segunda-feira, fevereiro 11, 2008

Simone de Oliveira - Coliseu dos Recreios de Lisboa - 50 anos de Carreira


No dia em que comemora 70 anos de existência, fica aqui o aviso de que já se encontram à venda os bilhetes para o espectáculo comemorativo dos 50 anos de carreira de Simone de Oliveira. A festa realiza-se dia 25 de Fevereiro de 2008, pelas 21 e 30, no Coliseu dos Recreios, em Lisboa.
Para mais informações e reserva de bilhetes vá até http://www.coliseulisboa.com/evento.php?id=308

domingo, fevereiro 10, 2008

Celeste Rodrigues actua no Concertgebouw Amesterdão dia 12



Celeste Rodrigues actua no Concertgebouw Amesterdão dia 12

A fadista Celeste Rodrigues actua terça-feira no Concertgebouw, em Amesterdão, e no dia seguinte na igreja de São Martinho em Martinikerk (Groningen), acompanhada por Ricardo Parreira (guitarra portuguesa), Miguel Monteiro (viola) e João Penedo (viola-baixo).

O alinhamento destes dois espectáculos será baseado no seu álbum «Fado Celeste», editado o ano passado na Holanda e ainda sem edição em Portugal.

O CD chega ainda este mês aos mercados escandinavo, francês e italiano, «sendo possível que venha a realizar outras actuações no estrangeiro», disse à Lusa a fadista.

«O público tem sido muito bom para mim, não me posso queixar», disse Celeste Rodrigues que se afirmou «muito contente por mais esta aventura».

«Fado Celeste» reúne fados tradicionais e inéditos com letras de autores contemporâneos.

«Para mim é muito importante o poema, e depois oiço o trinar das guitarras e acontece, mais não sei dizer, até porque não percebo nada de fado, o fado é para se sentir», sentenciou.

Celeste Rodrigues gravou três poemas de Helder Moutinho («gosto muito da forma como escreve», disse) e outro de Tiago Torres da Silva, autor do tema que dá título ao álbum.

«Gravei também um fado do Jorge Fernando, música e letra, de que gosto muito, 'Ouvi dizer que me esqueceste', e um do José Luís Gordo, que canto há muito tempo e é lindíssimo, 'O meu nome baila no vento'», afirmou.

Celeste Rodrigues, 84 anos e mais de meio século de carreira, afirmou que o seu sonho não era «ser artista», mas «gostava imenso de cantar no meio dos fadistas, não em público».

O ano passado a fadista foi homenageada pela Associação Portuguesa dos Amigos do Fado (APAF) no Museu do Fado, em Lisboa que lhe reconhecem «a voz bonita, capacidade interpretativa e a regularidade de uma carreira».

«A Celeste Rodrigues, com uma carreira de mais de 50 anos, está a cantar melhor do que alguma vez cantou, com uma voz muito bonita e uma capacidade interpretativa extraordinária», afirmou à Lusa a presidente da APAF, Julieta Estrela de Castro.

A sua carreira começou em 1945 quando o empresário de espectáculos José Miguel a ouviu cantar «numa roda de amigos» e a contratou imediatamente para o Café Casablanca, em Lisboa (actual Teatro ABC).

Já actuou nos mais variados palcos nacionais e internacionais, além de uma presença constante nas casas de fado, designadamente A Viela, Parreirinha de Alfama, O Embuçado, Bacalhau de Molho e Casa de Linhares.

Entre os seus êxitos refiram-se «A lenda das algas» (Laierte Neves/Jaime Mendes), e «Saudade vai-te embora» (Júlio de Sousa).

Diário Digital / Lusa

09-02-2008 10:49:00
VISITE O SITE DE CELESTE RODRIGUES EM www.celesterodrigues.pt/

quinta-feira, fevereiro 07, 2008

HERMÍNIA SILVA, Vamos dar de beber à alegria - 1981

Uma fado "deturpado" e muito engraçado pela inimitável Herminia Silva... oiçam com atenção que vale muito a pena.

quarta-feira, janeiro 16, 2008

Monologo das Avenidas Novas

(foto do autor)

É meu costume deambular pelas Avenidas Novas. – Faço-o muitas vezes quando a vida não me sorri, independentemente do dia da semana (as Avenidas Novas nunca encerram para descanso do pessoal), da hora (mais simpáticas a partir das duas da manhã, mas sempre disponiveis a qualquer hora do dia) ou do tempo (com chuva é pior, embora aumente o cenário). Caminhando por aquelas passadeiras de calçada portuguesa que nos levam a ruas cujo o nome não sei e, entre pensamentos e palavras que me saem pela boca – sim, por vezes caminho falando sozinho (ou melhor, falando de mim para mim, pois uma coisa é ouvir a voz do pensamento e outra é ouvir a nossa voz a expressar um nosso pensamento) apercebo-me de uma coisa: do meu verdadeiro way of life.

Apercebi-me na minha ultima caminhada sem sentido ou destino (paro apenas quando o cansaço me vence ou os olhos me estão pesados) que o sentido da minha vida é estar entre. Sim, estar entre.

Não é no sentido de: - “Entre, se faz favor, aqui está mais protegido” ou “porque não entra e descansa um pouco a cabeça e o corpo, e já agora a alma, os pulmões, o sexo, a barriga e o cú... descanse por inteiro vivo-morto-vivo neste divã suspenso de emoções. Faço-lhe um chá de recordações infantis com um aroma de esperança, adocicado com duas colheres de sonhos por cumprir. Verá que se sentirá melhor”.

O meu entre é estar no meio de duas coisas, sem nunca estar numa ou noutra. Esse é o meu estilo de vida.

ENTRE

Desde sempre que assim foi e só agora cheguei lá.

Passei a vida entre Lisboa e Viseu. Nasci a 10 de Agosto de 1977 mas sem ter tempo suficiente de me sentir Lisboeta. A 15 de Agosto já estava em Viseu. Entre uma cidade e outra, uma estrada de traça tortuosa, longa, com demasiadas subidas para que se chegue enjoado o suficiente ao destino. Veio depois a auto-estrada. Das 8 horas de viagem passou-se a 3 horas. Da excitação que era fazer a viagem (como se de todas as vezes viajássemos até ao reino do Preste João, de que apenas nós tinhamos o conhecimento do mapa) passou-se à chatice de conduzir três horas sem surpresas ou novas emoções até à aldeia que agora é vila, e por isso perdeu o interesse.

Cresci entre irmãos: três mais velhos e dois mais novos. Suficientemente distante de todos eles, por força de compadrios internos e gestão política de poderes. Eu sentia-me a Cuba de Fidel. Forçosamente só, a todo o custo e esforço.

Veio a escola primária e preparatória. Aí estive sempre entre o reprovar e o aprovar. Acabei sempre por nunca reprovar. Não sei como nem à custa de quantos subornos ou choraminguices da minha mãe isso aconteceu.

No entanto, na escola, sentia-me diferente. Não gostava de futebol, nem de porrada, espadas ou dragões mas gostava da companhia dos rapazes (mais tarde acabei de perceber porquê); mas gostava também das raparigas, porque elas iam a museus e gostavam, e eu também gostava; gostava de teatro (obrigado Mãe por esse vício); gostava da companhia dos avós e dos tios; das casas grandes de férias; do nevoeiro entre as árvores, do tanque da rega congelado pelo frio, do cheiro do fumo das lareiras a saír pelas chaminés, ou simplesmente da cascata de água do Poço Azul, da tosse provocada pelos pasteis de Vouzela, do galo estupor que me acordava cedo ou do morcego que se fazia convidado e voava pela casa fora. Das doze badaladas do relógio gigante do meio das escadas da casa da avó em sintonia com as doze badaladas do relógio divino da torre da igreja.

Na adolescência refinei-me. Estive sempre entre aquilo que eu sabia que era e aquilo que eu sei que teria de ser se queria sobreviver saudavelmente numa escola pública. Ou seja, estive sempre entre aquilo que eu verdadeiramente era e um meu outro. Criei em mim uma dupla persona[lidade] que geri como podia e sabia mas que era complicado comandar, pois fazer adormecer um lado para acordar o outro, consoante os locais e as pessoas, não me era fácil e até incómodo.

Mas ainda hoje, aos 30 anos, sinto-me feito de duas matérias diferentes (embora não opostas), sinto essa dupla persona ainda habitando em mim. Quando estou a sós comigo não me sinto igual ao eu que sou quando estou com os outros. Sinto-me diferente ou percepciono-me de maneira diferente.

Ainda não experimentei a sensação de ser apenas um.

Na vida laboral estive e estou entre trabalhos. Nunca me fixo. Não consigo, não quero, não me deixam, não entendo. Entre um trabalho e o seguinte ou o anterior só a insatisfação se mantêm, a sensação de tempo perdido em coisas inuteis, a ideia de que nada de frutifero faço para a Civilização, para a Cultura, para mim. Cada dia de trabalho que passa é mais um cavaco de lenha que lanço para a lareira da bestialidade... da minha bestialidade. Cada vez mais me afundo entre funções que não gosto e a luta infinita de saltar longe e fugir.

Salva-me por vezes a música, a poesia declamada. Com ela respiro, ausento-me, suspenso-me alto, junto de estrelas desconhecidas e pessoas mortas que me fazem falta. Com ela fecho os olhos e a vida é perfeita harmonia, felicidade de dois corpos juntos, convivio entre iguais e caminhadas com destino. Com ela o Amor existe e realiza-se. Sem entraves, sem perguntar como, porquê e onde, sem rejeições ou mentiras. Porque no Amor também estou entre. Entre quem amo e o mundo; entre quem amo e a vida; entre quem amo e os outros; entre quem amo e eu mesmo, principal obstáculo de eu próprio conseguir amar em dois. Apenas uma vez ouvi em Stereo o Amor. Com lado A (eu) e lado B (outro). Ambos perfeitos até aos primeiros riscos, à primeira faixa que se saltou, ao desgaste e consequente destruição. Voltei a ouvir em Mono e re-gravei o meu lado A com novas melodias, não necessariamente com melhor letra.

Entre o muito que ainda teria para contar e o tempo que tenho para o fazer, termino este texto sem causa nem efeito. Quem sabe se não continuo um outro dia, porque tese com antitese dá sintese.

“Entre nós e as palavras, os emparedados
e entre nós e as palavras, o nosso dever falar” – Mário Cesariny

terça-feira, janeiro 15, 2008

O negócio dos tempos livres - 04-01-2008



No suplemento do jornal Expresso dedicado ao Emprego, saiu uma reportagem sobre uma empresa criada, juntamente com o seu sócio Raúl, por uma amiga: a Silvia.


Aqui fica para todos a história de uma empresa de encantar: A Espalha Ideias.

"Por Maribela Freitas
Raul Correia e Sílvia Gomes são dois jovens que há seis anos arriscaram na criação de um negócio próprio. Com formação na área do desporto e da gestão de recursos humanos, verificaram que existia uma necessidade no mercado de empresas que organizassem serviços de actividades de tempos livres e avançaram com a criação da Espalha Ideias.

“Desde 2001, quando arrancámos com a empresa que nos posicionámos para preencher uma lacuna que verificámos existir no mercado”, explica Raul Correia. Nessa altura, muitas das actividades de tempos livres eram organizadas de forma pouco profissional, escasseando a sua qualidade. Foi assim que os dois jovens amigos, então com 27 anos, criaram a Espalha Ideias, vocacionada para a gestão de tempos livres.

Mas a ideia de criar esta empresa partiu de um convite feito a Sílvia Gomes. Licenciada em desporto e professora de educação física, a empreendedora foi convidada para coordenar o ATL de uma escola onde leccionava. É que, este serviço era na altura gerido directamente em muitas escolas por associações de pais. “Como eram muitas crianças, convidei o Raul para me auxiliar. Fizemos a coordenação em conjunto e depressa nos apercebemos que havia aqui uma oportunidade de negócio”, conta Sílvia Gomes. Com a experiência de ensino da Sílvia e a prática de organizar colónias de férias de Raul, estavam perante dois «skills» importantes para o que se propunham fazer. Deitaram mãos à obra e começaram a prestar um serviço de ocupação de tempos livres e férias, às associações de pais.

Ao fim de algum tempo a trabalhar nesta área, Sílvia e Raul aperceberam-se que este modelo de gestão dos ATL iria ficar ultrapassado em breve. “Começámos a ter a percepção de que o futuro destas actividades iria passar pela municipalização e em 2004 iniciámos o contacto com as autarquias nesse sentido”, relembra Raul Correia. Neste aspecto foram visionários porque pouco tempo depois, com a entrada de um novo executivo em 2005, deu-se início à organização das actividades de enriquecimento curricular nas escolas de primeiro ciclo pelos municípios. “Foi um ano de viragem”, salientam os empreendedores. Um ano antes a própria Espalha Ideias tinha já começado a prestar este serviço. Os empreendedores adaptaram-se às novas realidades e hoje é só este serviço que prestam, estando a trabalhar com cinco autarquias, num total de 100 escolas, em todo o país. Actualmente são contratados directamente pelo promotor das actividades de enriquecimento curricular, para as desenvolver.

Ao longo destes anos de trabalho, as Espalha Ideias cresceu o que fez com que estes amigos tivessem de tomar algumas decisões profissionais. “Tive um grande obstáculo a romper. Dava aulas e ao fim de dois anos na empresa e com o seu crescimento, apercebi-me de que se queria que ela crescesse mais, tinha de me dedicar a tempo inteiro”, conta Sílvia Gomes. Já Raul Correia deixou para trás o seu trabalho na área do teatro e estudo de música jazz, actividades que desenvolvia com regularidade, apesar de licenciado em gestão de recursos humanos.

Contudo, estas não foram as únicas dificuldades dos dois amigos. A própria concepção do projecto inicial era inovadora e a obtenção de licenças foi complicada. “Não havia modelos de empresas como esta e só há três anos é que começou a surgir alguma legislação mais específica para esta área”, comenta Raul Correia.

Depois, o financiamento para a sua concretização teve de ser de fundos próprios. “Os bancos só emprestam dinheiro a quem já o tem e na minha opinião, não há cultura de investimento em capital de risco”, frisa Sílvia Gomes.

Quanto a postos de trabalho e além dos ocupados pelos sócios, a Espalha Ideias trabalha com uma média de 270 pessoas. “Nunca pensei que o negócio fosse desembocar numa coisa tão grande e penso que esta é uma área de trabalho para o futuro”, conta Raul Correia. Por isso mesmo, estes empreendedores não querem ficar por aqui e têm planos para os próximos anos, que não revelam.

No mundo atribulado dos negócios, a chave para vencer é, na opinião de Sílvia Gomes “saber bem o que se quer, ter vontade de fazer as coisas bem feitas, ser perseverante e gostar do que se executa”. Já Raul Correia aponta “a inovação, fazer contas e prever cenários, ter vontade de arriscar e olhar para a frente”, como imprescindível para se singrar num negócio."
Parabéns Silvia e Raúl.

quinta-feira, dezembro 20, 2007

Curioso artigo de 1901 sobre os Hotéis Portugueses



Cheapness of Portuguese Hotels, by C. Edwardes, in: Chambers's Journal - Sixth Series - Vol. IV. - Nº 202 - Oct. 12 1901 - W. & R. Chambers, Limited - London and Edinburgh


(Primeira Parte)


Portuguese hotels are interesting for the sake of the company one meets only in such cities as Lisbon, Oporto, and Coimbra. Elsewhere, and especially far from the railway, they appeal to the stranger for the very varied nature of their entertainment and the complete and constant amiability of the landlord or landlady. Alike in the towns and the country, they astonish by their cheapness; but in this particular it is the foreigner from a country the finances of which are in good condition who has best cause to congratulate himself. The native Portuguese has no gold to exchange into the national currency at a gain of 60 or 70 per cent. His income, such as it is, is paid in the State paper. An Englishman may, if he likes, receive the equivalent of a single sovereign in no fewer than eighty bank-notes of one hundred reis each. If he is wise he will prefer the golden quality in his pocket, changing his pound-pieces only when he must. He may feel confident that, in whatever part of the beautiful land he finds himself, there will be no difficulty in passing his gold.

In the city hotels of Portugal the prevailing characteristics are Spanish waiters from Galicia, a lavish table, weird and disturbing noises in the corridors at night, and a resident population of Brazilian guests. The cheapness, also, is a matter of course. You will be quite extravagant if your bill comes to five shillings a day. For the half of that you may easily get board and lodging in reputable houses, with two meals daily so charged with courses that the Anglo-Saxon conscience might well be shocked by the reflection that it is nothing less than robbery to eat more than half the menu. But it is not the fault of the Gallego waiters if you do not slight your conscience's promptings in this matter. Their seducing whispers and smiles in praise of the olla podrida, the matchless forest-fed veal, and the ingenious puddings of Portugal are enough to turn the scale in favour of appetite at the expense of conscience. When a Portuguese himself condescends to turn waiter, he conceives an instant heen loathing for his unassuming rivals from the North. "They know nothing, they learn nothing, and they work for next to nothing", was the sentence passed upon them for my information in one Portuguese house; but i knew better than to believe so splenetic a libel. The Gallego is industrious and thrifty; the fact that he carries his savings from Portugal into Spain is alone sufficient to explain why he is reviled in Portugal.

It is the fashion for Portuguese clocks to strike the hour twice over. Heaven only knows why, for certainly the people are not so keen about the profitable use of their time that they require to be reminded thus of its flight. The habit is apt to be irritating, especially in the night, when your bed (like enough a straw mattress and a bran pillow) chances to be near one of these monsters which dings its four-and-twenty strokes at midnight, with a pause between the dozens which merely stimulates expectation. If there are five clocks in the establishment, all with sonorous works (and the supposition is reasonable), they will of course differ widely, so that twenty-four may be striking, with intervals, during a maddening half-hour. You may happen to want to know badly which of the monsters is the least mendacious, and the bells at your bed-head communicate with two servents, one a Gallego and the other a Portuguese. In such a case ring for despised stranger without hesitation. He will be with you in a minute, fresh and smiling, though half-naked, and if he distrusts his own judgment about the clocks he will not mind saying so, and hasten to awake the landlord himself rather than that you should remain in doubt. I regret to add that his more conceited fellow-servent will more probably say whatever first comes to his tongue, more heedful of his own comfort than of your desires. Thus is the installation of the Gallego waiter in Portugal justified as that of the German-Swiss with us." - Continua

quarta-feira, novembro 28, 2007

11 ANOS DE WILLIAM SHAKESPEARE


No passado dia 24 de Novembro de 2007 a peça de teatro As Obras Completas de William Shakespeare em 97 minutos - (The Complete Works Of William Shakespeare - Abridged) de Daniel Singer, Adam Long, Jess Borgeson - comemorou o seu 11º ano (consecutivos) em cena.
Para os mais distraídos, isto é notícia. É inédito, em Portugal. É, acima de tudo, uma vitória da Companhia Teatral do Chiado e da própria comédia (considerada como uma género menor em Portugal; a provar isto mesmo está a afirmação do encenador João Lourenço, no dia 24 de Outubro de 2006 no Teatro Nacional D. Maria II: "A palavra Comédia, a mim, provoca-me arrepios."

Estreou a 24 de Novembro de 1996, em Portimão. Desde então, com casas sempre cheias (esgotadas mesmo) tem percorrido o país, contabilizando já cerca de 136 digressões e 1.141 representações até à data. Número total de espectadores: 175.993.

Nestes onze anos, o espectáculo contou já com 5 elencos (4 vá, porque o quinto voltou ao original – fechar do ciclo?!). Foram eles:

1º elenco (1996 - 1999): João Carracedo, Manuel Mendes e Simão Rubim;
2º elenco (1999 - 2000): João Carracedo, Simão Rubim e Vitor d´Andrade;
3º elenco (2000 - 2001): João Carracedo, Pedro Tavares e Simão Rubim;
4º elenco (2001 - 2002): Carlos Pereira, Miguel Fonseca e Simão Rubim;
5º elenco (2002 - até hoje): João Carracedo, Manuel Mendes e Simão Rubim

Muitos questionam-se qual a razão que leva uma peça de teatro, em Portugal, ter esta longevidade.

Juvenal Garcês, encenador, director e co-fundador da Companhia Teatral do Chiado, adianta que o segredo está no próprio Shakespeare.

É verdade. Mas há muito mais (como ele próprio reconhece).

Há o excelente elenco. Três actores de uma energia contagiante, com óptimos registos de comédia, sempre prontos a desafiar o público e o seu próprio papel e texto.

Há o texto. Uma súmula cómicamente séria que revisita todas as obras do dramaturgo inglês (que é para os que não sabem, o Gil Vicente dos ingleses), incluindo os sonetos.

Há o cenário. Duas entradas encimadas pelo nome TEATRO DO GLOBO, com muitas estrelinhas. Simples e altamente eficaz.

Há os adereços. Muitas cabeleiras, espadas, coroas, corpos e decapitados, ratinhos, taças, fantasmas e iguarias do melhor (a melhor cabeça de empadão humano).

Há a música. De época no início, passando por um rap e uns falsetes de uma rapariga doida que não pára de andar aos saltos.

Há o público. Participativo, voluntarioso e sempre pronto a ajudar o amigo a subir ao palco.

Mas há acima de tudo o respeito e o gosto genuíno pelo teatro, apanágio da Companhia Teatral do Chiado, do seu director e restante staff (actores, bilheteira, técnicos, contra-regras, produtores, tradutores...).

Neste texto não posso, contudo, deixar umas linhas particulares a Simão Rubim. A levar este barco durante 11 anos sem nunca se afundar, brindando-nos no final de cada actuação com uma outra actuação. Desta feita apenas dele. Só em palco, uma peça dentro do final da peça. Mais de meia hora de uma genial improvisação, de um discurso agitador para realidades actuais diversas, de puro entretenimento que só um brilhante actor seria capaz de o idealizar e ousar realizar. E é aqui que me comovo sempre. Não pela amizade que por ele tenho (que é inesgotável) mas porque naqueles poucos mais de 30 minutos me apercebo do verdadeiro sentido do teatro, da extraordinária morfina que as tábuas de um palco são. É ali que eu imagino Mário Viegas e Juvenal Garcês, lado a lado, a rir do amigo e do verdadeiro sentido da vida.

Não desejo mais onze anos de Shakespeare mas, pelo menos, mais onze séculos de Teatro.

domingo, novembro 25, 2007

Simone de Oliveira no Teatro da Malaposta



No ano em que comemora os 50 anos de carreira, e a poucos meses de completar 70 anos de vida, Simone de Oliveira brindou-nos com mais um concerto, revisitando os grandes êxitos da sua longa carreira e partilhando diversas (e divertidas) histórias passadas no mundo do espectáculo em Portugal.

Apenas acompanhada pelo piano (EXCEPCIONAL) de Nuno Feist, pelo palco desfilaram grandes temas como Tango Ribeirinho, Esta Palavra Saudade, Visita de Camarim, Desfolhada à Portuguesa, No Teu Poema, No País do Eça de Queirós e o sempre aguardado (por mim) A Noite e a Rosa, entre outros.

Detentora de uma voz grave mas bela, Simone de Oliveira está exímia na arte de interpretação dos temas que canta e possuí uma admirável e fascinante sensualidade em palco. A comoção de quem vê Simone em palco é incontrolável e só lá, nas "tábuas" do Palco, na força das palavras que canta, nos gestos com que encena a sua interpretação musical se percebe a genialidade e a veracidade das suas actuações e a razão de ser de uma carreira longa e merecida.

E Simone é uma comunicadora por excelência. Por diversas vezes levou a plateia cheia do Teatro da Malaposta às gargalhadas e, consequentemente, às palmas. Houve interacção saudável entre Simone e o seu público, ou o espectáculo não se chamasse "Intimidades".

Entre cada actuação uma ou outra história do persurso artístico de Simone, sempre recordando os grandes nomes de referência da sua vida. Varela Silva, José Carlos Ary dos Santos, Armando Cortês e Nicolau Breyner foram alguns dos amigos referidos.

Resumindo, o concerto da noite passada no Teatro da Malaposta serviu para mostrar que Simone de Oliveira está bem e recomenda-se (muito). Considero um privilégio ainda poder assistir e emocionar-me com um nome maior da música e do espectáculo em Portugal. Simone de Oliveira - a quem o tema da morte foi sendo recorrentemente falado ao longo do espectáculo - garante que ainda tem muito para dar e não mostra - felizmente - sinais de abrandamento. A comprovar isto mesmo estão as diversas digressões agendadas para o seu espectáculo "Conversas de Camarim", com Victor de Sousa, a rodagem da telenovela Vila Faia e - ATENÇÃO ATENÇÃO (rufo de tambor)... o espectáculo comemorativo dos 50 ANOS DE CARREIRA NO COLISEU DE LISBOA NO DIA 25 DE FEVEREIRO DE 2008.

A Simone de Oliveira só me resta dizer um MUITO OBRIGADO por mais uma inesquecível noite que me proporcionou, por partilhar a sua música, os seus poetas (aí a Noite e a Rosa...) e as suas histórias.

quinta-feira, novembro 15, 2007

A Bíblia - Toda a Palavra de Deus (Sintetizada)

A Bíblia – Toda a Palavra de Deus (Sintetizada), é a mais recente produção teatral do Teatro-Estúdio Mário Viegas, com encenação, uma vez mais, de Juvenal Garcês. A interpretação está a cabo de João Craveiro, Tobias Monteiro (ambos presentes também na peça As Vampiras Lésbicas de Sodoma, em cena aos Domingos, pelas 21 horas) e Paulo Duarte Ribeiro.
A tradução ficou a cabo de Célia Mendes (tradutora, entre outras, das Obras Completas de William Shakespeare em 97 minutos, em cena há 11 anos, e que pode ser (re)vista Segundas e Terças às 21 horas) e os figurinos estiveram a cabo de Ana Brum.

Os autores? Os mesmos das Obras Completas de William Shakespeare em 97 minutos.

Mais uma vez a Companhia Teatral do Chiado mostrou que é mestre na arte da comédia em Portugal (que outro teatro em Portugal tem, simultaneamente, três peças em cena e todas comédias?), perpetuando assim o espírito e, arrisco-me a dizê-lo, a vontade de Mário Viegas.

Espectáculo em dois actos, onde no primeiro desfilam - num ritmo alucinante e muito muito musical - os principais acontecimento do Antigo Testamento e, no segundo acto, os do Novo Testamento.

Juvenal Garcês poderia ter caído em banalidades de graças fáceis e ofensivas na concepção do espectáculo. Mas o que se nos depara é o contrário. Um humor altamente inteligente, subtil, que tem por trás um trabalho de leitura, pesquisa e discussão de alguns dos mais importantes episódios bíblicos... sempre com muita, mas mesmo muita graça.

Os três actores (que têm também um outro espectáculo, que esteve já em cena no Teatro-Estúdio Mário Viegas – Lost In Space (Perdidos no Espaço)) compõem um só corpo (uma Santíssima Trindade que resulta numa unidade perfeita) em palco. Estão os três numa perfeita sintonia quer em talento de representação, quer no à-vontade da improvisação ou na estruturação das graças, que nos deixam num estado de Graça total.

De entre todos os episódios apresentados durante o espectáculo, saliento – mas é discutível – o Rei Mago e a Maria de João Craveiro (Eu gosto mesmo é de rir... gosto de rir...), o Anjinho Gabriel (ou Gabi para os amigos) - com as suas asas hand-made pela Joana de Vasconcellos - e a Rainha Tia de Paulo Duarte Ribeiro, o Jesus e o Abrão de Tobias Monteiro.

A cena do David e Golias é algo de GENIAL.

De quando em quando uma notável selecção musical acompanha o espectáculo, onde os próprios actores entoam temas bíblicos (grande voz a de Paulo Duarte Ribeiro... a imitação da Cátia Moita é extraordinária) e onde podemos deleitar-nos auditivamente com as composições melodiosas escritas e tocadas por João Craveiro num órgão.

A última palavra deve ir para Ana Brum que construiu todo um corpo de adereços e figurinos divertidíssimos e que resultam na perfeição. O que são aquelas roupas dos Reis Magos???!!! Muito bom.
A Árvore da Vida (ou do Conhecimento) é figura central e permanente ao longo da peça. A Ana Brum a sua criadora.

Resumindo, se quer um espectáculo excitante como a Eva, imprevisível como o Adão e desconcertante como a Serpente, tem de ver A BÍBLIA – TODA A PALAVRA DE DEUS (SINTETIZADA). Três horas de humor puro e duro, inteligente e incisivo. Três horas de muita e boa música. Três horas em que Deus e o Diabo sentam-se lado a lado e riem... muito... porque eles gostam mesmo é de rir... é como eu.... gosto de rir.

E vocês sabiam que um dia podem ser pombos mas no outro dia podem ser estátua? Reflictam.

Ah... há interacção com o público.

Parabéns CTC, João, Tobias e Paulo, Juvenal, Ana, Marta (o João), técnicos, Célia e todos os Santos e Santas.

Amén... ou à Mãe...


A Bíblia – Toda a Palavra de Deus (Sintetizada) – Teatro-Estúdio Mário Viegas – de Quinta a Sábado, 21 horas.