segunda-feira, fevereiro 02, 2009

Nadal vence Open da Austrália e Federer não consegue igualar Sampras


Durante 11 anos, Roger Federer sempre passou uma imagem de sobriedade. Por norma, é pouco expansivo nas vitórias e, quando perde, sempre escondeu com elegância a desilusão. Nos jogos, era com o seu ténis que respondia a maus momentos. As emoções eram para ser controladas. Porém, ontem, caiu a máscara do controlo emocional. Tudo porque estava a um jogo de igualar o seu ídolo Pete Sampras, com 14 Grand Slam, e falhou. As lágrimas, muitas lágrimas, que deixou cair pela face, deixaram a arena do Open da Austrália num silêncio perturbador, só rompido por uns merecidos aplausos, para o que Rafael Nadal contribuiu, ao dirigir-se ao rival que acabava de derrotar por 7-5, 3-6, 7-6 (7-3), 3-6 e 6-2: "Não te esqueças que és um dos melhores tenistas da história." E mais lágrimas caíram pelo rosto de Federer.

Na Austrália, esperava-se que fosse feita história: consagrar definitivamente o suíço. No entanto, foi Nadal quem a escreveu, ao tornar-se no primeiro espanhol a vencer um Grand Slam em piso duro. Porém, o morder do troféu, como sempre faz, perdeu impacto, quando, perto de si, Federer continuava a chorar.

Como derrotado, o suíço foi o primeiro a falar, ou, pelo menos, a tentar. "Deus, isto está a matar-me", disse. No court e nas bancadas a surpresa era grande. Ninguém esperava tal demonstração de emoção em público. "Este rapaz merece", salientou ainda Federer, dirigindo-se ao espanhol. Até Nadal, cabisbaixo, pareceu sem saber o que fazer. Incitado a falar, começou por um tímido "olá" e deixou um pedido: "Roger, sinto muito [pela derrota]. Espero jogar muitas mais vezes contra ti."

Aos 27 anos, Federer parou de esconder a frustração de estar a ser ultrapassado pela nova vaga de tenistas. Nadal é o seu grande rival. É ele quem lhe tem tirado a oportunidade de vencer Roland-Garros - que o suíço nunca ganhou -, foi o espanhol quem acabou com o domínio de Federer em Wimbledon e agora também já conquista Grand Slam no piso duro. A Nadal só falta o US Open e tem 22 anos. E não esquecer, foi Nadal quem acabou com um reinado de quatro anos de Federer no topo do ranking. O suíço começou 2009 com o objectivo de comprovar que 2008 não marcou o princípio do fim da carreira, mas na Austrália acabou em desespero.
Diário de Notícias, 02 de Fevereiro de 2009

Calendário Romano - Mês de Fevereiro

sexta-feira, janeiro 30, 2009

Mamma Mia - Filme mais visto em Portugal em 2008 - Eu ajudei com umas cinco idas ao cinema...


'Mamma Mia!' foi o filme mais visto em Portugal em 2008

Soraia Chaves, a Call Girl do filme de António-Pedro Vasconcelos, levou ao cinema mais de 175 mil espectadores tornando-se, sem grande dificuldade, o filme português mais visto em 2008. Ainda assim, muito longe do anterior sucesso da actriz, O Crime do Padre Amaro, que é ainda o filme português mais visto de sempre, com mais de 380 mil espectadores.

Em 2008, e pelo segundo ano consecutivo, as salas de cinema portuguesas perderam espectadores, mas aumentaram as receitas de bilheteira, por conta da subida do preço dos ingressos, segundo o Instituto do Cinema e Audiovisual (ICA).

De acordo com dados preliminares do ICA, citados pela Lusa, em 2008 passaram 15,9 milhões de pessoas pelas salas de cinema, o que representa menos 400 mil espectadores do que em 2007. No entanto, exibidores e distribuidores contabili- zaram 69,9 milhões de euros de receita bruta de bilheteira, ou seja, mais 800 mil euros do que no ano anterior, um acréscimo que o ICA justificou com a possível subida do preço dos bilhetes.

No ano passado estrearam-se 233 longas-metragens, 14 das quais portuguesas e 106 de produção norte- -americana. O musical Mamma Mia! foi o filme mais visto, com 851 mil espectadores e 3,7 milhões de euros de receita de bilheteira.

A animação está, como sempre, nos lugares cimeiros. No anterior tinha sido Shrek 3 e Ratatui, em 2008 foi a vez de Madagáscar 2 (731 427 espectadores) e O Panda do Kung Fu (604 489). Já é costume os lugares cimeiros desta lista serem ocupados por filmes de grande entretenimento. Em 2008, além de Mamma Mia!, não podia faltar o regresso de Indiana Jones, um filme que reuniu pela quarta vez Steven Spielberg e Harrison Ford. O herói dos anos 80 continua a ter adeptos no novo milénio.

Apesar de se ter estreado a 20 de Dezembro de 2007, Call Girl, de António-Pedro Vasconcelos, liderou o ranking dos filmes portugueses mais vistos de 2008, com 175 808 espectadores. Em segundo lugar figurou Amália, o Filme, de Carlos Coelho da Silva (136 798 espectadores), e em terceiro Arte de Roubar, de Leonel Vieira (28 917 espectadores). Apesar de estarem no top do ano, estes dois filmes ficaram muito aquém das expectativas dos seus produtores.

Pelo contrário, O Meu Querido Mês de Agosto, de Miguel Gomes, pode ser considerado um sucesso: com os seus 20 083 espectadores foi o quarto filme português mais visto, a grande distância do quinto classificado: Cristóvão Colombo - O Enigma, de Manoel de Oliveira (5577 espectadores).

A Lusomundo, que detém 51% da quota de mercado na exibição em Portugal, foi a que mais lucrou em 2008, com 35,7 milhões de euros, largamente à frente das restantes exibidoras do ranking. A Socorama - Castello Lopes Cinemas arrecadou 13 milhões de euros e a UCI, 9,3 milhões de euros.
Diário de Notícias, 30 de Janeiro de 2009

quinta-feira, janeiro 29, 2009

Padeira de Aljubarrota que, tal como Manuel Alegre, esteve também em Argel




Auto Novo, e Curioso da Forneira de Aljubarrota, em que se contem a vida, e façanhas desta valerosa Matrona – Composto por Diogo da Costa, Lisboa, Na Officina dos Herd. de António Pedrozo Galram, MDCCXLIII (1743)

Começa a Obra

Na famosa, e sempre leal Cidade de Faro, a quem o Oceano (parecendo-lhe, que nisto lhe dá perro) lhe morde as prayas com as argentadas prezas de suas ondas, porem vendo, que lhe não póde meter dente se confessa corrido de lhe ter beijado-o pe quando lhe pretendia morder a planta: he esta famosa Cidade Metropoli do Algarve, em cujo Reyno ainda que seus moradores passão muito, com tudo sempre dão figas a muitas terras de Portugal. Esta foy a pátria da famosa Brites de Almeida, ou por outro nome, da valerosa Forneira de Aljubarrota (ainda que os desta Villa querem seja sua patrícia.)
Nasceo de pays humildes, e pobres, porém com tão altos pensamentos, que lhe parecia, que todo o Mundo era seu, pois nem sempre o inferior nascimento he índice da cobardia. Vivião seus pobres pays em huma humilde casa, ou taverna, onde ganhavão o sustento, repartindo pelo Povo o trabalhoso suor das vinhas, ou os saborosos dons do fecundo Baco: neste exercício se foy creando, e crescendo esta varonil matrona, sobindo-lhe taes fumos à cabeça, que apenas chegou a uso da razão, se foy mostrando de tal forma desarrezoada, que por qualquer cousa partia huma cabeça, o que fez muitas vezes, cuindando-se pouco no seu castigo, pelo sexo, e pouca idade, como se o corpo, que encerra grande maldade, não podesse receber igual supplicio.
Logo desde a meninice começou a ostentar animo varonil, porque em lugar de applicar ao lado da roca, somente procurava cingir a espada, e quando outras moças da sua idade a convidavão para brincarem com as suas bonecas, […] só se inclinava a formar pendências, a fingir desafios, e a jugar murros, e bofetadas, fazendo-se tão temida não só das raparigas, mas ainda dos rapazes, que em ella apparecendo, todos fogião. Chegando com estes intróitos à idade de vinte e seis annos, ficou orfãa de pay, e mãy, e vendo-se sem quem lhe podesse atalhar seu fervoroso animo, começou mais livremente a exercer suas travessuras; pois ficando-lhe algum dinheiro de seus pays, o começou a gastar com Mestres de esgrima, e em comprar boas espadas.
Nestes, e outros taes exercícios, gastou algum tempo fazendo vários crimes leves, que não os fazia mayores, porque lhe não davão motivo a isso, pelo muito, que todos a temião; mas vendo, que algum dinheiro, que de seus pays tinha herdado, estava quasi gasto, e que lhe era forçoso buscar modo de ganhar a vida, se foy arrendar huma fazenda junto a Loulé, pois não tinha génio para exercitar occupações mulheris, mas também nisso presistio pouco tempo; e foy a razão, que havia alguns mezes, tinha chegado a Faro hum soldado natural do Além-Tejo, homem valeroso, e de grandes forças, o qual ouvindo as acções de Brites de Almeida, e presenciando algumas, se abrazou em hum honesto amor de a solicitar para esposa; digo honesto amor; porque não o tinha rendido a quererlhe a fermosura, pois nella não havia motivos para ser querida pela presença, por quanto era da estatura do mais alto homem, magra mas corpulenta, a cor do resto pallida, o semblante triste e feyo, o cabello crespo, os olhos pequenos, o nariz e a boca grande, tinha seis dedos em cada mão, que logo parece, que a natureza por lisongear o seu valor quis dar com o augmento dos dedos mais motivos ao esforço de suas mãos.
Sendo este o seu retrato, se deve inferir, que somente rendeo a este infeliz amante, o vela no valor tão parecida ao seu génio, pois he a semelhança causa de amor, que podia attender, que essa mesma valentia, que nella admirava, era mayor motivo para se aborrecer, pois as mulheres somente se devem procurar prudentes, e virtuosas; porém o nosso soldado não admittio estas máximas, porque quem ama, julga prendas, o que são defeitos. Em fim sabendo, que a sua querida se tinha mudado para Loulé, se poz a caminho, e chegou em hum dia à tarde à fazenda a tempo, que ella estava assistindo à cava das vinhas, e castigando hum moço seu por certo descuido; e pedindolhe o cançado amante, que o attendesse menos irada, e mais compassiva, lhe manifestou o intento a que vinha. Estranhou ella o estylo da proposta, tanto porque no forte do seu peito nunca tinhão penetrado de amor as settas, como porque julgava o altivo de seu valor, que nenhum homem era capaz de sogeitarlhe o alvedrio. Por hum breve espaço esteve imaginando, se lhe daria a morte em resposta de seu atrevimento, e socegada por hum pouco, lhe respondeo, qual outra cruel Atalanta, que se queria dar a partido, mas de tal modo, que se elle a vencesse com a espada na mão, se rendaria ella à sua vontade; e quando elle ficasse vencido, perderia a vida aos fios da sua espada em castigo do seu atrevimento. Aceitou a condição o amante Hypomenes, porque quem ama a todo o partido se offerece; e ainda julgava pouco o arriscar a vida por merecela. E fiados cada qual no seu esforço (ainda que o infeliz amante tinha dous contrários, pois pelejava contra a sua inimiga, e contra o seu mesmo amor) meterão mão às espadas, e se começarão a atirar cruéis golpes; mas como na contenda só procurava o amante soldado vencer, e não maltratar, (pois mal offenderia, a quem amava) em breve tempo se se sentio passado pelo peito com a espada da sua cruel competidora, e cahindo em terra perdeo a vida.
Como isto succedeo à vista dos cavadores, que com alaridos tudo atroavão, lhe foy preciso retirarse pondo-se a caminho para Faro, e tendo já caminhado pouco mais de ??? léguas, olhou para traz, e vio, que vinhão em seu seguimento mais de vinte homens armados; porém quando chegarão junto della, era a tempo, que já estava cerrada a noite, que muito escura, e tempestuosa, e valendo-se de hum bosque de figueiral, entrou por elle, e ainda que a justiça a seguio, não lhe foy possível achalla por causa da cerração da noite, e obscuridade do bosque; e assim caminhando todo a noite chegou a Faro pela manhãa, e achando na praya hum batel com vela, e leme, se meteo dentro, e entregou ao mar, confiada em alguma experiencia, que tinha, com tenção de passar o Guadiana, porém começando a cahirlhe hum vento leste, a foy desviando tanto ao largo da terra, que a poucas horas a perdeo de vista.
Todo aquelle dia passou naufragando entre as ondas, sem ver mais, do que mar, e Ceo, e deitando a vela abaixo se deixou ir para onde a agua, e o vento a quizessem levar, e pondo-se a roer nas unhas (que he o costume de Poetas, e afflictos) começou a imaginarse visinha ao ultimo fim da sua vida, por quanto ainda a escapar de ter profundo monumento nas salgadas ondas, se considerava brevemente morto cadáver na tumba de hum bater, pois passavão vinte e quatro horas, que não comia, nem bebia; chegada a noite a passou nestasm e outras considerações, arrependida já dos seus desacertos, sendo o seu mayor pezar o chegarlhe tão tarde o arrependimento.
Chegado o seguinte dia mais socegado de vento, e mais tranquillo o mar, ainda que mais augmentava a interior tormenta de suas afflicçoens, esteve desesperada quasi deitando-se ao mar por não ter mais dilatada morte; e levantando os olhos, vio, que huma embarcação à vela cortava as aguas, e tornando a levantar a vela ao batel para melhor ser vista (o que muito lhe custou pela fraqueza em que estava) a poucas horas vio junto de si huma setia de Mouros: bem razão tinha de estimar o encontro, pois ainda que inimigos, lhe trazião com o cativeiro o quasi perdido alento (que há occasioes tão terríveis, que se sestejão as mesmas desgraças.) Porém levada do seu génio, e valor pegou na espada, e determinou vender a vida a troco do inimigo sangue, e chegados os Mouros, começou a porse em defeza, ameaçando com a espada ao que intentasse cativala. Muito admirados estavão os inimigos, vendo que huma só mulher se oppunha a mais de duzentos homens, e recebendo nas rodelas os golpes, que lhes atirava, saltarão dentro no batel, e a cativarão, não sem lhes custar algum sangue, ficando muito admirados do seu valor, e mais sabendo, que havia quarenta e oito horas, que não comia, nem bebia. Tratarão logo de alimentar, e se puzerão a caminho para Argel, não porque fossem satisfeitos com a preza, mas porque estavão já faltos de mantimentos.
Com a demora de quatro dias aportarão em Argel, e posta a preza em lanço, como he costume, foy comprada por hum Turco rico, e poderoso, em cujo palácio achou mais dous cativos Portuguezes, que de algum a lívio lhe sevirão na sua desgraça (porque o ter companheiros nas penas senão he remédio, he ao menos consolação). Foy logo mandada trabalhar no exercício da cosinha entre as mais servas de Hamet (que assim se chamava o Turco) cousa, que ella muito sentio por não ser costumada a exercicios feminis; e posto que pedio ao Turco, que a mandasse cavar, ou fazer outros exercícios mais trabalhosos, não forão admittidos seus rogos, e assim neste tormento esteve mais de hum anno, até que desesperada buscou occasião de fallar com os dous cativos, e lhes intimou como não solicitavão a sua liberdade. Ao que elles responderão, que era impossível não sendo com resgate. Replicou ella, que se tinhão valor lhes promettia verem-se livres brevemente: e ajustada a seguinte noite para o que intentava, se forão ambos pêra o lugar onde ella mandou, que esperassem.

António Botto - Inédito cedido por Francisco Esteves a Natália Correia


Do mesmo autor que o Super Hit de Fátima - "A 13 de Maio na Cova da Íria" - aqui fica um poema que dedico do fundo do coração a todos os acusados no Processo Casa Pia.

Nunca te foram ao cu,
nem nas perninhas, aposto!
Mas um homem como tu,
lavadinho, todo nu, gosto!
Sem ter pentelho nenhum,
com certeza, não desgosto,
até gosto!
Mas... gosto mais de fedelhos.
Vou-lhes ao cu
dou-lhes conselhos,
enfim... gosto!

quarta-feira, janeiro 28, 2009

A Peça Para Dois - Teatro Cinearte - A Barraca



ESTREIA A 31 de JANEIRO: “A PEÇA PARA DOIS”
de Tennessee Williams

Realidade e Sonho mesclados numa obra meta-teatral com uma aterrorizante mestria próxima do suspense de um thriller.
Quando Felice e Clare, dois Actores - irmão e irmã - em tournée, são abandonados pela sua Companhia de Teatro, num decadente “Teatro de província de uma província que ninguém sabe onde fica.” e são confrontados por um público que espera uma actuação, tentam a “Peça Para Dois” – uma ilusão dentro da ilusão, “de certeza a peça mais estranha do nosso reportório. Pessoal de mais, talvez… as personagens têm os nossos nomes e…”, afirma a dada altura Clare – uma peça em que dois irmãos, Felice e Clare, vítimas ou assassinos dos seus pais, lutam para conseguir sair de casa numa pequena cidade que já os condenou.
“Penso que é a minha mais bela peça desde Um Eléctrico Chamado Desejo” disse Tennessee Williams, “e nunca parei de trabalhar nela... é um cri de coeur, mas, em certo sentido, todo o trabalho criativo, toda a vida, é um cri de coeur.”
Um texto enigmático e extraordinário sobre os limites do Teatro e da Vida, da Máscara dentro da Máscara, sobre a evanescente fusão das realidades.

Ficha Artística e Técnica
Autor: Tennessee Williams
Tradução: Rita Lello
Espectáculo de Rita Lello
Assistência de Encenação: Tiago Cadete
Elenco: Rita Lello, Pedro Giestas
Execução Figurinos: Alda Cabrita
Luminotecnia: Fernando Belo, José Carlos Pontes
Sonoplastia: Rui Mamede
Montagem e Carpintaria: Luis Thomar, Mário Dias
Costureira: Inna Siryk
Produção: Marta Gato
Secretariado de Produção: Inês Aboim
Relações Públicas: Elsa Lourenço
Bilheteira: Inês Marques
Fotografia: Luis Rocha – MEF
Cartaz: Elsa Lourenço
Secretariado: Maria Navarro

Horário
5ª a Sábado às 20h00
Domingo às 15h00
na sala 2 do TeatroCinearte
de 31 de Janeiro a 29 de Março de 2009
Informações e Reservas: 213965360, 213965275

Maria Callas / Alfredo Kraus - Traviata - Lisboa

sexta-feira, janeiro 23, 2009

Entrevista a Juvenal Garcês

Eu e o Juvenal

To be or not to be já não é uma questão existencial para a Companhia Teatral do Chiado! Entrevista exclusiva com o director e encenador da Companhia que celebrou o seu 18º aniversário no passado mês de Dezembro.Localizada nesta zona emblemática de Lisboa e fundada em 1990 pelo saudoso Mário Viegas e Juvenal Garcês, a Companhia Teatral do Chiado (CTC) conta com uma sólida carreira de 18 anos e com um fenómeno chamado “Obras Completas de Shakespeare em 97 minutos” dos americanos Daniel Singer, Adam Long e Jess Borgeson. A propósito da comemoração dos 12 anos em cena desta peça de teatro – e também dos 18 anos da companhia, a Rua de Baixo entrevistou o encenador e director artístico da CTC, Juvenal Garcês, que nos faz um balanço deste percurso e do sucesso desta peça junto do público português, nunca esquecendo a alusão ao actual panorama teatral nacional e a polémica do financiamento artístico.

RDB - “Obras completas de William Shakespeare em 97 minutos” … são 12 anos, cerca de 190 mil espectadores, 150 digressões … será que as obras já são conhecidas por todos os portugueses?

Juvenal Garcês (JG) - Acho que não… não quero ser tão megalómano a esse ponto! Mas são já conhecidas pelo menos por 180 mil espectadores - o que é um feito extraordinário - e já estar há 12 anos em cena. Confesso que nunca imaginei que tivesse tanto sucesso! Pensei que seria de 3 meses! Aconselhavam-me a não fazer este espectáculo, seria complicado em Portugal. As pessoas não conhecem Shakespeare, e fazer um espectáculo sobre as obras completas iria ser um flop. Na altura, o Mário Viegas tinha acabado de morrer e seria um risco muito grande… que eu decidi correr… Não tinha dinheiro nenhum. O espectáculo, chamado de “teatro pobre” (que de pobre não tem nada), era de montagem fácil: cenário e figurinos quase inexistentes (risos). E acabou por ser um sucesso, que tem também divulgado imenso a Companhia pelo país todo. Ou seja, o Shakespeare é de facto um grande dramaturgo e comercial (risos): tem sustentado todas as obras, todos os outros espectáculos que tenho feito nesta companhia. Shakespeare ainda continua a ser o grande motor da literatura.

RDB - Falou da questão da montagem da peça como factor de sucesso - que permite tanta mobilidade. Quais foram os outros factores?

JG - Shakespeare! E o facto de ter 3 actores fantásticos: o Simão (Rubim), o Manuel Mendes, o João Nuno Carracedo… Mas o grande mestre é o Shakespeare. Dá para tudo. E há qualquer coisa de enigmático ou de mágico na palavra de William Shakespeare.

RDB - As pessoas também têm tendência a gostar mais de comédias?

JG - A comédia sempre foi o género mais popular de sempre, o próprio Shakespeare o sabia, escreveu 16 comédias e tragédias só escreveu 10. Ou seja, ele sabia que a comédia é sempre o género mais popular.

A comédia é criticar o poder, é criticar os costumes, é descontrair… por isso as pessoas gostam. E mesmo nas tragédias, o Shakespeare tem cenas cómicas para cativar o público. As comédias sempre foram e serão o género mais popular. Como o Mário Viegas era um actor cómico por excelência e gostava muito de fazer comédias, nada melhor do que orientar uma companhia de teatro popular para as comédias.

RDB - Passados 12 anos, que agora permitem uma boa avaliação olhando para trás, mudaria algo na peça?

JG - Nada! Já nem o saberia fazer… porque é tão simples… acho que a minha cabeça já está demasiado complicada (risos)! A peça tem a ingenuidade de quem começa a encenar (na altura era a minha segunda encenação). E isso é que é o grande truque do espectáculo!

Os ingleses não fazem assim, de maneira nenhuma, fazem em 97 minutos – hora e meia, tiro e queda, com guarda-roupa fantástico, com cenário fantástico… Eu não faço nada daquilo, o cenário está a cair às três pancadas, os figurinos são sacos de batatas. E não tem hora e meia, tem quase 3 (risos).

RDB - Há pessoas que voltam a ver a peça… que é sempre diferente! Como é essa re-invenção?

JG - Há sempre uma margem de improviso. E que depende muito do público. Há espectáculos em que o público é óptimo e puxa pelos actores, é inteligente! E percebemos que o espectáculo começa a crescer. Mas o público nao é sempre o mesmo… e depende deles!

RDB - A razão do sucesso da tournée nacional é também o facto de adaptarem a peça a cada região…

JG - Sim, algumas coisas podemos adaptar, mas nem sempre… o motor de sucesso do Shakespeare é o Shakespeare!

RDB - A reacção do público não é muito diferente de local para local?

JG - Não, mas há pessoas que se chateiam (risos). Desde pessoas que ficam furiosas, insultam-nos, chamam-nos nomes… há pessoas que adoram, que já viram 10 vezes “As obras completas …”, já temos clube de fãs! Há pessoas que já vieram ver, casaram e trouxeram os filhos (risos)! E isto acontece na Companhia! Uma coisa fantástica! Como já houve pedidos de casamento durante o espectáculo… já aconteceu de tudo (risos)! Desde um padre a levantar-se, um senhor a insultar-nos… É assim. É um espectáculo vivo!i

COMPANHIA TEATRAL DO CHIADO - 18 ANOS DE RELAÇÃO COM O PÚBLICO

RDB - Estava a falar na questão dos autores ingleses. Nestes 18 anos da CTC, a escolha recai maioritariamente em autores anglo-saxónicos. Porquê?

JG - Sim, mas também tenho feito autores nórdicos, tenho feito (Henrik) Ibsen, (August) Strinberg… mas mais recentemente tenho feito os ingleses. Principalmente por uma coisa: porque eles têm uma grande tradição e escola de escrita teatral – é a terra do Shakespeare - e têm grandes peças. Tenho - a CTC - “A Arte do Crime”, que é uma peça do ponto de vista de estrutura perfeita. Através das palavras ele consegue cativar o público durante duas horas. Os ingleses quando são bons, são perfeitos a construir. O teatro faz parte dos ingleses… uma coisa que em Portugal ainda não acontece… eles vão ao teatro como quem vai ao cinema.

RDB - Essa é a minha próxima questão. Falava que em Portugal não existia a cultura do teatro: é essa a razão para não escolher autores portugueses?

JG - Não… Em Portugal temos geralmente é uma grande tradição de comédia e de actores cómicos… os grandes actores que ficam normalmente são cómicos, Laura Alves, Beatriz costa, Mirita Casimiro, Vasco Santana, Ribeirinho, Mário Viegas, etc… Os grandes actores são sempre cómicos e faziam grandes comédias. A grande tradição é de facto de actores de comédia…

Vou ser sincero… nós não temos uma grande escrita a nível de escola de dramaturgia. Temos o Garrett… mas grandes peças do ponto de vista de escrita não há. Temos grandes poetas, muitos, são tantos que a gente nem fixa (risos). Mas a nível de construção de peças não temos.

RDB - Falando exactamente do público: a CTC e o próprio Juvenal dizem que o público é vosso grande patrocinador. O que distingue esta companhia das outras em Portugal para ter tanto sucesso junto do público e não precisar dos apoios?

JG - Nós não fazemos teatro à espera do subsídio! O meu sonho - e que neste momento já realizo - é o teatro sem subsídios… temos pequenas ajudas, da Câmara (de Lisboa)… que nos cede o espaço, a água e luz… mas o meu sonho é fazer de facto um teatro verdadeiramente independente, que não dependesse do Estado! Já faço, mas acho que o teatro deveria depender mais do público! Os portugueses ainda continuam a pensar que se não houver subsídio, não há teatro… e isso é completamente errado! As pessoas têm que arriscar, e isso é o que nos distingue das outras companhias. Aliás, deixei de pedir subsídios, são todos viciados, é uma pescadinha de rabo na boca… as companhias têm milhares de euros e acabam por fazer 3 espectáculos, com 30 representações cada um: ou seja, fazem 90 representações - o exigido pelo ministério - se pensarmos que o ano tem 365 dias, o que fazem nos restantes? O teatro tem por obrigação estar aberto todos os dias e esse é o meu objectivo! Aliás, neste momento temos peças a mais. Uma no auditório Carlos Paredes, a Biblia (A Bíblia: Toda a Palavra de Deus) e temos uma peça infantil na escola São João de Brito. Aqui, o Teatro Mário Viegas tem de estar aberto todos os dias: é um espaço municipal, temos de dar espectáculos às pessoas, elas têm o direito, como qualquer capital europeia civilizada, de sair à noite e se lhes apetece ir ao teatro, este estar aberto. O que não acontece em Portugal! São poucos os teatros que fazem isso…

RDB - A tal questão da gestão e da arte estarem de costas voltadas tem de mudar?

JG - Claro, claro. Se formos a ver quanto custa ao herário público - que são as pessoas coitadas que andam a pagar - quanto custa cada cadeira ao Estado … é um terror! Quando sabemos que em Portugal há pessoas que vivem com 300 euros e famílias com 600 e têm de alimentar filhos… acho que isto é um desperdício e um privilégio que ninguém deve ter.

RDB - Como é a relação da CTC com as outras companhias portuguesas?

JG - Temos pouco, aliás não há, está tudo estragado… como não fazemos parte dos subsídios, não vamos… não estamos mesmo…

RDB - No entanto a companhia é aberta a outras iniciativas?

JG - Sim, já tivemos, mas tenho um problema aqui na sala - tem apenas 100 lugares - apesar de não fazer teatro com objectivos comerciais, atenção… mas esta sala é muito pequena! Um dia gostava de voltar a fazer programas - que já fiz - mas isso teria de ter pelo menos outra sala com 200 lugares. Muitas vezes temos de fazer tournées para poder pagar o Teatro Mário Viegas, ou seja, a estrutura toda que está aqui criada, actores, produção, meninas da bilheteira, a senhora que vem limpar os camarins… há toda uma estrutura que o próprio Teatro Mário Viegas não tem cadeiras para pagar, então de vez em quando fazemos tournées.

RDB - Vamos mudar um pouco de assunto e falar dos 18 anos da companhia. No início, em 1990, o Juvenal e o Mário Viegas pensavam neste sucesso e longevidade?

JG - Não, não pensávamos. Nem no desfecho que iria ser. Nem o Mário nem eu sabíamos fazer outra coisa. E depois como éramos muito amigos, pensámos porque não haveríamos de fazer uma companhia. Mas não foi com um objectivo de muito sucesso… foi para nos divertirmos, para fazer teatro (risos).

RDB - Mas agora o discurso muda um pouco, já fala na questão comercial, no sustento da estrutura…

JG - Claro, porque tenho responsabilidades; além de ser director do Teatro Mário Viegas, sou encenador, sou director da empresa e sou sócio maioritário, e tenho pessoas a quem tenho de pagar ordenado, porque têm filhos, têm de pagar a renda, a água e luz… tenho responsabilidades sobre isso e não posso chegar ao final do mês e dizer que não tenho dinheiro para lhes pagar!

RDB - Mas não é também um dever público? Mostrar o teatro e a CTC ao resto do país, através das tournées?

JG - Exactamente! E para ganhar dinheiro para poder pagar aos actores e às pessoas que aqui trabalham!

RDB - Falando agora do Mário Viegas… 13 anos depois da sua morte, ainda sente a sua influência na direcção do Teatro?

JG - Sempre, sempre! Eu já tenho uma certa maturidade, mas claro que sou uma espécie de produto do Mário, porque tinha 18 anos quando o conheci e ele tinha 30 e muitos. Obviamente que o Mário também se inspirou em algumas coisas que eu tinha como jovem e vice-versa. Mas a minha educação e o meu gosto teatral foram muito influenciados por ele… mas eu também já tinha isso, porque o actor que eu mais gostava era já o Mário Viegas (risos)! Era a pessoa de quem eu mais gostava, a maneira de estar no teatro e na vida, que eu mais me identificava… Antes de o conhecer, de o ver… já havia uma cumplicidade de gostos e maneira de estar!

RDB - Olhando para o passado… Nestes 18 anos e há 14 que dirige o teatro, alguma coisa que mudaria?

JG - Fazem-se erros. Disparates. Já tenho 47 anos e uma certa maturidade para dizer que fiz alguns erros e que não os voltaria a fazer. O que é natural. Mas a maior parte das coisas não mudaria.

RDB - E nestes 18 anos, gostaria de destacar um ponto positivo, um ponto negativo e uma surpresa na história da CTC? Apesar de ser complicado fazer este tipo de avaliação numa carreira tão longa.

JG - Positivo, a fundação da Companhia e a minha estreia como encenador. Triste, a morte do Mário Viegas.
A surpresa, “As Obras Completas de Shakespeare em 97 minutos”. Estávamos tão mal, tão mal de dinheiro que foi uma surpresa. E toda a gente dizia que iria apenas durar 3 meses! Aquilo é uma espécie de ad eternum… há mais 10 milhões de portugueses que ainda querem ver (risos)! O Shakespeare é um marco na companhia e no teatro português! Acho que não há nenhum espectáculo que tenha 12 anos em cena!

RDB - E planos futuros?

JG - Quero continuar a fazer teatro, a divertir-me, principalmente com os meus amigos e actores que gosto. E mais nada! Fazer teatro e viver minimamente bem.
Entrevista retirada do site: Rua De Baixo

Documentário

Um rapaz que, como eu, passa férias em Santa Cruz da Trapa, fez esta pequena pérola documental. É sobre as recordações da sua casa... a mim emocionou-me muito.
É santa Cruz da Trapa e está tudo dito.