quarta-feira, fevereiro 11, 2009

Ponte da Barca sem ponte. E, vá lá, safou-se a barca.

Estas vergonhas teimam em continuar no nosso País. Não entendo... e a culpa é da Figueira... pois claro.

Ponte da Barca: Ponte medieval cortada ao trânsito após derrocada de parte da estrutura do pilar central
10 de Fevereiro de 2009, 23:20

Viana do Castelo, 10 Fev (Lusa) - A ponte do séc. XV de Ponte da Barca, sobre o Rio Lima, foi hoje cortada ao trânsito, na sequência da derrocada de parte da estrutura do pilar central, informou hoje o vereador da Protecção Civil na Câmara local.

José Pontes disse à agência Lusa que derrocada ocorreu pelas 21:30 e foi detectada por populares que passavam em cima da ponte e que ouviram "um estrondo enorme", provocado pelas pedras a cair.

"Por motivos de precaução, a ponte vai ficar fechada ao trânsito durante esta noite e amanhã [quarta-feira] será alvo de uma vistoria por técnicos da Estradas de Portugal. Só reabrirá quando houver totais garantias sobre a sua segurança", acrescentou.

Segundo José Pontes, aquela travessia, construída na primeira metade do século XV e classificada como património nacional, apresenta "há bastante tempo" problemas na parte do pilar central, fruto de uma figueira que "teima em crescer" entre as pedras.

"A ponte não tem juntas, foi construída pedra sobre pedra, e essa figueira e respectivas raízes já abriram uma fissura entre as pedras. A derrocada de hoje pode ter acontecido por aí mas, para já, são apenas conjecturas", disse ainda aquele responsável.

O mesmo vereador disse-se convicto de que poderá ter caído "um grande volume de pedra" da estrutura do pilar.

"A erosão, a idade e até a força das águas da barragem do Touvedo, que hoje, por exemplo, estava a turbinar 100 metros cúbicos de água por segundo, também podem ter ajudado ao desmoronamento", admitiu.

Aquela ponte estabelece a ligação entre Ponte da Barca e Arcos de Valdevez, com trânsito regulado por semáforos, já que não permite o cruzamento de um veículo por outro.

Há cerca de um ano, e na sequência de uma perícia, foi vedada a veículos com um peso superior a 3.500 quilos.

A ponte tinha uma intervenção de reforço e reabilitação agendada para "Março ou Abril", um prazo que agora poderá ser antecipado, com a derrocada de hoje.

Os Concelhos de Ponte da Barca e Arcos de Valdevez têm uma outra ponte de ligação, inaugurada há uma década.

VCP.

Lusa/fim

segunda-feira, fevereiro 09, 2009

Amigo fiel

Tinha nele a maior das esperanças e como o amigo mais fiel. Estava sempre que era preciso e, mesmo que não se encontrasse, era fazer apenas uma ronda pelos cafés, lojas extras, bombas de gasolina, e ele lá estava.
Não era preciso muito para pô-lo a falar. Dava conselhos, avisava-o, ria quando ele ria e chorava quando ele chorava.
Por vezes, tinha de o dar. Todo ou apenas uma parte. Mas, passados alguns minutos, ele lá aparecia de novo. Fino, vestido de branco e cabelo ardente.
Acompanhou-o nas esperas mais prolongadas, foi companheiro nas viagens solitárias, ia com ele até à janela espreitar a vista ou, o que é verdade, espreitar os vizinhos da frente na sua rotina diária (normalmente, nocturna).
Se ficava sem o ver muito tempo, descontrolava-se. Ficava ansioso, sem tino, desesperado para o ter.
Quando alguém o avisava que não era bom amigo, não ligava. Bufava mesmo de raiva. Odiava então todos aqueles que, tendo sido amigos dele, o já não eram e tinham um discurso radical quando ele aparecia, desprevenido, com alguém.
Para o ter era necessário mantê-lo a todo o custo… e o custo ia sempre subindo. Chegou a ser banido de alguns locais públicos pelo incómodo que provocava.
Mas ele resistiu em manter a amizade até ao fim. Era o seu mais fiel amigo… mas, no final, matou-o… de cancro de pulmão.

sexta-feira, fevereiro 06, 2009

terça-feira, fevereiro 03, 2009

Amália, quis Deus que fosse o meu nome.


"Era um dia de Primavera. Fui encontrá-la, vestida de vermelho, na sua casa da Rua de S. Bento, numa sala quadrada cheia de flores ("tenho esta loucura, mesmo que tenha a casa até ao tecto com flores eu trago sempre mais..."), e as paredes revestidas de azulejos azuis e brancos. Mas porventura só aquelas paredes, se falassem, seriam capazes de nos contar a história tão singular desta mulher e explicar-nos o seu destino. Ela não é. Traz a vida na pele e o fado no peito e isso chega-lhe, as palavras são só para cantar. Por isso este meu encontro com Amália Rodrigues - como todos os outros que tive com ela - é sobretudo uma atmosfera. E o sussurro de um estado de alma que escorre, magoado e fatalista, por entre o que ela me ia dizendo. O coração bate-lhe de um modo estranho e sofrido, ela nem pode bem explicar: "Sou toda assim..."

Nasceu com as cerejas, só sabe que deve ter sido em Julho e como gostava de as comer e de se festejar, decidiu para si que nasceu no primeiro dia do mês. Mas nos seus papéis de identidade alguém escreveu "23 de Julho" e assim Amália celebra o seu aniversário duas vezes no mesmo ano. Sempre que estou com ela, o que retenho antes do mais, porventura mais ainda do que o timbre único da sua voz, é esta impressão, limpidíssima, da qualidade também única de que ela é feita. Durante longas décadas o mundo esteve a seus pés, foi abençoada pelos deuses do génio e da fortuna, os homens perderam-se por ela, provocou a paixão e semeou o desassossego. Mas ao fim de todas as glórias, nada a maculou, ninguém a corrompeu. Nenhum sucesso lhe perturbou jamais o instinto de ser como era ("eu não sou culta, tenho de dar a volta às coisas...") ou lhe impediu que seguisse o veio da sua prodigiosa intuição ("é tudo o que eu tenho... Sou como os animais, nunca ninguém me ensinou nada..."). Por isso é intacta hoje, a mesma rapariga que aos dezasseis anos vendia limões nas ruas de Lisboa. A simplicidade, a inocência, a candura desses tempos são as mesmas que hoje lhe ditam os passos e os gestos ("os meus amigos dizem que eu peço desculpa de ter sucesso, tenho um pavor, é verdade...").

Amália atravessou a legenda e sobreviveu ao seu próprio mito. "O fado? O fado é uma música que dá para o meu feitio cantar..."

Pausa:

"Não sei dizer o que é o fado, está tão preso a mim, levei a vida a cantar. É uma música que dá para o meu feitio cantar... É o destino, é a minha vida, são as coisas que trago comigo, são muitos sentimentos á mistura. O fado é mistério, ninguém pode explicar o que ele é..."

Começou a cantar na Severa, depois passou por outras casas de fado. A música de Frederico Valério ("Portugal inteiro cantava os fados que ele fez para mim!"), de Alberto Janes ("tão português e tão internacional!"), abriram-lhe as portas do mundo. A primeira foi o célebre Olympia, em Paris, onde o empresário Bruno Coquatrix lhe disse: "Se você cá ficar, farei de si uma vedeta internacional..." Amália nem o ouviu: "eu partira de Lisboa com um vestido preto, uma viola e uma guitarra... Os jornais começaram a dizer coisas extraordinárias de mim, cá nunca disseram nada igual... Mas não sabia viver longe daqui, sou tão portuguesa..." A seguir começou a cantar "no mundo todo". As tournées ("sou uma cigana, adorava andar de um lado para o outro!") seguiram-se umas às outras, numa estonteante sobreposição de imagens e aplausos: América, Japão, Moscovo, América Latina, a Europa toda, África.

"A cantar eu passava de 48 para 190 pulsações! Mas nunca pensei cantar assim, cantarolava em casa, nunca pensei vir cantar como Amália Rodrigues!"

Houve também o cinema (Os Amantes do Tejo; O Fado; As Ilhas Encantadas), o teatro, a televisão: "Ah, não foi nada a mesma coisa do que cantar, era muito tímida... Eu dizia que gostava mas no fim tinha mais medo que vontade. Apesar de tudo preferi o teatro, sou um bicho de público... E fiz a A Sapateira Prodigiosa, do Lorca, na televisão, só para me poder mascarar de espanhola!"

E depois, um dia, apareceu-lhe o Alain Oulmain. O encontro com o compositor, nos anos sessenta, "deu uma reviravolta em tudo", fez "nascer um outro reportório" e porventura uma "nova" Amália.

"Ah, o Alain foi o milagre. Eu andava à espera que me aparecesse uma pessoa assim, queria expandir-me, ele foi o único que me fez esse tipo de música. Há nela uma tristeza e uma profundidade que me tocam muito e a música dele ajudou-me a cantar outros poetas." Os outros poetas chamavam-se Camões ("o maior poeta português, mas também o maior fadista"), Pedro Homem de Melo, David Mourão-Ferreira, Alexandre O'Neill:

"O O'Neill escreveu-me um grande fado, A Gaivota, a música dá-me para voar como as gaivotas, umas vezes alto, outras vezes, baixo..."

E que outras músicas?

"Aprecio muito a música popular do Brasil, do México, da América Latina... Dá-me jeito cantar música latina, uma ranchera mexicana, um samba, estou à vontade... Mas para ouvir prefiro Mahler, uma música parecida com a minha... Ou Bach, que é de chorar e por isso gosto..."

O sol entardece sobre os azulejos azuis e brancos, chegam mais flores. Amália ajeita as pregas do vestido vermelho:

"A minha oração todos os dias é dizer Deus que tudo isto foi um milagre... Sim, rezo muito..."

Pausa:

"A minha vida é mesmo uma estranha forma de vida. Aconteceu-me o destino de fazer de mim o que sou."


Entrevista de Maria João Avillez a Amália Rodrigues - Revista Atlantis

segunda-feira, fevereiro 02, 2009

Nadal vence Open da Austrália e Federer não consegue igualar Sampras


Durante 11 anos, Roger Federer sempre passou uma imagem de sobriedade. Por norma, é pouco expansivo nas vitórias e, quando perde, sempre escondeu com elegância a desilusão. Nos jogos, era com o seu ténis que respondia a maus momentos. As emoções eram para ser controladas. Porém, ontem, caiu a máscara do controlo emocional. Tudo porque estava a um jogo de igualar o seu ídolo Pete Sampras, com 14 Grand Slam, e falhou. As lágrimas, muitas lágrimas, que deixou cair pela face, deixaram a arena do Open da Austrália num silêncio perturbador, só rompido por uns merecidos aplausos, para o que Rafael Nadal contribuiu, ao dirigir-se ao rival que acabava de derrotar por 7-5, 3-6, 7-6 (7-3), 3-6 e 6-2: "Não te esqueças que és um dos melhores tenistas da história." E mais lágrimas caíram pelo rosto de Federer.

Na Austrália, esperava-se que fosse feita história: consagrar definitivamente o suíço. No entanto, foi Nadal quem a escreveu, ao tornar-se no primeiro espanhol a vencer um Grand Slam em piso duro. Porém, o morder do troféu, como sempre faz, perdeu impacto, quando, perto de si, Federer continuava a chorar.

Como derrotado, o suíço foi o primeiro a falar, ou, pelo menos, a tentar. "Deus, isto está a matar-me", disse. No court e nas bancadas a surpresa era grande. Ninguém esperava tal demonstração de emoção em público. "Este rapaz merece", salientou ainda Federer, dirigindo-se ao espanhol. Até Nadal, cabisbaixo, pareceu sem saber o que fazer. Incitado a falar, começou por um tímido "olá" e deixou um pedido: "Roger, sinto muito [pela derrota]. Espero jogar muitas mais vezes contra ti."

Aos 27 anos, Federer parou de esconder a frustração de estar a ser ultrapassado pela nova vaga de tenistas. Nadal é o seu grande rival. É ele quem lhe tem tirado a oportunidade de vencer Roland-Garros - que o suíço nunca ganhou -, foi o espanhol quem acabou com o domínio de Federer em Wimbledon e agora também já conquista Grand Slam no piso duro. A Nadal só falta o US Open e tem 22 anos. E não esquecer, foi Nadal quem acabou com um reinado de quatro anos de Federer no topo do ranking. O suíço começou 2009 com o objectivo de comprovar que 2008 não marcou o princípio do fim da carreira, mas na Austrália acabou em desespero.
Diário de Notícias, 02 de Fevereiro de 2009

Calendário Romano - Mês de Fevereiro

sexta-feira, janeiro 30, 2009

Mamma Mia - Filme mais visto em Portugal em 2008 - Eu ajudei com umas cinco idas ao cinema...


'Mamma Mia!' foi o filme mais visto em Portugal em 2008

Soraia Chaves, a Call Girl do filme de António-Pedro Vasconcelos, levou ao cinema mais de 175 mil espectadores tornando-se, sem grande dificuldade, o filme português mais visto em 2008. Ainda assim, muito longe do anterior sucesso da actriz, O Crime do Padre Amaro, que é ainda o filme português mais visto de sempre, com mais de 380 mil espectadores.

Em 2008, e pelo segundo ano consecutivo, as salas de cinema portuguesas perderam espectadores, mas aumentaram as receitas de bilheteira, por conta da subida do preço dos ingressos, segundo o Instituto do Cinema e Audiovisual (ICA).

De acordo com dados preliminares do ICA, citados pela Lusa, em 2008 passaram 15,9 milhões de pessoas pelas salas de cinema, o que representa menos 400 mil espectadores do que em 2007. No entanto, exibidores e distribuidores contabili- zaram 69,9 milhões de euros de receita bruta de bilheteira, ou seja, mais 800 mil euros do que no ano anterior, um acréscimo que o ICA justificou com a possível subida do preço dos bilhetes.

No ano passado estrearam-se 233 longas-metragens, 14 das quais portuguesas e 106 de produção norte- -americana. O musical Mamma Mia! foi o filme mais visto, com 851 mil espectadores e 3,7 milhões de euros de receita de bilheteira.

A animação está, como sempre, nos lugares cimeiros. No anterior tinha sido Shrek 3 e Ratatui, em 2008 foi a vez de Madagáscar 2 (731 427 espectadores) e O Panda do Kung Fu (604 489). Já é costume os lugares cimeiros desta lista serem ocupados por filmes de grande entretenimento. Em 2008, além de Mamma Mia!, não podia faltar o regresso de Indiana Jones, um filme que reuniu pela quarta vez Steven Spielberg e Harrison Ford. O herói dos anos 80 continua a ter adeptos no novo milénio.

Apesar de se ter estreado a 20 de Dezembro de 2007, Call Girl, de António-Pedro Vasconcelos, liderou o ranking dos filmes portugueses mais vistos de 2008, com 175 808 espectadores. Em segundo lugar figurou Amália, o Filme, de Carlos Coelho da Silva (136 798 espectadores), e em terceiro Arte de Roubar, de Leonel Vieira (28 917 espectadores). Apesar de estarem no top do ano, estes dois filmes ficaram muito aquém das expectativas dos seus produtores.

Pelo contrário, O Meu Querido Mês de Agosto, de Miguel Gomes, pode ser considerado um sucesso: com os seus 20 083 espectadores foi o quarto filme português mais visto, a grande distância do quinto classificado: Cristóvão Colombo - O Enigma, de Manoel de Oliveira (5577 espectadores).

A Lusomundo, que detém 51% da quota de mercado na exibição em Portugal, foi a que mais lucrou em 2008, com 35,7 milhões de euros, largamente à frente das restantes exibidoras do ranking. A Socorama - Castello Lopes Cinemas arrecadou 13 milhões de euros e a UCI, 9,3 milhões de euros.
Diário de Notícias, 30 de Janeiro de 2009

quinta-feira, janeiro 29, 2009

Padeira de Aljubarrota que, tal como Manuel Alegre, esteve também em Argel




Auto Novo, e Curioso da Forneira de Aljubarrota, em que se contem a vida, e façanhas desta valerosa Matrona – Composto por Diogo da Costa, Lisboa, Na Officina dos Herd. de António Pedrozo Galram, MDCCXLIII (1743)

Começa a Obra

Na famosa, e sempre leal Cidade de Faro, a quem o Oceano (parecendo-lhe, que nisto lhe dá perro) lhe morde as prayas com as argentadas prezas de suas ondas, porem vendo, que lhe não póde meter dente se confessa corrido de lhe ter beijado-o pe quando lhe pretendia morder a planta: he esta famosa Cidade Metropoli do Algarve, em cujo Reyno ainda que seus moradores passão muito, com tudo sempre dão figas a muitas terras de Portugal. Esta foy a pátria da famosa Brites de Almeida, ou por outro nome, da valerosa Forneira de Aljubarrota (ainda que os desta Villa querem seja sua patrícia.)
Nasceo de pays humildes, e pobres, porém com tão altos pensamentos, que lhe parecia, que todo o Mundo era seu, pois nem sempre o inferior nascimento he índice da cobardia. Vivião seus pobres pays em huma humilde casa, ou taverna, onde ganhavão o sustento, repartindo pelo Povo o trabalhoso suor das vinhas, ou os saborosos dons do fecundo Baco: neste exercício se foy creando, e crescendo esta varonil matrona, sobindo-lhe taes fumos à cabeça, que apenas chegou a uso da razão, se foy mostrando de tal forma desarrezoada, que por qualquer cousa partia huma cabeça, o que fez muitas vezes, cuindando-se pouco no seu castigo, pelo sexo, e pouca idade, como se o corpo, que encerra grande maldade, não podesse receber igual supplicio.
Logo desde a meninice começou a ostentar animo varonil, porque em lugar de applicar ao lado da roca, somente procurava cingir a espada, e quando outras moças da sua idade a convidavão para brincarem com as suas bonecas, […] só se inclinava a formar pendências, a fingir desafios, e a jugar murros, e bofetadas, fazendo-se tão temida não só das raparigas, mas ainda dos rapazes, que em ella apparecendo, todos fogião. Chegando com estes intróitos à idade de vinte e seis annos, ficou orfãa de pay, e mãy, e vendo-se sem quem lhe podesse atalhar seu fervoroso animo, começou mais livremente a exercer suas travessuras; pois ficando-lhe algum dinheiro de seus pays, o começou a gastar com Mestres de esgrima, e em comprar boas espadas.
Nestes, e outros taes exercícios, gastou algum tempo fazendo vários crimes leves, que não os fazia mayores, porque lhe não davão motivo a isso, pelo muito, que todos a temião; mas vendo, que algum dinheiro, que de seus pays tinha herdado, estava quasi gasto, e que lhe era forçoso buscar modo de ganhar a vida, se foy arrendar huma fazenda junto a Loulé, pois não tinha génio para exercitar occupações mulheris, mas também nisso presistio pouco tempo; e foy a razão, que havia alguns mezes, tinha chegado a Faro hum soldado natural do Além-Tejo, homem valeroso, e de grandes forças, o qual ouvindo as acções de Brites de Almeida, e presenciando algumas, se abrazou em hum honesto amor de a solicitar para esposa; digo honesto amor; porque não o tinha rendido a quererlhe a fermosura, pois nella não havia motivos para ser querida pela presença, por quanto era da estatura do mais alto homem, magra mas corpulenta, a cor do resto pallida, o semblante triste e feyo, o cabello crespo, os olhos pequenos, o nariz e a boca grande, tinha seis dedos em cada mão, que logo parece, que a natureza por lisongear o seu valor quis dar com o augmento dos dedos mais motivos ao esforço de suas mãos.
Sendo este o seu retrato, se deve inferir, que somente rendeo a este infeliz amante, o vela no valor tão parecida ao seu génio, pois he a semelhança causa de amor, que podia attender, que essa mesma valentia, que nella admirava, era mayor motivo para se aborrecer, pois as mulheres somente se devem procurar prudentes, e virtuosas; porém o nosso soldado não admittio estas máximas, porque quem ama, julga prendas, o que são defeitos. Em fim sabendo, que a sua querida se tinha mudado para Loulé, se poz a caminho, e chegou em hum dia à tarde à fazenda a tempo, que ella estava assistindo à cava das vinhas, e castigando hum moço seu por certo descuido; e pedindolhe o cançado amante, que o attendesse menos irada, e mais compassiva, lhe manifestou o intento a que vinha. Estranhou ella o estylo da proposta, tanto porque no forte do seu peito nunca tinhão penetrado de amor as settas, como porque julgava o altivo de seu valor, que nenhum homem era capaz de sogeitarlhe o alvedrio. Por hum breve espaço esteve imaginando, se lhe daria a morte em resposta de seu atrevimento, e socegada por hum pouco, lhe respondeo, qual outra cruel Atalanta, que se queria dar a partido, mas de tal modo, que se elle a vencesse com a espada na mão, se rendaria ella à sua vontade; e quando elle ficasse vencido, perderia a vida aos fios da sua espada em castigo do seu atrevimento. Aceitou a condição o amante Hypomenes, porque quem ama a todo o partido se offerece; e ainda julgava pouco o arriscar a vida por merecela. E fiados cada qual no seu esforço (ainda que o infeliz amante tinha dous contrários, pois pelejava contra a sua inimiga, e contra o seu mesmo amor) meterão mão às espadas, e se começarão a atirar cruéis golpes; mas como na contenda só procurava o amante soldado vencer, e não maltratar, (pois mal offenderia, a quem amava) em breve tempo se se sentio passado pelo peito com a espada da sua cruel competidora, e cahindo em terra perdeo a vida.
Como isto succedeo à vista dos cavadores, que com alaridos tudo atroavão, lhe foy preciso retirarse pondo-se a caminho para Faro, e tendo já caminhado pouco mais de ??? léguas, olhou para traz, e vio, que vinhão em seu seguimento mais de vinte homens armados; porém quando chegarão junto della, era a tempo, que já estava cerrada a noite, que muito escura, e tempestuosa, e valendo-se de hum bosque de figueiral, entrou por elle, e ainda que a justiça a seguio, não lhe foy possível achalla por causa da cerração da noite, e obscuridade do bosque; e assim caminhando todo a noite chegou a Faro pela manhãa, e achando na praya hum batel com vela, e leme, se meteo dentro, e entregou ao mar, confiada em alguma experiencia, que tinha, com tenção de passar o Guadiana, porém começando a cahirlhe hum vento leste, a foy desviando tanto ao largo da terra, que a poucas horas a perdeo de vista.
Todo aquelle dia passou naufragando entre as ondas, sem ver mais, do que mar, e Ceo, e deitando a vela abaixo se deixou ir para onde a agua, e o vento a quizessem levar, e pondo-se a roer nas unhas (que he o costume de Poetas, e afflictos) começou a imaginarse visinha ao ultimo fim da sua vida, por quanto ainda a escapar de ter profundo monumento nas salgadas ondas, se considerava brevemente morto cadáver na tumba de hum bater, pois passavão vinte e quatro horas, que não comia, nem bebia; chegada a noite a passou nestasm e outras considerações, arrependida já dos seus desacertos, sendo o seu mayor pezar o chegarlhe tão tarde o arrependimento.
Chegado o seguinte dia mais socegado de vento, e mais tranquillo o mar, ainda que mais augmentava a interior tormenta de suas afflicçoens, esteve desesperada quasi deitando-se ao mar por não ter mais dilatada morte; e levantando os olhos, vio, que huma embarcação à vela cortava as aguas, e tornando a levantar a vela ao batel para melhor ser vista (o que muito lhe custou pela fraqueza em que estava) a poucas horas vio junto de si huma setia de Mouros: bem razão tinha de estimar o encontro, pois ainda que inimigos, lhe trazião com o cativeiro o quasi perdido alento (que há occasioes tão terríveis, que se sestejão as mesmas desgraças.) Porém levada do seu génio, e valor pegou na espada, e determinou vender a vida a troco do inimigo sangue, e chegados os Mouros, começou a porse em defeza, ameaçando com a espada ao que intentasse cativala. Muito admirados estavão os inimigos, vendo que huma só mulher se oppunha a mais de duzentos homens, e recebendo nas rodelas os golpes, que lhes atirava, saltarão dentro no batel, e a cativarão, não sem lhes custar algum sangue, ficando muito admirados do seu valor, e mais sabendo, que havia quarenta e oito horas, que não comia, nem bebia. Tratarão logo de alimentar, e se puzerão a caminho para Argel, não porque fossem satisfeitos com a preza, mas porque estavão já faltos de mantimentos.
Com a demora de quatro dias aportarão em Argel, e posta a preza em lanço, como he costume, foy comprada por hum Turco rico, e poderoso, em cujo palácio achou mais dous cativos Portuguezes, que de algum a lívio lhe sevirão na sua desgraça (porque o ter companheiros nas penas senão he remédio, he ao menos consolação). Foy logo mandada trabalhar no exercício da cosinha entre as mais servas de Hamet (que assim se chamava o Turco) cousa, que ella muito sentio por não ser costumada a exercicios feminis; e posto que pedio ao Turco, que a mandasse cavar, ou fazer outros exercícios mais trabalhosos, não forão admittidos seus rogos, e assim neste tormento esteve mais de hum anno, até que desesperada buscou occasião de fallar com os dous cativos, e lhes intimou como não solicitavão a sua liberdade. Ao que elles responderão, que era impossível não sendo com resgate. Replicou ella, que se tinhão valor lhes promettia verem-se livres brevemente: e ajustada a seguinte noite para o que intentava, se forão ambos pêra o lugar onde ella mandou, que esperassem.

António Botto - Inédito cedido por Francisco Esteves a Natália Correia


Do mesmo autor que o Super Hit de Fátima - "A 13 de Maio na Cova da Íria" - aqui fica um poema que dedico do fundo do coração a todos os acusados no Processo Casa Pia.

Nunca te foram ao cu,
nem nas perninhas, aposto!
Mas um homem como tu,
lavadinho, todo nu, gosto!
Sem ter pentelho nenhum,
com certeza, não desgosto,
até gosto!
Mas... gosto mais de fedelhos.
Vou-lhes ao cu
dou-lhes conselhos,
enfim... gosto!

quarta-feira, janeiro 28, 2009

A Peça Para Dois - Teatro Cinearte - A Barraca



ESTREIA A 31 de JANEIRO: “A PEÇA PARA DOIS”
de Tennessee Williams

Realidade e Sonho mesclados numa obra meta-teatral com uma aterrorizante mestria próxima do suspense de um thriller.
Quando Felice e Clare, dois Actores - irmão e irmã - em tournée, são abandonados pela sua Companhia de Teatro, num decadente “Teatro de província de uma província que ninguém sabe onde fica.” e são confrontados por um público que espera uma actuação, tentam a “Peça Para Dois” – uma ilusão dentro da ilusão, “de certeza a peça mais estranha do nosso reportório. Pessoal de mais, talvez… as personagens têm os nossos nomes e…”, afirma a dada altura Clare – uma peça em que dois irmãos, Felice e Clare, vítimas ou assassinos dos seus pais, lutam para conseguir sair de casa numa pequena cidade que já os condenou.
“Penso que é a minha mais bela peça desde Um Eléctrico Chamado Desejo” disse Tennessee Williams, “e nunca parei de trabalhar nela... é um cri de coeur, mas, em certo sentido, todo o trabalho criativo, toda a vida, é um cri de coeur.”
Um texto enigmático e extraordinário sobre os limites do Teatro e da Vida, da Máscara dentro da Máscara, sobre a evanescente fusão das realidades.

Ficha Artística e Técnica
Autor: Tennessee Williams
Tradução: Rita Lello
Espectáculo de Rita Lello
Assistência de Encenação: Tiago Cadete
Elenco: Rita Lello, Pedro Giestas
Execução Figurinos: Alda Cabrita
Luminotecnia: Fernando Belo, José Carlos Pontes
Sonoplastia: Rui Mamede
Montagem e Carpintaria: Luis Thomar, Mário Dias
Costureira: Inna Siryk
Produção: Marta Gato
Secretariado de Produção: Inês Aboim
Relações Públicas: Elsa Lourenço
Bilheteira: Inês Marques
Fotografia: Luis Rocha – MEF
Cartaz: Elsa Lourenço
Secretariado: Maria Navarro

Horário
5ª a Sábado às 20h00
Domingo às 15h00
na sala 2 do TeatroCinearte
de 31 de Janeiro a 29 de Março de 2009
Informações e Reservas: 213965360, 213965275