segunda-feira, agosto 27, 2007

E COMO TODOS OS DIAS MATAMOS DIANA ALEGREMENTE

Fernanda Câncio
jornalista

Nunca me contei entre as fãs de Diana de Gales. Não me tocou a história da rapariga espigadota e tímida que casou com o príncipe muitos anos mais velho e que acabaria por se divorciar, dois herdeiros e ene peripécias pouco edificantes depois. Interessou-me, no entanto, a construção do mito - que precedeu a sua morte -, a forma como contribuiu para erodir de forma irreversível a imagem da monarquia e interessou-me a sua complexa relação com os media.

E, sobretudo, interessou-me a tragédia. Uma tragédia que parecia ter sido anunciada, de tão exacta no simbolismo. Lembro-me da manhã em que acordei para a notícia, de como estranhamente me comoveu, a mim que não sentia nada por Diana, de como me pareceu mentira de tão caricatural. Lembro-me também da longa discussão que se seguiu, ao longo de meses, sobre o papel dos media na morte de uma das suas maiores estrelas, das propostas, no Reino Unido, de um "código de conduta", dos protestos de que nada nunca mais seria igual, que nunca mais se perseguiria ou exploraria de modo tão cruel a imagem ou a vida privada de alguém.

Dez anos depois, aquilo que nos parecia, de Portugal, uma realidade distante e estrangeira - a proliferação do cor-de-rosa, a tabloidização de toda a informação - chegou em todo o seu esplendor. O "acordo de cavalheiros" que foi prometido no pós-Diana, a ideia piedosa da auto-regulação, o primado do bom senso e do respeito pelas pessoas, onde é que isso vai. O caso Maddie - que não por acaso foi comparado, no Reino Unido, em impacto e adesão popular, ao de Diana -, demonstra, caso houvesse dúvidas, a obscenidade da noção prevalecente do que faz sentido publicar. Durante meses, assistimos, nos media britânicos e portugueses, a uma histeria que, incrivelmente, subsiste. Todos os dias saem "notícias" contraditórias e infundamentadas que mais não são que palpites: o sangue é dela, não é dela, é de um homem, "afinal não se sabe". Ela morreu, foi raptada, foi drogada, houve um acidente, os pais estão inocentes, os pais estão metidos na marosca, o Murat é um malandro, o Murat é uma vítima, a PJ é óptima, a PJ não presta para nada. Anunciam-se "buscas" antes de ocorrerem, "prováveis detenções" que não acontecem, fritam-se hoje os mártires/heróis de ontem e vice-versa. Uma alegria. Interessa lá que estejam a decorrer investigações, interessa lá que esteja em causa uma criança de 4 anos, interessa lá que a publicação de tanta falsidade evidencie o quão afastados os media andam da sua suposta missão de informar e esclarecer, interessa lá que haja gente inocente a ser enxovalhada e perseguida, interessa lá que se destruam vidas. Não, nunca saímos do túnel de Alma. Ainda lá estamos, pé no acelerador, atrás de Diana, sempre com a bela desculpa de que se não formos nós, outros serão. Porque elas, as Dianas, "vendem". E toda a gente compra.
Diário de Notícias - 24/08/07

O Melhor de "Bandeira"










sábado, agosto 11, 2007

Promoção às três Comédias da Companhia Teatral do Chiado em cena no Teatro-Estúdio Mário Viegas - CTT - CHIADO

A Próxima Grande Produção da Companhia Teatral do Chiado


A Bíblia: Toda a Palavra de Deus (Sintetizada)

(The Bible: The Complete Word of God (abridged))
de Reed Martin, Austin Tichenor, Adam Long (os mesmos do ENORME êxito As Obras Completas de William Shakespeare em 97 Minutos, em cena há 12 anos na Companhia Teatral do Chiado)

A Bíblia: Toda a Palavra de Deus (sintetizada) - eis o título da nova produção da Companhia Teatral do Chiado, um espectáculo de comédia hilariante, dirigido e encenado por Juvenal Garcês, que promete pôr todos os portugueses a rir a bandeiras despregadas. Da autoria de Adam Long, Reed Martin e Austin Tichenor, este espectáculo resulta duma leitura muito particular dos textos da Bíblia e apresenta uma versão condensada dos principais episódios narrados nos livros bíblicos, do Génesis ao Apocalipse. Sem nunca perderem o humor, João Craveiro, Paulo Duarte Ribeiro e Tobias Monteiro encarnam, numa velocidade de cortar a respiração, as cenas mais emblemáticas da Bíblia, da criação do Homem ao sacrifício de Isaac por Abraão, do dilúvio e da Arca de Noé aos milagres de Jesus Cristo, passando pelo duelo entre David e Golias, Moisés e as Tábuas dos Mandamentos e a viagem dos Reis Magos, entre muitos outros.

De uma irreverência e comicidade inigualáveis, num estilo a que Juvenal Garcês e a Companhia Teatral do Chiado vêm habituando desde há muito o seu público, este espectáculo oferece uma reflexão condimentada de muito humor sobre algumas das questões suscitadas pelos textos sagrados e pelo Cristianismo, desmistificando sem desrespeitar, parodiando sem satirizar. Este espectáculo pede do público o que o teórico da comédia Neil Schaeffer descreve como uma suspensão das regras segundo as quais vivemos: as leis da natureza, as restrições da moralidade, o pensamento lógico, as exigências da racionalidade. O que A Bíblia (sintetizada) pede, à semelhança aliás do êxito As Obras Completas de William Shakespeare em 97 Minutos, da mesma equipa de autores, é, pois, uma suspensão da seriedade e uma entrega sem pudores ao discurso humorístico da obra, à genialidade da encenação e à irrepreensível qualidade das interpretações.

Interpretação: João Craveiro, Paulo Duarte Ribeiro, Tobias Monteiro
Encenação: Juvenal Garcês
Tradução: Célia Mendes, Patrícia Marques
Dramaturgia: João Craveiro, Juvenal Garcês, Paulo Duarte Ribeiro, Tobias Monteiro
Cenografia: Ana Brum
Figurinos: Ana Brum
Música: João Craveiro, Paulo Duarte Ribeiro
Desenho de Luz: Vasco Letria
Desenho de Som: Sérgio Silva
Adereços: Ana Brum
Contra-Regra: Ana Brum, Bruno Monteiro
Produção: Companhia Teatral do Chiado
Direcção de Produção: Luís Macedo
Marketing e Comunicação: Nuno Santos
Frente de Casa: Bruno Monteiro
Responsável de Bilheteira: Bruno Monteiro
Bilheteira: Cátia João, Mafalda Melo
Página na Internet da CTC: Bruno Monteiro

Local: Teatro-Estúdio Mário Viegas
Em cena a partir de 2007-09-20
Horário: Quintas, Sextas e Sábados, às 21h

Classificação: M/12

Uma comédia de bradar aos céus!!! Bilhetes já à venda!!!

BLOG: http://www.abibliasintetizada.blogspot.com/

quinta-feira, agosto 09, 2007

Cartão de Aniversário enviado pela minha Avó.


"Querido Zé:
É nêste super-pimba cartão que te venho enviar um grande beijo de parabéns e os meus votos sinceros de muita saúde, felicidades e de tudo o que a vida tem de bom.
Vai essa notita para lhe dares o rumo que entenderes... e não vais muito longe! - Nós por cá estamos nesta santa monotonia, apropriada para a minha provecta idade e para o temperamento algo idoso do tio João.
Antes de almoço há um agradável encontro no café. Está o Luiz Cesár e o seu "escritório" ou seja, todos os jornais do dia, papeis, esferográficas e... longe da Sôtera e das confusões do Hotel! Aparece a tua mãe, a Conceição (do Luiz Carvalhas), a Guida, etc. À tarde, está calor e ficamos em casa. Leio 3 livros ao mesmo tempo. Levanto-me cêdo e venho ler a Divina Comédia - o Inferno de Dante. É terrível e morro de medo. À tarde, para amenisar, leio as Cartas de Inglaterra do Eça e à noite não dispenso um policial. Assim se vai passando o tempo.
Armados em turistas fomos passar um dia a Viseu para vermos o Museu depois das obras, fomos passar o outro dia a Aveiro para vermos (revermos) o túmulo de Sta. Joana, a Sé, etc, e acabou a excursão a três (o João, eu e o taxista) num bom almoço na Costa Nova. Enfim, vai-se vivendo menos mal!
Que trapalhada de escrita!
Mais um afectuoso beijo da avó muito amiga
Maria Eduarda
Sta. Cruz 9-8-07"

terça-feira, julho 31, 2007

Michelangelo Antonioni




Michelangelo Antonioni morreu aos 94 anos
O cineasta italiano Michelangelo Antonioni morreu segunda-feira na sua casa de Roma, aos 94 anos, disse hoje fonte familiar à agência Ansa

O realizador faleceu «tranquilamente, na sua poltrona, tendo ao seu lado a mulher, Enrica Fico», referiu a fonte à agência noticiosa italiana Ansa.

O corpo estará quarta-feira em câmara ardente na Câmara Municipal de Roma, estando o funeral marcado quinta-feira em Ferrara, no norte de Itália, onde o realizador nasceu em 29 de Setembro de 1912.

«Com Antonioni morre não só um dos maiores realizadores, mas também um mestre da modernidade», declarou hoje o presidente da câmara de Roma, Walter Veltroni, num comunicado.

Cineasta da incomunicabilidade ou da dificuldade de viver e amar, dirigiu duas dezenas de filmes, entre os quais Escândalo de Amor (1950) e O Grito (1957), a trilogia constituída por A Aventura (1960), A Noite (1961) e O Eclipse (1962), e ainda O Grito (1957), O Deserto Vermelho (1964), Blow-up (1966), ou Identificação de uma Mulher (1982).

Consagrado internacionalmente, ganhou o Leão de Ouro da Bienal de Veneza em 1964, com O Deserto Vermelho, a Palma de Ouro do Festival de Cannes em 1967 com Blow-up, o Prémio Especial do Júri de Cannes com Identificação de uma Mulher em 1982, um Óscar de Hollywood pelo conjunto da sua carreira em 1955 e também um Leão de Ouro pela carreira em Veneza, em 1997.

Tinha dificuldade em deslocar-se e em falar devido a um acidente vascular cerebral que sofreu em 1985.
Fonte: Sol.pt

segunda-feira, julho 30, 2007

INGMAR BERGMAN - 1918 - 2007


Morreu Ingmar Bergman
Cineasta sueco tinha 89 anos
O realizador de cinema Ingmar Bergman morreu aos 89 anos em sua casa, na ilha sueca de Faarö (Gotland), anunciou hoje a filha Eva Bergman à agência sueca TT.

Ingmar Bergman morreu "calma e pacificamente" anunciou Eva Bergman, sem no entanto precisar as causas exactas da sua morte nem a data.

Segundo o jornal sueco Dagens Nyeter, o cineasta morreu hoje de manhã, por volta das 7h00 (6h00 em Lisboa). Corriam há vários meses rumores persistentes sobre a degradação do seu estado de saúde.

Homem do cinema e do teatro

Nascido a 14 de Julho de 1918 em Uppsala, a norte de Estocolmo, Ingmar Bergman realizou ao longo da sua extensa carreira mais de 40 filmes, entre os quais se destacam "Um Verão de Amor" (1951), "O Sétimo Selo" (1957), "Morangos Silvestres" (1957), "Em Busca da Verdade" (1961), "Lágrimas e Suspiros" (1972) "Sonata de Outono" (1978) "Fanny e Alexander" (1982) ou "Saraband" (2003).

Além da sua obra cinematográfica, Bergman foi durante toda a vida um homem de teatro, tendo encenado numerosas peças, nomeadamente as do seu ídolo de juventude, August Strindberg.

A sua carreira começou no teatro nos anos 40 com um estágio de encenação na Ópera de Estocolmo e em 1960 foi contratado como encenador pelo prestigiado Dramaten, o Teatro real de arte dramática.

Foi no entanto o cinema o seu meio de expressão de eleição. "Fazer filmes é para mim um instinto, uma necessidade como comer, beber ou amar", declarou em 1945.

Em 1955 alcançou o seu primeiro êxito internacional com a comédia "Sorrisos de uma noite de Verão", mas a partir do final dessa década os seus filmes tornaram-se cada vez mais sombrios, mostrando casais em crise ou seres amargurados pela ausência de Deus.

Cineasta das mulheres, como alguns o consideravam, proporcionará os seus mais belos papéis a actrizes como Maj Britt Nilsson, Harriet Andersson, Eva Dahlbeck, Ulla Jacobsson e Liv Ullmann. Teve aventuras amorosas com várias das suas actrizes, casou-se cinco vezes e teve nove filhos.

Tratado durante muito tempo com indiferença na Suécia, só muito recentemente foi reconhecido como um grande mestre do cinema no seu país, sendo agora atribuído um Prémio Bergman aos jovens talentos do cinema durante a cerimónia sueca equivalente aos Óscares.

Na opinião de Woody Allen, Bergman era "provavelmente o maior artista do cinema desde a invenção da máquina de filmar".
Fonte: SIC

sábado, julho 21, 2007

Alegria dos 30 anos

(Início)
(Meio)


Cá estou eu. Faltam 20 dias para festejar os meus 30 anos de existência. Discreta presença. Frustrada sobrevivência.

Nada do que idealizei para a minha terceira dezena de vida se concretizou.

Continuo a viver em casa dos pais. Cómodo... mas triste, quase humilhante. A minha mãe sempre disse que nunca quereria um filho a viver em casa parental depois de os mesmos completarem 30 anos. Era malinha à porta de casa e OUT. Ora, eu sou o 4º filho de 6 (daí este discurso supostamente cruel de uma mãe). Já sairam os 3 mais velhos antes da trintena e a 5ª filha sairá também antes de a completar. Quanto a mim, sempre pensei que abandonaria o conforto uterino (metaforicamente falando) a tempo. Imaginei-me a viver em muitos sítios bonitos, de aspecto saudável, integro... E agora?! Agora, até pensões no Martim Moniz me passam pela cabeça.

Chego aos 30 sem uma relação amorosa. Costuma-se dizer que "mais vale só que mal acompanhado". Não é pelo meu ódio aos ditos populares, sempre cheios de uma sabedoria saloia (tão útil quanto os escritos da Paula Bobone, as amarguradas recordações de infância de uma Filomena Mónica ou as experiências - de qualquer ordem - de Margarida Villa Nova com os aborígenes australianos), que refuto a veracidade de tal ensinamento "à la" Zé Povinho. Afinal o que me resta? Abraçar a minha almofada que tão achatada está dos 30 anos que já leva a apoiar a minha cabeça, noite após noite, dia após dia (isto ao Domingo, claro!)? E por falar nisso, ver se peço à minha mãe que a torne a encher de penas ou esponja... quem sabe se assim não dura mais uns 30 anos.

E porque amar é viver, e viver sem amar é coisa que não consigo, lá tenho que vasculhar na minha parte cardiaca uma réstia de um amor não realizado ou passado, para assim me puder lamentar da minha pouca sorte e arranjar um álibi para andar tísico pelas ruas até que apareça uma nova paixão que me distraia e me faça andar tontinho por aí, de sorriso nos lábios e triunfo no olhar.

Ponto da situação: Vive ainda em casa dos pais e não tem relação.

Relativamente ao trabalho gosto do que faço, o que já não é mau. De qualquer forma não me importava de mudar para algo diferente. O problema é chegar aos 10+10+10 anos a passar recibos verdes - que dão uma trabalheira imensa -, a descontar 150 euros de segurança social que, convenhamos, de seguro tem pouco e de social quase nada, dar ao Estado 200 euros mensais e ainda por cima não ter férias para aí há uns 3 anos (no mínimo)... já não tenho idade.

Bem feitas as contas, estou a meio caminho da minha morte, se ela não me vier ceifar mais cedo. Reconheco que estou a meio do meu trajecto para a "final curtain" por culpa minha... fumo muito, desporto nem vê-lo, vivam os doces com muito açucar e a almoçar muitas vezes no refeitório da Biblioteca Nacional, saúde é que coisa que não posso ter por muito mais tempo. Provavelmente trata-se de um suicidio lento e inconsciente (ou talvez não) que estou a cometer na ânsia de abreviar tudo isto. De qualquer forma, suicida ou kamikaze, é muito deprimente que se chegue a meio da vida (segundo os meus cálculos) a dormir em casa dos pais, sem um namoro ou perspectivas de o ter e a passar recibos verdes.

Do ponto de vista estético não tenho nada a apontar. As rugas para já não me incomodam, os cabelos brancos já são mais que muitos e até muito bem-vindos. Não é pelo charme que supostamente trazem os cabelos brancos que o digo. É sim pelo desespero que tenho de ser levado a sério por alguém, seja na rua ou lojas, seja no emprego, em casa ou na Mexicana.

Pergunta: De tudo isto, o que me valem os 15 anos a multiplicar por 2 que vou fazer?

Resposta: Valem muito.

Valem a família que tenho e as amizades que fiz; valem os livros que li, as músicas que ouvi, os espectáculos que já vi; valem por tudo aquilo que vivi e aquilo que ficou por viver; valem pelos medos, as alegrias, as desilusões e as conquistas por que passei; valem as gargalhadas, as lágrimas, os soluços e as palmas que dei; valem pelos que vi nascer, crescer ou morrer; valem cada abraço, beijo, murro ou estalo que espetei; valem cada abraço, beijo, murro ou estalo que me espetaram; valem por cada memória ou por cada esquecimento; valem muito de mim mas, mais ainda, valem tudo dos outros.

terça-feira, julho 10, 2007

Retrato de Amélia Rey Colaço na revista Arte Peninsular, Ano 1, nº 1, Janeiro de 1929

sexta-feira, julho 06, 2007

Retrato nacional do século XX executado em dois volumes



À pergunta "O que é o século XX para os portugueses?" ainda há muito para responder, mesmo que tenham passado pouco mais do que uma meia dúzia de anos sobre o virar do milénio. Para os que não o viveram, ou pelo menos não passaram por alguns momentos marcantes desse século - os mais jovens -, fica difícil fazer um relato que não seja um despreocupado sobrevoar de datas e acontecimentos. Para o outros - os mais velhos, fica a dúvida se o entenderão sem o afrodiasíaco da paixão política a enevoar essa longa cadeia de factos históricos que perduraram como causa e efeito por cem anos. Porque compreender um século em que o regime monárquico é afundado, a República é ensaiada, tem duas guerras mundiais que obrigam a correcções de rotas políticas e a mudanças dos governantes, assiste à guerra colonial, ao fim de um império ultramarino, há um ditador que exerce o poder férreo durante quatro dessas décadas, acontece uma revolução que elimina todos os brandos e habituais costumes de uma população e acaba a integrar-se como par da União Europeia...

Mas é impossível fugir de tal cenário quem vive neste rectângulo e, por isso mesmo, amiúde há quem deseje reconhecer-se em factos que marcaram a nossa história. Talvez mais do que nunca os últimos anos tenham sido proveitosos nesta colheita de obras preocupadas em estudar o passado, situação em que as editoras têm aproveitado a curiosidade dos leitores e publicado volumes que esclarecem esses cem anos. Sejam biografias, sejam investigações, sejam retratos mais aliviados de responsabili- dade científica ou histórica, seja o que for, os livros sobre o século XX surgem e podem explicá-lo.

É o caso de dois volumes do jornalista e escritor Fernando Dacosta que nos últimos meses voltaram à exposição nas livrarias, reedições que compreendem revisão e acrescento de novos documentos para explicar melhor esse referido período: Máscaras de Salazar, que saiu em 10.ª edição com um selo a informar que contém "Documentos inéditos - revelação de factos desconhecidos" e O Viúvo - Memórias do Fim do Império, numa 5.ª edição revista pelo autor. Ambos preocupam-se com essa época e explicam-na como os dois lados da mesma moeda, O Viúvo com a visão de quem sofre a força do poder, as Máscaras, a caracterização de quem o exerce. O primeiro como um romance e que tem de ser lido assim, podendo partir-se dele para outras extrapolações, mas nunca sem largar a corda de um argumento que une os capítulos de uma Lusitânia. O segundo, um relato vincado por Salazar, que tem início no fim anunciado do próprio ditador e que refaz numa amálgama de informações vindas de todos os lados da sociedade o que foi a época e o governo do homem de Santa Comba Dão.

Se n'O Viúvo temos um relato que frequentes vezes nos faz entrar num quase realismo mágico, nas Máscaras é a realidade que dele faz uma espécie de romance. O autor nega-se a fazer uma biografia tradicional, optando antes pela "recriação de uma crónica pessoal" que executa com base numa investigação iniciada há 42 anos. E aquilo que faz em ambos é oferecer essa paisagem do século XX nacional com uma amplitude que faz falta para a compreendermos.
Artigo de João Céu e Silva, Diário de Notícias, 24 de Junho de 2007