terça-feira, julho 10, 2007

Retrato de Amélia Rey Colaço na revista Arte Peninsular, Ano 1, nº 1, Janeiro de 1929

sexta-feira, julho 06, 2007

Retrato nacional do século XX executado em dois volumes



À pergunta "O que é o século XX para os portugueses?" ainda há muito para responder, mesmo que tenham passado pouco mais do que uma meia dúzia de anos sobre o virar do milénio. Para os que não o viveram, ou pelo menos não passaram por alguns momentos marcantes desse século - os mais jovens -, fica difícil fazer um relato que não seja um despreocupado sobrevoar de datas e acontecimentos. Para o outros - os mais velhos, fica a dúvida se o entenderão sem o afrodiasíaco da paixão política a enevoar essa longa cadeia de factos históricos que perduraram como causa e efeito por cem anos. Porque compreender um século em que o regime monárquico é afundado, a República é ensaiada, tem duas guerras mundiais que obrigam a correcções de rotas políticas e a mudanças dos governantes, assiste à guerra colonial, ao fim de um império ultramarino, há um ditador que exerce o poder férreo durante quatro dessas décadas, acontece uma revolução que elimina todos os brandos e habituais costumes de uma população e acaba a integrar-se como par da União Europeia...

Mas é impossível fugir de tal cenário quem vive neste rectângulo e, por isso mesmo, amiúde há quem deseje reconhecer-se em factos que marcaram a nossa história. Talvez mais do que nunca os últimos anos tenham sido proveitosos nesta colheita de obras preocupadas em estudar o passado, situação em que as editoras têm aproveitado a curiosidade dos leitores e publicado volumes que esclarecem esses cem anos. Sejam biografias, sejam investigações, sejam retratos mais aliviados de responsabili- dade científica ou histórica, seja o que for, os livros sobre o século XX surgem e podem explicá-lo.

É o caso de dois volumes do jornalista e escritor Fernando Dacosta que nos últimos meses voltaram à exposição nas livrarias, reedições que compreendem revisão e acrescento de novos documentos para explicar melhor esse referido período: Máscaras de Salazar, que saiu em 10.ª edição com um selo a informar que contém "Documentos inéditos - revelação de factos desconhecidos" e O Viúvo - Memórias do Fim do Império, numa 5.ª edição revista pelo autor. Ambos preocupam-se com essa época e explicam-na como os dois lados da mesma moeda, O Viúvo com a visão de quem sofre a força do poder, as Máscaras, a caracterização de quem o exerce. O primeiro como um romance e que tem de ser lido assim, podendo partir-se dele para outras extrapolações, mas nunca sem largar a corda de um argumento que une os capítulos de uma Lusitânia. O segundo, um relato vincado por Salazar, que tem início no fim anunciado do próprio ditador e que refaz numa amálgama de informações vindas de todos os lados da sociedade o que foi a época e o governo do homem de Santa Comba Dão.

Se n'O Viúvo temos um relato que frequentes vezes nos faz entrar num quase realismo mágico, nas Máscaras é a realidade que dele faz uma espécie de romance. O autor nega-se a fazer uma biografia tradicional, optando antes pela "recriação de uma crónica pessoal" que executa com base numa investigação iniciada há 42 anos. E aquilo que faz em ambos é oferecer essa paisagem do século XX nacional com uma amplitude que faz falta para a compreendermos.
Artigo de João Céu e Silva, Diário de Notícias, 24 de Junho de 2007

quarta-feira, julho 04, 2007

Álbum inédito de Amália editado até final do ano



Um álbum inédito de Amália Rodrigues deverá ser editado antes do final do ano. Sem especificar conteúdo e datas, José Serrão, director-geral da Som Livre, precisou à Lusa que este "álbum de inéditos" será editado com o selo Som Livre/Valentim de Carvalho (SL/VC), fruto do acordo de associação assinado pelas duas empresas em Março.

"Há ainda um outro álbum inédito de Amália e muitos temas que não conheceram a luz do dia. Como se sabe, Amália gostava de gravar, e gravou muito, por isso ainda há muitas coisas suas desconhecidas e que estão agora a ser encontradas", assinalou. Sem dar pormenores, José Serrão referiu que na calha da nova parceria SL/VC poderá estar a integral do espectáculo no Olympia de Paris, na Primavera de 1956, de que a versão editada é apenas uma parte. "Gravava-se em grandes bobinas e nem sempre sabemos tudo o que uma bobina contém. Neste momento na Valentim de Carvalho está a fazer-se a conferência das fichas de gravação de estúdio com as de produção, de modo a conhecer tudo o que há", explicou.

Existe já um disco de gravações inéditas de Amália realizadas entre 1965 e 1975, encontradas nos arquivos da VC . O álbum intitula-se Segredo e foi editado em 1997, sob o acordo que então ainda ligava a VC à EMI.

Entre os inéditos de Amália Rodrigues, falecida a 6 de Outubro de 1999, estará também o concerto da fadista na Aula Magna em 1983, aquando da actuação de António Variações, que fez a primeira parte do espectáculo. "A segunda parte do espectáculo foi preenchida por Amália Rodrigues, por quem o cantor nutria uma grande admiração e amizade, razão pela qual a editora Valentim de Carvalho enviou um estúdio móvel e gravou o espectáculo", indicou à Lusa fonte daquela.

Na opinião de José Serrão, o fundo de catálogo da VC "é ainda apetecível e guarda outras surpresas", sendo capaz de gerar "receitas interessantes", segundo estudos feitos pela Som Livre. Alfredo Marceneiro, Lucília do Carmo, António Menano e Hermínia Silva são outros nomes passíveis de ter "coisas desconhecidas e nunca editadas".

Maria Clara é outro nome referido, de quem Serrão garante que, "se não se lembrarem bem do nome, reconhecem de imediato as canções". "Vender entre 500 e 1000 discos de Maria Clara por ano é um valor interessante e deve haver discos seus disponíveis", observou.
Diário de Notícias - 04 de Julho de 2007

quarta-feira, junho 27, 2007

quarta-feira, junho 20, 2007

Dois Corpos Tombando na Água - Poesia - Alice Vieira



Alice Vieira editou este ano um pequeno livro de poesia que não hesito em proclamá-lo como a "última maravilha da literatura portuguesa".

Confesso que nunca fui leitor de Alice Vieira. Talvez um ou outro livro quando criança, mas depois separei-me dela e nunca estive atento às suas publicações.

Em Maio deste ano, Júlio Machado Vaz e Ana Mesquita dedicaram o seu programa de Domingo, na Antena 1, a este livro "Dois Corpos Tombando na Água".

Ouvi o programa e fiquei fascinado pela conversa que se desenrolou à volta do livro.

Veio a Feira do Livro. Vi o livro, comprei-o, a Alice Vieira estava lá e assinou-mo.

No dia seguinte comecei a leitura. Terminei hora depois, com a sensação de coração cheio. Nem sei se era cheio. Era dilatado de uma sensação estranha, contraditória talvez. Sei que tinha lido uma jóia, um desabafo, um diário, a vida, o Amor e o testamento de uma mulher (da própria Alice, talvez). Mas o que eu senti - e ainda sinto ao relê-lo - não sei se é tristeza e alegria pelo Belo das palavras, se medo de chegar ao fim próximo da vida sem a capacidade de consciência da percepção das sensações, dos odores, dos sabores e dos tactos do Amor. Qualquer tipo de Amor. Terei eu a oportunidade - ou a lucidez - de fazer a interrogação:
"e diz-me
o que de mim amaste noutros corpos
noutras camas noutra pele"
?
Posso assegurar que este será um dos livros mais importantes que alguma vez li e lerei. Não sairá jamais da mesinha de cabeceira (se a tivesse) e será por mim diversas vezes ofertado.
Não quero escrever mais sobre o livro. Não sei mais o que escrever. Deixo apenas um pequeno excerto... um qualquer... pois neste livro qualquer excerto é bom... há excertos que não o são... mas daqui qualquer um será.
"Pelas mãos e pelos olhos eu juro
1
são as mãos que me trazem o amor dos homens
e me largam na fronteira de todos os segredos
que repousaram em mim como no breve espaço
de uma lua fugaz
também as tuas mãos haviam de chegar um dia assim
ou pelo menos foi isso que eu pensei quando
o teu corpo tocou ao de leve a sombra das águas
que tinham corrido ao longo das noites da tua ausência
mas às vezes o destino escreve-se
com inesperados visitantes
e o nosso quarto ficou cheio de vozes mas
nenhuma nos reconhecia por dentro das suas
mais absurdas dissonâncias
e foi então que eu soube que a felicidade
era apenas um complemento
muito circunstancial e remoto de lugar onde
em que nenhum passado que nos pertencesse
faria qualquer sentido
apesar de tudo os meus dedos
ainda procuram reter o sôfrego sabor das horas que faltam
para o prometido regresso
das palavras tecidas de fresco entre a penumbra
das nossas pernas
mas houve sempre desígnios imutáveis
eclipes ravinas ou a ácida saliva das marés
ou simplesmente a ferida de quem vinha
em voz baixa reclamar o que lhe fora roubado
e os meus dedos acabavam por recuar
e as palavras com que em tempos
tinhas esperado por mim
cansaram-se
e são hoje nódoas rosadas no meu corpo
como se o meu corpo fosse um mapa
onde o teu corpo deslocou minúsculas bandeiras
em tempo de guerra

quinta-feira, junho 14, 2007

ALELUIA... ALELUIA


Estado compra espólio de discos históricos

O Estado português reuniu a verba necessária para a compra da colecção de cerca de oito mil discos históricos de música portuguesa (na sua maioria registos de fado), na posse do britânico Bruce Bastin. Quem o confirmou foi o secretário de Estado da Cultura, Mário Vieira de Carvalho, que, ontem, em declarações à Lusa, revelou que dentro de uma semana poderá a estar a acertar a minuta do contrato de compra.
O Ministério da Cultura e a Câmara de Lisboa reforçaram recentemente em cem mil euros as respectivas participações de modo a assegurar a quantia exigida. Da soma total, 300 mil euros foram assegurados por um mecenas não revelado, mas que se sabe apenas ser uma entidade bancária. Ao Ministério caberá a guarda e tratamento deste espólio. A colecção, que inclui fonogramas de 1904 a 1945, irá integrar o futuro Museu da Música e do Som.
O musicólogo Rui Viera Nery considera esta colecção como uma peça essencial para o conhecimento da história fadista, sobretudo nos primeiros tempos da gravação fonográfica. Sara Pereira, do Museu do Fado, manifestou também satisfação por uma "decisão esperada" e sublinha esta colecção como "fundamental para um melhor conhecimento da historiografia do fado".
Mariza, embaixadora da candidatura do fado a Património Imaterial da Humanidade pela UNESCO, disse à Lusa que a concretização desta compra "é um sonho tornado realidade". A fadista explica ainda que esta colecção "coloca tudo em aberto quanto às origens do fado" e acrescenta que nos vai permitir conhecer melhor como se cantava e tocava.

domingo, maio 20, 2007

Jorge de Sena


Amo-te muito, meu amor, e tanto
que, ao ter-te, amo-te mais, e mais ainda
depois de ter-te, meu amor. Não finda
com o próprio amor o amor do teu encanto.
Que encanto é o teu? Se continua enquanto
sofro a traição dos que, viscosos, prendem,
por uma paz da guerra a que se vendem,
a pura liberdade do meu canto,
um cântico da terra e do seu povo,
nesta invenção da humanidade inteira
que a cada instante há que inventar de novo,
tão quase é coisa ou sucessão que passa...
Que encanto é o teu? Deitado à tua beira,
sei que se rasga, eterno, o véu da Graça.
22/2/1954 - Jorge de Sena - As Evidências