sexta-feira, agosto 22, 2008

Manuel Marques Teixeira


Há poucas pessoas de quem me orgulho a 100% na minha vida. Uma delas é um dos meus avôs, que faleceu em Fevereiro de 2000. Orgulho-me pela rectidão com que pautou a sua vida, os ensinamentos que me transmitiu, o sentido de humor apuradíssimo e a inteligência activa que não parava de surpreender a quem o rodeava.
As saudades saudáveis que sinto fazem lembrar-me dele quase diariamente. E porque por vezes o orgulho é vaidade, vou transcrever um pequeno texto escrito por Júlio Cruz na Gazeta das Beiras (Viseu) sobre o centenário do nascimento do meu avô.
Deixo este texto para os meus familiares e a todos aqueles que algum dia contactaram com este Homem.
"No Centenário de Manuel Marques Teixeira
O Dr. Marques Teixeira foi um político de "mão-cheia" do antigo regime que nunca renegou. Lafonense de gema, sempre lutou pelo engrandecimento desta região.
Manuel Marques Teixeira nasceu em Santa Cruz da Trapa, concelho de S. Pedro do Sul, em 28 de Setembro de 1908, filho de Maria José Teixeira de Almeida e de Luís Marques de Almeida.
Este é, assim, o ano do primeiro centenário do seu nascimento.
Licenciou-se primeiramente em Histórico-filosóficas pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto e, mais tarde, em Direito, pela Universidade de Coimbra.
Começou por leccionar no Liceu Nacional de Portalegre [nota do neto: convivendo com José Régio], onde depois exerceu o cargo de Governador Civil daquele Distrito, entre Maio de 1942 e Setembro de 1943.
Em 1945, foi eleito, pela primeira vez, Deputado à Assembleia Nacional, pelo Círculo de Viseu, sendo reeleito sucessivamente nas quatro legislaturas seguintes.
A 8 de Dezembro de 1947 contraiu matrimónio com Maria Eduarda de Ataíde Sá e Melo Amaral Marques Teixeira, de quem teve dois filhos, João José Ataíde Amaral Marques Teixeira e Isabel Maria Amaral Marques Teixeira Soares Ferreira [nota do neto: minha mãe e ver foto].
Foi Governador Civil do Distrito de Viseu, de 8 de Março de 1957 a 2 de Julho de 1964, ou seja durante sete anos. Em 1963, o município viseense distinguiu-o com a Medalha de Ouro da Cidade.
Em 1964, por deliberação do Conselho de Ministros, presidido por António de Oliveira Salazar, foi nomeado representante do Estado na Administração da CNE - Companhia Nacional de Electricidade.
Faleceu em 5 de Fevereiro de 2000.
Foi um homem fortemente empenhado no regime salazarista que serviu fielmente, mas também um homem dedicado à sua terra que muito beneficiou com a sua acção política.

domingo, julho 20, 2008

Casa dos Bicos vai para a Fundação José Saramago

Ao que consta, António Costa cede a emblemática Casa dos Bicos (no Campo das Cebolas, Lisboa) par a Fundação José Saramago. Eu confesso que não em agrada nada a ideia, até porque me desagrada o Nobilizado mais a sua pessoa. E, ao que parece, a ideia não agrada realmente a todos... ora leiam os comentários à notícia que está no site do jornal SOL (http://www.sol.pt/).

Comentários

Nunca se deu o devido valor á Casa dos Bicos, um edificio do ponto de vista arquitectónico lindo e desperdiçado (como é habitual). Também sou contra a cedencia á Fundação, poderiam ter arranjado outro edificio qualquer. O Saramago tem sido muito indelicado e arrogante com Portugal (confesso que nunca consegui ler nada dele), que a Fundação fosse para a terra onde ele nasceu e não em Lisboa. Dá-se tanta importância ao Saramago e só agora se lembraram de homenagear o Manuel de Oliveira por ocasião dos seus 100 anos, esse sim que nunca renegou ser português, e que é mais conhecido e premiado que o Saramago. E os outros escritores? Como o Lobo Antunes? Esse sim merecia um NOBEL. Mas como diz o ditado "Santos da Casa não fazem milagres", e nós vamos mais uma vez pagar a arrogancia do Saramago.
anonima, em 2008-07-20 01:02:41
Esta é a maior vergonha Nacional, ceder a Casa dos Bicos a uma Fundação Espanhola.
Esse tal de Antonio Costa, deveria ser penalizado por ter oferecido a Casa dos Bicos a Espanha.
Por este andar o ex-Cardeal cria uma Fundação e o " Tony " cede-lhe os Jeronimos.
Mais nós é que vamos andar a sustentar estas Fundações estranhas, perece-me que esta conduta deste comunismo capitalista deveria ser bastante criticado, onde já se viu um comunista puro ter uma Fundação, só mesmo neste pais e com essa gente que utiliza o dinheiro dos outros para fins pessoais, onde esta a oposição.
FORA COM O SARAMAGO e COM O SEU PREMIO NOBEL, nós sempre vivemos sem um premio NOBEL, se bem que esse premio só se deve a Portugal e aos Portugueses e um bocadinho ao escritor.
fiesta2008, em 2008-07-19 10:50:01
O Saramago trocou Portugal por Espanha, continue em Espanha!!!
A Casa dos Bicos nunca lhe deveria ser cedida!!!
A Casa dos Bicos é Histórico!!!
leoj, em 2008-07-18 23:08:47
Já em Os Maias do Eça de Queirós um dos dois arquitectos (um foi despedido) que renovou a casa do Ramalhete chamava-se Manuel Vicente. Coincidência? Cá para mim, acho que o Eça lia muitos mapas astrológicos para os seus romances que nos levam à brilhante conclusão: o futuro é sempre a mesma porcaria. Em Portugal nada (ou pouco) muda. Deve ser estrangeirite aguda, de que padece este Saramago e outros que tais...
Vencedor, em 2008-07-17 23:54:45
Bem, o homem é um Ibérico do género: "Coño, yo non soy español pero me gustaba de serlo. Olé!"
gipsyking, em 2008-07-17 21:22:44
Mas afinal o homem é português?
Que raio de portugueses que nós somos. Foge-nos sempre o olho para a desgraça. Pobretes mas alegretes. Logo logo vem o futebol e depois em Outubro vem Fátima, de seguida o Natal e para o ano tudo se repete. É verdade nos intervalos dos bicos temos fado. Assim se vai esquecendo para onde vai o nosso dinheirinho.
Deixamerir, em 2008-07-17 21:00:33
Irónico! De armazém do Henrique Tenreiro a armazém do José Saramago.
gipsyking, em 2008-07-16 20:43:46
Acho bem,
O Saramago tem dado tantas bicadas em Portugal e nos Portugueses, que nada mais justo que retribuir-lhe com a casa bos bicos.
Estou até disposta a oferecer à fundação, todos os livros que tenho dele, menos um, para memória. futura.
provinciana, em 2008-07-16 19:53:49
É verdade que a Casa estava sem aproveitamento condigno,como é hábito na Tugalandia.Mas, o sr Saramago já tem uma loja na sua terra ,Lanzarote.A medíocridade da "esquerda"...
surpreso, em 2008-07-16 19:18:04
Se "existia a possibilidade da fundação ficar bem Espanha, onde o autor reside", era lá que a mesma deveria ficar.
Assim a fundação seria o Pilar, mais eficiente, do projecto hegemónico de Portugal e Espanha tão do agrado do Saramago...
Trauliteiro, em 2008-07-16 18:13:56
Também partilho da opinião que é um desperdício. De facto,(com virgula) o museu do Nobel da Literatura bem podia ser um Rés do chão de um prédio qualquer que tenha agora vagado pela saída dos ciganos. A Casa dos Bicos seria muito mais útil como posto de entrega de bússolas, visto andar muita gente desorientada.
AZULCLARINHO, em 2008-07-16 18:05:44
Mais uma!
Costa já pagou as dívidas, quer fazer da Casa dos Bicos a casa de saramago e tudo isto com o dinheiro do "desastroso" negócio do Casino de Lisboa?
Será que ele pensa que somos tansos?
Porque será que só se sabem queixar das dívidas herdadas e nunca falam na herança recebida?
mulher, em 2008-07-16 17:21:41
O comentario mais inteligente é mesmo o do "Espesso". Vieram-me as lágrimas ao ohos de tanto me rir. "A casa dos bicos foi feita pelos reis" Se o Duarte Nuno se vai dedicar à construção civil ainda vem tudo abaixo. Roubar o povo, lindo só um amante da monarquia se lembraria de tal, terá alguma coutada por Mértola? E essa referência a Lisboa e ao facto de que saramago não gostará de Liboa é de um gajo se mijar a rir. Aí por Mértola estão esperando o metro ou o tempo passsssssa. O espírito que voa sobre estes comentadores é tão saudosista que me faz regressar a antanho e lembrar-me de uns quantos Lusitanos desfavorecidos a favor de uns certos mercenários germanos. Quanto a igrelas, maquiavel tinha razão, desconhecia era a tribo do futebol que aí vinha.
luxuriablack, em 2008-07-16 17:15:39
trampa de fundacion sin virgula
porque é que a Amália nunca conseguiu o que agora cedem ao estrangeirado?
vendidos!
DisMissed, em 2008-07-16 17:12:56
Adoro os comentadores. Bem ao nível dos momentos actuais. Ignorância quanto baste. Uma massa cinzenta muito transparente.
luxuriablack, em 2008-07-16 17:03:31
Mas que palhaçada é esta??? a casa dos bicos foi feita pelos reis que esta corja de esquerda nunca gostou e ate matou e agora querem ficar com a casa para mais branqueamento de impostos??? Não chega a do Mário? é só roubar o povo Português sem vergonha nenhuma, esse Saramago não é de Lisboa e nunca gostou de Portugal, inclusive queria que fossemos uma província Espanhola e estes gatunos fazem mais uma malandragem destas???? É UMA VERGONHA.
Espesso, em 2008-07-16 16:47:56
é mais um roubo governamental ao povo... força camaradas acabem com isto de vez...
Portugalaosbichos, em 2008-07-16 16:30:04
Gosto muito da Casa dos Bicos. É um edifício notável, muito original e que guarda a memória dos Descobrimentos, quando Lisboa foi considerada capital Mundial.

Não gosto da mensagem de Saramago. Não tenho nada contra a sua pessoa. Não acho que esteja à altura do prestígio daquela Casa.

Acho que foi uma decisão infeliz.
nunogil, em 2008-07-16 16:27:08
Discordo, na totalidade...
Saramago merece 1 Monumento mas já agora que seja em terras Espanholas, pagas pelos Espanhois.
manuelamarinho, em 2008-07-16 15:55:04
ACHO QUE A CML FEZ MUITO BEM. ACONTECE QUE EM 1999 A MESMA CAMARA (JOÃO SOARES) RECEBEU UMA CARTA DE UMA IGREJA EVANGÉLICA PEDINDO UM EDIFICIO DOS MILHARES QUE A CML TEM A CAIR E A ARDER, PARA CONSTRUIR UM LAR DA TERCEIRA IDADE E UM INFANTÁRIO; TUDO SEM CUSTOS PARA A CML POIS O EDIFICIO SERIA SEMPRE SUA PROPRIEDADE. A DITA IGREJA AINDA ESTÁ À ESPERA DA RESPOSTA?!...
MELHOR É IMPOSSÍVEL!...
TELMOVIEIRA, em 2008-07-16 15:54:40
Um caso com relevo embora sem relevancia de maior.
AZULCLARINHO, em 2008-07-16 15:54:25
Está mal.

A casa dos bicos tem um valor histórico por si só.
Saramago tambem. Por isso merecia uma casa só para ele.

Assim misturam-se a casa dos bicos com o Nobel do Saramago.
Zeus, em 2008-07-16 15:48:27

segunda-feira, julho 07, 2008

Admirável carta de Isabel Pires de Lima a Luís Miguel Cintra... ABENÇOADA



Penitencio-me, Sr. Dr. Nunca, eu deveria ter tido a veleidade de apontar o dedo a um bonzo intocável. Nos Dantas, nem pim

Carta ao Aristocrata da Cultura Luís Miguel Cintra

Venho com esta cartinha, Sr. Dr., pedir-lhe desculpa de mais uma vez o ter incomodado. Não era minha intenção, está bom de ver. Mas sabe, sou uma alma simples, vinda lá do Norte e carregando no lombo (do burro e não do “camelo”, Sr. Dr., que aqui para estes lados ele há mais é burros) a antiga “ignorância” e “incompetência” dos simples, assim a modos que uma Maria Papoila.


Esforcei-me, Sr. Dr., para escapar a esta fatalidade mas, sabe, isto é mesmo assim, cada um é pró que nasce, uns, como o Sr. Dr., para serem entes esclarecidos, aristocratas da cultura, toda a vida instalados na varanda dos iluminados a fazer o verdadeiro teatro subsidiado a quase 100% pelo Estado e a ver o poviléu ignaro passar (não pelo seu teatro, eu sei, que às vezes disfarço-me de inteligente e vou lá, embora o Sr. Dr. não goste que até não me cumprimenta); outros, como eu, para ajeitada a trouxa, meterem as mãos na massa que mais suja, a do serviço público e da política, e errarem quase sempre – é da sua natureza. Lá dizia a tia Zita: bezerro manso mama na mãe dele e na dos outros. Nem os estudos me valeram, nem ser professora catedrática da Universidade do Porto (fica fora de mão, é verdade, mas ó Sr. Dr., é a maior do país), nem as andanças por esse mundo fora, onde por vezes fui vendo teatro imitando o seu. Não retive nada; deve ter sido por via da mente mole, já o sr. padre dizia.


É o mal, Sr. Dr., de democratizarem a Universidade e, pior ainda, a cultura. Onde já se viu, por exemplo, querer que o povo vá ao D. Maria II ou ao S. Carlos? São coisas mesmo de gente que “quer transformar a cultura em mercado”, como o Sr. Dr. perspicazmente percebeu das minhas palavras. Pior Sr. Dr., confesso, de gente que entende que um dos sinais do nosso tímido desenvolvimento cultural é o descaso entre mercado e cultura.


É como aquela coisa que o Sr. Dr. lembrou e bem da minha “tão defendida descentralização” que “corresponde apenas a um ponto de vista de mero consumidor” e de província, acrescento eu, e pagante, acrescentam muitos contribuintes simplórios. Está mal! Querem cultura de primeira, produzam-na lá na terrinha, como o Sr. Dr. reclama. Concordo! Imagine que até se criaram novos apoios para isso. E se a malta for alfabetizada de primeira geração, esforce-se, que foi o que o Sr. Dr. fez (embora os simplórios contribuintes venham ajudando, pelo menos há trinta anos, com constância, generosidade e, no caso único da Cornucópia, pagando até o aluguer, mas isso são minudências e, como o Sr. Dr., não há outro).


Só não gostei, desculpe Sr. Dr., foi a expressão “exportar para a província”; é que até parece que província e Lisboa não constam do mesmo país e sabe, a gente cá é muito patriota. Mas ó Sr. Dr., olhe que parece que o S. Carlos, a CNB e o D. Maria têm feito mais descentralização e internacionalização, concorrendo isso, é bom de ver, para a “decadência do nosso Teatro de Ópera” a que “conduziu a substituição ordenada por” mim, como o sr. Dr. recorda, “da anterior direcção”. Ó Sr. Dr. isso não será ter em pouca conta o corpo de músicos, cantores e técnicos do S. Carlos? Não me diga que o director artístico era insubstituível e eu, simplória também nestas matérias, e o prof. dr. Mário Vieira de Carvalho, ainda mais simplório, apesar de falar línguas estrangeiras e perceber de bandas de música, não entendemos que devíamos nomear para dirigir um teatro alguém que se recusara púbica e reiteradamente a aceitar o modelo de gestão empresarial (ai, ai, a linguagem!) que o Estado se atreveu a escolher para o S. Carlos? Está mal!


O Sr. Dr., mais do que com a minha fúria arrasadora de três escassos anos, ficou foi zangado por não ter compreendido que a Cinemateca Portuguesa é “uma das melhores cinematecas da Europa e talvez do mundo” – de facto não compreendi. Mas ó Sr. Dr. talvez isso derive de me situar intelectualmente ao nível minhoto e duriense e não europeu e universal; é uma questão de escala, desculpe-me mais uma vez. Em compensação, deu-me a alegria de saber que nalguma coisa, já que no Europeu de futebol foi o que se viu, somos os maiores. Com o espinhaço dobrado, atrevo-me contudo a manter as críticas que faço (no artigo a que se refere e numa entrevista regional que creio não terá lido), a propósito do chamado “pólo” da Cinemateca, ao modo como esta instituição é gerida e a concordar, de boca aberta, com o sr. Dr. quando qualifica de “saudável” a petição que o reclama. O Sr. Dr. é tão compreensivo!


Admira o facto de o Sr. Dr. ter resolvido vir em pública “defesa” de um amigo que acha que eu “insultei”. Fez muito bem, os amigos são para as ocasiões e os lobbies – lá na minha terra a gente chama-lhes a malta do Zé do Telhado, do Quim Bexigas, do Toino das Iscas, mas é o mesmo – existem para isso; e vai ver como virão outros ajudá-los a ambos... Só que, Sr. Dr., há-de ler com menos paixão e mais siso os dois artigos em causa e vai acabar por dar conta que se a motivação para vir em defesa do Sr. Director da Cinemateca foi questão de insultos ainda vai escrever um artiguinho em minha defesa, porque está-me a parecer que o seu amigo é como dizia dum patrício um homem cá de Ceide: “É estilista bilioso, explica-se azedamente, diz com afoiteza grosseira o que sabe; mas acontece às vezes não saber o que diz.” Em matéria de insultos, eu não faço uso deles nem em política, nem na discussão intelectual, por uma razão – simplória – é que o sr. padre sempre me disse que é pecado... Antes um pau de marmeleiro nos costados, mas também sou fraquinha de braços.


Uma coisinha fez-me doer a alma: então o Sr. Dr. acha-me arrogante? E logo o Sr. Dr., um intelectual tão humilde, como não pode deixar de ser um verdadeiro intelectual e príncipe das artes. Penitencio-me, Sr. Dr., nunca eu deveria, como diz, ter tido a “veleidade” de apontar o dedo a um bonzo intocável. Sempre assim foi, nos Dantas não se toca, nem pim, nem que se tenha estado num ponto privilegiado de avaliação. Calado, venerando e agradecido é assim que o poder político deve estar face aos outros poderes e é se quer ganhar eleições. Como os tempos mudaram!


Para terminar, que esta já vai longa, lamento Sr. Dr. ter de o contrariar naquele conselho final que me dá: “Sois belle et tais toi!” Bem queria ser-lhe agradável e seguir o conselho azedo, misógino e fora de moda, até para o sr. Dr. poder envergonhar-se menos de ser o português que é nesta matéria, mas não posso: quanto à beleza, cada um estende a perna até onde tem coberta, como dizia a tia Berta; quanto à faladura, sou dona da minha voz para não ser escrava do meu silêncio, como dizia a mãe dela, que era uma santa e não era deputada.


Dantes, eu sei, as Marias Papoilas calavam e os aristocratas de barba rija falavam, mas os tempos mudaram: é esta coisa da democracia e das igualdades que nos obriga a lidar com gente desqualificada, as mais das vezes, mal lavada até. Mas na vida é assim, Sr. Dr.: uns montam o circo, outros batem palmas. (Deputada do PS pelo Porto – Artigo escrito em 29/06/2008 e publicado no Jornal Público de 07/07/08) - Isabel Pires de Lima

domingo, julho 06, 2008

Aldina Duarte - Mulheres ao Espelho



Aldina Duarte - Não Vou, Não Vou (Criação de Lucília do Carmo)


Depois de uma ligeira decepção relativamente ao novo álbum do Camané, aguardava ansioso a chegada do novo álbum de Aldina Duarte. E ele eis que chegou - Mulheres ao Espelho - editado pela editora criada pela própria Aldina Duarte RODA-LA Music.
Este álbum é surpreendente. Começa pela leveza do design gráfico (de Rui Garrido), em tons de verde-água, luminoso, onde salta à vista as belissimas fotografias de Aldina Duarte tiradas por Isabel Pinto. A fotografia que acima coloquei é da contra-capa do álbum.
O disco fez-se no feminino. Ou melhor, é feminino. Feminino porque retrata vivências, atitudes, histórias, sentimentos, movimentos femininos. Uma ode à(s) Mulher(es), do príncipio ao fim.
Aldina assina cinco dos poemas (No Fim, Princesa Prometida, Uma amante, Uma noiva, Paraíso anunciado) que compõem este álbum de 11 faixas. Júlio de Sousa (Não vou, não vou), Lourenço Rodrigues (A Rua mais Lisboeta), Maria do Rosário Pedreira (Quadras do Amor Errante, O Amor não se desata e Mãe) e, por fim, Álvaro Duarte Simões (Barro Divino) assinam os restantes.
Este é um álbum de Fados Tradicionais - felizmente - e homenageia também mulheres fadistas, concerteza referências fortes para Aldina Duarte, nomeadamente em fados da criação de Lucília do Carmo e Hermínia Silva.
A voz de Aldina Duarte está segura (e feliz, parece-me), mantendo a sua forma característica de cantar. E é isto que eu adoro na Aldina: tem uma forma própria de cantar, que rapidamente nos leva a perceber de quem se trata quando se ouve. Assim como com a Beatriz da Conceição, ou Maria Teresa de Noronha ou Maria da Fé. E a superioridade está nisto: criação de um estilo próprio, de um cunho pessoal, de uma marca. A novidade acontece nisto.
É um álbum que recomendo vivamente. Belas melodias tradicionais, excelentes poemas e Fado no seu mais puro sentimento.
Resta agora o concerto ao vivo. Para quando? Espero que para breve.

quarta-feira, junho 25, 2008

Renúncia à Vice-Presidência da Argentina de Eva Perón 1951

Um video extraordinário onde Evita Perón renuncia ao pedido do povo Argentino de se tornar Vice-Presidente do País. Um discurso emotivo. Extraordinário.

quarta-feira, junho 18, 2008

Batalha de Aljubarrota

Oiça na TSF o programa "Encontros com o Património" dedicado à Batalha de Aljubarrota e ao projecto da Fundação Batalha de Aljubarrota sobre a revitalização e a construção do Centro de Interpretação Batalha de Aljubarrota.
Participam nele o historiador Saúl Gomes, arqueologa Maria Antónia Amaral, o arquitecto João Mareco e a arquitecta paisagista Luisa Borralho.

quinta-feira, junho 12, 2008

Princesa Prometida - Aldina Duarte

Novo disco de Aldina Duarte chama-se Mulheres ao Espelho.

Fica aqui um levantar do véu do novo trabalho da minha fadista de eleição:

quinta-feira, junho 05, 2008

Um Enigma


Em 1848, no nº 24 da revista O Jardim Litterario. Semanário de Instrucção e Recreio vem mais um enigma. Tal como os jornais de hoje têm o Sudoku, as diferenças ou as palavras cruzadas, O Jardim Litterario trazia charadas e enigmas. Deixo-vos aqui este para quem quiser tentar a sorte. Que frase isto dá? Solução brevemente...

segunda-feira, junho 02, 2008

Os contos de uma mulher com voz de fadista

Aldina Duarte fez-se voz de casas de fados há 15 anos, entre moradas de referência como o Clube do Fado e o Sr. Vinho. Desde então, editou dois discos, revelou-se investigadora e estudiosa da tradição fadista e acabou por ser dispensada pela sua editora, a EMI (em conjunto com outros músicos nacionais, durante o ano passado). No entanto, um terceiro álbum, Mulheres ao Espelho, não esperou por "respostas de outras editoras que nunca chegaram". Tem o carimbo "0001" da Roda-Lá Music, selo criado pela própria Aldina Duarte, e revela a tradição fadista na companhia de histórias de mulheres.

De xaile pelos ombros, Aldina recorda versos que escreve e canta: "Tenho um vestido alinhavado que envelhece só comigo", sussurra. As leis do fado, com seus modos e suas histórias, na voz de quem sabe: "Não sei a história desta canção. Quem a conhecerá, na verdade?" E esta mesma voz, que canta Lisboa na sua tradição, ocupa agora os dias com cursos de contabilidade, facturas e guias de transporte. "Não é coisa de fadista", diz-nos "mas eu cresci em Chelas a ler Dostoievsky, já na altura me chamavam bicho raro". "Tudo isto pode parecer muito alternativo, coisa de PJ Harvey", assume Aldina, fã da cantora inglesa. "Mas temos que nos envolver naquilo que diz respeito à nossa arte para lá da criação."

Dispensa argumentos sobre as dificuldades de criar uma editora. "Difíceis são os dias de quem é mais novo, de quem procura arriscar e não consegue." Porque os tempos menos bons, como o dos artistas - "em tempos de crise não é no pão que se corta, é na cultura", afirma -, juntam-se a uma estrutura social complexas e a realidades entendidas como "assuntos de mulheres". Que se escrevem no feminino mas se constroem "pela felicidade ou infelicidade de mulheres e homens". Os fados que canta acompanham "políticas económicas e sociais, do aborto aos problemas demográficos" mas não fazem de Mulheres ao Espelho um manifesto panfletário. Aldina dá voz a contos de "noivas e as amantes, de arrependimento e de saudade", como o fado sempre fez desde que se conhece.

A inspiração para Mulheres ao Espelho "seria mais natural num rocker". A frase é da autora mas ilustra pensamentos "de uma canção que também tem os seus preconceitos". Noctívago e boémio são características de um fadista "mas a ignorância também se pode manifestar", diz-nos uma Aldina que, "se assim tiver que ser", prefere carregar o rótulo de "alternativa". Se o sucesso estiver condicionado, que assim seja. Não existe por aqui o desejo do estrelato, a fama nunca será "a de um Camané ou de uma Mariza", assume. "Porque têm um dom vocal que eu não possuo e porque gostam da vida na estrada, que não me faz feliz."

Aldina prefere concentrar atenções na "liberdade de expressão". A de "artistas sujeitos a normas exigências de um mercado incompreensível" e de mulheres "cuja intimidade nem sempre lhes pertence". Reuniu vontades e fez um disco "orgulhoso e sentido, um disco de fado".
Diário de Notícias, 02 de Junho de 2008 - TIAGO PEREIRA e ANTONIO MAINI