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No passado dia 06 de Abril realizou-se um grande jantar de homenagem a Maria do Céu Guerra. O evento realizou-se no belíssimo Atelier do Mestre Lagoa Henriques e do Prof. Carlos Amado. Foi uma noite emotiva e sentida, onde o Teatro, a Poesia e a Amizade se uniram. De referir que nesse Domingo terminaram as representações de Antígona no Teatro da Barraca, que contava com os cenários idealizados pelo Prof. Carlos Amado. Queria apenas deixar-vos aqui o poema que o Mestre Lagoa Henriques escreveu em homenagem a Maria do Céu Guerra:
Fabricante de luvas é o que o pai queria que ele fosse - e não foi. Letrado apenas ou filósofo em disfarce, poeta, vá lá! - mas não aquele mesmo "good William" que dirigia a companhia dos "Homens do Rei", montava e representava as suas peças em que nem sequer reservava para si os principais papéis, é o que queriam dele os literatos - mas também não foi.
O que ele foi é quem foi: William Shakespeare, nascido em Stratford-upon-Avon, no condado de Warwickshire em Inglaterra, (gentleman, sim senhor, mas depois de celebrizado) no dia 23 de Abril de 1564, ao que se supõe e gostariam os ingleses que fosse, por ser dia de S. Jorge. Esse, o tal que tendo escrito, montado e representado uma quantidade fabulosa de comédias e de tragédias durante cerca duma vintena de anos, deixou um dia a Londres que o glorificara e enriquecera tão calada e misteriosamente como lá chegara, para voltar a casa, aconchegar-se e morrer, outra vez no dia 23 de Abril - e desta feita a data é certa - de 1616, na cidade ribeirinha em que tinha nascido 52 anos antes.
Pois. E o resto é congeminação de congeminadores que nunca viram por dentro como uma peça se põe em pé. Que não sabem como o afluir do espectador à bilheteira depende de como é doseado o efeito dum diálogo ou acertado o comprimento duma cena. Pois! Que quem souber como elas mordem e vir como da exploração duma personagem pitoresca (nascida em outra peça e feita a pedido) surge essa maravilha de construção teatral que são as "nerry Wifes", aparentemente uma comédia de costumes, mas que toca as notas todas do divertimento, da farça à "féerie", não tem dúvida um momento sobre a identidade do autor. A identidade da profissão do autor - homem de dentro do teatro, a quem o génio fez sair do seu palco para a eternidade por obra e graça do Espírito Santo, que parece que é quem intervém nestas coisas, escrevendo, ali, às pressas, para que se pudesse ensaiar outra peça enquanto uma estava em cena, encurtando, aumentando, suprimindo e acrescentando cenas, segundo a qualidade e o número de actores de que dispunha e segundo o público a que destinava a representação.
Olha os literatos a fazerem destas coisas!
A grande trapalhada dos quartos e dos fólios, das discrepâncias textuais nas primeiras e segundas edições das suas obras, vem daí. A eternidade aconteceu-lhe. O que escrevia destinava-se à vida efémera da palavra falada, do conflito vivido por gente em face de gente - ao teatro, isto é - à ocasião.
Essa ocasião tinha condições extraordinárias no tempo da rainha Isabel. Os cais de Londres, ao pé dos quais estava "O Globo", formigavam de gente com dinheiro fácil e desejosa de emoções fortes; o mundo cultural da Renascença abrira-se a um horizonte imenso que os "humanistas" tinham sabido, pelo menos, ensinar que se podia conceber à medida do homem; o palco chamado isabelino - um grande proscénio aberto por três lados, encostado a uma parede perfurada e sobremontado por uma varanda - deixava livre a imaginação do autor sem as restrições aristolélicas da unidade de tempo e de lugar; a indumentária teatral era elementar, convencional e barata: Troilo e Créssida andavam em cena mais ou menos vestidos como o Hamlet e Lady Macbeth.
Ao grande aparato cenográfico da Idade Média sucedera-se a elementaridade sucinta dum palco em que tudo era a imaginar.
"Nesta arena de galos poderão caber Os vastos campos da França? Poder-se-ão, entre estas tábuas, juntar os capacetes Que semeavam de espanto os ares de Agincourt? Deixai trabalhar as forças da imaginação Supondo agora que estão fechadas Entre estas duas paredes Duas grandes monarquias. Supri com o pensamento a nossa imperfeição. Quando falarmos de cavalos Pensai vê-los marcando na terra mole os cascos orgulhosos. É com essa imaginação que tendes de ataviar os reis, Mudando-os de lugar, saltando sobre o tempo E fazendo caber numa hora de ampulheta O que leva muitos anos a acontecer." - Do prólogo de Henrique V.
É claro que o génio é génio e nunca o génio humano subiu a craveira mais alta do que a deste homem meão de estatura, bigodinho fruste, olhos redondos sempre de pálpebra visível e a testa despovoada de cabelo até ao cocuruto da cabeça, boca bem talhada, cabelos como asas emoldurando o oval do rosto até ao baixo das orelhas e, que nos seus retratos, se nos apresenta todo bem posto: gibão de veludo agaloado por várias bandas e o cabeção de renda engomada esticado, grande e todo triques-à-beirinha. Nem eu quero negar isso nem cometer a estultícia (tão à moda) de explicar por motivos sociais alheios e circundantes a misteriosa aparição do génio num indivíduo. Abelhas não somos e, mesmo as abelhas, só fabricam nas mestras a possibilidade monstruosa de porem ovos à bruta. Não é disso que se trata mas da liberdade.
Coitado do génio a que tudo atravanca o caminho e, desde a censura à finança, tudo o impede de manifestar-se! Nascido como nasceu, dotado como nasceu, um século mais cedo ou um século mais tarde, ou noutro lugar que não fosse a Londres daquele tempo (que o digam os espanhóis de génio seus contemporâneos) o significado, a extensão, a profundidade e a liberdade da sua obra, se não a sua beleza literária também genial, não teriam atingido o que atingiram.
Não fosse ele homem do palco ou fosse outro o palco para que concebia o seu teatro e as restrições do lugar lhe atrapalhariam a fluência. Prisões, campos de batalha, salas reais de trono, os pátios das conjuras, antros de feiticeiras, florestas, cemitérios, ruas de cidades a distâncias enormes umas das outras, sucedem-se ao ritmo fácil desta imaginação para que se apela, dum adereço dum telão ou dum letreiro.
Não fosse ele inglês e homem do seu tempo e essa cavalgada monstruosa de crimes, de ambições de conjuras infames e monstruosidades com que ele teceu o estofo dos tronos em que se sentaram as personagens duma história que viu à luz de mil archotes de sangue, e não soaria talvez ao cantante bronze dos sinos maravilhosos a sua liberdade de falar:
"Pompa vã e glória vã do mundo - eu vos odeio! E sinto o coração de novo aberto. Quão miserável É o pobre homem que depende do favor dos príncipes! Existem, entre o sorriso a que aspiramos No seu semblante ameno e a sua ruína Mais angústias mortais e medos, do que existem Ou guerras ou mulheres." - Henrique VIII, fala do cardeal Wolsey
Ser quem escreveu isto o próprio amante da rainha, como agora anda um preopinante a querer provar? Deixemo-nos de asneiras! [Nota Autor: É de propósito que não cito o autor da "nova teoria". Era só o que faltava dar-lhe publicidade!]
10 tragédias históricas, mais outras 13 tragédias, mais 14 comédias, ao que me lembro e falta-me a pachorra para ir verificar a certeza destes números... Tanto faz, neste caso, mais uma ou menos uma! Uma montanha. E, nessa montanha, a cada passo um espanto, quase a cada verso ou a cada linha de prosa uma beleza. Bem-aventurada fluência!
Notícias dele como autor e actor só se têm ao certo desde 1592. Tudo isso é mais ou menos depois dessa data e antes de 1614. E além das suas peças, ainda representou algumas de Ben Jonson. E, a avaliar pela comezaina que fez com ele e com Michael Drayton, de que lhe resultou a morte, segundo mais tarde contou o vigário de Stratford, e a contar com a caçada furtiva na coutada de Sir Thomas Lucy, a que deve ter-se seguido lauta ceia e foi o motivo concreto da sua quase fuga inesperada de Stratford para Londres - bendita hora! - ainda lhe sobrava tempo para pândegas...
Santo William Shakespeare, meu irmão, herói e mártir, como eu disse num programa de televisão, bicho de teatro pelo génio, pelo vício, por ofício e pelo sangue, perdoa aos literatos que não sabem o que dizem... e ensina-lhes, pelo menos, a escrever bem.
Festeja-se-lhe agora o centenário. Se houver homens na Terra e se não tiverem perdido a graça de falar, festejar-se-á o seu milenário também, que os homens mudam pouco, mesmo em mil anos, no que têm de essencialmente mau e essencialmente bom, nas suas ambições, no seu amor, nos seus ridículos e nas suas fúrias.
Festejá-lo-ão os homens, porque não arrefece o sangue vivo das suas personagens nem as envelhece o tempo. Festejá-lo-ão os poetas, porque foi poeta, os dramaturgos porque foi dramaturgo. Festejá-lo-ão sempre e sobretudo os homens de teatro, fabricantes do efémero, porque foi ao serviço dessas duas horas de riso ou de angústia que sempre tentam erguer no ar como um perfume que se desfaz, que um seu colega de génio compôs uma obra que o transcendeu ou transpôs efémero para a eternidade.
António Pedro, Revista Colóquio, nº 29, Junho de 1964, Fundação Calouste Gulbenkian".
Os meu grande beijinho a todos os actores e actrizes de que eu amo, aos encenadores que admiro e ao Teatro que eu gosto neste Dia Mundial do Teatro.
"Desde que entramos neste corpo mortal, a morte nunca mais deixou de estar a vir (...) O tempo que se vive, é vida que se corta e cada dia que passa, é menos vida que nos fica. O tempo da nossa vida é caminho para a morte onde não está previsto um segundo de atraso (...). Se começarmos a morrer logo que, em nós, começa a actuação da morte, deve dizer-se que começamos a morrer logo que começamos a viver (...). Consumida a vida, fica terminada a morte que se vinha realizando pouco a pouco. Por isso, o homem nunca está em vida: é mais um morto que um vivo- já que não pode estar simultaneamente morto e vivo". (In: De Civitate Dei - Santo Agostinho)
Historiador e ensaísta, Joel Serrão morreu quarta-feira, em Sesimbra. Tinha 88 anos. Concebeu e dirigiu a maior empresa historiográfica do século XX, o Dicionário de História de Portugal (Figueirinhas), que teve, em 1965-71, a sua primeira edição em quatro volumes. Só isso bastaria para o definir. Figura, juntamente com Oliveira Marques, como director da Nova História da Expansão Portuguesa e da Nova História de Portugal.
Deixa, no entanto, também obra vasta e, em grande parte, pioneira no domínio da investigação sobre o século XIX e da literatura portuguesa.
No Dicionário escreveu 81 entradas que constituem, segundo Maria de Fátima Bonifácio, "referência obrigatória para quem investigue e escreva sobre o século XIX." A título de exemplo, relembrem-se Socialismo; Telegrafia; Nobreza, Povo, Burguesia, entre outras. Mesmo estando desactualizado - em razão das aquisições historiográficas dos últimos anos -, é possível aos mais novos orientarem-se na investigação a partir dele, explica a historiadora.
José Mattoso considera grande a influência de Serrão na "renovação da historiografia portuguesa no fim do antigo regime e no princípio da época democrática." Salientando que "o uso da documentação literária não é a sua especialidade, mas daquele historiador", sublinhou ao DN a relevância do Dicionário de História de Portugal, que, passados 50 anos, "ainda é consultado. Por intermédio daquele autor, "aplicaram-se novos abordagens e conceitos historiográficos fundamentais para compreender o século XIX português".
O historiador refere-se ao facto de, acompanhado por Oliveira Marques e Magalhães Godinho, Joel Serrão ter sofrido a influência da escola francesa de Bloch e Lucien Lefebvre. E relembra-o como um "bom colega, inteligente, simpático, prudente".
Licenciado em Histórico-Filosóficas pela Faculdade de Letras Lisboa, foi não só professor neste estabelecimento como no Instituto Superior de Economia. Transitou depois para a Faculdade de Ciências Humanas da Universidade de Lisboa. Administrador da Gulbenkian, (Pelouro da Ciência), dirigiu a revista e a Colecção Horizonte, onde publicou ensaios sobre temas oitocentistas ou a Antologia do Pensamento Político Português). Tem estudos notáveis sobre Herculano, Antero, Oliveira Martins, Sérgio - de que se reconhecia herdeiro pela visão democrática da história portuguesa.
Não só Joel Serrão valorizou, segundo a antiga directora da Torre do Tombo, Miriam Halpern Pereira, as fontes manuscritas, como foi "um dos promotores do roteiro das fontes da História Contemporânea Portuguesa. Fernando Rosas definiu-o, por outro lado, como "mestre e um pioneiro da História Contemporânea".
Na opinião de Maria Filomena Mónica - que, com António Barreto, deu continuidade ao Dicionário de História de Portugal -, o historiador "olhava a história sem óculos ideológicos", relevando a sua ligação à poesia: "A forma como a tratou revela uma enorme inteligência e sensibilidade." Para a investigadora, "a colectânea mais elucidativa e fidedigna de Cesário foi organizada por ele." Lamentando a morte de Joel Serrão, Veríssimo Serrão sublinhou ainda ao DN que o ensaísta "foi um dos autores que melhor dignificaram a cultura portuguesa ao longo dos tempos."
O funeral de Joel Serrão sai hoje, às 10.00, da Igreja de Santo Condestável para o cemitério dos Olivais, onde o corpo será cremado.
Simone de Oliveira no Camarim Simone de Oliveira Simone de Oliveira Simone de Oliveira recebe de António Costa a Medalha de Ouro da Cidade de Lisboa Simone de Oliveira, Presidente da República Portuguesa e Primeira-DamaSimone de Oliveira e Madalena Iglésias
O Coliseu de Lisboa encheu-se ontem pelas 21h e 30m para comemorar os 50 anos de carreira de Simone de Oliveira, num espectáculo memorável.
Ao longo de mais de duas horas desfilaram pelo palco do Coliseu grande parte das músicas emblemáticas da carreira de Simone, escritas pelos maiores poetas que este país teve e cantadas por colegas e amigos da homenageada.
Anabela (comovente), Lara Li (surpreendente), Marisa (a que canta, a dos Donna Maria, não a outra), Pedro Abrunhosa (em dois momentos dolorosos e desenquadrados dos restantes convidados), Pedro Moutinho (emotivo), Dulce Pontes (momentos únicos), Wanda Stuart (em grande forma), Henrique Feist (no seu melhor) e Lúcia Moniz (descontraída).
Mas a estrela da noite foram os membros que compunham o grupo Gospel, criando uma atmosfera absolutamente fascinante e eufórica, com várias brilhantes perfomances (coube-lhes a interpretação do tema central de toda a carreira de Simone – Desfolhada à Portuguesa).
A acompanhar os interpretes a maravilhosa Orquestra Metropolitana de Lisboa, sob a batuta de Nuno Feist.
A concepção do espectáculo estava de se lhe tirar o chapéu. Percorreu-se o Portugal dos 50 anos de carreira de Simone, num cenário Beckettiano, com uma excelente concepção cenográfica e design de luzes. De cada um dos lados do palco, enormes telões mostravam-nos imagens de alguns acontecimentos da carreira de Simone ou da vida politica e social do país. A maior gargalhada da noite foi para um discurso de Marcello Caetano – discurso, esse, que podia perfeitamente ter sido feito ontem, - numa ousadia política bastante grande, uma vez que estavam presentes o Presidente da República Portuguesa e sua comitiva, o ex-Presidente da República Ramalho Eanes e outros membros do actual e anterior governo.
No final do espectáculo – em quase encore – surge Simone de Oliveira. De imediato a casa se levantou para uma comovente, merecida e longa salva de palmas.
E Simone cantou de uma forma que não se consegue descrever porque ficará sempre àquem da realidade. Não se percebe como, nem porquê. De onde vem aquela voz, aquela postura, aquela tão falada força que a agiganta para lá do que é humanamente possível?
Os temas cantados por Simone souberam a pouco. Foram apenas cinco. Mas afinal, que diabo, ela estava ali para comemorar não para trabalhar... mas, repito, souberam a pouco.
Um grande momento, já perto do final, foi quando Madalena Iglésias entrou em palco para cantar com Simone. A sala não se conteve e novamente o público, de pé, aplaudiu as duas grandes “rivais”, pois os 50 anos de carreira de Simone são, em certa medida, os 50 anos de carreira de Madalena.
Para fechar a noite em puro extâse, António Costa, Presidente da Câmara Municipal de Lisboa, entrega a Simone a Medalha de Ouro da Cidade. Afinal, era a ela que Ary dos Santos chamava de “Tejo” e foi ela quem cantou “Esta Lisboa que eu Amo”.
O saldo do espectáculo foi mais do que positivo. Emotivo, surpreendente e, acima de tudo, foi feita justiça a uma grande mulher do panorama artístico, social e, arrisco mesmo a dizer político, de Portugal. Simone de Oliveira teve casa cheia e mereceu-o.
Agora, resta-nos esperar por mais concertos, um DVD ou um CD (quem sabe?) e a estreia, para breve, de Vila Faia.
Parabéns a todos quantos estiveram envolvidos no espectáculo – desde a concepção, aos textos, passando pelo programa (do mais original que eu já vi – grande trabalho), bailarinos e músicos. Uma noite para gravar na memória e lembrar sempre.
No dia em que comemora 70 anos de existência, fica aqui o aviso de que já se encontram à venda os bilhetes para o espectáculo comemorativo dos 50 anos de carreira de Simone de Oliveira. A festa realiza-se dia 25 de Fevereiro de 2008, pelas 21 e 30, no Coliseu dos Recreios, em Lisboa.