quinta-feira, outubro 30, 2008

Coisas que nunca mudam

(Interior da Pastelaria Lobo)

Vim passar uns dias a Viseu. Instalado na casa da minha irmã, acompanhado com as minhas maravilhosas sobrinhas, sinto-me bem. Viseu tem algo que me põe para cima, que me alegra e me comove.

Ando pelas ruas, sozinho, e parece que as percorro como se fosse a primeira vez.

A verdade é que desde que me lembro de existir que venho à cidade de Viriato. Passando na infância e adolescência todas as férias em Santa Cruz da Trapa - São Pedro do Sul -, Viseu nunca me foi estranha.

Fosse para visitar familiares, para ir à Feira de São Mateus no Verão ou simplesmente passear, era uma ida sempre obrigatória. "Temos de ir à cidade", dizia-se.

Mas é com o meu avô que as recordações de Viseu mais se avivam, homem nascido nestas paragens.

Antigo Governador Civil desta cidade, conheci-a como ninguém. À cidade e às pessoas. Marcaram-me para sempre as idas ao Hotel Grão Vasco almoçar, a ida primeira ao Museu Grão Vasco, o seu velório numa capela da cidade.

Mas as recordações que mais sabor e cheiro têm, são as da ida à Confeitaria Lobo, bem no centro. A montra dos bolos, o cheiro reconfortante, os vidros trabalhados e pintados, as pessoas. Mas, mais do que tudo, os Pastéis de Feijão, que há anos que não os comia.

Resolvi ir até lá. Fiquei parado à porta uns momentos, com medo que as anteriores recordações fossem deturpadas por uma nova ordem, por um outro café que não fosse aquele que conheci.

Mas entrei. O ambiente é o mesmo. As mesmas montras, o meus conforto, o mesmo género de clientela, a mesma decoração. Sentei-me. Pedi um chá preto e, a medo, dois pasteis de feijão.

Quando vieram, trinquei desconfiado o primeiro pastel. Num ápice recuei para os meus 8 anos de idade e voltei a ter a companhia do meu avó bem ao meu lado.

Felizmente, existem ainda coisas que não mudaram...

sexta-feira, outubro 24, 2008

Natália Correia


Natália Correia é uma das mulheres que mais admiro desde há muitos anos. Sempre me fascinou a postura, a imagem altiva, bela e quase desumana porque divina, a maneira de falar e, mais tarde, quando descobri a sua escrita, a sua poesia, a sua prosa, os seus discursos parlamentares, os seus discos.
Lembro-me em miúdo ficar parado frente ao televisor quando a via. Não percebia por completo as coisas que dizia e falava mas algo de quimíco, mágico, acontecia porque me paralisava.
Quando descobri o prazer de andar em lojas de vinil a vasculhar, reencontrei-a. Reencontrei-a no disco "Cantigas de Amigos", com Amália Rodrigues e Ary dos Santos, no disco "Cantigas de Amôr e de Amigo dos Trovadores Galego-Portugueses", com adaptação e declamação da própria Natália e no disco "Improvisos", com o Maestro António Victorino de Almeida onde, além dos seus dotes declamatórios, Natália Correia expõe a sua extraordinária voz de quase cantora lírica.
Veio depois o aprofundamento da literatura.
Primeiro a sua poesia:
"ODE À PAZ

Pela verdade, pelo riso, pela luz, pela beleza,
Pelas aves que voam no olhar de uma criança,
Pela limpeza do vento, pelos actos de pureza,
Pela alegria, pelo vinho, pela música, pela dança,
pela branda melodia do rumor dos regatos,
Pelo fulgor do estio, pelo azul do claro dia,
Pelas flores que esmaltam os campos, pelo sossego, dos pastos,
Pela exactidão das rosas, pela Sabedoria,
Pelas pérolas que gotejam dos olhos dos amantes,
Pelos prodígios que são verdadeiros nos sonhos,
Pelo amor, pela liberdade, pelas coisas radiantes,
Pelos aromas maduros de suaves outonos,
Pela futura manhã dos grandes transparentes,
Pelas entranhas maternas e fecundas da terra,
Pelas lágrimas das mães a quem nuvens sangrentas
Arrebatam os filhos para a torpeza da guerra,
Eu te conjuro ó paz, eu te invoco ó benigna,
Ó Santa, ó talismã contra a indústria feroz,
Com tuas mãos que abatem as bandeiras da ira,
Com o teu esconjuro da bomba e do algoz,
Abre as portas da História,

deixa passar a Vida!"
(outras poesia em:
Depois a sua prosa:

Do livro Descobri que era europeia

"Trouxe curiosidades para a América. E não as levo no regresso. Também não levo certezas. Nenhuma das minhas curiosidades foi satisfeita. Deixo-as aqui, como um tributo à alta montanha que o pequeno esquilo não logra trepar. Não foi medo nem desesperança que me tolheram os passos na escalada. Foi a simples verificação dum facto: a América é um problema de que só ela tem a chave. A solução desse problema só interessa aos americanos. Se tentarmos compreendê-la, partindo de nós próprios, da nossa concepção do que ela "possa ser", escolhemos o caminho mais longo, porque nós somos estruturalmente diferentes.
Apontar as diferenças que nos extremam seria a recapitulação da História.
Ponhamos, pois, a questão nestes termos: gostei ou não gostei da América?
Ainda aqui a minha posição é ambígua. É tão impossível gostar da América como não gostar. Isto traduz-se num sentimento abstracto: o da fascinação. E qual é a fonte donde brota essa fascinação? O enorme tablado onde se desenrola a esotérica urdidura da tragédia americana. O seu esoterismo não é o inviolável segredo dos deuses. É a crise do desenvolvimento. Uma puberdade física e mental que convive, no seu âmago, com os fantasmos das coisas irreveladas. Nas suas células em formação ferve o sangue coagulado de várias taras sem poros para se evaporarem, a neurastenia da solidão acompanhada, um romantismo turbulento e um puritanismo mórbido. Objectiva e utópica, intransigente e tolerante, aventureira e calculista, arrebatada e grave, magnânima e egoísta, franca e enigmática, tudo de bom e de mau, de elevado e de mesquinho, nela existe em potencial, como num barro tosco a que o cinzel dos séculos ainda não deu forma.
É a antítese da tragédia europeia filtrada no cristal do tempo: a serenidade clássica da experiência e da razão.
Os americanos transmitem-nos a angústia do inacabado. Eles não são completamente generosos, nem completamente egoístas; não são completamente cordiais, nem completamente hostis. São seres por revelar.
Agosto de 1950"
E as suas sessões parlamentares, principalmente com o famoso episódio do deputado Truca Truca.
Durante uma discussão na Assembleia sobre o aborto, 1982, o deputado do CDS, João Morgado, que só tinha um filho, opunha-se à legalização do aborto, argumentando que o coito era apenas para procriar [assim na escola da Manuela Ferreira Leite]. A deputada e poetisa do PRD que era a favor do aborto, alcunhou-o ali mesmo de deputado Truca-Truca e, na hora, fez estes versos dirigidos ao mesmo. Nunca mais tal deputado pôs os pés na Assembleia da República.

«Ficou capado o Morgado»
1982

Já que o coito, diz o Morgado,
tem como fim cristalino,
preciso e imaculado
fazer menina ou menino
e cada vez que o varão
sexual petisco manduca,
temos na procriação
prova de que houve truca-truca,
sendo só pai de um rebento,
lógica é a conclusão
de que o viril instrumento
só usou - parca ração - uma vez.
E se a função faz o órgão - diz o ditado -
consumada essa excepção,
ficou capado o Morgado»
(Para ler um dos mais brilhantes discursos parlamentares de Natália Correia: http://conversamuitaconversa.blogspot.com/2005/12/notvel-discurso-da-deputada-natlia.html)
E agora, do disco Improvisos, Natália Correia canta e declama:

A Donzela de Biscaia


Queixa das Almas Jovens Censuradas


Quarto


Árvore Geniológica


Cabelos os Meus Cabelos


Depois disto, tudo o que diga é mau Latim. Fica a Homenagem.

quarta-feira, outubro 22, 2008

A Casa Palmela - Livros Horizonte


É hoje posto à venda nas melhores livrarias do País o livro "A Casa Palmela", do Historiador Pedro Urbano [da Universidade Nova de Lisboa], editado pela Livros Horizonte.
Como um familiar costuma dizer, para se perceber bem o País em que vivemos, devemos conhecer a fundo a base e o topo da sociedade. Convido-vos, assim, a conhecerem a história da maior família aristocrata do Portugal do Séc. XIX e primeira metade do XX, percorrendo a sua política de casamentos e heranças, postos de influência na Sociedade, educação dos descendentes e poderio económico, entre outros temas fulcrais para a percepção da Casa Palmela.
Retirado de uma comunicação do XXV Encontro da APHES [Associação Portuguesa de História Economica e Social], intitulada ‘Partilhar e Legar: o Património da Casa Palmela - por Pedro Urbano’, aqui fica um excerto para abrir o apetite para "A Casa Palmela" - Livros Horizonte:
É indiscutível a importância que a Casa Palmela desempenhou na modelação da sociedade e economia liberais. Em finais de Antigo Regime, e embora não sendo titular, tratava-se de uma família da primeira nobreza de corte que havia consolidado a sua posição social e económica ao longo das gerações que a precederam, quer pelos cargos desempenhados, quer pela vinculação à casa de alguns morgados. A adaptação à nova ordem liberal terá permitido o acesso à titulação e a confirmação do seu poder, sobretudo se atentarmos no percurso individual do primeiro titular, D. Pedro de Sousa Holstein, a quem foram outorgados sucessivamente, os títulos de Conde, Marquês e Duque, de juro e herdade. Casou com D. Eugénia Telles da Gama, filha dos Marqueses de Nisa, casa da primeira nobreza de Corte, de quem teve uma numerosa prole. O casamento do herdeiro da casa, D. Domingos de Sousa Holstein, com D. Luísa Maria de Sampaio Noronha, filha e herdeira do Conde da Póvoa, rico financeiro, viu-se envolvido em grande celeuma, sobretudo pelo engrandecimento económico que acarretou. Desse casamento nasceriam três filhas, das quais D. Maria Luísa de Sousa Holstein, a primogénita, seria a herdeira da Casa. Do seu casamento com António de Sampaio e Pina de Brederode, segundo filho dos primeiros Viscondes da Lançada nasceriam dois filhos. A única filha sobrevivente, que viria a herdar a casa à sua morte, D. Helena Maria de Sampaio e Pina de Sousa Holstein, casou com Luís Coutinho Dias da Câmara, filho dos primeiros Condes da Praia e de Monforte.

terça-feira, outubro 21, 2008

Concerto da Simone de Oliveira

Já se encontra disponível, por faixas, o concerto que a Simone de Oliveira deu no Sábado passado no Maxime.

O link directo é este: http://www.cabaret-maxime.tv/?c=7973

Aqui fica o video de abertura (para avançar nas músicas basta clicar na tecla para andar para frente)

segunda-feira, outubro 20, 2008

Ovos Moles


Para combater a neura e comemorar mais um dia sem fazer nenhum, resolvi afogar a "depre" com um belo crepe (congelado) coberto de ovos moles (feitos por mim) e canela (dos pacotinhos que sobraram dos últimos Pastéis de Belém que apareceram cá em casa).
Soube que nem gingas... uma bomba calórica enriquece logo qualquer dia e as dores de barriga que daí advém fazem-nos esquecer de todo e qualquer problema...

Receita dos Crepes:
Ir a um Hipermercado, comprá-los - aos crepes - congelados, continuar a congelá-los em casa, tirando-os do congelador apenas quando os quiser comer. Cinco segundos no micro-ondos é suficiente.

Ovos Moles:
4 gemas
3/4 colheres de sopa de açucar.

Numa tijela misturam-se as 4 gemas com um nadinha de nada de água.
Quando o "ponto de açucar" (com as ditas 3/4 colheres de açucar) estiver feito numa pequena frigideira ou tacho, deve vertê-lo para a tijela onde estão as gemas, mexendo sempre. Assim que tiver despejado todo o "ponto de açucar", verta tudo de novo para a frigideira ou tacho e coloque em lume brando, mexendo sempre.
Os ovinhos, a pouco e pouco, deverão engrossar até que passem de liquídos a moles... e daí o nome: Ovos Moles.
Barre tudo alarvemente em cima do crepe, pulverize com um pouco de canela e já está!!!! Uma dor de barriga em menos de 5 minutos mas com um doce sabor a compensação.

Para acompanhar, um cálice de Vinho do Porto.

Bom apetite.

Casamento



E eis que chega o momento em que a minha irmã mais nova vai casar... já a 8 de Novembro... No convite não podia faltar o verde (Sporting) e uma alusão ao Cinema de que é fervorosa adepta.

Simone de Oliveira - Maxime


Simone de Oliveira apresentou-se no Sábado passado no palco do Cabaret Maxime, em Lisboa. Este mostrou-se mais que perfeito para a presença e música de Simone de Oliveira.
Passando em revista grandes temas da sua carreira - No Teu Poema, A Noite e a Rosa, Tango Ribeirinho ou Desfolhada à Portuguesa, houve tempo para emoções, risos e muitas palmas. Duas músicas sem serem em Português, uma retirada do espectáculo Marlene, a outra, My Funny Valentine, e a presença de Victor de Sousa e o "dueto" de Palavras Gastas.
Simone de Oliveira, ainda extraordinariamente bela e sensual em palco, provou que a idade não a iníbe e que a voz, essa, ainda a tem em grande estilo (e, a meu ver, com mais timbre e força que há uns anos atrás).
A acompanhá-la esteve, com toda a sua mestria e simpatia, o piano de Nuno Feist.
Menos conversadora que o normal, houve tempo para algumas ironias e, no final, o seguinte pedido, em tom de provocação: "Se perguntarem se eu ainda canto, respondam por mim."
A mim ainda ninguém perguntou mas posso responder já: Canta e de que maneira...

sexta-feira, outubro 17, 2008

Simone de Oliveira no Maxime


Para quem não possa ver e ouvir a Simone de Oliveira no próximo Sábado, dia 18 de Outubro, no Cabaret Maxime em Lisboa, poderá vê-la e ouvi-la, em directo, comodamente em sua casa através do site:




Não perca. Sábado, 18 de Outubro de 2008 pelas ,23:30 horas.


Hoje os Galheteiros... amanhã as Colheres de Pau...

Restaurantes. Ministro anuncia revogação da polémica portaria

Restaurantes vão ter de usar cartas de azeites para informar consumidor

Os restaurantes vão deixar de ser obrigados a usar galheteiros invioláveis, desde que passem a dispôr de cartas de azeite que permitam ao consumidor escolher e saber as características do produto que vai consumir. A promessa foi ontem deixada, em Santarém, pelo ministro da Agricultura, durante um encontro dos empresários do sector da restauração, que sempre se manifestaram inconformados por serem os únicos na União Europeia abrangidos por tal obrigação.

Jaime Silva, que afirmou concordar com as críticas à portaria que tornou obrigatório o uso de galheteiros, pediu a "parceria" da Associação da Restauração e Similares de Portugal (ARESP) para poder revogar esta legislação. Mas essa possibilidade está condicionada à disponibilização, por parte dos restaurantes, de cartas de azeites, deixando clara a sua composição e origem.

Em declarações ao DN, Ana Jacinto, responsável da ARESP, garantiu que o sector vai acatar a sugestão do ministro, esperando apenas que o Governo seja rápido a diligenciar a revogação da portaria. A proibição dos tradicionais galheteiros nos restaurantes e substituição pelas embalagens invioláveis resultou, segundo o sector, num agravamento dos custos económicos e ambientais da actividade de restauração.

O ministro da Agricultura manifestou ainda confiança na estabilização das relações entre a ASAE e os restaurantes. Passado o "sobressalto" inicial provocado pela actuação da ASAE, que teve a função de mostrar que Portugal está inserido num espaço em que os padrões de segurança alimentar são os "maiores do mundo", entrou-se numa fase de "equilíbrio", observou Jaime Silva.

Afirmando que a interpretação "mais rígida" da legislação, que visou pôr ordem à forma descurada como muitos produtores encaravam a legislação comunitária, gerou "incompreensões e mal-estar", o ministro disse que, depois da legislação que produziu, os pequenos produtores estão "salvaguardados".

Jaime Silva sublinhou que aqueles não precisam de licenciamento e apenas têm que comunicar aos serviços do Ministério o que produzem. "Não para mandarmos lá a ASAE, mas para que, se houver algum problema com algum produto, se conheça a sua origem", disse. O orçamento do Ministério vai manter-se igual em 2009. - C.A., com Lusa
In: Diário de Notícias, 17.10.08

quinta-feira, outubro 16, 2008

Freitas era "devoto de Salazar", escreveu Marcelo

E assim se vende a História deste país...
Leilão. No dia 25, no Hotel Fénix, é leiloado um lote de cartas que Marcelo Caetano, exilado no Brasil depois do 25 de Abril, escreveu a um destinatário chamado António e à sua mãe.
Várias cartas do exílio de Caetano no Brasil vão a leilão
"Querido António", "caro António". Marcelo Caetano manteve durante vários anos uma correspondência regular com um jovem adulto, de direita, e com a sua mãe. Com o filho, Caetano discorre sobre a política e a sua mágoa com o país, com os partidos de direita - omnipresente nas cartas é o "desgosto" com o seu antigo discípulo Freitas do Amaral, então líder do CDS, referido imensas vezes.
"O Diogo era devoto de Salazar, amigo do presidente Tomás, de quem um tio era ajudante, ao ponto de ir preparar os seus exames para o Palácio de Belém! A revolução dos cravos foi sobretudo a derrocada do carácter dos portugueses. Que homem!" A carta em que Marcelo Caetano fala assim do seu antigo discípulo, Diogo Freitas do Amaral, é escrita a 13 de Abril de 1977, nove meses antes de o então presidente do CDS assinar o acordo com o PS de Mário Soares para o Governo.
O contexto é a expulsão de Galvão de Melo do CDS, que o ex-presidente do Conselho considera não ser justificada. "Não sei o que pensas do CDS", escreve Caetano a António, "para mim tem sido um desapontamento, como para a maioria das pessoas minhas conhecidas que a princípio acreditaram nele. E as atitudes do meu antigo discípulo - assistente Diogo do Amaral - na política e em relação a mim foram um dos maiores desgostos que neste período sofri." Continua Marcelo, invocando os "favores" de Salazar para com o pai de Freitas do Amaral: "O Galvão de Melo não será muito boa peça, mas o que ele disse não justificava de modo nenhum a reacção do CDS, presidido por um filho de um antigo secretário de Salazar que este beneficiou largamente."
Dias mais tarde, a 28 de Abril de 1977, Marcelo escreve novamente a António e concede, relativamente ao CDS, que "na verdade, no desgraçado panorama da política portuguesa actual, não há melhor".
"Quanto ao CDS, compreendo muito bem a tua posição (...). As minhas razões de desconsolo com o partido e de indignação com o presidente são pessoais. E infelizmente justificadíssimas. No ano passado estive muito mal de saúde com o desgosto que me deu o sr. Diogo do Amaral. Mas isso é coisa minha e vocês têm de se agarrar ao que houver de menos mau." Um mês depois, a 25 de Maio de 1977, em nova carta, o diagnóstico do ex-presidente do Conselho no exílio sobre a direita portuguesa será genericamente arrasador. "O que me impressiona no panorama político português actual é não ver ninguém com qualidades morais de liderança do País e sobretudo da chamada direita. Infelizmente conheço muito bem os Kaúlzas e os Adrianos Moreiras que tudo sacrificam à ambição do mando e tive um enorme desapontamento com o Diogo do Amaral. Do Galvão de Melo, simpatiquíssimo desmiolado que durante anos conheci fiel sustentáculo do salazarismo, nem se fala."
A 20 de Fevereiro de 1978, Marcelo sente-se aterrado com o pluripartidarismo. "Quanto à política portuguesa, ela só confirma o que durante anos dissemos sobre o regime de partidos nesse país. Há-de ser cada vez pior." Mas em 8 de Junho seguinte tem a "impressão de que a direita se está fragmentando inconvenientemente" e faz planos estratégicos. "Tudo haveria a ganhar em fundir o MIRN e a Democracia Cristã com nova chefia, embora os antigos chefes ficassem a apoiar. Assim, nenhum dos grupos poderá ganhar dimensão e força suficiente para se impor. Um novo partido, com gente nova à frente, estou convencido de que obteria grande êxito. O que aqui chega é um grande desencanto com o CDS e um veemente desejo de aparecimento de um partido moderno e eficaz que faça frente à esquerda. Muita gente actualmente inscrita no PSD também se juntaria a esse partido."
Este conjunto de 15 cartas e seis bilhetes, até agora desconhecidos do público, vai a leilão no dia 25, no Hotel Fénix, às 15.00, por iniciativa de Nuno Gonçalves, leiloeiro e livreiro.
O mistério da carta quase indecifrável de Salazar
Leilão. Entre as várias peças que agora vão à praça está um bilhete de Salazar dirigido a Urbano Rodrigues
A letra de Oliveira Salazar é praticamente ilegível. Nuno Gonçalves vai levar a leilão no dia 25 deste mês, no Hotel Fénix, uma carta de Salazar, com a chancela do gabinete do presidente do Conselho, dirigida a um "senhor Urbano Rodrigues", jornalista. Está datada de 17 de Novembro de 1950.
É muito difícil conseguiu desbravar o conteúdo da comunicação de Oliveira Salazar ao jornalista Urbano Rodrigues. Aparentemente, e tanto quanto é possível decifrar, trata-se de uma reacção do chefe do Governo, satisfeita, a um artigo de jornal escrito por Urbano Rodrigues. A base de licitação deste conjunto de cartões do então "presidente do Conselho" são cem euros.
Mas existem muitas outras preciosidades apresentadas neste leilão: um álbum fotográfico de viagem de Hermenegildo Capelo, o oficial da Marinha Portuguesa que foi explorador em África e que participou com Roberto Ivens na travessia entre Angola e a costa do Índico; uma colecção completa da Ilustração Portuguesa.
Uma das peças mais notáveis que vão a leilão - e que estará em exposição a partir do dia 24, sexta-feira, das 15.00 às 23.00 - é um exemplar da revista de arte portuguesa KWY, que até hoje nunca foi a leilão. A KWY foi criada em Paris por Lourdes Castro e René Bertholo, que eram editores, impressores e distribuidores. Impressa em serigrafia, a revista durou 12 números, publicados em seis anos, e teve, entre os seus variadíssimos colaboradores, a pintora portuguesa Maria Helena Vieira da Silva. A base de licitação do exemplar é de 25 mil euros.
Num leilão com 542 lotes, há muitíssimo mais por onde "pegar". Caricaturas de Rafael Bordalo Pinheiro, cartas de Miguel Bombarda (o médico psiquiatra republicano que foi assassinado por um doente no dia 5 de Outubro de 1910) a Ana de Castro Osório, em que tece elogios à acção propagandista de Ana de Castro Osório, em defesa da condição feminina. Também vão a leilão cartas de Manuel Arriaga a Ana de Castro Osório, datadas de 1906, em que o futuro presidente da República acusa a recepção do livro Às Mulheres Portuguesas, fazendo considerações em defesa do feminismo.
In: Diário de Notícias, 16.10.08