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domingo, julho 05, 2009
sábado, julho 04, 2009
E vai dai tive de comprar esta peça...
Papeleira "FADO" de Rafael Bordalo Pinheiro
"Um aspecto que todas as fontes originais sublinham repetidamente, no que respeita a este Fado das dácadas de meados do século, é o da associação indissolúvel entre o canto e a dança. Por mais que se refira o carácter lamentatório - ou mesmo choroso - da melodia, a presença de uma pulsação rítimica bem marcada por batimentos dos calcanhares no chão e por movimentos ondulantes dos quadris é uma característica fundamental que quer as descrições relativas ainda ao Brasil quer os primeiros relatos portugueses nunca deixam de mencionar. Já vimos como Camilos nos fala dos "rijos fados batidos", da "sapatear do fado" e do "rebater trémulo de calcanhares no sobrado"; as quadras supracitadas atribuídas à Severa referem que a Chicória do Sarmento "bate o fado tão bem" e consideram como "supremo gozo [...] bater o fado liró"; o próprio Fado do Vimioso, ao gabar a "voz enternecida" da fadista, acrescenta logo, por entre os elogios que lhe dirige, o facto de esta "dançar o fado com rigor desconhecido", sempre "batendo forte".
Este aspecto, que é um dos elos mais evidentes à tradição afro-brasileira anterior, não pode, pois, ser ignorado, se bem que as descrições relativas ao último terço do século XIX tendam já a evidenciar o progressivo abandono da componente coreográfica em facor de uma execução meramente musical, seja esta apenas instrumental ou envolvendo voz e instrumentos. No entanto, parece haver diferenças consideráveis entre vários tipos de movimentação associados ao Fado. Pinto de Carvalho, escrevendo já na viragem para o século XX, regista, a este respeito, uma observação que além de ser tardia se limita a pouco mais do que um comentário de passagem, e que, apesar de ter sido por diversas vezes citada por outros autores, continua a levantar problemas evidentes de interpretação:
"O fado tem duas espécies de dança: bater o fado e a dança do fado propriamente dita. Bater o fado é uma dança ou meneio particular em que entram duas pessoas ou três: uma que apara (ou duas, às vezes) e que deve estar quieta e o mais firme possível, e a outa que bate, dando regularmente as pancadas com a parte inferior das coxas das pernas do que apara, e meneando-se com requebros obscenos."
E o autor prossegue com a enumeração dos nomes de diversos "batedores de Fado" célebres, entre os quais cita o próprio Conde de Vimioso, e de diversas fadistas que "aparam" com particular garbo essas "batidas", referindo depois separadamente alguns exemplos de "bailarinos de Fado" famosos.
José Ramos Tinhorão parte desta descrição para propor uma identificação deste movimento de "bater o Fado" com aquele em que se pode encontrar igualmente em algumas danças tradicionais afro-brasileiras em que se utiliza a chamada "pernada", um golpe de coxa dado por um dançarino que "bate" na coxa de outro que "apara", procurando desiquilibrá-lo. Se o dançarino que "apara" a pernada não perdeu o equilibrio é ele quem vai em seguida "bater" num outro; se, pelo contrário, se desiquilibrou, o "batedor" pode escolher novo parceiro que tentará também fazer cair. A pernada é dada, em qualquer caso, de surpresa, por entre um jogo de quadris sensual, correspondendo aos "requebros obscenos" de que fala Pinto de Carvalho, e qualquer dos intervenientes pode, em simultâneo, estar a cantar a melodia do fado, improvisando mesmo, por vezes, o respectivo suporte poético.
Esta leitura do investigador brasileiro não só coincide com os dados da descrição específica a que se aplica como concorda ainda com a de Camilo quando o autor do Eusébio Macário nos narra como o seu personagem feminino, a Custódia, ao ouvir cantar o Fado ao irmão, "fazia saracotes de quadris, batendo o pé à frente na atitude marafona de quem apara nos rijos fados batidos".
(...)
Pinto de Carvalho não descreve em detalhe aquilo que designa como "dança do fado, propriamente dita", sendo de admitir que esta corresponda de forma mais directa às coreografias descritas pelos observadores alemães ou por Manuel António de Almeida relativamente ao Brasil nas primeiras décadas do século. De qualquer modo, o que parece implícito no texto, até pelo simples facto da natureza meramente passageira da descrição e do carácter remoto dos exemplos mencionados de "batedores" e "bailariios" de Fado, é que no momento em que este autor está a escrever já ambas as formas de movimento caíram em desuso crescente. Do Fado coreografado de meados do século - tanto "batido" como "dançado" - terão assim ficado gradualmente apenas os apontamentos de movimento ainda incorporados na atitude corporal dos cantores: a postura hirta, semelhante à do parceiro que "apara", o gingar dos ombros ou dos quadris, remniscente dos traços coreográficos anteriores, ou a possibilidade de dar alguns passos, avançando ou recuando, numa tradição que chegará ainda, bem vistas as coisas, a Alfredo Marceneiro.
in: Para uma História do Fado, de Rui Vieira Ney, Edições Jornal Público.
sexta-feira, junho 26, 2009
Amália Rodrigues - Os Primeiros Anos

Frente e Verso do Picture Disc com as primeiras gravações de Amália RodriguesHoje comprei a minha prenda muito antecipada. Um Picture Disc (disco em vinil pintado) com as primeiras gravações de Amália Rodrigues. É uma edição limitada a 600 discos. Não faço ideia qual a editora ou o propósito... se alguém o souber, por favor diga-me. De qualquer forma, o disco - com um som surpreendente - já cá canta... no gira-discos, claro!
quinta-feira, junho 25, 2009
Os hospitais também são Património, com a minha querida Professora Maria Rita Lino Garnel
Os hospitais também são património. Neste programa vamos ver de perto três exemplares de notável significado, implantados em Lisboa nos últimos dois séculos: Estefânia, Miguel Bombarda e Júlio de Matos. São nossos convidados o psiquiatra França Jardim, a investigadora Rita Garnel, o economista Vítor Freire e a pediatra Teresa Neto, entrevistados por Manuel Vilas-Boas.
http://www.tsf.pt/paginainicial/AudioeVideo.aspx?content_id=1248222
http://www.tsf.pt/paginainicial/AudioeVideo.aspx?content_id=1248222
sexta-feira, junho 12, 2009
Tatuagem
Quarta-feira irei tatuar esta imagem nas minhas costas. Depois de muito reflectir, acabava sempre com esta imagem na ideia.A razão aparentemente mais óbvia para tatuar este perfil de Amália Rodrigues é, claro está, a minha profunda admiração e estima pela pessoa que, e durante décadas ao longo do século XX, levou Portugal ao Mundo. E este ano passam dez anos da sua morte.
Mas há razões menos óbvias.
Eu queria algo com que me identificasse, mas que também me reportasse a outras coisas.
Em primeiro lugar a Portugal. País que amo profundamente e que continuo a acreditar ser capaz de grandes conquistas. No perfil de Amália podemos "ver" o perfil de Portugal.
Depois há os poetas, os escritores. Portugal é, desde as medievais Cantigas Trovadorescas, um dos paises com maiores e melhores tradições literárias do Mundo: D. Afonso V, D. Dinis, D. Duarte, Fernando Esguio, João Garcia de Guilhade, Paio Gomes Charinho, Luis de Camões - entre outros - até aos bem mais conhecidos poetas do séc. XIX e XX. Ora, a todos estes deu Amália a voz, reavivando-os.
Depois, claro está, temos o Fado. Género musical que muito me agrada onde, nos momentos melhores ou menos bons da vida, encontro sempre um reflexo, uma ajuda, um conselho, uma similitude. E é no Fado, e estou bem convicto disso, que se encontra reunida e unificada quase nove séculos (se não mais... ainda mesmo da ocupação árabe da Pensinsula Ibérica) do ser e sentir português. Seja o sentir alegre, de festa, de optimismo e grandeza, seja o sentir melancólico, por vezes triste, de um povo "entalado" entre uma Espanha forte e um mar assustador, sem que nos restasse outra grande alternativa que não fosse a Aventura.
Assim, ao escolher esta imagem, homenageio o Fado e os seus interpretes, músicos e poetas. Ao escolher esta imagem, compilo em mim a História de Portugal.
Esta imagem é também a forma de marcar, para sempre, as recordações de férias passadas em casa dos avós maternos, a quem "roubei" as primeiras cassettes da Amália que ouvi, onde me contaram as primeiras histórias sobre ela e onde li os primeiros livros sobre esta mulher e este género musical que nunca mais abandonei. Porque abandoná-lo era, de certa forma, abandonar-me. Descobrir o Fado foi, sem dúvida, descobrir-me a mim.
Tatuar esta imagem é não esquecer-me.
Outras razões existem... mas que não cabem aqui...
Toda a poesia – e a canção é uma poesia ajudada – reflecte o que a alma não tem. Por isso a canção dos povos tristes é alegre e a canção dos povos alegres é triste.
O fado, porém, não é alegre nem triste. É um episódio de intervalo. Formou-o a alma portuguesa quando não existia e desejava tudo sem ter força para o desejar.
As almas fortes atribuem tudo ao Destino; só os fracos confiam na vontade própria, porque ela não existe.
O fado é o cansaço da alma forte, o olhar de desprezo de Portugal ao Deus em que creu e também o abandonou.
No fado os Deuses regressam legítimos e longínquos. É esse o segundo sentido da figura de El-Rei D. Sebastião.
Fernando Pessoa
domingo, junho 07, 2009
A difícil arte de cantar uma verdade positiva

A busca dele continua a mesma: a da verdade. Que em "Um Copo de Sol" chega a ser milagrosamente positiva.
"Eu não consigo cantar nada que não se passe na minha vida, ou que não se tenha passado. Se não, sinto que estou a mentir", dizia-nos Pedro Moutinho há umas semanas, sentado à mesa de um dos seus poisos de eleição, a Tasca do Chico, no Bairro Alto, numa conversa a propósito de "Um Copo de Sol", o seu terceiro e mais recente disco.
Ele estava a tentar explicar como é que a sua relação com o fado funciona e quase tudo o que dizia andava à volta de uma ideia de "verdade". "A minha disposição não é a de que a vida seja obrigatoriamente rocambolesca", continua, "mas ela é mesmo assim. No meu caso foi sempre tudo muito difícil. Não consigo arranjar justificação para isso".
Quase tudo no discurso de Moutinho vai parar a uma ideia de dificuldade. A vida é difícil, cantar é difícil. No entanto, quando o ouvimos cantar, não parece sê-lo: é um dos fadistas da sua geração com mais leveza na garganta. Mas basta fazer-lhe uma pergunta e a sua timidez revela-se: mexe nas mãos constantemente, as pernas tremem, acende cigarros uns atrás dos outros. A sua natureza é, fundamentalmente, insegura: "Irrita-me muito às vezes ser um pouco inseguro", admite, "mas irrita-me mais a dificuldade que tenho de me ouvir".
Conversar com ele é assistir a um "strip-tease": este rapaz, como o seu irmão mais velho (Camané), não sabe mentir e tem uma obsessão com a verdade. Se lhe fazemos uma pergunta mais pessoal, não a contorna - demora-se, pensa muito, e acaba por responder com toda a honestidade, esforçando-se por estar à altura da pergunta. Nunca parte do princípio de que domina a situação.
Nos últimos tempos, teve a tarefa de ouvir os seus dois discos anteriores "para preparar o alinhamento dos concertos" que vai dar agora. "Tenho imensa dificuldade em ouvi-los", diz, como se se penitenciasse por ter cantado naqueles discos. "Começo a gostar mais do que faço agora. Os antigos estão cheios de erros."
Alegria na voz
O que Moutinho faz agora é, de facto, ligeiramente diferente do que fez até aqui. Nos dois discos iniciais ("Primeiro Fado", de 2003, e "Encontro", de 2006), cantava fados tradicionais e agora inclui canções, ainda que tocadas e cantadas em registo fadista.
As canções vêm de gente tão díspar como Amélia Muge, Tiago Bettencourt ou Rodrigo Leão, mas a grande diferença deste disco reside nas palavras, que às vezes são estranhamente positivas, como é notório na canção de Amélia Muge que dá título ao álbum.
"Fiz o último disco com fados tradicionais e pensei que estava na hora de ir buscar outras referências, ao meu gosto. Ouvi dois discos da Amélia: ela é uma grande intérprete e acima de tudo é de uma criatividade fora do vulgar, não se agarra a clichés", diz, antes de chegar ao que verdadeiramente o deslumbrou: "Ela tem uma força de viver muito grande, que transmite aos outros."
Quando Moutinho decidiu fazer um disco diferente dos anteriores percebeu que não podia esperar sentado, por isso foi à luta. "Fui à procura dela, de a conhecer e de me dar a conhecer." Sendo quem é, a tarefa de se dar a conhecer foi levada um pouco mais longe do que o habitual: "Mostrei-lhe a minha vida, o que foram os últimos 15 anos da minha vida. Ela captou de forma muito criativa coisas que se passaram comigo." Amélia escreveu-lhe "Um copo de sol" (a canção): "Queria muito o optimismo que há naquela canção, porque marca uma fase que ando a passar, que é positiva." Amélia tinha-lhe dito que "devia cantar coisas positivas" porque sentia que Moutinho "tinha alegria na voz".
Uma canção como "Um copo de sol" é, de facto, bastante diferente do que costumamos ouvir num disco de fados. Não só em termos melódicos, como nas harmonias, mas, fundamentalmente, na linguagem (directa, actual).
O que há de curioso nesta história é essa ideia de Moutinho sentir a necessidade de mostrar a sua vida a uma desconhecida para poder trabalhar com ela de forma a atingir algo de "verdadeiro". "Eu abro o meu coração a muito poucas pessoas", avança, "mas as pessoas com que vou trabalhar têm de saber quem sou". Diz isto como se nunca lhe tivesse passado pela cabeça ser possível trabalhar com quem não o conheça profundamente. Depois acrescenta: "Eu mal falo de mim, essa é uma das minhas dificuldades. Só falo de mim com quem tenho confiança, e mesmo assim, falo pouco. Por isso só posso trabalhar com amigos."
Conta a história da sua aproximação a Tiago Bettencourt, que conheceu na Mesa de Frades e com quem desenvolveu "uma relação de amizade". A história é Pedro Moutinho vintage: "Ele falou-me um bocado do que se andava a passar na vida dele, eu disse-lhe que tinha passado por isso há pouco tempo e acabei por gostar da canção que ele me trouxe."
Esta busca obsessiva de identificação e subsequente encontro com a alegria não tem nada a ver com um divórcio com o fado tradicional, diz. Estava apenas "à procura de cantar algo mais directo e actual para chegar às pessoas de forma menos rebuscada". Estava a precisar de "coisas com que me identificasse, que tivessem a ver com o que eu vivi".
16.04.2009
Por: João Bonifácio - revista Ispilon (jornal Público)
quarta-feira, junho 03, 2009
terça-feira, maio 26, 2009
Parabéns João Salavisa e à produtora Filmes do Tejo
"Arena", curta de João Salaviza, traz Palma de Ouro de Cannes
A curta-metragem "Arena" de João Salaviza, a única película portuguesa no Festival de Cannes, venceu hoje a Palma de Ouro. O realizador João Salaviza apresentou sábado a curta-metragem "Arena", o seu primeiro filme profissional. "Arena" conta a história de Mauro, um rapaz que está a cumprir uma pena em prisão domiciliária e que enfrenta o dilema de transgredir a lei para acertar contas com um grupo de miúdos marginais. O enviado especial da Antena 1 a Cannes , Tiago Alves, registou o "momento de ouro" de Salaviza.
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