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(Meio)
Cá estou eu. Faltam 20 dias para festejar os meus 30 anos de existência. Discreta presença. Frustrada sobrevivência.
Nada do que idealizei para a minha terceira dezena de vida se concretizou.
Continuo a viver em casa dos pais. Cómodo... mas triste, quase humilhante. A minha mãe sempre disse que nunca quereria um filho a viver em casa parental depois de os mesmos completarem 30 anos. Era malinha à porta de casa e OUT. Ora, eu sou o 4º filho de 6 (daí este discurso supostamente cruel de uma mãe). Já sairam os 3 mais velhos antes da trintena e a 5ª filha sairá também antes de a completar. Quanto a mim, sempre pensei que abandonaria o conforto uterino (metaforicamente falando) a tempo. Imaginei-me a viver em muitos sítios bonitos, de aspecto saudável, integro... E agora?! Agora, até pensões no Martim Moniz me passam pela cabeça.
Chego aos 30 sem uma relação amorosa. Costuma-se dizer que "mais vale só que mal acompanhado". Não é pelo meu ódio aos ditos populares, sempre cheios de uma sabedoria saloia (tão útil quanto os escritos da Paula Bobone, as amarguradas recordações de infância de uma Filomena Mónica ou as experiências - de qualquer ordem - de Margarida Villa Nova com os aborígenes australianos), que refuto a veracidade de tal ensinamento "à la" Zé Povinho. Afinal o que me resta? Abraçar a minha almofada que tão achatada está dos 30 anos que já leva a apoiar a minha cabeça, noite após noite, dia após dia (isto ao Domingo, claro!)? E por falar nisso, ver se peço à minha mãe que a torne a encher de penas ou esponja... quem sabe se assim não dura mais uns 30 anos.
E porque amar é viver, e viver sem amar é coisa que não consigo, lá tenho que vasculhar na minha parte cardiaca uma réstia de um amor não realizado ou passado, para assim me puder lamentar da minha pouca sorte e arranjar um álibi para andar tísico pelas ruas até que apareça uma nova paixão que me distraia e me faça andar tontinho por aí, de sorriso nos lábios e triunfo no olhar.
Ponto da situação: Vive ainda em casa dos pais e não tem relação.
Relativamente ao trabalho gosto do que faço, o que já não é mau. De qualquer forma não me importava de mudar para algo diferente. O problema é chegar aos 10+10+10 anos a passar recibos verdes - que dão uma trabalheira imensa -, a descontar 150 euros de segurança social que, convenhamos, de seguro tem pouco e de social quase nada, dar ao Estado 200 euros mensais e ainda por cima não ter férias para aí há uns 3 anos (no mínimo)... já não tenho idade.
Bem feitas as contas, estou a meio caminho da minha morte, se ela não me vier ceifar mais cedo. Reconheco que estou a meio do meu trajecto para a "final curtain" por culpa minha... fumo muito, desporto nem vê-lo, vivam os doces com muito açucar e a almoçar muitas vezes no refeitório da Biblioteca Nacional, saúde é que coisa que não posso ter por muito mais tempo. Provavelmente trata-se de um suicidio lento e inconsciente (ou talvez não) que estou a cometer na ânsia de abreviar tudo isto. De qualquer forma, suicida ou kamikaze, é muito deprimente que se chegue a meio da vida (segundo os meus cálculos) a dormir em casa dos pais, sem um namoro ou perspectivas de o ter e a passar recibos verdes.
Do ponto de vista estético não tenho nada a apontar. As rugas para já não me incomodam, os cabelos brancos já são mais que muitos e até muito bem-vindos. Não é pelo charme que supostamente trazem os cabelos brancos que o digo. É sim pelo desespero que tenho de ser levado a sério por alguém, seja na rua ou lojas, seja no emprego, em casa ou na Mexicana.
Pergunta: De tudo isto, o que me valem os 15 anos a multiplicar por 2 que vou fazer?
Resposta: Valem muito.
Valem a família que tenho e as amizades que fiz; valem os livros que li, as músicas que ouvi, os espectáculos que já vi; valem por tudo aquilo que vivi e aquilo que ficou por viver; valem pelos medos, as alegrias, as desilusões e as conquistas por que passei; valem as gargalhadas, as lágrimas, os soluços e as palmas que dei; valem pelos que vi nascer, crescer ou morrer; valem cada abraço, beijo, murro ou estalo que espetei; valem cada abraço, beijo, murro ou estalo que me espetaram; valem por cada memória ou por cada esquecimento; valem muito de mim mas, mais ainda, valem tudo dos outros.