Por isso hoje quero perguntar-vos qual é o contributo que pretendem fazer. Quais são os problemas que tencionam resolver? Que descobertas pretendem fazer? Quando daqui a 20 ou a 50 ou a 100 anos um presidente vier aqui falar, que vai dizer que vocês fizeram pelo vosso país?
As vossas famílias, os vossos professores e eu estamos a fazer tudo o que podemos para assegurar que vocês têm a educação de que precisam para responder a estas perguntas. Estou a trabalhar duramente para equipar as vossas salas de aulas e pagar os vossos livros, o vosso equipamento e os computadores de que vocês precisam para estudar. E por isso espero que trabalhem a sério este ano, que se esforcem o mais possível em tudo o que fizerem. Espero grandes coisas de todos vocês. Não nos desapontem. Não desapontem as vossas famílias e o vosso país. Façam-nos sentir orgulho em vocês. Tenho a certeza que são capazes.
Deborah Kristal e Fernando Santos - A História e a Entrevista - Revista Time Out
De dia, Fernando Santos, 46 anos, homem tímido. À noite, no palco, Deborah Kristal, rainha da noite de Lisboa. Encostamo-nos ao balcão do Finalmente Club, à uma da manhã, à espera dele. Chega muito discretamente, pela mesma porta por onde entram os clientes. Irreconhecível, sem as plumase a purpurina. Leva-nos até ao camarim, ali ao lado. Mais apertado que o 58 à hora de ponta. Conversamos, enquanto chegam, para se maquilharem, os outros três travestis que o acompanham em palco: Betty Brown, Nyma e Samantha Rox. Fernando Santos tem ascendente. É o director artístico da casa. A sua personagem é a anfitriã dos espectáculos que todas as noites, às três da manhã, fazem encher a discoteca da Rua da Palmeira.Vêm pessoas de toda a espécie, não só gays, para ver um show que é qualquer coisa entre o teatro de revista e os musicais de casino. Esperam que se abram as pobres cortinas e comecem a piscar as luzes em volta do palco, à moda dos concursos da RTP de má memória – a mística da coisa está toda nisto. Durante uma hora, há canções desgraçadas e orgulhosas. Êxito de bilheteira sempre assegurado.
Fernando Santos é artista há mais de 25 anos. Aos 17, largou a escola e arranjou emprego num pronto-a-vestir da Avenida de Roma. Um amigo cabeleireiro, com quem saía à noite, sugeriu-lhe uma vez que fosse trabalhar para a Fórmula Um, uma boîte na Amadora onde havia shows de travesti. Ele nunca tinha pensado numa coisa dessas, mas arregalou os olhos quando percebeu que era ali que tinha a independência financeira e a liberdade que procurava. Estreou-se como Susy Flower. Na época, início dos anos 80, Lisboa era um paraíso de travestis: só no Príncipe Real, recorda Fernando Santos, havia cinco casas com espectáculos regulares.
Em 1984, adoptou o nome Deborah Snake e passou para o Finalmente. Mas só por dois meses. Não gostou do ambiente e saiu. Andou em digressão, por bares, casinos e cabarets da Europa, e voltou ao Finalmente em 1994, já como Deborah Kristal e director artístico. Saiu mais uma vez em 1996. E regressou em 2000.
Mais do que travesti, considera-se actor. “Não é uma pretensão, são as pessoas que me dizem. E como não é uma nem duas, sou levado a concluir que é verdade e que não estou aqui para fazer de mulher só porque tenho uma pancada qualquer”, ironiza. De vez em quando, aparece noutros palcos, como o da discoteca Mister Gay, na Costa da Caparica. E é convidado para fazer cinema e teatro. Faz de Edgar no novo filme de Luís Filipe Rocha, A Outra Margem, que se estreia esta quinta-feira. E em Junho esteve na peça Desempacotando a Minha Biblioteca, na Gulbenkian.
O à-vontade com que dança e faz playback de divas como Shirley Bassey, Isabel Pantoja ou Rocío Jurado, as suas preferidas, é tudo representação. E o momento final do show, em que chama ao palco alguns espectadores, também. Eles (e elas) costumam ir a medo, mas Deborah Kristal trata-os sempre bem. “É tudo de improviso”, garante. “E mais não digo, é segredo. Os meninos novos [que querem ser travestis] que aprendam e batalhem como eu fiz.” O difícil, no entanto, não é isso. Nem o acertar com o playback. Nem o desenhar os vestidos, para uma costureira da Avenida da Liberdade fazer. “O que custa é ser homem e conseguir ter em palco tanta sensibilidade como uma mulher, ou mais ainda. É uma arte.” E, depois, é preciso não deixar que fora do palco os papéis se confundam. “Talvez nos primeiros tempos isso me tenha acontecido e hoje encontro nos mais novos alguma dessa confusão entre feminino e masculino.”
Ao fim de tantos anos, Fernando Santos está cansado da rotina e quer dar lugar às novas. “Estou a pensar transformar a minha vida mais uma vez”, confessa. “Esta casa garante-nos trabalho todos os dias, mas não tem condições para fazer um espectáculo que me realize e ultrapasse os meus limites.” Em breve, promete esquecer o travesti e dedicar-se só à produção de espectáculos.
Bruno Horta
quinta-feira, 25 de Outubro de 2007
Fernando Santos, 48 anos, conhecido na noite lisboeta como Deborah Kristal, dá corpo a Tónia em Morrer Como um Homem, a nova longa-metragem de João Pedro Rodrigues. Será projectada pela primeira vez em Portugal esta sexta-feira, dia 18, às 22 horas, como filme de abertura do Queer Lisboa, festival de cinema gay e lésbico (no Cinema São Jorge até ao dia 26). A estreia nas salas comerciais está prevista para Outubro.
Trata-se do terceiro filme em que Fernando Santos participa, depois de A Raiz do Coração (2000), de Paulo Rocha, e A Outra Margem (2007), de Luís Filipe Rocha. Desta vez, é protagonista.
Tónia é travesti e namora com Rosário, um heroinómano que quer que ele mude sexo. “Vais ficar sempre assim? Não és carne nem peixe. És um homem com mamas”, diz-lhe Rosário. Tónia resiste à ideia, mas aos poucos torna o seu corpo mais feminino. Será essa a sua tragédia.
Este filme vai pôr muita gente a pensar que, no fundo, todos os travestis gostariam de ser mulheres. Será assim? Muitas pessoas começam a fazer travesti porque têm de facto necessidade de exteriorizar o seu lado feminino. Com os anos, talvez tenham a sorte de saber separar as águas e perceber, como costumo dizer, que de homem não passam e a mulher não chegam. O travesti é uma arte e uma profissão, mas nem todos percebem isso.
Dá por si a chamar a atenção aos novatos que confundem transformismo com identidade sexual? Sem dúvida, muitas vezes. Comecei numa época [início dos anos 80] em que havia meia dúzia de referências que trabalhavam sem essa ideia de feminino fora do palco, mas nem todos têm a mesma sorte.
A vida terrível da personagem Tónia tem alguma coisa que ver com a realidade de hoje ou é um retrato dos loucos anos 80? Já é muito difícil encontrar tanta desgraça. Hoje as pessoas têm mais informação, têm outra cabeça.
E a parte da inveja entre travestis, que também vemos no filme. É passado? Infelizmente ainda acontece. É muito difícil conviver com isso quando se chega a determinado patamar da vida. Isso é feito às vezes de forma muito subtil e perigosa. Mesmo os travestis que já cá andam há alguns anos têm o ego lá em cima, o que é um grande problema.
A Tónia é inspirada na travesti Ruth Bryden [falecida há dez anos]? O fim de vida da Tónia é, sem dúvida, idêntico ao da Ruth Bryden, mas também é o fim de muitos outros travestis. Conheci muitas pessoas ao longo destes anos que podem ser a Tónia. A Ruth Bryden foi apenas o mote para o realizador. Há ali coisas que eu próprio vivi no auge da minha juventude, quando tinha 20 anos e fazia todas as loucuras dessa idade.
Que loucuras eram essas? A bebida, as noitadas, as drogas, o sexo. Fazia eu e faziam os actores e as coristas do Parque Mayer, com quem eu lidava. Ninguém ia para artista para se deitar às nove da noite e acordar às sete da manhã.
Mas hoje é muito certinho. Claro, se tivesse continuado não estaria aqui. Não bebo, não fumo, não me drogo, não faço nada, sou a pessoa mais careta do mundo.
Já conhecia o realizador? Não, nem sabia quem ele era. Foi um amigo comum que nos apresentou. Ele fez muita pesquisa com muitos travestis, quer os que são artistas, quer os que são prostitutos. Nas primeiras abordagens, eu não imaginava que ele me queria para fazer um filme. Estava apenas na fase da pesquisa, queria saber da minha história de vida, das minhas memórias, de situações trágicas ou engraçadas.
E já tinha visto algum filme dele? Nunca. O João Pedro Rodrigues é um excelente profissional, mas eu sou muito romântico e ele vai buscar para os filmes o lado mais difícil da vida. Não preciso mais disso. Quero continuar a alimentar a minha ingenuidade, se é que ainda posso fazê-lo nesta idade.
Vê este filme como o ponto alto da sua vida artística? É um agridoce. É como se o destino estivesse a pôr-me frente àquilo que já vivi e a dar-me razão quando tento fugir do estereótipo do que é um travesti. Acho que o filme é tão realista que assusta. Um travesti está todos os dias rodeado de pessoas embriagadas dentro de um bar, que vivem o dia-a-dia e vão ali descarregar as suas mágoas e frustrações. Essas pessoas projectam em nós aquilo que gostariam de ser e por isso dizem que somos as rainhas da noite e as maiores. Se eu fosse acreditar nisso, viveria numa mentira.
terça-feira, 15 de Setembro de 2009







