sexta-feira, janeiro 23, 2009

Entrevista a Juvenal Garcês

Eu e o Juvenal

To be or not to be já não é uma questão existencial para a Companhia Teatral do Chiado! Entrevista exclusiva com o director e encenador da Companhia que celebrou o seu 18º aniversário no passado mês de Dezembro.Localizada nesta zona emblemática de Lisboa e fundada em 1990 pelo saudoso Mário Viegas e Juvenal Garcês, a Companhia Teatral do Chiado (CTC) conta com uma sólida carreira de 18 anos e com um fenómeno chamado “Obras Completas de Shakespeare em 97 minutos” dos americanos Daniel Singer, Adam Long e Jess Borgeson. A propósito da comemoração dos 12 anos em cena desta peça de teatro – e também dos 18 anos da companhia, a Rua de Baixo entrevistou o encenador e director artístico da CTC, Juvenal Garcês, que nos faz um balanço deste percurso e do sucesso desta peça junto do público português, nunca esquecendo a alusão ao actual panorama teatral nacional e a polémica do financiamento artístico.

RDB - “Obras completas de William Shakespeare em 97 minutos” … são 12 anos, cerca de 190 mil espectadores, 150 digressões … será que as obras já são conhecidas por todos os portugueses?

Juvenal Garcês (JG) - Acho que não… não quero ser tão megalómano a esse ponto! Mas são já conhecidas pelo menos por 180 mil espectadores - o que é um feito extraordinário - e já estar há 12 anos em cena. Confesso que nunca imaginei que tivesse tanto sucesso! Pensei que seria de 3 meses! Aconselhavam-me a não fazer este espectáculo, seria complicado em Portugal. As pessoas não conhecem Shakespeare, e fazer um espectáculo sobre as obras completas iria ser um flop. Na altura, o Mário Viegas tinha acabado de morrer e seria um risco muito grande… que eu decidi correr… Não tinha dinheiro nenhum. O espectáculo, chamado de “teatro pobre” (que de pobre não tem nada), era de montagem fácil: cenário e figurinos quase inexistentes (risos). E acabou por ser um sucesso, que tem também divulgado imenso a Companhia pelo país todo. Ou seja, o Shakespeare é de facto um grande dramaturgo e comercial (risos): tem sustentado todas as obras, todos os outros espectáculos que tenho feito nesta companhia. Shakespeare ainda continua a ser o grande motor da literatura.

RDB - Falou da questão da montagem da peça como factor de sucesso - que permite tanta mobilidade. Quais foram os outros factores?

JG - Shakespeare! E o facto de ter 3 actores fantásticos: o Simão (Rubim), o Manuel Mendes, o João Nuno Carracedo… Mas o grande mestre é o Shakespeare. Dá para tudo. E há qualquer coisa de enigmático ou de mágico na palavra de William Shakespeare.

RDB - As pessoas também têm tendência a gostar mais de comédias?

JG - A comédia sempre foi o género mais popular de sempre, o próprio Shakespeare o sabia, escreveu 16 comédias e tragédias só escreveu 10. Ou seja, ele sabia que a comédia é sempre o género mais popular.

A comédia é criticar o poder, é criticar os costumes, é descontrair… por isso as pessoas gostam. E mesmo nas tragédias, o Shakespeare tem cenas cómicas para cativar o público. As comédias sempre foram e serão o género mais popular. Como o Mário Viegas era um actor cómico por excelência e gostava muito de fazer comédias, nada melhor do que orientar uma companhia de teatro popular para as comédias.

RDB - Passados 12 anos, que agora permitem uma boa avaliação olhando para trás, mudaria algo na peça?

JG - Nada! Já nem o saberia fazer… porque é tão simples… acho que a minha cabeça já está demasiado complicada (risos)! A peça tem a ingenuidade de quem começa a encenar (na altura era a minha segunda encenação). E isso é que é o grande truque do espectáculo!

Os ingleses não fazem assim, de maneira nenhuma, fazem em 97 minutos – hora e meia, tiro e queda, com guarda-roupa fantástico, com cenário fantástico… Eu não faço nada daquilo, o cenário está a cair às três pancadas, os figurinos são sacos de batatas. E não tem hora e meia, tem quase 3 (risos).

RDB - Há pessoas que voltam a ver a peça… que é sempre diferente! Como é essa re-invenção?

JG - Há sempre uma margem de improviso. E que depende muito do público. Há espectáculos em que o público é óptimo e puxa pelos actores, é inteligente! E percebemos que o espectáculo começa a crescer. Mas o público nao é sempre o mesmo… e depende deles!

RDB - A razão do sucesso da tournée nacional é também o facto de adaptarem a peça a cada região…

JG - Sim, algumas coisas podemos adaptar, mas nem sempre… o motor de sucesso do Shakespeare é o Shakespeare!

RDB - A reacção do público não é muito diferente de local para local?

JG - Não, mas há pessoas que se chateiam (risos). Desde pessoas que ficam furiosas, insultam-nos, chamam-nos nomes… há pessoas que adoram, que já viram 10 vezes “As obras completas …”, já temos clube de fãs! Há pessoas que já vieram ver, casaram e trouxeram os filhos (risos)! E isto acontece na Companhia! Uma coisa fantástica! Como já houve pedidos de casamento durante o espectáculo… já aconteceu de tudo (risos)! Desde um padre a levantar-se, um senhor a insultar-nos… É assim. É um espectáculo vivo!i

COMPANHIA TEATRAL DO CHIADO - 18 ANOS DE RELAÇÃO COM O PÚBLICO

RDB - Estava a falar na questão dos autores ingleses. Nestes 18 anos da CTC, a escolha recai maioritariamente em autores anglo-saxónicos. Porquê?

JG - Sim, mas também tenho feito autores nórdicos, tenho feito (Henrik) Ibsen, (August) Strinberg… mas mais recentemente tenho feito os ingleses. Principalmente por uma coisa: porque eles têm uma grande tradição e escola de escrita teatral – é a terra do Shakespeare - e têm grandes peças. Tenho - a CTC - “A Arte do Crime”, que é uma peça do ponto de vista de estrutura perfeita. Através das palavras ele consegue cativar o público durante duas horas. Os ingleses quando são bons, são perfeitos a construir. O teatro faz parte dos ingleses… uma coisa que em Portugal ainda não acontece… eles vão ao teatro como quem vai ao cinema.

RDB - Essa é a minha próxima questão. Falava que em Portugal não existia a cultura do teatro: é essa a razão para não escolher autores portugueses?

JG - Não… Em Portugal temos geralmente é uma grande tradição de comédia e de actores cómicos… os grandes actores que ficam normalmente são cómicos, Laura Alves, Beatriz costa, Mirita Casimiro, Vasco Santana, Ribeirinho, Mário Viegas, etc… Os grandes actores são sempre cómicos e faziam grandes comédias. A grande tradição é de facto de actores de comédia…

Vou ser sincero… nós não temos uma grande escrita a nível de escola de dramaturgia. Temos o Garrett… mas grandes peças do ponto de vista de escrita não há. Temos grandes poetas, muitos, são tantos que a gente nem fixa (risos). Mas a nível de construção de peças não temos.

RDB - Falando exactamente do público: a CTC e o próprio Juvenal dizem que o público é vosso grande patrocinador. O que distingue esta companhia das outras em Portugal para ter tanto sucesso junto do público e não precisar dos apoios?

JG - Nós não fazemos teatro à espera do subsídio! O meu sonho - e que neste momento já realizo - é o teatro sem subsídios… temos pequenas ajudas, da Câmara (de Lisboa)… que nos cede o espaço, a água e luz… mas o meu sonho é fazer de facto um teatro verdadeiramente independente, que não dependesse do Estado! Já faço, mas acho que o teatro deveria depender mais do público! Os portugueses ainda continuam a pensar que se não houver subsídio, não há teatro… e isso é completamente errado! As pessoas têm que arriscar, e isso é o que nos distingue das outras companhias. Aliás, deixei de pedir subsídios, são todos viciados, é uma pescadinha de rabo na boca… as companhias têm milhares de euros e acabam por fazer 3 espectáculos, com 30 representações cada um: ou seja, fazem 90 representações - o exigido pelo ministério - se pensarmos que o ano tem 365 dias, o que fazem nos restantes? O teatro tem por obrigação estar aberto todos os dias e esse é o meu objectivo! Aliás, neste momento temos peças a mais. Uma no auditório Carlos Paredes, a Biblia (A Bíblia: Toda a Palavra de Deus) e temos uma peça infantil na escola São João de Brito. Aqui, o Teatro Mário Viegas tem de estar aberto todos os dias: é um espaço municipal, temos de dar espectáculos às pessoas, elas têm o direito, como qualquer capital europeia civilizada, de sair à noite e se lhes apetece ir ao teatro, este estar aberto. O que não acontece em Portugal! São poucos os teatros que fazem isso…

RDB - A tal questão da gestão e da arte estarem de costas voltadas tem de mudar?

JG - Claro, claro. Se formos a ver quanto custa ao herário público - que são as pessoas coitadas que andam a pagar - quanto custa cada cadeira ao Estado … é um terror! Quando sabemos que em Portugal há pessoas que vivem com 300 euros e famílias com 600 e têm de alimentar filhos… acho que isto é um desperdício e um privilégio que ninguém deve ter.

RDB - Como é a relação da CTC com as outras companhias portuguesas?

JG - Temos pouco, aliás não há, está tudo estragado… como não fazemos parte dos subsídios, não vamos… não estamos mesmo…

RDB - No entanto a companhia é aberta a outras iniciativas?

JG - Sim, já tivemos, mas tenho um problema aqui na sala - tem apenas 100 lugares - apesar de não fazer teatro com objectivos comerciais, atenção… mas esta sala é muito pequena! Um dia gostava de voltar a fazer programas - que já fiz - mas isso teria de ter pelo menos outra sala com 200 lugares. Muitas vezes temos de fazer tournées para poder pagar o Teatro Mário Viegas, ou seja, a estrutura toda que está aqui criada, actores, produção, meninas da bilheteira, a senhora que vem limpar os camarins… há toda uma estrutura que o próprio Teatro Mário Viegas não tem cadeiras para pagar, então de vez em quando fazemos tournées.

RDB - Vamos mudar um pouco de assunto e falar dos 18 anos da companhia. No início, em 1990, o Juvenal e o Mário Viegas pensavam neste sucesso e longevidade?

JG - Não, não pensávamos. Nem no desfecho que iria ser. Nem o Mário nem eu sabíamos fazer outra coisa. E depois como éramos muito amigos, pensámos porque não haveríamos de fazer uma companhia. Mas não foi com um objectivo de muito sucesso… foi para nos divertirmos, para fazer teatro (risos).

RDB - Mas agora o discurso muda um pouco, já fala na questão comercial, no sustento da estrutura…

JG - Claro, porque tenho responsabilidades; além de ser director do Teatro Mário Viegas, sou encenador, sou director da empresa e sou sócio maioritário, e tenho pessoas a quem tenho de pagar ordenado, porque têm filhos, têm de pagar a renda, a água e luz… tenho responsabilidades sobre isso e não posso chegar ao final do mês e dizer que não tenho dinheiro para lhes pagar!

RDB - Mas não é também um dever público? Mostrar o teatro e a CTC ao resto do país, através das tournées?

JG - Exactamente! E para ganhar dinheiro para poder pagar aos actores e às pessoas que aqui trabalham!

RDB - Falando agora do Mário Viegas… 13 anos depois da sua morte, ainda sente a sua influência na direcção do Teatro?

JG - Sempre, sempre! Eu já tenho uma certa maturidade, mas claro que sou uma espécie de produto do Mário, porque tinha 18 anos quando o conheci e ele tinha 30 e muitos. Obviamente que o Mário também se inspirou em algumas coisas que eu tinha como jovem e vice-versa. Mas a minha educação e o meu gosto teatral foram muito influenciados por ele… mas eu também já tinha isso, porque o actor que eu mais gostava era já o Mário Viegas (risos)! Era a pessoa de quem eu mais gostava, a maneira de estar no teatro e na vida, que eu mais me identificava… Antes de o conhecer, de o ver… já havia uma cumplicidade de gostos e maneira de estar!

RDB - Olhando para o passado… Nestes 18 anos e há 14 que dirige o teatro, alguma coisa que mudaria?

JG - Fazem-se erros. Disparates. Já tenho 47 anos e uma certa maturidade para dizer que fiz alguns erros e que não os voltaria a fazer. O que é natural. Mas a maior parte das coisas não mudaria.

RDB - E nestes 18 anos, gostaria de destacar um ponto positivo, um ponto negativo e uma surpresa na história da CTC? Apesar de ser complicado fazer este tipo de avaliação numa carreira tão longa.

JG - Positivo, a fundação da Companhia e a minha estreia como encenador. Triste, a morte do Mário Viegas.
A surpresa, “As Obras Completas de Shakespeare em 97 minutos”. Estávamos tão mal, tão mal de dinheiro que foi uma surpresa. E toda a gente dizia que iria apenas durar 3 meses! Aquilo é uma espécie de ad eternum… há mais 10 milhões de portugueses que ainda querem ver (risos)! O Shakespeare é um marco na companhia e no teatro português! Acho que não há nenhum espectáculo que tenha 12 anos em cena!

RDB - E planos futuros?

JG - Quero continuar a fazer teatro, a divertir-me, principalmente com os meus amigos e actores que gosto. E mais nada! Fazer teatro e viver minimamente bem.
Entrevista retirada do site: Rua De Baixo

Documentário

Um rapaz que, como eu, passa férias em Santa Cruz da Trapa, fez esta pequena pérola documental. É sobre as recordações da sua casa... a mim emocionou-me muito.
É santa Cruz da Trapa e está tudo dito.

quinta-feira, janeiro 22, 2009

Simone de Oliveira e Ary dos Santos - Apenas o Meu Povo





Apenas o Meu Povo

Quem disse que morreu a madrugada?
Quem disse que esta noite foi perdida?
Quem pôs na minha alma magoada
As palavras mais tristes que há na vida?
Quem me disse saudade em vez de amor?
Quem me disse tristeza em vez de esperança?
Quem me lançou a pedra do terror
Matando o cantador e a criança?
Quem fez da minha espera desespero?
Quem fez da minha sede temperança?
Quem me dando tudo quanto eu quero
Da minha tempestade fez bonança?
Quem amainou os ventos do meu corpo
E saciou o mar da minha fome?
Quem foi que me venceu depois de morta
E soletrou as letras do meu nome?
Quem foi foi quem fez serva sem servir?
Quem foi que me fez escrava sem querer?
Quem foi que disse que eu podia ir
Tão longe quanto nós podemos ser?
Apenas quem me viu calada e triste
E despertou em mim um mundo novo
Apenas a esperança que resiste
Apenas o meu sangue, apenas o meu povo
Apenas a esperança que resiste
Apenas o meu sangue, apenas o meu povo

Porque Ary dos Santos morreu a 18 de Janeiro de 1984, aqui fica a homenagem. A voz de uma das artistas e amigas de Ary dos Santos e um dos poemas favoritos da mesma artista e amiga de José Carlos Ary dos Santos.

terça-feira, janeiro 20, 2009

Discurso Integral de Obama

Barack Obama has been sworn in as the 44th US president. Here is his inauguration speech in full.

My fellow citizens:

I stand here today humbled by the task before us, grateful for the trust you have bestowed, mindful of the sacrifices borne by our ancestors. I thank President Bush for his service to our nation, as well as the generosity and co-operation he has shown throughout this transition.

Forty-four Americans have now taken the presidential oath. The words have been spoken during rising tides of prosperity and the still waters of peace. Yet, every so often the oath is taken amidst gathering clouds and raging storms. At these moments, America has carried on not simply because of the skill or vision of those in high office, but because we, the people, have remained faithful to the ideals of our forbearers, and true to our founding documents.

So it has been. So it must be with this generation of Americans.

Serious challenges

That we are in the midst of crisis is now well understood. Our nation is at war, against a far-reaching network of violence and hatred. Our economy is badly weakened, a consequence of greed and irresponsibility on the part of some, but also our collective failure to make hard choices and prepare the nation for a new age. Homes have been lost; jobs shed; businesses shuttered. Our health care is too costly; our schools fail too many; and each day brings further evidence that the ways we use energy strengthen our adversaries and threaten our planet.

These are the indicators of crisis, subject to data and statistics. Less measurable but no less profound is a sapping of confidence across our land - a nagging fear that America's decline is inevitable, and that the next generation must lower its sights.

Today I say to you that the challenges we face are real. They are serious and they are many. They will not be met easily or in a short span of time. But know this, America - they will be met.

On this day, we gather because we have chosen hope over fear, unity of purpose over conflict and discord.

On this day, we come to proclaim an end to the petty grievances and false promises, the recriminations and worn out dogmas, that for far too long have strangled our politics.

Nation of 'risk-takers'

We remain a young nation, but in the words of scripture, the time has come to set aside childish things. The time has come to reaffirm our enduring spirit; to choose our better history; to carry forward that precious gift, that noble idea, passed on from generation to generation: the God-given promise that all are equal, all are free, and all deserve a chance to pursue their full measure of happiness.

In reaffirming the greatness of our nation, we understand that greatness is never a given. It must be earned. Our journey has never been one of short-cuts or settling for less. It has not been the path for the faint-hearted - for those who prefer leisure over work, or seek only the pleasures of riches and fame. Rather, it has been the risk-takers, the doers, the makers of things - some celebrated but more often men and women obscure in their labour, who have carried us up the long, rugged path towards prosperity and freedom.

For us, they packed up their few worldly possessions and travelled across oceans in search of a new life.

For us, they toiled in sweatshops and settled the West; endured the lash of the whip and ploughed the hard earth.

For us, they fought and died, in places like Concord and Gettysburg; Normandy and Khe Sahn.

'Remaking America'

Time and again these men and women struggled and sacrificed and worked till their hands were raw so that we might live a better life. They saw America as bigger than the sum of our individual ambitions; greater than all the differences of birth or wealth or faction.

This is the journey we continue today. We remain the most prosperous, powerful nation on earth. Our workers are no less productive than when this crisis began. Our minds are no less inventive, our goods and services no less needed than they were last week or last month or last year. Our capacity remains undiminished. But our time of standing pat, of protecting narrow interests and putting off unpleasant decisions - that time has surely passed. Starting today, we must pick ourselves up, dust ourselves off, and begin again the work of remaking America.

For everywhere we look, there is work to be done. The state of the economy calls for action, bold and swift, and we will act - not only to create new jobs, but to lay a new foundation for growth. We will build the roads and bridges, the electric grids and digital lines that feed our commerce and bind us together. We will restore science to its rightful place, and wield technology's wonders to raise health care's quality and lower its cost. We will harness the sun and the winds and the soil to fuel our cars and run our factories. And we will transform our schools and colleges and universities to meet the demands of a new age. All this we can do. All this we will do.

Restoring trust

Now, there are some who question the scale of our ambitions - who suggest that our system cannot tolerate too many big plans. Their memories are short. For they have forgotten what this country has already done; what free men and women can achieve when imagination is joined to common purpose, and necessity to courage.

What the cynics fail to understand is that the ground has shifted beneath them - that the stale political arguments that have consumed us for so long no longer apply. The question we ask today is not whether our government is too big or too small, but whether it works - whether it helps families find jobs at a decent wage, care they can afford, a retirement that is dignified. Where the answer is yes, we intend to move forward. Where the answer is no, programs will end. And those of us who manage the public's dollars will be held to account - to spend wisely, reform bad habits, and do our business in the light of day - because only then can we restore the vital trust between a people and their government.

Nor is the question before us whether the market is a force for good or ill. Its power to generate wealth and expand freedom is unmatched, but this crisis has reminded us that without a watchful eye, the market can spin out of control - that a nation cannot prosper long when it favours only the prosperous. The success of our economy has always depended not just on the size of our gross domestic product, but on the reach of our prosperity; on the ability to extend opportunity to every willing heart - not out of charity, but because it is the surest route to our common good.

'Ready to lead'

As for our common defence, we reject as false the choice between our safety and our ideals. Our founding fathers, faced with perils we can scarcely imagine, drafted a charter to assure the rule of law and the rights of man, a charter expanded by the blood of generations. Those ideals still light the world, and we will not give them up for expedience's sake. And so to all other peoples and governments who are watching today, from the grandest capitals to the small village where my father was born: know that America is a friend of each nation and every man, woman, and child who seeks a future of peace and dignity, and we are ready to lead once more.

Recall that earlier generations faced down fascism and communism not just with missiles and tanks, but with the sturdy alliances and enduring convictions. They understood that our power alone cannot protect us, nor does it entitle us to do as we please. Instead, they knew that our power grows through its prudent use; our security emanates from the justness of our cause, the force of our example, the tempering qualities of humility and restraint.

We are the keepers of this legacy. Guided by these principles once more, we can meet those new threats that demand even greater effort - even greater cooperation and understanding between nations. We will begin to responsibly leave Iraq to its people, and forge a hard-earned peace in Afghanistan. With old friends and former foes, we will work tirelessly to lessen the nuclear threat, and roll back the spectre of a warming planet. We will not apologize for our way of life, nor will we waver in its defence, and for those who seek to advance their aims by inducing terror and slaughtering innocents, we say to you now that our spirit is stronger and cannot be broken; you cannot outlast us, and we will defeat you.

'Era of peace'

For we know that our patchwork heritage is a strength, not a weakness. We are a nation of Christians and Muslims, Jews and Hindus - and non-believers. We are shaped by every language and culture, drawn from every end of this earth; and because we have tasted the bitter swill of civil war and segregation, and emerged from that dark chapter stronger and more united, we cannot help but believe that the old hatreds shall someday pass; that the lines of tribe shall soon dissolve; that as the world grows smaller, our common humanity shall reveal itself; and that America must play its role in ushering in a new era of peace.

To the Muslim world, we seek a new way forward, based on mutual interest and mutual respect. To those leaders around the globe who seek to sow conflict, or blame their society's ills on the West - know that your people will judge you on what you can build, not what you destroy. To those who cling to power through corruption and deceit and the silencing of dissent, know that you are on the wrong side of history; but that we will extend a hand if you are willing to unclench your fist.

To the people of poor nations, we pledge to work alongside you to make your farms flourish and let clean waters flow; to nourish starved bodies and feed hungry minds. And to those nations like ours that enjoy relative plenty, we say we can no longer afford indifference to suffering outside our borders; nor can we consume the world's resources without regard to effect. For the world has changed, and we must change with it.

'Duties'

As we consider the road that unfolds before us, we remember with humble gratitude those brave Americans who, at this very hour, patrol far-off deserts and distant mountains. They have something to tell us, just as the fallen heroes who lie in Arlington whisper through the ages. We honour them not only because they are guardians of our liberty, but because they embody the spirit of service; a willingness to find meaning in something greater than themselves. And yet, at this moment - a moment that will define a generation - it is precisely this spirit that must inhabit us all.

For as much as government can do and must do, it is ultimately the faith and determination of the American people upon which this nation relies. It is the kindness to take in a stranger when the levees break, the selflessness of workers who would rather cut their hours than see a friend lose their job which sees us through our darkest hours. It is the firefighter's courage to storm a stairway filled with smoke, but also a parent's willingness to nurture a child, that finally decides our fate.

Our challenges may be new. The instruments with which we meet them may be new. But those values upon which our success depends - honesty and hard work, courage and fair play, tolerance and curiosity, loyalty and patriotism - these things are old. These things are true. They have been the quiet force of progress throughout our history. What is demanded then is a return to these truths. What is required of us now is a new era of responsibility - a recognition, on the part of every American, that we have duties to ourselves, our nation, and the world, duties that we do not grudgingly accept but rather seize gladly, firm in the knowledge that there is nothing so satisfying to the spirit, so defining of our character, than giving our all to a difficult task.

'Gift of freedom'

This is the price and the promise of citizenship.

This is the source of our confidence - the knowledge that God calls on us to shape an uncertain destiny.

This is the meaning of our liberty and our creed - why men and women and children of every race and every faith can join in celebration across this magnificent mall, and why a man whose father less than 60 years ago might not have been served at a local restaurant can now stand before you to take a most sacred oath.

So let us mark this day with remembrance, of who we are and how far we have travelled. In the year of America's birth, in the coldest of months, a small band of patriots huddled by dying campfires on the shores of an icy river. The capital was abandoned. The enemy was advancing. The snow was stained with blood. At a moment when the outcome of our revolution was most in doubt, the father of our nation ordered these words be read to the people:

"Let it be told to the future world...that in the depth of winter, when nothing but hope and virtue could survive...that the city and the country, alarmed at one common danger, came forth to meet [it]."

America. In the face of our common dangers, in this winter of our hardship, let us remember these timeless words. With hope and virtue, let us brave once more the icy currents, and endure what storms may come. Let it be said by our children's children that when we were tested we refused to let this journey end, that we did not turn back nor did we falter; and with eyes fixed on the horizon and God's grace upon us, we carried forth that great gift of freedom and delivered it safely to future generations.

Thank you. God bless you. And God bless the United States of America.

Primeiro discurso de Obama como Presidente.

As multidões e eu...

Há qualquer coisa no fenómeno de massas que me emociona. Muita gente por um mesmo propósito, seja ele qual for.
Um jogo de futebol apinhado de gente, o rio de luzes trémulas da Procissão das Velas de Fátima, um concerto com público em delírio ou uma nação presente para receber um novo presidente ou homenagear alguém querido (lembremo-nos, por exemplo, do funeral de Amália Rodrigues), são imagens mais do que suficientes para me emocionarem.
Até o desfile do 1º Maio último – o único a que fui – serviu para que a voz me faltasse em soluços e me tivesse de controlar para que as lágrimas não me escorressem pela cara.
Estranho fenómeno este em mim. Eu que odeio, temo e não me meto em multidões.

Cucha Carvalheiro à frente do Teatro da Trindade.



Teatro - Nova direcção assume funções em Maio

Mulher à frente do Trindade

A actriz e encenadora Cucha Carvalheiro – que o grande público conhece, também, das telenovelas nacionais – é a nova directora do Teatro da Trindade, em Lisboa, e deverá assumir funções em Maio, altura em que aquele espaço gerido pelo INATEL entrará em obras de remodelação.

A notícia foi confirmada ao CM pela própria, que acrescentou que a sua principal preocupação – e a da nova administração, em funções desde Setembro passado – é a a de assegurar, no Trindade, um teatro de serviço público.

"Queremos que o Teatro da Trindade seja o cartão-de-visita da Fundação INATEL e que tenha repercussão em todo o País, já que tem equipamentos espalhados por todos os distritos e há que assegurar a programação teatral também desses espaços."

Não querendo adiantar muito sobre a sua programação, que ainda está em fase de estruturação, Cucha Carvalheiro, uma das poucas mulheres a ser nomeadas para cargos de direcção em teatros – no ano passado Maria João Brilhante foi designada pelo Ministério da Cultura como directora do Teatro Nacional D. Maria II –, adiantou, porém que, sempre em diálogo com a administração da Fundação INATEL, pretende levar à cena teatro de repertório.

"Vou procurar fazer aquilo a que se costuma chamar teatro popular de qualidade", explicou. "Ou seja, fazer bons textos que agradem às pessoas."

Não querendo ainda avançar números sobre o orçamento disponível para a sua gestão artística, diz que está neste momento a estudar uma estratégia programativa e que a sua marca começará a ser impressa a partir de Setembro. E que se fará sentir, nomeadamente, no melhor aproveitamento dos espaços alternativos do Teatro da Trindade, a saber a Sala-Estúdio e o Café Teatro.

"Quero programar para estes espaços, que têm sido de acolhimento, mas onde queremos passar a apresentar também produção própria", conclui a actriz e encenadora.

PORMENORES

MULTIFACETADA

Cucha Carvalheiro tem 60 anos, é licenciada em Filosofia pela Universidade de Lisboa e começou a fazer teatro no Grupo Cénico de Direito. Irmã de José Fonseca e Costa, é encenadora e actriz de teatro, cinema e televisão. Escreveu vários livros e orientou inúmeros cursos de formação teatral.

MELHOR ACTRIZ DE 2004

Integrou o elenco de diversas companhias, foi co-fundadora, com Fernanda Lapa, da Escola de Mulheres – Oficina de Teatro, fez direcção de actores para televisão e assumiu a direcção artística da produtora NBP entre 2002 e 2004. Nesse mesmo ano ganhou o Globo de Ouro para Melhor Actriz de Teatro (com ‘A Cabra’, de Albee, na Comuna).

SUBSTITUI RUI SÉRGIO

Cucha Carvalheiro substitui no cargo o ainda director interino do Teatro da Trindade Rui Sérgio, que assumiu funções em Setembro de 2006, na sequência da saída de Carlos Fragateiro para o TNDM II.

Morreu João Aguardela


Morreu artífice da música popular

João Aguardela, que em 1992 com os Sitiados pôs Portugal a cantar "esta vida de marinheiro está a dar cabo de mim/rapara para parapa raparaparê’’, morreu no domingo à noite, em Lisboa, vítima de cancro. Tinha 39 anos (faria 40 em Fevereiro) e a sua morte deixa mais pobre a música portuguesa.


Orgulhoso da tradição musical portuguesa, João Aguardela foi um visionário, um artífice da música popular portuguesa. Como matéria-prima elegeu as raízes profundas, que depois casava com sonoridades contemporâneas. Em 1994, tal ousadia valeu-lhe o Prémio Revelação atribuído pela Sociedade Portuguesa de Autores.

Além dos Sitiados, com quem lançou cinco discos desde a fundação em 1987 até 2000, a Aguardela se devem ainda vários outros projectos que tiveram a virtude de rejuvenescer a música portuguesa. Foram os casos de Megafone (recolhas etnográficas de Giacometti e José Alberto Sardinha com electrónica), Linha da Frente (cantando autores como Manuel Alegre, Ary dos Santos, Fernando Pessoa e Natália Correia, entre outros) e, mais recentemente, A Naifa, que conjuga o fado clássico com linguagens pop. Com este projecto lançou três discos, o último dos quais, ‘Uma Inocente Inclinação para o Mal’, data do ano passado. Exemplo da sua versatilidade (e disponibilidade), Aguardela fez ainda a banda sonora do documentário ‘Labirinto do Atum’.

O músico não quis velório e a cerimónia fúnebre realiza-se hoje (16h00) no cemitério do Alto de S. João, Lisboa.

TESTEMUNHOS

SABIA O QUE QUERIA E ERA UM ACTIVISTA: Zé Pedro, Músico, Xutos & Pontapés

Chegámos a tocar juntos no Estádio de Alvalade... Foi uma figura singular no nosso meio musical. Sabia o que queria e era um activista. Nunca baixava os braços.

PERDA IMPORTANTE E DEMASIADO CEDO: José Jorge Letria, Vice-presidente da SPA

Recebemos a notícia com surpresa e choque. Era um cooperador cordial e amigo. Com ele, perdeu-se um nome importante da nova geração de músicos. E demasiado cedo!

FAZIA COISAS COM SENTIDO: Adolfo Luxúria Canibal, Músico, Mão Morta

Fomos colegas de Direito e não estávamos juntos há muitos anos, mas, apesar de não trabalharmos no mesmo registo, eu percebia o que ele fazia. Fazia coisas com sentido.

Luís Figueiredo Silva - in: Correio da Manhã


Sitiados - Outro Parvo No Meu Lugar

segunda-feira, janeiro 19, 2009

Fernando Dacosta - Os Mal-Amados



Através de casos pessoais, a presente narrativa pretende ser a evocação de uma época, de uma fractura na História de Portugal.
Ter-se nascido na ditadura (nas censuras, nas representações), vivdo a revolução (o sonho, a desmesura), contribuído para a Democracia (a liberdade, a diversidade), imergido no neoliberalismo (o lucro, a excendetarização) foram experiências-limite concedidas às gerações que, agora, começam a sair, mal-amadas, de cena. Mal-amadas por míngua de sentimentos, por excesso, ausência, desencontro, receio deles.
É a sua memória, mágoa, sarro, utopia, ousadia que aqui se encenam, nesta versão recriada so Nascido no Estado Novo.



Recentemente saído, “Os Mal-Amados”, de Fernando Dacosta, é uma espécie de segunda versão, refundida e recriada, acrescida e retemperada, de uma outra obra do autor, “Nascido no Estado Novo”. Dividida em cinco partes, começa na Primavera (da marcelista ao 25 de Abril de 1974), passando pelo Verão (quente!), pelo Estio (de Sá Carneiro às aparições de Fátima), pelo Inverno ( da guerra das colónias) acabando no Outono (do nosso descontentamento, nalguns casos). Partindo de aproximações e análises muito pessoais (e vividas) de contactos com alguns dos mitos maiores do nosso País, nos últimos 50 anos, Dacosta recorda Salazar e Cunhal, Marcelo Caetano e Mário Soares, Amália Rodrigues e Natália Correia, Agostinho da Silva e Saramago, a Irmã Lúcia e Snu Abecassis, e muitos e muitos outros nomes que fizeram a grande e a pequena história do Portugal contemporâneo. Isto por si só seria muito, mas há muito mais, há o que faz a diferença em Dacosta: uma escrita elegante e viva, inebriante de cor e de riqueza emocional, pejada de anotações e citações autênticas recolhidas das bocas dos visados, todos eles olhados com respeito e por vezes com alguma admiração, mesmo quando não estimados pelo autor (Salazar é um caso típico, já assim tratado em “As Máscaras de Salazar”, esse magnífico best seller da literatura portuguesa mais recente). Jornalista por profissão, mas ficcionista por temperamento, Dacosta mescla com extraordinária mestria a realidade dos factos com a névoa da memória emotiva e oferece-nos uma belíssima panorâmica desta terra madrasta e maravilhosa onde se erguem na glória e se afundam no desespero tantos e tantos vultos e tantos e tantos heróicos anónimos que fizeram e fazem a nossa gesta. Indispensável para reconforto da alma e para nos conhecermos um pouco melhor a nós próprios. (Ed. Casa das Artes, 2008). - Lauro António

Excerto:

Confidências de Pessoa

A meio do trajecto inclina-se para o motorista: «Por favor, em vez de levar-nos ao Príncipe Real deixe-nos no Café Martinho da Arcada». Recosta-se e comenta-me: «Vamos jantar com o Pessoa».
A sua mesa estava vaga. Dá-me o lugar que fora do poeta e senta-se de frente: «Era aqui que eu ficava».
Raramente Agostinho da Silva referia a sua relação com o autor de A Mensagem. Chegou até, incomodado com o afã das suas (de Pessoa) fanáticas universitárias, a negar que o tivesse conhecido. Num encontro ardilado por algumas, invectiveis do mesmo: «Deixem-se de coscuvilhices sobre a sua vida e estudem a sério a sua obra. Se ele entrasse aqui neste momento a pedir-lhes dinheiro para um bagaço, vocês corriam-no, nem sequer o reconheceriam.
Pedimos bacalhau com natas, água sem gás e café.
«Encontrámo-nos aqui em Dezembro de 1934. Eu tinha chegado há pouco a Lisboa, dava explicações a particulares, e entrei. Era um fim de tarde frio, chuvoso. Vi-o neste recanto, sozinho, papéis na mesa, um ovo estrelado, um copo de aguardente. Olhámo-nos. Eu lera artigos seus, ele coisas minhas. Fez sinal para o acompanhar. Quase não falou. Nem eu. Perguntou-me se queria um sol frito, era assim que chamava aos ovos estrelados. Passámos a estar juntos, discutíamos literatura, filosofia, política... Quis traçar a minha carta astrológica, mas recusei. Tinha feito a sua, iria morrer, asseverou, dentro de oito meses. Faleceu um pouco mais tarde, a 30 de Novembro de 1935».
«Nas últimas vezes que nos encontrámos, Pessoa estava invulgarmente acabrunhado. “Sinto-me muito arrependido”, disse-me, “pelas cartas de amor que escrevi a Ofélia”. Fizera-o movido pela sua irremediável fantasia heteronímica. Enfastiado, resolvera criar (interpretar) o papel de um vulgar empregado de escritório da Baixa de Lisboa, que se enamora, o que era frequente suceder, por uma vulgar colega. Para o papel desta foi buscar Ofélia, sem reparar que se tratava de uma mulher real, crédula, apaixonada. Divertiu-se durante bastante tempo (interrompeu e recomeçou o jogo do compromisso) com a escrita de ridículas cartas de amor a uma ridícula dactilógrafa carente de afecto e atenção. Quando percebeu a monstruosidade criada, caiu em si e, cerce, cortou o equívoco. A missiva onde o fazia, a última, num estilo completamente alheio ao das anteriores, é significativa disso».
Nela, escreve: «O meu destino pertence a outra lei, de cuja existência a Ofelinha nem sabe, e está subordinada cada vez mais a Mestres que não permitem nem perdoam».
Curiosamente «ninguém, até hoje, entre tantos especialistas, teses, congressos, ensaios, livros sobre ele, percebeu o drama que o dilacerou», exclama já no fresco do Terreiro do Paço, Agostinho da Silva.
Encarando-me, comenta: «Você devia escrever, no estilo de O Viúvo, um romance sobre o heterónimo em que ele se transformou no dia em que desapareceu, porque ele não morreu».

in Fernando DaCosta, Os Mal Amados, págs. 357-9, Casa Das Letras.

domingo, janeiro 18, 2009

A noite de Cristiano Ronaldo pelo Sociólogo Alberto Gonçalves


segunda-feira, 12 de Janeiro

UMA NOITE COM RONALDO

AA RTP1, "serviço público", realiza longo "directo" desde a Ópera de Zurique, mas para transmitir a gala da FIFA e a entrega do prémio de jogador do ano. A emissão prolonga-se até depois das 20h. O "telejornal" não irrompe à hora certa, a fim de não perturbar a consagração de Cristiano Ronaldo. A consagração acontece. Discurso de agradecimento e imagens de um punhado de golos do futebolista.

O Telejornal começa às 20.15 com a notícia da vitória de Ronaldo e ligação à casa da família no Funchal. De seguida, prossegue entre ligações a Zurique e ao Funchal, testemunhos de especialistas em Ronaldo e golos de Ronaldo. A terminar, uns minutos de actualidade nacional (a "vaga de frio"), internacional (o cão português de Obama) e cultural (golos de Ronaldo). Após o noticiário, entram os comentários semanais de António Vitorino, que acabam com Judite de Sousa a interrogá-lo acerca de Ronaldo e Vitorino a responder que não liga a futebol e que está muito contente com o sucesso de Ronaldo.

Por volta das 21.00, documentário sobre Ronaldo, que inclui, além de golos de Ronaldo, entrevistas a Ronaldo e a especialistas em Ronaldo, incluindo o sujeito descobriu Ronaldo em 1999 e o sujeito que descobriu Ronaldo em 1998. Tenta-se apurar o valor desportivo, comercial e sexual de Ronaldo. Fica razoavelmente apurado que Ronaldo é o maior.

Após pausa mal empregada em anúncios e num concurso, surge o Prós e Contras dedicado a debater Ronaldo, ou melhor, a debater qual dos convidados possui maior capacidade em exaltar Ronaldo. Participam treinadores de futebol, publicitários, um ex-secretário de Estado do Desporto, um secretário de Estado do Desporto, o sujeito que descobriu Ronaldo em 1997, o sujeito que o treinou dez minutos depois e o sujeito que lhe deu boleia da descoberta ao treino. Após trinta minutos em que o contributo de Ronaldo para o país ameaça ultrapassar o de Buda para o budismo, e sobretudo em que as referências ao corpo de Ronaldo se abeiram da excitação erótica, desligo o televisor.

Imagino que, perto das duas da madrugada, o primeiro-ministro tenha comunicado à nação os sentimentos que o talento de Ronaldo lhe inspira, e que às duas e quarenta o presidente da República tenha subscrito tais sentimentos (com excepção de um ponto, que vetou, e de outro, que enviou à apreciação do Tribunal Constitucional).

Diário de Notícias - Domingo, 18 de Janeiro de 2009