quarta-feira, maio 28, 2008

Vampiras Lésbicas de Sodoma vencem Prémio de Melhor Peça de Teatro 2007 e Simão Rubim de Melhor Actor de Teatro 2007 na mesma peça - Guia dos Teatros




A peça As Vampiras Lésbicas de Sodoma, um dos maiores êxitos da Companhia Teatral do Chiado (CTC) que, no passado mês de Abril, celebrou a entrada no seu terceiro ano de representação no Teatro-Estúdio Mário Viegas, foi a grande vencedora dos Prémios de Teatro Guias dos Teatros 2007 na categoria de Melhor Peça

A cerimónia de entrega de prémios, que reuniu as principais figuras do teatro em Portugal, decorreu ontem, no Museu Nacional do Teatro, em Lisboa. Os leitores do blog "Guia dos Teatros" foram os decisores finais destes prémios, tendo votado ao longo de três meses nas diversas categorias a concurso.

Ao longo dos últimos dois anos, a peça As Vampiras Lésbicas de Sodoma registou já mais de 13 mil espectadores, sendo uma das maiores referências do teatro popular de qualidade apresentado pela CTC. Esta peça hilariante, que conta a história de duas vedetas e da sua eterna rivalidade, cruza o imaginário das histórias de terror com o glamour decadente do mito Hollywood e o universo exacerbadamente sexual dos shows de travesti.

Para além do prémio para Melhor Peça, também o actor Simão Rubim, um dos rostos principais da CTC, foi distinguido com o galardão para Melhor Actor na peça As Vampiras Lésbicas de Sodoma. Simão Rubim, que se estreou como actor em 1981 no Teatro Experimental de Cascais, foi, nove anos mais tarde, convidado por Mário Viegas a integrar o elenco da Companhia Teatral do Chiado e a participar como actor em vários espectáculos.

A partir de 1996, sempre na Companhia Teatral do Chiado, Simão Rubim participou em diversos espectáculos encenados por Juvenal Garcês, sendo actualmente uma das maiores referências da CTC nas peças As Vampiras Lésbicas de Sodoma e As Obras de William Shakespeare em 97 minutos.

O estrondoso sucesso da CTC, prestes a completar 18 anos, é uma vez mais reforçado com a atribuição destes Prémios, uma clara confirmação do interesse crescente do público que, mês após mês, esgota as várias sessões em cena no Teatro-Estúdio Mário Viegas.

Texto presente no site: www.companhiateatralchiado.pt

sexta-feira, maio 23, 2008

Elisabete Matos segundo acto da Tosca (não é a mesma produção apresentada no São Carlos)

Tosca com Elisabete Matos - Teatro Nacional de São Carlos


Na quarta-feira passada fui assistir, no Teatro Nacional de São Carlos, a mais uma representação de Tosca, de Puccini.

A casa estava cheia para receber a soprano Portuguesa Elisabete Matos. E não desiludiu.

Elisabete Matos, em Tosca, é figura forte em palco e com uma voz que facilmente encanta, juntando a esta uma preocupação interpretativa da personagem.

O restante elenco era composto por:

Cavaradossi - Evan Bowers

Scarpia - Vladimir Vaneev

Angelotti - Mário Redondo

Sacristão - Luís Rodrigues

Spoletta - Carlos Guilherme

Sciarrone - João Merino

Carcereiro - João Oliveira

Maus eram os cenários e os figurinos, de Anthony Ward. Pouca preocupação estética numa misturada de estilos sem sentido.

Mas no final, as excelentes interpretações de Elisabete Matos e Vladimir Vaneev abafaram ou desculparam tudo o resto, em que os constantes bravos e a ausência de pateada coroaram a noite.

Para o futuro, o desejo de ter Elisabete Matos novamente em palcos portugueses, de preferência com uma roupita melhor e um cenário a condizer.

quarta-feira, maio 21, 2008

O Sucesso de Amália Rodrigues em Itália nos Anos 70.

Termina com o belissimo "La Tarantella" em que leva o público ao rubro. Inesquecivel.

Amália Rodrigues - Solidão - 1969 - Ao vivo na Roménia

Excelente interpretação de Amália Rodrigues. E esta cor tipo Sépia fica do melhor...

domingo, maio 18, 2008

Camané - Sei de Um Rio - Pedro Homem de Mello

Camané no Coliseu dos Recreios de Lisboa



Camané apresentou-se dia 16 de Maio no Coliseu dos Recreios de Lisboa. Sala esgotada. Dez minutos de atraso, mais coisa menos coisa. Luzes apagadas. Uma voz agressiva lembra aos menos educados ou menos cívicos que devem desligar os telemóveis e que não se pode fotografar ou gravar o espectáculo.

Saem os primeiros sons de guitarra... uma luz acende e Camané, sentado numa cadeira, de lado, começa com um incrivelmente belo e arrepiante Sei de um Rio, de Pedro Homem de Mello, a música jóia da coroa do novo álbum "Sempre de mim".

O resto, foi um desfilar emocionante e de rara beleza de 30 músicas, ou mais, non-stop.

Camané foi grande o suficiente para encantar, deslumbrar ou emocionar o Coliseu dos Recreios de Lisboa.

Com uma voz melhor que nunca, amadurecida e com belíssimas variações, Camané cantou alguns temas do novo álbum e grandes sucessos - como se constatou nos diversos encores - dos discos anteriores.

Qualquer tentativa que tenha em descrever o concerto ou qualquer tentativa que possa fazer para transmitir as emocões vividas em noite tão especial, ficarão sempre aquem da realidade.

Camané provou, numa sala que se sabe dificil, com um público indisciplinadissimo - num constante sai e entra, velhotas perdidas nos tapetes vermelhos do Coliseu, pessoas a quem a voz agressiva do início não meteu medo, mexendo nos telemóveis o tempo inteiro, até aos mal educadissimos operadores de câmara e fotografos que teimam em incomodar quem pagou (e convenhamos que não se pagou pouco) um bilhete para um espectáculo que não merece distracções - Camané, dizia, provou que nasceu para grandes vôos e que é, sem qualquer tipo de dúvida, a grande voz e a grande referência do Fado actualmente.
Humilde na sua maneira de ser, Camané quase pediu desculpa por um Fado que iria cantar e que não era seu. Percebe-se que não gosta de cantar o que já antes havia sido cantado por outros e, principalmente, quando os outros eram Amália Rodrigues. Mas fê-lo... e com muita autoridade. Falo de Asas Fechadas, Fado emblemático do não menos emblemático álbum Busto de Amália. E que extraordinária interpretação.

A comprovar a excelência do fadista e dos fados que interpreta estão, claro está, as inúmeras pessoas ligadas à música que compareceram no Coliseu: Aldina Duarte (que iluminou com o seu belissimo sorriso a sala), Celeste Rodrigues, Carlos do Carmo, Sérgio Godinho (que escreve uma letra bem ao seu estilo no novo álbum do Camané), os irmãos Pedro e Helder Moutinho, Rodrigo Costa Felix, entre outros.

Trapalhão na fala mas grandioso na postura, Camané, acompanhado pelo trio fantástico de José Manuel Neto – guitarra portuguesa, Carlos Manuel Proença – viola, Paulo Paz – contrabaixo e como convidado especial - Carlos Bica, dominaram por completo o palco, a alma e o coração de quem lá esteve, viu e ouviu. Espera-se mais, muitos mais concertos brevemente.
José Daniel Ferreira
"O Coliseu é feito de fado e Camané é o seu senhor
Quando Camané dedica palavras ao seu público, sem o acompanhamento de violas e guitarras, multiplica-se em agradecimentos e deixa explicações sobre os fados que canta. Mas cedo se perde entre os nervos que as canções afastam. Este é o senhor fado que nasceu para contar histórias de miseráveis apaixonados e infelizes boémios elevando a voz, tornando maior que tudo o que, no momento, a rodeia. E fá-lo com uma invejável expressão de contentamento. A noite de sexta-feira fica documentada como a sua estreia em nome próprio no Coliseu dos Recreios. Mas quando canta, juramos que a história e a tradição da sala também lhe pertencem.
O novo Sempre de Mim é ainda disco em crescimento junto de quem o ouve. Mas certezas como esta não pedem por muito tempo para se revelarem: esta é a poesia que melhor serve a tradição fadista que Camané apregoa. E o fadista fá-lo hoje melhor que nunca. Começa sentado, longe das luzes. Canta "sei de um rio onde a própria mentira tem o sabor da verdade" e contorce-se a cada palavra que Pedro Homem de Mello parece ter-lhe dedicado. Volta sempre a Alfredo Marceneiro e mesmo ali regressa à infância, quando escutou quem hoje ainda o acompanha. Fernando Pessoa e David Mourão-Ferreira ecoam pelo Coliseu como poucas vezes até aqui. Lembremos então Amália, que Camané recorda, tímido, em Asas Fechadas. A modéstia serve-lhe a elegância mas sabe vestir a canção como só o próprio poderia.
Camané fez-se fadista para o demonstrar em público. De mão no bolso e fato escolhido ao pormenor. Reservando espaço para quem lhe dá o suporte musical (nesta noite com Carlos Bica como convidado especial) e entregando-se. Na resposta, o Coliseu pediu-lhe quatro encores, aclamou-o e soltou típicos "bravos" ou uns menos ortodoxos "és lindo". Camané sorriu e respondeu que sim."
Crítica de dia 18 de Maio - Diário de Notícias - Tiago Pereira e Tiago Lourenço

sexta-feira, maio 02, 2008

1º de Maio

Fui pela primeira vez na vida a um defile do 1º de Maio. Nem a comícios me lembro de ir a muitos. Um quando eu era muito pequeno, do Freitas do Amaral, precisamente na Alameda. Lembro-me que a noite acabou às cavalitas do meu pai e a lamber um gelado no Surf. De resto... não me lembro de muito mais.
Devo dizer que gostei bastante de ir ao desfile do 1º de Maio. Não deixa de ser comovente e emocionante ver desfilar pelos nossos olhos milhares de pessoas com histórias de vida seguramente diferentes mas todas com as mesmas críticas sociais, políticas e económicas a fazerem.
Para testemunhar o facto aqui vai um video muito manhoso e que mal se percebe feito através do meu telemóvel da dianteira de todo o desfile.

Madonna - Apresentação de Hard Candy

Madonna LIVE in concert
Madonna LIVE in concert


Madonna cantou ao vivo e... para os telemóveis
João Lopes (DN, 02-05-08)

Foi no Roseland Ballroom, em Nova Iorque, na noite de 30 de Abril: Madonna deu o seu primeiro concerto depois do lançamento do álbum Hard Candy. Mas a palavra "concerto" é insuficiente: foram apenas seis canções (Candy Shop, Miles Away, 4 Minutes e Give It 2 Me do novo álbum; Hung Up e Music de álbuns anteriores), num total de 32 minutos em palco, tudo concebido para uma difusão multimedia, em associação com a Vodafone, disponível em catorze países (incluindo Portugal) nos respectivos sites ou telemóveis.

Neste nosso admirável mundo mediático, o privilégio tecnológico custava a módica quantia de... 2,99 euros. Se se tratou da abertura de uma nova tendência comercial e artística, eis o que o futuro permitirá esclarecer. Seja como for, à beira de celebrar 50 anos, Madonna volta a inscrever o seu nome na linha da frente das formas artísticas.

A estrela da noite surgiu em pose de rainha, sentada num trono cujas costas desenhavam a letra "M". Para bom entendedor... O dueto com Justin Timberlake, em 4 Minutes, recriando o teledisco, terá sido o momento mais exuberante. Mas importa registar a confirmação do gosto de Madonna pelas guitarras: acústica e delicada em Miles Away; eléctrica e (muito) hard em Hung Up. Para que a mensagem fosse perfeita, Madonna usou no final um blusão negro, debruado com letras brilhantes: na frente, do lado do coração, estava escrito "hard"; nas costas, em letras maiores, a palavra "candy".

quarta-feira, abril 23, 2008

Para comemorar o 25 de Abril de 1974

Para comemorar o 25 de Abril de 1974 escolhi colocar neste blog as palavras de Jorge de Sena retiradas do seu texto "Não, Não Assino, Não Subscrevo...".
E porque Mário Viegas - dono da Liberdade e do sonho Dela - as deixou gravadas com o cunho da genialidade que era seu apanágio, aqui fica também a sua voz dizendo "Não, Não Assino, Não subscrevo...".
O texto é cru mas penso que ainda bastante actual nalguns pontos. Há muita coisa por cumprir apesar do muito que já foi feito.




Não, Não Assino, Não Subscrevo...


Não, não, não subscrevo, não assino
que a pouco e pouco tudo volte ao de antes,
como se golpes, contra-golpes, intentonas
(ou inventonas - armadilhas postas
da esquerda prá direita ou desta para aquela)
não fossem mais que preparar caminho
a parlamentos e governos que
irão secretamente pôr ramos de cravos
e não de rosas fatimosas mas de cravos
na tumba do profeta em Santa Comba,
enquanto pra salvar-se a inconomia
os empresários (ai que lindo termo,
com tudo o que de teatro nele soa)
irão voltar testas de ferro do
capitalismo que se usou de Portugal
para mão-de-obra barata dentro ou fora.
Tiveram todos culpa no chegar-se a isto:
infantilmente doentes de esquerdismo
e como sempre lendo nas cartilhas
que escritas fedem doutras realidades,
incompetentes competiram em
forçar revoluções, tomar poderes e tudo
numa ânsia de cadeiras, microfones,
a terra do vizinho, a casa dos ausentes,
e em moer do povo a paciência e os olhos
num exibir-se de redondas mesas
em televisas barbas de falácia imensa.
E todos eram povo e em nome del' falavam,
ou escreviam intragáveis prosas
em que o calão barato e as ideias caras
se misturavam sem clareza alguma
(no fim de contas estilo Estado Novo
apenas traduzido num calão de insulto
ao gosto e à inteligência dos ouvintes-povo).
Prendeu-se gente a todos os pretextos,
conforme o vento, a raiva ou a denúncia,
ou simplesmente (ó manes de outro tempo)
o abocanhar patriótico dos tachos.
Paralisou-se a vida do país no engano
de que os trabalhadores não devem trabalhar
senão em agitar-se em demandar salários
a que tinham direito mas sem que
houvesse produção com que pagá-los.
Até que um dia, à beira de uma guerra
civil (palavra cómica pois que
do lume os militares seriam quem tirava
para os civis a castanhinha assada),
tudo sumiu num aborto caricato
em que quase sem sangue ou risco de infecção
parteiras clandestinas apararam
no balde da cozinha um feto inexistente:
traindo-se uns aos outros ninguém tinha
(ó machos da porrada e do cacete)
realmente posto o membro na barriga
da pátria em perna aberta e lá deixado
semente que pegasse (o tempo todo
haviam-se exibido eufóricos de nus,
às Áfricas e às Europas de Oeste e Leste).
A isto se chegou. Foi criminoso?
Nem sequer isso, ou mais do que isso um guião
do filme que as direitas desejavam,
em que como num jogo de xadrez a esquerda
iria dando passo a passo as peças todas.
É tarde e não adianta que se diga ainda
(como antes já se disse) que o povo resistiu
a ser iluminado, esclarecido, e feito
a enfiar contente a roupa já talhada.
Se muita gente reagiu violenta
(com as direitas assoprando as brasas)
é porque as lutas intestinas (termo
extremamente adequado ao caso)
dos esquerdismos competindo o permitiram.
Também não vale a pena que se lave
a roupa suja em público: já houve
suficiente lavar que todavia
(curioso ponto) nunca mostrou inteira
quanta camisa à Salazar ou cueca de Caetano
usada foi por tanto entusiasta,
devotamente adepto de continuar ao sol
(há conversões honestas, sim, ai quantos santos
não foram antes grandes pecadores).
E que fazer agora? Choro e lágrimas?
Meter avestruzmente a cabeça na areia?
Pactuar na supremíssima conversa
de conciliar a casa lusitana,
com todos aos beijinhos e aos abraços?
Ir ao jantar de gala em que o Caetano,
o Spínola, o Vasco, o Otelo e os outros,
hão-de tocar seus copos de champanhe?
Ir já fazendo a mala para exílios?
Ou preparar uma bagagem mínima
para voltar a ser-se clandestino usando
a técnica do mártir (tão trágica porque
permite a demissão de agir-se à luz do mundo,
e de intervir directamente em tudo)?
Mas como é clandestina tanta gente
que toda a gente sabe quem já seja?
Só há uma saída: a confissão
(honesta e calculada) de que erraram todos,
e o esforço de mostrar ao povo (que
mais assustaram que educaram sempre)
quão tudo perde se vos perde a vós.
Revolução havia que fazer.
Conquistas há que não pode deixar-se
que se dissolvam no ar tecnocrata
do oportunismo à espreita de eleições.
Pode bem ser que a esquerda ainda as ganhe,
ou pode ser que as perca. Em qualquer caso,
que ao povo seja dito de uma vez
como nas suas mãos o seu destino está
e não no das sereias bem cantantes
(desde a mais alta antiguidade é conhecido
que essas senhoras são reaccionárias,
com profissão de atrair ao naufrágio
o navegante intrépido). Que a esquerda
nem grite, que está rouca, nem invente
as serenatas para que não tem jeito.
Mas firme avance, e reate os laços rotos
entre ela mesma e o povo (que não é
aqueles milhares de fiéis que se transportam
de camioneta de um lugar pró outro).
Democracia é isso: uma arte do diálogo
mesmo entre surdos. Socialismo a força
em que a democracia se realiza.
Há muito socialismo: a gente sabe,
e quem mais goste de uns que dos outros.
É tarde já para tratar do caso: agora
importa uma só coisa - defender
uma revolução que ainda não houve,
como as conquistas que chegou a haver
(mas ajustando-as francamente à lei
de uma equidade justa, rechaçando
o quanto de loucuras se incitaram
em nome de um poder que ninguém tinha).
E vamos ao que importa: refazer
um Portugal possível em que o povo
realmente mande sem que o só manejem,
e sem que a escravidão volte à socapa
entre a delícia de pagar uma hipoteca
da casa nunca nossa e o prazer
de ter um frigorífico e automóveis dois.
Ah, povo, povo, quanto te enganaram
sonhando os sonhos que desaprenderas!
E quanto te assustaram uns e outros,
com esses sonhos e com o medo deles!
E vós, políticos de ouro de lei ou borra,
guardai no bolso imagens de outras Franças,
ou de Germânias, Rússias, Cubas, outras Chinas,
ou de Estados Unidos que não crêem
que latinada hispânica mereça
mais que caudilhos com contas na Suiça.
Tomais nas vossas mãos o Portugal que tendes
tão dividido entre si mesmo. Adiante.
Com tacto e com firmeza. E com esperança.
E com um perdão que há que pedir ao povo.
E vós, ó militares, para o quartel
(sem que, no entanto, vos deixeis purgar
ao ponto de não serdes o que deveis ser:
garantes de uma ordem democrática
em que a direita não consiga nunca
ditar uma ordem sem democracia).
E tu, canção-mensagem, vai e diz
o que disseste a quem quiser ouvir-te.
E se os puristas da poesia te acusarem
de seres discursiva e não galante
em graças de invenção e de linguagem,
manda-os àquela parte. Não é tempo
para tratar de poéticas agora.


Santa Bárbara, Fevereiro 1976

(aniversário de uma tentativa heróica de conter uma noite que duraria décadas)

Sena, Jorge de, 40 anos de servidão, Lisboa, 1982, Moraes Editores - Círculo de Poesia, pps. 200 a 204