quarta-feira, junho 27, 2007

quarta-feira, junho 20, 2007

Dois Corpos Tombando na Água - Poesia - Alice Vieira



Alice Vieira editou este ano um pequeno livro de poesia que não hesito em proclamá-lo como a "última maravilha da literatura portuguesa".

Confesso que nunca fui leitor de Alice Vieira. Talvez um ou outro livro quando criança, mas depois separei-me dela e nunca estive atento às suas publicações.

Em Maio deste ano, Júlio Machado Vaz e Ana Mesquita dedicaram o seu programa de Domingo, na Antena 1, a este livro "Dois Corpos Tombando na Água".

Ouvi o programa e fiquei fascinado pela conversa que se desenrolou à volta do livro.

Veio a Feira do Livro. Vi o livro, comprei-o, a Alice Vieira estava lá e assinou-mo.

No dia seguinte comecei a leitura. Terminei hora depois, com a sensação de coração cheio. Nem sei se era cheio. Era dilatado de uma sensação estranha, contraditória talvez. Sei que tinha lido uma jóia, um desabafo, um diário, a vida, o Amor e o testamento de uma mulher (da própria Alice, talvez). Mas o que eu senti - e ainda sinto ao relê-lo - não sei se é tristeza e alegria pelo Belo das palavras, se medo de chegar ao fim próximo da vida sem a capacidade de consciência da percepção das sensações, dos odores, dos sabores e dos tactos do Amor. Qualquer tipo de Amor. Terei eu a oportunidade - ou a lucidez - de fazer a interrogação:
"e diz-me
o que de mim amaste noutros corpos
noutras camas noutra pele"
?
Posso assegurar que este será um dos livros mais importantes que alguma vez li e lerei. Não sairá jamais da mesinha de cabeceira (se a tivesse) e será por mim diversas vezes ofertado.
Não quero escrever mais sobre o livro. Não sei mais o que escrever. Deixo apenas um pequeno excerto... um qualquer... pois neste livro qualquer excerto é bom... há excertos que não o são... mas daqui qualquer um será.
"Pelas mãos e pelos olhos eu juro
1
são as mãos que me trazem o amor dos homens
e me largam na fronteira de todos os segredos
que repousaram em mim como no breve espaço
de uma lua fugaz
também as tuas mãos haviam de chegar um dia assim
ou pelo menos foi isso que eu pensei quando
o teu corpo tocou ao de leve a sombra das águas
que tinham corrido ao longo das noites da tua ausência
mas às vezes o destino escreve-se
com inesperados visitantes
e o nosso quarto ficou cheio de vozes mas
nenhuma nos reconhecia por dentro das suas
mais absurdas dissonâncias
e foi então que eu soube que a felicidade
era apenas um complemento
muito circunstancial e remoto de lugar onde
em que nenhum passado que nos pertencesse
faria qualquer sentido
apesar de tudo os meus dedos
ainda procuram reter o sôfrego sabor das horas que faltam
para o prometido regresso
das palavras tecidas de fresco entre a penumbra
das nossas pernas
mas houve sempre desígnios imutáveis
eclipes ravinas ou a ácida saliva das marés
ou simplesmente a ferida de quem vinha
em voz baixa reclamar o que lhe fora roubado
e os meus dedos acabavam por recuar
e as palavras com que em tempos
tinhas esperado por mim
cansaram-se
e são hoje nódoas rosadas no meu corpo
como se o meu corpo fosse um mapa
onde o teu corpo deslocou minúsculas bandeiras
em tempo de guerra

quinta-feira, junho 14, 2007

ALELUIA... ALELUIA


Estado compra espólio de discos históricos

O Estado português reuniu a verba necessária para a compra da colecção de cerca de oito mil discos históricos de música portuguesa (na sua maioria registos de fado), na posse do britânico Bruce Bastin. Quem o confirmou foi o secretário de Estado da Cultura, Mário Vieira de Carvalho, que, ontem, em declarações à Lusa, revelou que dentro de uma semana poderá a estar a acertar a minuta do contrato de compra.
O Ministério da Cultura e a Câmara de Lisboa reforçaram recentemente em cem mil euros as respectivas participações de modo a assegurar a quantia exigida. Da soma total, 300 mil euros foram assegurados por um mecenas não revelado, mas que se sabe apenas ser uma entidade bancária. Ao Ministério caberá a guarda e tratamento deste espólio. A colecção, que inclui fonogramas de 1904 a 1945, irá integrar o futuro Museu da Música e do Som.
O musicólogo Rui Viera Nery considera esta colecção como uma peça essencial para o conhecimento da história fadista, sobretudo nos primeiros tempos da gravação fonográfica. Sara Pereira, do Museu do Fado, manifestou também satisfação por uma "decisão esperada" e sublinha esta colecção como "fundamental para um melhor conhecimento da historiografia do fado".
Mariza, embaixadora da candidatura do fado a Património Imaterial da Humanidade pela UNESCO, disse à Lusa que a concretização desta compra "é um sonho tornado realidade". A fadista explica ainda que esta colecção "coloca tudo em aberto quanto às origens do fado" e acrescenta que nos vai permitir conhecer melhor como se cantava e tocava.

domingo, maio 20, 2007

Jorge de Sena


Amo-te muito, meu amor, e tanto
que, ao ter-te, amo-te mais, e mais ainda
depois de ter-te, meu amor. Não finda
com o próprio amor o amor do teu encanto.
Que encanto é o teu? Se continua enquanto
sofro a traição dos que, viscosos, prendem,
por uma paz da guerra a que se vendem,
a pura liberdade do meu canto,
um cântico da terra e do seu povo,
nesta invenção da humanidade inteira
que a cada instante há que inventar de novo,
tão quase é coisa ou sucessão que passa...
Que encanto é o teu? Deitado à tua beira,
sei que se rasga, eterno, o véu da Graça.
22/2/1954 - Jorge de Sena - As Evidências

segunda-feira, maio 14, 2007

A ESPOSA IDEAL

(clique na foto para aumentá-la)

No número 80 da revista Crónica Feminina, do dia 5 de Junho de 1958 - praticamente há 50 anos - saia um inquérito para as Senhoras saberem se eram a esposa ideal. 50 anos depois, será que mudou muita coisa? As esposas querem-se da mesma maneira? Hum... não sei. Se é mulher e esposa, aceite o desafio e responda ao inquérito. Se é homem, leia-o e veja se pretende ter alguém com aquele perfil.
Eu espero que todas as mulheres chumbem este inquérito... mas é uma opinião de um não casado...

domingo, maio 13, 2007

Retrato Robot

Na quinta-feira, dez de Maio, o jornal Correio da Manhã publicou um artigo sobre as investigações da PJ em relação ao desaparecimento da menina inglesa que, por negligência ou estúpidez (ser-se britânico não é sinónimo de inteligência), ficou sozinha com os irmão - também menores - no quarto do hotel sem nenhuma vigilância de um único adulto.

Não sei se para aliviar um pouco a tensão do artigo e seu assunto, ou por estarem convencidos de que podia ser uma ajuda importantisssima para o achamento do "raptor" da menina , o Correio da Manhã publico o retrato robot do mesmo. Já sabem... olhem bem para o retrato. Se virem alguém na rua com fisionomia parecida, não se esqueca de contactar a polícia local ou a PJ. Mantenha os olhos bem atentos... toda a ajuda é necessária.


Colabore...

domingo, maio 06, 2007

Critica do jornal "El Pais" ao espectáculo de Camané - Outras Canções II

De fadista a 'crooner'
Camané, la gran voz de Portugal, hace suyos clásicos de Sinatra y Brel
MIGUEL MORA - Lisboa - 05/05/2007

Es el príncipe del fado de esta época, la gran voz masculina de Portugal. Canta desde niño, y a los 11 años sorprendió al maestro Carlos do Carmo por su dicción asombrosa y su capacidad para transmitir emociones "adultas" desde una contención que no admite concesiones. Camané (Lisboa, 1967) canta con una mano metida en el bolsillo, los ojos cerrados, cada palabra perfectamente colocada en su sitio, sin prisas, sin estridencias. Ahora, a sus 40 años, Carlos Manuel Moutinho ha elegido 21 canciones de sus maestros favoritos, y, acompañado por la Orquesta Sinfónica Portuguesa y un quinteto de jazz, los ha llevado a escena.

El espectáculo Otras canciones II ha vuelto al teatro São Luiz, de Lisboa, con el papel agotado, tras los éxitos de los cuatro conciertos del pasado fin de semana. "¿Ha salido bien? No tengo yo esa percepción". Eso decía sonriente Camané el domingo, en el camerino. Había cantado durante cerca de dos horas, con tres o cuatro propinas. Era el día del partido Benfica-Sporting; el teatro no se había llenado, pero la gente reconoció entregada la dificultad de la empresa.

El fadista lisboeta se transmuta en crooner, chansonier, canzonetista, cantante de boleros (Vete de mí) y de bossa nova. Canta en inglés, francés, italiano, español y en portugués, y en Anos dourados y Olha María saca el dulce soutaque -acento- brasilero para rendir homenaje a Chico Buarque.

La elección del repertorio habla de su buen gusto y su coraje. En inglés hace todo el repertorio clásico de Broadway. Clásicos de Bernstein y Sondheim (Somewhere), Henri Mancini (Moon River), Ray Noble (The touch of your lips), Neil Hannon (Perfect lovesong), y se atreve incluso con My funny Valentine, de Rodgers, Kurt Weil (September song), los Beatles (For no one).

En francés rescata a Charles Trenet (Que reste-t-il de nos amours), Aznavour (Lei), Gainsbourg (la estupenda Black trombone) y el final espléndido Que c'est triste Venise de Françoise Dorin y Eddie Barclay.

Cantar todo eso y no morir en el intento no está al alcance de muchos. Y cantar como canta el Ne me quitte pas de Jacques Brel, con ese respeto religioso, emocionando, reinventándolo y llevándolo a su terreno pero siendo absolutamente fiel al espíritu y la letra, eso habla de que ahí hay una estrella.

A Camané se le nota más cómodo en el francés que en el inglés. "Fue su segunda lengua en el colegio", explica su hermano mayor, Helder Moutinho. Aunque ahí se le ve más suelto (la mano en el bolsillo), su manera de pronunciar las cinco lenguas (incluido el español del Vete de mí de Virgilio y Homero Expósito y el italiano de Estate) es espectacular.

El asunto tiene además una dificultad añadida: los arreglos de Mário Laginha, Pedro Moreira (que dirige la orquesta), Filipe Melo y Bernardo Sassetti abundan en la insistencia en los violines y los remates instrumentales cuando la voz ha terminado; eso hace que muchas canciones se parezcan entre sí, lo que acaba resultando monótono. Siempre que el peso recae en la frescura del magnífico combo de jazz, el espectáculo remonta. Aunque él sigue siendo escéptico: "Espero que por lo menos el último día salga bien de verdad".

Como dice el musicólogo Rui Vieira Nery en el texto del programa, "un fadista no es sólo aquel que canta fado. Es antes que nada alguien que tiene una relación expresiva especial con los textos, una manera particularmente intensa de colocar la voz, un cierto diseño inconfundible en el lanzamiento de las frases musicales...".

La pregunta es: ¿tendrá Camané que dejar de lado el fado para ser una figura internacional? No parece... En septiembre saldrá su nuevo disco de fados castizos. La espera será larga para sus seguidores, pero, como siempre, merecerá la pena.