sábado, março 07, 2009

O Inspector Geral - Teatro Cine-Arte A Barraca


Recomendo vivamente. Duas horas e meia de muita gargalhada, numa sátira política, social e familiar assustadoramente actual.
João d'Ávila é um Presidente de Câmara corrupto, despota e rídiculo, de uma qualquer província.
Sabe-se, por uma carta, que um Inspector-Geral - mandado pela capital - irá chegar a qualquer momento à vila.
Começa o drama. O Tribunal que não funciona há anos, o hospital imundo, as ruas uma lixeira, tudo virado do avesso. O Presidente manda limpar a cidade, Tribunal e hospital. E se o dinheiro não chegar... "usem o do saco-azul".
Dois labregos informam o Presidente que está na estalagem um hóspede há duas semanas, que não paga mas manda. ERA O INSPECTOR-GERAL... pensam...
E o melhor começa a partir daqui... equivocos, seduções, traições, festões...
O Inspector-geral mostra um João d'Ávila num registo altamente cómico, vencendo e segurando o papel muitissimo bem.
Maria do Céu Guerra é uma mulher ambiciosa, fogosa e muito, muito, provinciana... mas não muito mais que muitas das citadinas. Um registo cómico muito muito bom... de grande "mérito".
O restante elenco, melhor ou pior, aguenta bem a peça e levando-nos a bons momentos de comédia.
Um texto genial... cómico e muito sério, como tudo o que é caricatural.

Ficha Artística e Técnica

Texto de Nikolai Gogol
Espectáculo de Maria do Céu Guerra
Cenário de Maria do Céu Guerra realizado por Mário Dias
Música e Direcção Musical de António Victorino d’ Almeida
Com: Maria do Céu Guerra, João D'Ávila, Adérito Lopes, Carla Alves, Jorge Gomes, Pedro Borges,
Rita Fernandes, Sérgio Moras, Sérgio Moura Afonso, Susana Costa
participação especial: António Rodrigues e ao piano Madalena Garcia Reis
Poemas: Miguel Martins
Movimento: Catarina Santana
Vozes: Mariana Abrunheiro
Narizes: Inês de Carvalho

Montagem e Carpintaria: Mário Dias
Luminotecnia: Fernando Belo
Sonoplastia: Rui Mamede
Costureira: Inna Siryk
Apoio Técnico: Luis Thomar e José Carlos Pontes
Apoio Pintura e Cenário: Anna Trotinetkaia
Relações Públicas e Produção: Elsa Lourenço, Inês Aboim
Bilheteira: Inês Marques
Secretariado: Maria Navarro
Fotografias: Luís Rocha - MEF

Horário
5ª a Sábado às 21h45
Domingo às 17h00
na sala 1 do TeatroCinearte
de 6 de Março a 31 de Maio de 2009
M/12

Católicos mobilizam-se para ir a Roma à canonização de D. Nuno... RIDICULO, ABSURDO, RETROGRADO... As razões apontados são inacreditáveis

Católicos mobilizam-se para ir a Roma à canonização de D. Nuno

"Vaticano. Canonização de Nuno Álvares Pereira decorrerá no dia 26 de Abril

D. Duarte de Bragança estará presente no evento para representar o beato

Os católicos portugueses já se estão a mobilizar para ir ao Vaticano no dia 26 de Abril assistir à canonização do beato Nuno Álvares Pereira, que vai ser elevado a santo pelo Papa. Já há viagens agendadas e grupos organizados de peregrinos que respondem, assim, ao apelo lançado ontem pela Conferência Episcopal Portuguesa (CEP) de mobilização dos crentes.

Em grupos, individualmente, ou através de agências especializadas de turismo religioso, centenas de católicos já têm a sua viagem planeada, apesar de a data da canonização só ter sido avançada pelo Vaticano no dia 21 de Fevereiro. Há pacotes de fim de semana, uma vez que a cerimónia decorrerá no domingo, mas também viagens de apenas um dia. Nesse dia serão também canonizadas outras quatro figuras da Igreja.

"Temos vários grupos organizados pois as pessoas têm-nos procurado muito. Já temos cerca de 200 pessoas mas contamos vir a ter mais", avançou ao DN Alfredo Ferreira, director-geral da Professional Team, empresa de viagens que tem um sector especializado na área religiosa.

A pedido da família real portuguesa, a empresa Quinto Império Viagens também está a organizar uma peregrinação que levará ao Vaticano, além de muitos adeptos da causa monárquica, D. Duarte de Bragança. Aliás, sendo representante e descendente de D. Nuno, e tendo sido um dos maiores defensores da sua canonização, D. Duarte foi convidado pelo Governo e pelo Vaticano e terá um lugar de destaque na cerimónia.

Nota pastoral enaltece beato

A Conferência Episcopal Portuguesa (CEP) emitiu ontem uma nota onde refere a existência de algumas peregrinações e apela à organização de outras. "Confiamos que outras iniciativas pastorais sejam promovidas para dar a conhecer e propor como modelo o exemplo de virtude heróica que nos deixou este nosso irmão na fé", lê-se no comunicado assinado pelo porta voz Manuel Morujão.

Os bispos congratulam-se com a noticia da santificação do já beato Nuno Santa Maria e enaltecem as suas qualidades morais e espirituais, sublinhando a sua importância numa altura de crise. "Precisamos de figuras como Nuno Álvares Pereira: íntegras, coerentes, santas, ou seja, amigas de Deus e das suas criaturas, sobretudo das mais débeis. São pessoas como estas que despertam a confiança e o dinamismo da sociedade, que fazem superar e vencer as crises", acrescentam os bispos.

D. Nuno é, assim, proposto pela hierarquia da Igreja Católica como referência para os actuais crentes."
Texto de RITA CARVALHO, Diário de Notícias, 07 de Março de 2009

terça-feira, fevereiro 24, 2009

BARACK OBAMA E OS CHIMPANZÉS


Desenhar cartoons sobre Barack Obama está a tornar-se uma actividade tão sensível quanto rabiscar a face austera de Maomé. Como se já não bastasse a polémica palerma criada por uma capa da revista The New Yorker que procurava caricaturar todos os boatos rasteiros levantados sobre Obama durante a campanha, eis que um novo cartoon, publicado agora no tablóide New York Post, volta a originar um coro de protestos. Terrível razão: um aguerrido cartoonista americano ousou desenhar um… chimpanzé.

Aparentemente, devido à cor da pele do actual inquilino da Casa Branca, colocar chimpanzés, macacos ou quaisquer outros primatas em desenhos relacionados com o Governo dos Estados Unidos é tabu para a imprensa ocidental - um atrevimento que convém manter cuidadosamente afastado dos olhares mais sensíveis. Eis o malfadado cartoon assinado por Sean Delonas: dois polícias, acabados de balear um chimpanzé que jaz ensanguentado no chão, e um deles a dizer: "Vão ter de encontrar um outro tipo para escrever o próximo plano económico." Espantosamente, há quem consiga ver no defunto bicho uma alusão directa ao novo Presidente americano. Símio + EUA = Obama, não sei se estão a ver a sofisticação do raciocínio.

A verdade é que dias antes um chimpanzé (verdadeiro) havia mesmo sido abatido pela polícia no Connecticut, após ter atacado uma mulher - notícia que foi abundantemente citada pela comunicação social. Como, então, ignorar aquela que é a referência evidente para voltar a mergulhar no poço sem fundo do racismo? Mistério. O certo é que a pressão da opinião pública foi tanta que o New York Post - um jornal tão racista que apoiou nas primárias democratas Obama contra Hillary Clinton (ao contrário do The New York Times) - se viu obrigado a pedir desculpa pela caricatura, ainda que acrescentando timidamente que "às vezes um cartoon é apenas um cartoon".

Mas a máquina trituradora do politicamente correcto está-se nas tintas para o bom-senso e denota pouco amor pela liberdade de expressão. O que está aqui em jogo é uma falsa polémica em que o racismo está muito mais do lado de quem olha e aponta o dedo do que do lado de quem publicou o cartoon. Confundir, naquele contexto, um chimpanzé com Barack Obama roça a histeria racial. Esqueçam a eleição do primeiro presidente negro: a questão da cor da pele só estará definitivamente ultrapassada quando um cartoonista desenhar sátiras à nova Administração envolvendo macacos sem que alguém lance sobre ele um anátema. Os humoristas já tinham avisado que iriam ter vida difícil com Obama na Casa Branca. Mas isto, há que admitir, é perfeitamente ridículo.
Diário de Noticias, 24 de Fevereiro de 2009. Opinião de João Miguel Tavares

domingo, fevereiro 22, 2009

Lagoa Henriques

Morreu o Mestre Lagoa Henriques



A última vez que estive com o Mestre Lagoa Henriques foi num jantar de homenagem, realizado no seu atelier, à actriz Maria do Céu Guerra. Aqui fica o "programa" do jantar, com um poema escrito pelo Mestre Lagoa Henriques a Maria do Céu Guerra.
Um dos seus últimos criativos foi a concepção/cenografia, juntamente com o Mestre Carlos Amado, do cenário para a peça "Antígona", estreada no ano passado no Teatro Cine-Arte, A Barraca, com a interpretação de, entre outros, Rita Lello, João d'Ávila, Zeca Medeiros, Ruben Garcia e Maria do Céu Guerra.

Aos 85 anos
Morreu o escultor Lagoa Henriques
22.02.2009 - 10h09 Lusa
O escultor Lagoa Henriques faleceu ontem à noite em Lisboa aos 85 anos de idade, de doença prolongada, informou hoje fonte da sua família.

O féretro de Lagoa Henriques, autor da escultura representativa do poeta Fernando Pessoa que se encontra na esplanada do Café Brasileira, no Chiado, em Lisboa, estará a partir de hoje em câmara ardente no seu atelier em Belém, também em Lisboa, a partir das 18h00 e até às 23h00, com funeral marcado para segunda-feira no Cemitério da Ajuda, às 10h30.

Mestre e motivador de sucessivas gerações de criadores artísticos, autor de desenhos e esculturas notáveis, poeta, conferencista e coleccionador de peças tão diversas como pinturas, conchas, livros, troncos de árvores e outros acervos, segundo o seu site na Internet, Lagoa Henriques "deixa um vazio" no círculo em que se movimentava.

Lagoa Henriques deixa uma obra marcada pela transfiguração das formas clássicas através do contacto directo com as pessoas, a cidade e a natureza. Exemplo emblemático dessa ligação das formas eruditas ao quotidiano é a estátuta que criou de Fernando Pessoa, sentado a uma mesa do Café A Brasileira, que o poeta frequentava para escrever e falar com os amigos.

António Augusto Lagoa Henriques, nascido em Lisboa a 27 de Dezembro de 1923, era grande admirador de Pessoa e de Cesário Verde. Dizia que Pessoa tinha sido o seu mestre da realidade interior e Cesário o mestre da realidade exterior, inspirando muitas das suas esculturas, como a do Grupo das Varinas.

O ensino foi outra grande paixão do escultor, que continou a dar aulas e a fazer conferências após completar 80 anos, nomeadamente na Escola de Superior de Belas-Artes do Porto e de Lisboa, e na Universidade Autónoma.

Costumava levar os alunos de desenho à rua para que tivessem contacto com o movimento da cidade, as pessoas, os elementos da natureza, aliando o ensino das formas clássicas à descoberta da realidade.

Foi na Escola de Belas-Artes de Lisboa que iniciou os estudos de escultura, em 1945, mas passados dois anos transferiu-se para a Escola de Belas-Artes do Porto, onde teve como referência principal da sua formação artística o professor Barata Feyo.

Finalizado o curso com nota máxima, conseguiu uma bolsa e foi estudar para Itália, orientado pelo escultor Marino Marini. Esteve ainda em França, Bélgica, Holanda, Grécia e Inglaterra, países onde conseguiu uma visão ampla do ensino do desenho e escultura que viria a introduzir em Portugal.

Regressado ao país natal, a sua carreira fica marcada, nos anos 70, pela destruição de um grande número de peças devido a um incêndio que eclodiu no seu atelier, em Lisboa.

Além da conhecida estátua de Fernando Pessoa, deixou muitas obras de arte pública em várias localidades, como o conjunto "União do Lis e Lena", no centro de Leiria, e a escultura de Alves Redol em Vila Franca de Xira, que causou polémica na altura, por ter retratado o escritor nu, apenas com a boina na cabeça.

Entre outros, recebeu o Prémio Soares dos Reis, o Prémio Teixeira Lopes, o Prémio Rotary Clube do Porto, o Prémio Diogo de Macedo e o Prémio de Escultura da II Exposição de Artes Plásticas da Fundação Calouste Gulbenkian.
Jornal "Público", 22 de Fevereiro de 2009

sábado, fevereiro 21, 2009

Intérpretes de Shakespeare e de Dias Gomes


Teatro. Em Fevereiro de 1965 eram entregues os Prémios da Crítica aos actores Mariana Rey-Monteiro, Rui de Carvalho e João Lourenço. Em contrapartida, os críticos não distinguiam nenhum autor nem nenhum encenador

Sentavam-se na mesma mesa do restaurante os críticos dos jornais salazaristas e dos oposicionistas

Os salazaristas convictos liam o Diário da Manhã, o Novidades e A Voz; os oposicionistas ao regime compravam o República e o Diário de Lisboa; os indiferentes dividiam-se entre o Diário de Notícias e O Século, o Diário Popular e o Jornal do Comércio. Mas os críticos teatrais de Lisboa, como se pode ler no DN de 9 de Fevereiro de 1965, entendiam-se entre si ao ponto de pensarem formar um Clube dos Críticos, "com o fim de se constituírem em entidade juridicamente responsável, fortalecendo ainda a sua posição de autoridade e criando meios de enriquecimento intelectual entre os novos valores que surjam".

A proposta era referida pelo representante do Diário de Lisboa no almoço em que eram entregues os prémios a Mariana Rey-Monteiro ("que, deste modo, reúne pela terceira vez a maioria de votos da Crítica, agora pelo seu desempenho na peça de Valle -Inclan, as Divinas Palavras"), a Rui de Carvalho ("que reuniu, também pela segunda vez, a maioria de votos e que, este ano, foi distinguido pelo seu trabalho na comédia de Shakespeare Dente por Dente"); e a João Lourenço ("o primeiro a receber o Prémio Revelação, pela sua interpretação em O Bem Amado", de Dias Gomes). "Os críticos resolveram, por maioria, não atribuir este ano prémios a autores e a encenadores, tendo em conta a relatividade dos valores revelados." Em contrapartida, "este ano, alargando o âmbito das suas atribuições, foi decidido criar também o Prémio Revelação, que pode não ser destinado a um estreante, mas àquele dos novos que tenha revelado o seu primeiro trabalho promissor".

"Há dez anos que, por iniciativa do falecido dr. Jorge Faria [1888-1960, que iria ser homenageado nesse mês pela Universidade de Coimbra, a quem cedeu o seu espólio e onde há agora o Instituto de Estudos Teatrais Dr. Jorge de Faria], os críticos teatrais de Lisboa se reúnem para conceder o Prémio da Crítica àqueles que, a seu ver, mais se distinguiram na época anterior, como autores, actores e encenadores."

A lista dos distinguidos nos anos anteriores: Amélia Rey Colaço, Eunice Muñoz (duas vezes), Laura Alves, Teresa Mota e Lurdes Norberto (interpretação feminina); Rogério Paulo, Pedro Lemos, Assis Pacheco, Erico Braga e José de Castro (interpretação masculina); Luís Francisco Rebelo, Bernardo Santareno e Romeu Correia (autores); Eugénio Salvador, Manuel Couto Viana, João Guedes e Paulo Renato (encenação).

"No decorrer do almoço [no restaurante Tavares Rico], o eng. Armando Ferreira, na sua qualidade de decano dos críticos, fez a entrega dos prémios, recordou pormenores da actividade dos críticos e dos criticados na época passada, lembrando ainda que se trabalha para dar aos prémios simbólicos - em pergaminho encadernado, com o nome do premiado e da peça em que se distinguiram e, ainda, as assinaturas dos que subscreveram a decisão de atribuição - significado mais amplo."

Obviamente que aos contemplados não restava outra saída que não fosse terem "palavras de cumprimentos para aqueles que os haviam elegido os melhores do ano".


FERNANDO MADAÍL, Diário de Notícias, 22 de Fevereiro de 2009